O túmulo fica no fundo do cemitério, perto do muro, onde o sol não bate direito. Não tem uma cruz bonita, não tem anjo de mármore. Tem uma pedra preta rachada, e em redor dela restos de vela preta, cachaça derramada e, por vezes, até sangue de galo. Dizem que quem faz o pedido nesse túmulo consegue, mas o preço, o preço é a alma.
Era uma benzedeira. Fazia a cura com erva, rezava o terço, tirava quebranto, mas também fazia o que não devia. E quem a procurou para o lado mal pagou. O mais famoso foi o seu Otávio, o homem mais rico da cidade. Dizem que ele lhe pediu para acabar com um concorrente e ela aceitou. Só que o feitiço voltou.
O senhor Otávio passou 20 anos numa cama a definhar, sem médico saber o que tinha. Quando ela morreu, ainda viveu mais 5 anos a penar. Até que no dia do seu funeral, deu o último suspiro. Os mais velhos dizem que ela levou-o consigo e o túmulo dela até hoje é visitado por quem quer o mal, por quem deseja o que não pode ter, por quem não entende que uma verdadeira benzedeira é coisa de Deus.
Essa aí, essa era coisa do outro lado. Olha, preciso de parar um segundo aqui antes de continuar a história. O YouTube desmonetizou o nosso canal e com isso perdemos o sustento desse trabalho. Não vou fazer um discurso em cima disto, só vou ser sincero. Se gosta deste conteúdo e quer ajudar a mantê-lo vivo, há como fazer isso via Pix.
Se está a assistir pela televisão, o Qcode está agora a aparecer no ecrã. É só apontar a câmara do telemóvel para ele. Quem não puder ajudar financeiramente, tudo bem. O like e o comentário já ajudam muito, porque fazem o canal aparecer a mais gente. Obrigado pela atenção de todos vós. Agora vamos voltar ao causo. O meu nome é Zé Preto.
O que vou contar hoje é a história que ouvi de boca em boca lá nas Gerais, quando eu era ainda menino e o meu avô me levava a visitar as cidades velhas de mineração. Aconteceu em Conceição do Mato Dentro, cidade antiga, encravada entre serras, cheia de encosta e de casa branca, lugar de mineração antiga, de igreja de pedra, de gente que acredita em benzedura desde o tempo dos avós.
E em cada cidade destas tem uma benzedeira. A mulher que sabe rezar, que sabe passar o terço no corpo doente, que sabe benzer com arruda e guiné, ajuda com dor de dentes e mau-olhado, espinhela caída, quebranto, inveja, até choro de criança. É respeitada, é querida, todo o mundo conhece, toda a gente recorre.
Mas a benzedeira de Conceição do Mato Dentro, essa tinha dois lados. Chamavam-lhe de dona por trás das costas chamavam-lhe ciná das trevas. Eu próprio nunca a vi. Morreu antes de eu nascer, mas o meu avô conheceu. O meu avô contava que ela era uma mulher que misturava a rea com mandinga, que acendia vela branca e vela preta no mesmo altar, que sabia rezar o Pai Nosso de frente e de costas, e que quem entrava na dispensa dela via coisa que não devia: garrafa de vidro escuro com pó de osso, raiz de sangue, espinho de macieira, fotografia virada de barriga para baixo
e um terço que ela usava ao contrário, começando pela cruz de cabeça para baixo. Meu avô dizia: “Zé, cuidado com a benzedeira que cobra caro. Benzedeira de verdade cobra um queijo, um frango, um abraço. Benzedeira de pacto, cobra alma. Dona Senhá nasceu em 1915, numa casa de pau a pique, nas margens do ribeiro do inferno.
O nome do local já dizia tudo. Era filha de uma parteira que também benzia e neta de uma escrava que veio de África com segredos de erva e de oração. A menina cresceu a ouvir rezas em latim que mais ninguém falava, aprendendo o nome de plantas que só nasciam numa encruzilhada e o modo de acender vela dentro de casa sem vento, só com a fé.
Dizem que desde pequena que ela via coisas, via vultos, ouvia vozes, sabia quem ia morrer antes de acontecer. As outras crianças tinham medo dela. As mães proibiam de brincar. Ela cresceu sozinha. aos 15 anos, ajudou a mãe a benzer um rapaz que estava com uma espinhela caída. A mãe fez a oração, passou o terço, mas não adiantou.
