A fazenda chamava-se Ouro Verde, mas de verde só tinha a ilusão que o Barão Donato de Albuquerque vendia na corte. Para quem vivia na cenzala, era apenas terra vermelha, suor espesso e o cheiro amargo do café que nunca parava de crescer. E no meio de tudo isto existia zombie. Não era um nome dado por acaso.
Zombie era um homem grande, de ombros largos, pele escura, com a noite mais fechada e uma força que parecia desafiar as correntes que transportava. Mas o que mais chamava a atenção nele não era a força bruta, sim o silêncio. Zumbi não falava muito, observava. E quando olhava, parecia que via a alma da gente, via o medo, via a podridão.
Ele chegou àquela quinta trazido de longe ainda menino, depois de a mãe dele foi lendida para pagar uma dívida de jogo de um agricultor falido. Zombie cresceu a ver a crueldade do Barão Donato. Um homem pequeno, barrigudo, mas cuja voz fina e irritada era capaz de gelar o sangue de qualquer pessoa. O barão não batia por raiva, batia por princípio, para manter a ordem, para lembrar a todos que não eram gente, eram propriedade.
Zumbi cedo aprendeu que a única vingança possível para um escravo era aquela que nascia por dentro, a que ninguém via. Foi colocado a trabalhar na casa grande, não nos campos. O Barão gostava de ter escravos fortes e bonitos por perto, como sinal da sua riqueza. Zumbi era o carpinteiro, o faz tudo, o que tratava dos cavalos e muitas vezes o que trazia a bandeja de chá para a família na varanda.
E foi ali na varanda que conheceu de perto as mulheres da casa. Primeiro, dona Isabela. Assim há. A Dona Isabela era uma mulher que tinha sido bonita, mas o tempo na quinta e a falta de amor tinham morchado o brilho dela. Vivia entediada, presa naquele enorme casarão, enquanto o barão passava meses na capital a tratar de negócios, ou, o que era mais provável, com alguma amante.
A vida da dona Isabela era costurar, dar ordens aos criados e esperar. Ela tinha o poder, sim, mas era um poder vazio, oco, que não a aquecia. O Zumbi entrava na sala, colocava o tabuleiro e saía. Nunca olhava nos olhos. Era a regra. Olhar nos olhos era desafio e desafio era chicote. Mas a dona Isabela começou a quebrar a regra.
Ela começou com pequenas coisas. Zombie, traga mais gelo. Zombie. Ajeite aquela cortina. Está torta. Zombie, tens que ser mais rápido. E o tom dela não era de raiva, era de curiosidade, quase de súplica. Um dia, Zumbi estava a reparar uma janela no quarto de costura, um local que dava para o jardim.
O sol entrava e iluminava o pó no ar. A Dona Isabela estava sentada, fingindo bordar, mas a agulha estava parada. “Zombie”, chamou ela. A voz baixa, quase um sussurro. Ele parou de martelar. Sim, ensinha. Você é muito silencioso. Não tem medo? Zombie hesitou. Era uma pergunta perigosa. Se ele dissesse que não, seria arrogância.
Se dissesse que sim, seria fraqueza. Dona Isabela riu, um som seco, sem alegria. O medo é a única coisa que me faz levantar da cama, zombie. O receio de que o barão volte e descobrir que não fiz nada o dia inteiro. Ele voltou ao trabalho, mas ela continuou. És forte, zombie, mais forte do que qualquer homem que eu já conheci.
Sentiu o calor subir no pescoço, sabia onde aquela conversa ia dar. Naquele mundo, a atracção da pelo escravo era um tabu gritante, mas era também uma válvula de escape para o tédio e a tirania. Era uma forma perversa de exercer poder, mas também de procurar consolo. Zumbi, no entanto, tinha um plano que estava a ser cozinhado há anos.
Ele não queria apenas sobreviver, ele queria desmantelar o barão de dentro para fora. E para o fazer, ele precisava de quebrar a linhagem, sujar a pureza que o barão tanto prezava. Ele precisava de entrar onde era proibido. Ele se lembrou da última vez que viu a sua mãe. Ela tinha sido chicoteada na frente de todos por ter deixado cair um jarro de água. O barão assistiu impassível.