O rapaz continuou com dores nas costas, não se levantava da cama. Foi aí que a dona sen lhe pediu para tentar. Ela fechou os olhos, cantarolou uma reza diferente e passou uma faca enferrujada por cima do corpo do rapaz. Ele gritou, a faca aqueceu e na manhã seguinte ele levantou-se curado. A mãe estranhou, perguntou onde é que ela tinha aprendido aquilo.
Dona Siná sorriu e respondeu: “A senhora não me ensinou? Outra pessoa ensinou-me. Ela vem de noite, senta-se à beira da minha cama e ensina-me. A mãe benzeu-se e nunca mais quis saber. Com 18 anos, a mãe morreu. A Dona Senhá passou a benzer sozinha. No início, só o bem. Criança com verme, velho, com reumatismo, mulher com dor de parto.
O povo gostava dela, levava frutaria, leite, ovos. Ela nunca cobrava dinheiro. Diziam que a mão dela aquecia quando rezava, que o terço brilhava no escuro, que o cheiro de incenso ficava na casa até três dias. Ela ficou famosa. Chamavam de benzedeira de unha e carne. Expressão que os antigos usam para dizer que a pessoa é boa mesmo, que resolve de verdade.
As donas tinham um defeito. Ela se ofendia fácil. Se alguém não pagava o prometido, se alguém duvidava do trabalho dela, se alguém falava mal, ela guardava mágoa e começou a fazer pequenos feitiços de castigo. Não matava, não doía muito, só dava uns sobressaltos, colocava espinho na soleira da porta de quem falava mal, escrevia nome em papel e enterrava no quintal.
fazia a pessoa perder o sono por uns dias, só isso. Mas com o tempo, o espírito de vingança foi crescendo. Até que um dia um homem bateu na porta dela. Era um fazendeiro chamado Airton, que tinha perdido uma causa na justiça para o cunhado. Ele queria que dona Senhá fizesse o cunhado perder a próxima causa. Ela disse que não mexia com justiça. Ele ofereceu dinheiro.
Ela recusou. Ele ofereceu a novilha. Ela recusou. Ele ofereceu a própria fazenda. Ela parou, olhou nos olhos dele, viu desespero e também viu maldade. Ela aceitou. Aquela noite ela acendeu velas pretas, escreveu o nome do cunhado em um papel, colocou dentro de uma garrafa com pregos, espinhos, cabelo de boi e sangue de galinha.
Enterrou atrás da casa em cima de uma encruzilhada. No dia do julgamento, o cunhado passou mal, vomitou, não conseguiu falar, perdeu a causa, o fazendeiro ganhou, pagou a novilha e dona ganhou o gosto, o gosto de poder, o gosto de fazer a justiça com as próprias mãos. A partir daí, ela nunca mais parou. As pessoas começaram a procurar não só para cura, mas para dano.
E ela cobrava caro. A cidade se dividiu. Uma parte amava a dona Sinhá, levava flores, chamava de tia, pedia bênção. Eram os que ela tinha curado, ajudado, benzido. Outra parte a temia, falava baixo, desviava o olhar, fazia o sinal da cruz quando via ela na rua. eram os que sabiam dos feitiços, que tinham medo de cair na graça dela, que já tinham sido ameaçados ou tinham parentes prejudicados.
O vigário da época, padre Manuel, chegou a proibir dona senh de entrar na igreja. Disse que ela fazia pacto com o demônio. Ela respondeu que o demônio não precisava de pacto, só de fé, e que a fé dela era mais forte que a dele. O padre a escomungou. Ela cuspiu na porta da igreja. e nunca mais pisou lá. Mas continuou benzendo, continuou rezando.
Só que algumas rezas ela fazia de costas para o altar. Dizem que rezar de costas para o altar é rezar para o outro lado. O padre disse isso na missa e o povo se benzeu. Mas mesmo assim continuaram procurando dona porque a doença não escolhe lado, a dor não escolhe crente ou descrente e o desespero faz a gente bater em qualquer porta.
Foi nesse tempo que ela recebeu a visita de seu Otávio Ferreira, o homem mais rico de Conceição do Mato dentro. Eu, Otávio Ferreira era um homem grande, barba grossa, voz de trovão. Tinha uma loja de tecidos na praça principal, a Ferreira e CIA, a maior da cidade. Depois comprou dois caminhões, começou a transportar mercadoria para Belo Horizonte, emprestava dinheiro com juros, comprava terras, vendia gado.
Ficou rico, mas ficou orgulhoso e violento. A esposa dele, dona Helena, vivia chorando escondida. Os filhos tinham medo dele. Os empregados tremiam quando ele chegava. Aí apareceu seu concorrente, um rapaz novo vindo de Curvelo, chamado Sebastião. Abriu uma loja de tecidos do outro lado da praça, com preços mais baixos, atendimento melhor e freguesia nova.
Seu Otávio perdeu cliente, perdeu dinheiro, perdeu a paciência. tentou comprar a loja do Sebastião. Ele não quis. Tentou baixar os preços, mas quase quebrou. Tentou espalhar boatos, não adiantou. Raiva foi crescendo. Até que um empregado dele, um rapaz medroso chamado Jupira, disse: “Seu Otávio, o senhor já pensou em falar com a dona Sá?” Dizem que ela resolve.
Otávio nunca tinha ido. Ele era frequentador da igreja, andava com o padre, não acreditava nessas coisas. Mas o desespero falou mais alto, disfarçou, pegou o chapéu e foi no fim da tarde, quando escurece para ninguém ver. A casa de dona Sá ficava no fim da rua da estação, perto do rio, onde as casas são mais velhas e as ruas de terra.
Otávio bateu na porta. A porta abriu sozinha. Ele entrou assustado, mas não recuou. Dona Sá estava sentada na sala numa cadeira de balanço, rezando o terço. Não levantou, não olhou, só disse: “Entra, seu Otávio! Eu já esperava o senhor. Otávio ficou gelado. Como ela sabia o nome dele? Como ela sabia que ele ia chegar naquela hora? Ele sentiu um arrepio, mas o orgulho falou mais alto.
Ele sentou na cadeira da frente e pediu. Pediu para ela acabar com o concorrente. Pediu doença, pediu desgraça, pediu morte. Ele mesmo contou: “Dona Senhá, eu quero que ele perca tudo, que ele desapareça desta cidade, que nunca mais venda um metro de tecido. Quero que ele sofra.” Tona Seniná parou de rezar, guardou o terço dentro do vestido, olhou para Otávio com os olhos a brilhar no escuro e disse: “Isto é trabalho pesado, o seu Otávio.
Eu não faço esse tipo de coisas por qualquer pessoa e não o faço de graça.” Otávio abriu a carteira, ela sacudiu a cabeça. Dinheiro? Não, não. Isso paga-se num preço mais elevado. O que o senhor quer fazer com ele, vai fazer com o senhor também. Mas de outra forma. Quer saber? Deixa estar quieto. Otávio insistiu. Quanto mais ela recusava, mais ele queria.
Ofereceu a loja, ofereceu um camião, ofereceu a sua própria casa. Dona Senin fechou os olhos durante um longo minuto, depois levantou-se, foi à dispensa, pegou os materiais, disse: “Pronto, o Sr. vai ter o que pediu, mas não diga que não avisei.” Nessa noite, ela enterrou uma imagem de Sebastião num buraco atrás da casa, com picos, pregos, cabelo de boi, um bilhete com um nome e um pedaço de lado de porco.

acendeu velas pretas, rezou de costas para o Oriente e invocou as almas do outro lado. O trabalho estava feito. Bastião começou a passar mal uma semana depois. Dores no estômago, falta de ar, cansaço. O médico disse que era uma úlcera, deu medicamentos. Não adiantou. Ficou pálido, emagreceu, perdeu os clientes. A loja dele foi perdendo o movimento.
As as dívidas aumentaram. Em se meses faliu. Vendeu o stock por preço de banana, pegou na mulher e nos filhos e voltou para curvê-lo. Morreu do anos depois de cancro de estômago. Os médicos disseram que era genético. Os mais velhos disseram que era feitiço. Otávio comemorou. abriu outra loja no lugar da loja de Sebastião.
Comprou mais dois camiões, ficou mais rico, mais orgulhoso, mais violento. Dizia na cara dura: “Ninguém enfrenta o Otávio Ferreira”. Mas as pernas começaram a formigar. Primeiro achou que era cansaço, depois uma dormência que vinha e ia, depois uma fraqueza, depois não conseguia estar em pé muito tempo. Os médicos de Conceição do Mato Dentro não descobriram nada.