Nesse dia, Zumbi jurou que o barão pagaria, não com a sua própria vida, mas com aquilo que lhe era mais sagrado, a honra e o nome. Os encontros começaram discretamente. A Dona Isabela usava a desculpa de ter de supervisionar os reparações na casa. Ela mandava os outros criados para longe. Eram momentos rápidos, cheios de tensão e culpa para ela, mas de uma frieza calculada para zombie.
Ele não havia como mulher, havia como o portão de entrada para o vingança. Assim a estava desesperada por toque, por ser vista. O barão tratava-a como um móvel caro. Zumbi tratava-a com uma mistura de respeito forçado e de uma intensidade silenciosa que a enlouquecia. Não falava, agia. E a cada encontro sentia que estava cravando um prego no caixão daquele barão arrogante. O risco era imenso.
Se fossem apanhados, a morte era certa, lenta e dolorosa. Mas Zumbi não temia a morte. Ele temia o esquecimento. Certa noite, o Barão viajava para uma grande festa em São Paulo. A Dona Isabela estava sozinha na Casagre, salvo pelos criados que dormiam na cenzala. Ela mandou chamar zombie para rever a fechadura do o seu quarto.
Quando entrou, a luz de vela era fraca e o ar estava pesado com o perfume caro que ela usava. Ela não estava mais na varanda, nem no quarto de costura. Estava no seu domínio, o quarto matrimonial do barão. “A fechadura está boa, sim. disse zombie, mantendo a voz firme. Não a fechadura da porta, zombie, a fechadura do meu coração, disse ela.
E a frase era tão melodramática que zombie quase revirou os olhos, mas ele conteve-se. Ele sabia que precisava de ser o que ela queria. forte, proibido, perigoso. Nessa noite, o ato foi consumado com a urgência do segredo e a violência da necessidade. Paraa dona Isabela, era a quebra de uma vida inteira de regras, uma rebelião silenciosa contra o maído que a abandonava.
Para zombie era a semente plantada. A vingança biológica estava em curso. Ele deixou o quarto antes do amanhecer, regressando ao cenzá-la com o coração a bater forte, mas não de paixão, de triunfo. Entretanto, as filhas do Barão observavam. Eram duas raparigas, Letícia e Sofia. Letícia, a mais velha, tinha 19 anos, era séria, reservada e já tinha a amargura da mãe por ter de esperar por um casamento arranjado que a tirasse daquele inferno verde.
A Sofia, com 17 era mais curiosa, mais ousada. Ela passava horas na biblioteca a ler livros proibidos que falavam de paixões e revoluções. Notaram que a mãe estava diferente, menos irritadiça, mas distante. Havia um brilho nos olhos da dona Isabela, que não era o brilho da felicidade, mas o brilho do segredo. E elas repararam em zombie.
Zumbi sempre fez parte da paisagem, como um tronco de árvore, mas agora ele parecia presente. Letícia via-o quando passava para polir a Pratalia. Ele caminhava devagar, com uma dignidade que contrastava com as roupas gastas. Ela se sentia-se culpada por notá-lo, pois era um pecado de pensamento.
Mas era impossível não reparar como a camisa de algodão ficava esticada nas costas dele quando ele curvava-se. A Sofia, a mais nova, era menos subtil. Ela seguia-o com os olhos. Um dia, a Sofia estava no jardim a colher rosas. Zombie estava a limpar o xafaris. Ela aproximou-se, fingindo tropeçar. “Ai!”, exclamou ela, deixando cair a cesta.
Zumb olhou para ela, o rosto impassível. A senhazinha precisa de ajuda. “Sim, zombie, estou tonta. O sol é forte.” Ela olhou para ele e, pela primeira vez, Zombie não baixou os olhos imediatamente. Ele olhou-a de volta, avaliando. A Sofia tinha os cabelos castanhos claros da mãe, mas os olhos eram grandes e cheios de fogo juvenil. Tem cuidado, senzinha.
Ele baixou-se para apanhar as rosas caídas. O cheiro de suor misturado com terra e o aroma subtil de sabão barato que vinha dele era inebriante para Sofia, que apenas conhecia o cheiro a alfazema e pó de livro. “Zombie, diz-me uma coisa”, ela sussurrou, inclinando-se para perto. “O que pensa sobre a vida aqui?” Ele parou, segurando um punhado de rosas vermelhas.
“Eu penso que a vida aqui é o que o barão permite que ela seja assim. E se o barão não estivesse aqui?” Zombie sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos. Era um sorriso de predador. Se o barão não estivesse aqui, a vida seria outra coisa, mas ele está. Ele entregou as rosas para ela e afastou-se, voltando ao trabalho.