Foi para Belo Horizonte, fez exame de sangue, de raio X, de ressonância. Não tinha nada, mas as pernas definhavam. Otávio voltou para a dona Sinhá. Desta vez não foi com oferta de dinheiro, foi zangado. Bateu a porta da casa dela e gritou: “Fizeste alguma coisa comigo? Você amaldiçoou-me. Dona Shava na mesma cadeira de baloiço com o terço na mão.
Ela não se assustou, não se ofendeu. Ela respondeu: “Calma, o seu Otávio, o senhor pediu-me para acabar com ele. Eu acabei. Eu não fiz mais nada. O que se passa com o senhor não é o meu trabalho, é o retorno. Otávio se atirou-o para o chão, no meio da sala, chorando. Pedia para ela tirar para desfazer.
A Dona Sin olhou para ele com uma pena misturada de cansaço. Não se desfaz, senhor Otávio. Trabalho de morte só desmancha-se com a morte. Agora o Senhor vai conviver com isso até o fim. Reze. Peça-lhe perdão. Talvez alivie. Mas não passe. O Otávio saiu de lá desesperado. Nunca mais voltou à casa dela. Também nunca mais andou. Em dois anos estava na cadeira de rodas.
Em cinco na cama. Esteve 20 anos numa cama definhando. As pernas finas igual pau, a pele corroída, os olhos fundos. Ele via coisas. Via vultos no quarto. Via a figura de uma dona assentada aos pés da cama, abanando a cabeça. Os filhos chamaram benzedeiras verdadeiras, daquelas que só fazem o bem. Elas vinham, rezavam, benziam, mas diziam: “Isto não é feitiço nosso, isto é trabalho antigo.
Não temos chave para abrir aquela porta.” E iam-se embora. Chamaram padre. Ele rezou, confessou Otávio, deu a extrema-unção, mas as pernas não voltaram. A Dona Senhá morreu em 1984, no inverno. Foi encontrada sentada na cadeira da dispensa com um terço na mão e uma vela preta apagada sobre a mesa. Não tinha uma marca de violência.
O relatório disse causas naturais, mas quem sabia sabia. Ela foi levada. levada por aqueles que ajudou ou por aquele a quem serviu. Disse o coveiro que na hora de cavar o buraco, a terra estava dura como pedra, que a enchada partiu duas vezes. E quando finalmente abriram a cova, saiu um cheiro a enxofre e que quando baixaram o caixão, a tampa estalou sozinha.
Enterraram-na no fundo do cemitério, perto do muro, onde o sol não bate direito. Dizem que foi exatamente onde ela pediu. “Quero ficar à sombra”, disse ela ainda viva. O sol queima. O jazigo de dona não ficou normal. No princípio era só terra e uma cruzinha de madeira, mas com o passar do tempo começaram a aparecer coisas: velas pretas, garrafas de cachaça, moedas, fotografias.
viradas de bruços. As pessoas iam pedir trabalho a ela mesmo depois de morta. Diziam que quem acendesse uma vela preta no túmulo dela a meio da noite e pedisse com fé, o pedido se realizava. Mas, cada vez que alguém ia lá, alguma coisa má acontecia na cidade. Uma criança nascia doente.
Uma plantação secava, uma casa pegava fogo. Tinha uma história. Um rapaz pediu para uma mulher se apaixonar por ele. No dia seguinte, a mulher teve um derrame. Ficou com a boca torta, a perna arrastando. Morreu um mês depois. Uma mulher pediu para o marido voltar para casa. O marido voltou, mas atropelaram ele na porta de casa. Quebraram as duas pernas.
Pedido de amor à dona Sá não é brincadeira. Os mais velhos da cidade tentaram proibir o acesso ao túmulo. Puseram grades, mandaram rezar, chamaram o padre para benzer. Mas as grades sumiam, a reza não adiantava. O padre se recusava a voltar depois que sentiu um arrepio na espinha. Dizem que certa vez um grupo de moças foi ao túmulo na noite de sexta-feira santa.
Levaram uma garrafa de cachaça, flores pretas, e pediram para uma delas se casar com um rapaz rico. No outro dia, o rapaz rico morreu num acidente de carro. A moça ficou com herança. Casou com o dinheiro, mas não durou um ano. Ela mesma morreu de câncer. Não se brinca com o que não se entende. Seu Otávio, enquanto isso, definhava na cama.