Mas a semente da curiosidade estava plantada em Sofia. Ela sentia que zombie era a chave para algo excitante e perigoso, algo que ia para além das páginas dos seus romances. Passaram dois meses. O barão Donato ainda estava fora, resolvendo uma disputa de terras que se arrastava. Dona Isabela estava a ficar impaciente. Os encontros com zombie tinham-se tornado mais raros, pois o risco era elevado demais.
Mas zombie não precisava de frequência, ele precisava de resultados. Começou a notar mudanças subtis em dona Isabela. O rosto dela estava mais cheio e ela estava a dispensar os espartilhos mais apertados. Ela queixava-se de enjoos matinais que assim a atribuía ao calor excessivo. Zumbi sabia que era. Ele tinha visto outras mulheres na cenzala passarem por isso.
Uma tarde estava a entregar lenha na cozinha quando ouviu uma discussão acesa entre a Senhá e a governanta, uma mulher velha e astuta chamada Teresa. Não seja ridícula, Teresa. É apenas um mal-estar. Malestar que dura dois meses sem a e a sua cintura que está a desaparecer. O barão vai voltar em breve. O que o senhor vai dizer? O silêncio da dona Isabela foi a confirmação que zombie precisava.
O plano tinha funcionado. A semente do escravo estava a crescer no ventre da baronesa. A linhagem pura do Barão Donato tinha sido irremediavelmente contaminada. A emoção que o atingiu não foi a alegria, mas uma satisfação fria e profunda. Era o primeiro passo da vingança. O pânico da dona Isabela era palpável. Ela começou a tratar zombie com uma mistura de medo e ódio.
Ele já não era seu amante secreto. Ele era a prova viva do seu pecado e a ameaça iminente à sua vida. Ela chamou-o ao seu gabinete, onde guardava os livros de contabilidade e as cartas do marido. “Zombie”, disse ela, com a voz trémula. “Sabe o que está a acontecer comigo?” Ele apenas a olhou sem confirmar nem negar. Se o barão descobrir, seremos mortos.
Tu, eu e a criança. “O barão não precisa de saber. Sim. Disse zombie, a voz baixa, mas firme. O barão está fora há tempo suficiente. Basta dizer que a criança é dele. A Dona Isabela abanou a cabeça desesperada. Você não compreende. Eu sei as datas. Ele sabe as datas. E a cor zombie, a criança. Ele interrompeu-a.
A criança terá a cor que Deus quiser. Senha. O importante é que ela nasça no quarto do Barão. E para isso assim a precisa de ajuda. E sou o único que pode ajudar. Nesse momento, o zombie inverteu completamente a dinâmica de poder. Ele já não era o escravo temeroso. Ele era o guardião do secreto dela e, por isso, o seu mestre.
O que quer? Ela perguntou a dignidade a desaparecer. Eu quero queá me proteja e que assiná me obedeça. Ele sabia que o barão estava a regressar em breve. O tempo era curto. Ele precisava garantir que a dona Isabela estivesse sob o seu controlo total para que o segredo fosse mantido. Mas um bi tinha um problema, ou para ser mais exato, dois problemas.
As filhas, A Letícia e a Sofia não eram parvas. Elas notavam o nervosismo da mãe e os olhares cortantes que ela lançava a zombie. E o que era pior para zombie, a curiosidade dela só aumentava. A Letícia, a mais velha, começou a procurá-lo, não com a urgência da mãe, mas com a precisão de quem estava investigando.
Ela encontrava-o no estábulo, nas traseiras da casa, sempre com alguma desculpa sobre os cavalos ou a necessidade de deslocar um móvel pesado. Era a imagem da nobreza, vestida de seda, mas havia uma fissura no seu armadura. Ela estava prestes a ser entregue em casamento a um homem velho e rico da capital, e o desespero do seu vida controlada estava no limite.
Zombie, o meu pai volta na próxima semana. Preciso que prepare a carruagem de viagem. Sim, senzinha Letícia. Ela se aproximou-se e zombie sentiu o cheiro do sabão de rosas. Você está diferente. Parece mais atento. O barão regressando, todos estão atentos, senhazinha. Não é só isso.