20 anos se passaram desde o trabalho de dona Sinhá, 7 anos desde a morte dela. Quando ela morreu, em 1984, Otávio ainda estava vivo, mas piorou. As pernas já não eram só finas. Ele não sentia nada da cintura para baixo. A pele descamava, cheirava mal. Os filhos tinham nojo, criaram nojo. Só a esposa, dona Helena, ainda cuidava dele com lágrimas nos olhos, lembrando do homem que ele foi.
Otávio pedia a morte todo o santo dia. Ela não vinha até que chegou o dia de todos os santos, 1o de novembro de 1989. Naquela manhã, Otávio acordou com uma calma diferente. Pediu para dona Helena abrir a janela, deixar o sol entrar. Pediu perdão para ela, para os filhos, para os empregados. Pediu que chamassem um padre.
O padre veio, rezou, deu a absolvição. Otávio fechou os olhos e morreu. Exatamente na mesma hora em que o padre soube por telefonema, que o túmulo de dona Sá tinha amanhecido com todas as velas acesas, sem ninguém ter ido lá. A noite do enterro de seu Otávio foi estranha. Os coveiros, medrosos, cavaram a cova depressa. Quando foram abaixar o caixão, ouviram um barulho vindo do fundo do cemitério.
Era o túmulo de dona Sinhá. Parecia que alguém estava rindo, uma risada seca de mulher. E então uma cobra grande, preta e verde, deslizou pelo muro e enrolou na campa de Otávio. Os coveiros gritaram. Um deles tentou matar a cobra com uma pá. A cobra sumiu. Não achavam mais ela. Alguns dizem que ela entrou no caixão, outros dizem que virou fumaça.
O padre benzou o túmulo de dona Sinhá, rezou, aspergiu água benta. No outro dia, o túmulo dela estava intacto, mas as velas estavam apagadas. E a pedra preta tinha uma rachadura nova de cima a baixo. O túmulo de dona Senhá ainda está lá em Conceição do Mato, Dentro, no fundo do cemitério, perto do muro. Mesmo sabendo da história, ainda tem gente que vai, vai escondido, de noite com vergonha, acendem vela preta, derramam cachaça, enterram bilhete com pedido, pedem amor, pedem dinheiro, pedem vingança.
Os mais velhos da cidade tentam impedir. Dizem que isso é errado, que benzedeira de verdade não faz isso. Mas sempre tem quem acredite mais no mal do que no bem. E esses vão, e essas velas acendem, e a rachadura na pedra cresce a cada ano, um pouquinho. As verdadeiras benzedeiras, as que curam com reza e erva, sofrem com isso. O povo confunde o que é dom.
Benzedeira de verdade é mulher de fé, ajoelhada no terço, que pede a Deus para curar. Ela não cobra caro, não pede vingança, não faz trabalho de morte. Ela lava o corpo doente com Guiné, passa o terço na cabeça, acende vela branca para Nossa Senhora. Nem vela preta ela tem em casa.
A outra, a outra não reza, ela ordena. E quem ordena, uma hora obedece. Quem obedece uma hora serve e quem serve não tem mais volta. Se você passar por Conceição do mato dentro, não vá procurar o túmulo no fundo do cemitério. Não leve vela preta. Não leve dinheiro. Não peça nada a quem não pode dar. Se quiser benzer, procure uma benzedeira de verdade.
Daquelas que acendem vela branca e falam o nome de Deus em cada reza. daquelas que tem a mão quente e o olhar manso, daquelas que quando você sair, você sente que o peso sumiu. O resto é história. História que ninguém precisa repetir, porque história de feitiço quando vira história, já tem sangue demais no meio. Se você gostou dessa lenda, inscreva-se no canal Arquivo Perdido.
Toda semana tem causa de arrepiar, lenda do interior, história de quem viveu para contar. E se você um dia pedir algo a alguém que não deve, lembre de seu Otávio, 20 anos numa cama. Nenhum pedido vale isso. E lembre de dona Senhá. O poder que ela tinha, ela não controlou e no fim o poder levou ela também.
Benzedeira verdadeira reza com Deus. Benzedeira de fachada, negoceia com o outro lado. E nesta negociação a gente nunca sai a ganhar. Fica com Deus e até à próxima.