És o único homem nesta casa que não tem medo do meu pai. Zumbi sorriu. Aquele sorriso subtil e perigoso. Eu sou o único que não tem nada a perder, senhazinha. Esta frase atingiu Letícia como um chicote. Ela percebeu que a liberdade de zombie estava exatamente na sua condição de escravo. Não tinha honra a defender, nem bens a perder.
Ele era livre para arriscar tudo. E a Letícia, que tinha tudo, sentia-se a mais escravizada de todos. Nessa noite, Zumbi estava de guarda perto do depósito de ferramentas. Um trabalho que inventou para si para ter acesso fácil à casa grande sem levantar suspeitas. A Letícia veio até ele, não com a desculpa de um reparo, mas vestida com um roupão fino, o cabelo solto.
“Eu não consigo dormir zombie”, disse ela, a voz baixa, o medo misturado com a audácia. “A Ashazinha deve voltar para o quarto. Se alguém a vir aqui, ninguém me vai ver. Eu só queria, eu queria sentir o ar da noite e talvez conversar. Conversar? Zumbi sabia que ela não queria conversar. Ela queria o que a mãe tinha procurado, a quebra da rotina, a eletricidade do proibido.
Zombie pensou rápido. A vingança precisava de mais do que um filho. Precisava de caos. Precisava de uma contaminação total. Se o barão perdesse aá, era uma tragédia. se perdesse aá e a primeira herdeira era a ruína moral. Ele puxou-a para a sombra do depósito. Letícia não resistiu. Ela procurou nele a força, a rebeldia que ela nunca poderia manifestar na sua vida de nobreza forçada.
O ato com Letícia foi mais urgente, mais desesperado do que com a mãe. Letícia estava a despedir-se da sua pureza antes de ser entregue a um casamento sem amor. Ela estava a usar zombie para se vingar do destino que o seu pai traçara para ela. Zumbi, por sua vez, estava triplicando a aposta. Ele estava arriscando a morte para garantir que o barão não tivesse paz.
Soltou-a e Letícia correu de volta para casa, sem olhar para trás, deixando o zombie sozinho no escuro, com o coração batendo forte pela adrenalina e pela ousadia. Ainda faltava a Sofia. A Sofia, a mais nova, era a mais observadora. Ela notou a palidez da mãe e o nervosismo da irmã e notou a ausência de Letícia nessa noite.
Sofia era a única que tinha lido sobre escravos e rebeliões, sobre a injustiça do sistema. Ela não via zombie apenas como um homem, mas como um símbolo de resistência. No dia seguinte, Zumbal perto do celeiro, a reparar uma cerca. Sofia apareceu, trazendo um copo de água fresca. Estás com sede, zumbi. O dia é quente.
Ele pegou na água. O gesto era invulgar. Obrigado, senhazinha Sofia. A minha mãe está doente, a minha irmã está estranha e o meu pai está a voltar. É um mau momento para esta casa. É sempre um mau momento para esta casa, senazinha. A Sofia sentou-se no feno. Eu li que os os escravos têm poderes secretos, que eles podem fazer feitiços para se protegerem.
É verdade, Zombie Riu. Um som rouco e raro. Não, senhorzinha. O único poder que um escravo tem é a paciência e a força e a rebeldia. Zumbia olhou-a com intensidade. Viu que Sofia não estava ali por luxúria como a mãe ou por desespero como a irmã. Ela estava ali por ideologia, por um desejo de quebrar as barreiras sociais, de provar que as regras do Barão eram falsas.
“A rebeldia é um luxo sem azinha e é perigosa. Eu gosto do perigo”, sussurrou ela. E havia uma chama nos olhos dela que era mais perigosa que o fogo. A Sofia era a mais difícil. Zumbi não podia apenas seduzi-la. Ele precisava de convencê-la a participar na revolta. Ele aproximou-se dela lentamente. Se ainha gosta do perigo, a senhazinha deve saber que o maior perigo é desafiar o barão.
Eu não tenho medo dele. O barão preocupa-se com o seu nome, senazinha, com o sangue. Ele pensa que o seu sangue é ouro puro. Zumbi inclinou-se e a proximidade era sufocante. O maior ato de rebeldia que pode cometer é provar-lhe que o sangue dele não vale nada, que a pureza dele é uma mentira. A Sofia engasgou-se.
Ela entendeu. Naquele momento, Zumbi não estava apenas à procura de prazer ou vingança. Ele estava a recrutar uma cúmplice, vendendo a ideia de que o tabu era a única forma de liberdade. O terceiro ato de zombie foi o mais rápido e o mais audaz. Ele usou a paixão de Sofia pela revolta para quebrar a última barreira. Ela queria ser livre.
Ele ofereceu-lhe a liberdade na forma de um segredo partilhado que destruiria o pai. O barão Donato regressou à fazenda com um mês de atraso, cansado e furioso com os negócios. Ele não notou o silêncio estranho na casa grande. Não notou a palidez da dona Isabela, nem o olhar esquivo de Letícia, nem a calma antinatural de Sofia.
Ele só notou que a quinta estava em ordem e que zombie, o escravo forte, estava sempre por perto. A vida voltou à normalidade da tirania. O barão estava em casa e o medo pairava no ar. Zumbi continuou o seu trabalho observando. Ele sabia que o tempo estava correndo. Três semanas depois do regresso do barão, a dona Isabela desmaiou durante o jantar.
O médico foi chamado às pressas. O barão estava irritado. O que é que ela tem? É fraqueza? O médico, um homem velho e trémulo, examinou a dona Isabela no seu quarto. Quando saiu, o seu rosto estava branco. Barão, a Sá está grávida. O Barão Donato soltou uma gargalhada de triunfo. Grávida. Eu sabia que ainda tinha vigor, um excelente herdeiro.
Não calculou as dadas, apenas sentiu o orgulho. Mas Zumbi, que estava à porta arranjando o batente, sabia que o barão esteve errado durante meses. O filho não era dele. A vingança estava selada. No entanto, o caos estava apenas começando. Duas semanas depois, Letícia, a herdeira que estava prestes a casar, começou a ter náuseas matinais.
Ela estava pálida e a sua cintura, que deveria ser fina para o casamento, estava a tornar-se arredondada. O barão, ainda a celebrar o futuro herdeiro da esposa, ficou furioso com a doença da filha. O que é isto, Letícia? Está fraca? O mesmo médico foi chamado. Ele examinou Letícia e o seu rosto ficou ainda mais párido. Chamou o Barão para o lado, sussurrando.
Barão, a sua filha, Letícia, também ela está grávida. O Barão Donato cambaleou para trás. Impossível. Ela é virgem. Ela está prometida. Quem? Quem foi o desgraçado que fez isso? O pânico espalhou-se pela casa. Duas grávidas na mesma família em tão pouco tempo era um escândalo. E depois veio a terceira, a mais chocante.
A Sofia, a mais nova, que deveria ser a mais inocente, começou a chorar desesperadamente a meio da noite. Ela estava com dores. O barão, enlouquecido, chamou novamente o médico. O diagnóstico de Sofia chegou como um trovão. Ela também estava grávida. Em menos de um ano, assim, a e as duas filhas do Barão Donato de Albuquerque estavam grávidas.
Zumbi estava na cozinha, afiando uma faca quando ouviu os gritos histéricos do Barão no andar de cima. Ele sorriu, um sorriso que era pura satisfação. A vingança biológica estava completa. O barão tinha três falsos herdeiros, três marcas vivas da sua impotência e da quebra da sua honra. Mas o barão ainda não sabia o nome do homem que tinha plantado a semente da destruição em sua casa.
E zombie sabia que a fase seguinte do jogo seria a mais perigosa de todas, a caça ao pai. E ele estava pronto para ser caçado. Ele não era mais apenas um escravo. Ele era o segredo mortal que vivia sobre o tecto do barão. E o barão, na sua cegueira, estava prestes a procurar o culpado em todos os lugares, menos onde dormia todas as noites.
O plano zombie tinha funcionado perfeitamente, mas ele sabia que o sucesso era apenas a primeira etapa de uma guerra que terminaria em sangue. Tinha quebrado a família. Agora precisava de sobreviver à tempestade que ele próprio criara. A gritaria do Barão Donato de Albuquerque ecoava pela Casa Grande, um som que não era apenas raiva, mas pânico absoluto.
Andava de um lado para o outro no salão, pisando o tapete persa, como se quisesse destruí-lo. “Três, três desgraças”, berrava, cuspindo as palavras. “A minha mulher, a minha herdeira e a mais nova. O que é isto?” “Uma praga,? um feitiço lançado nesta casa. Para ele, a ideia de que as suas filhas se tivessem deitado com alguém antes do casamento era a destruição do seu nome, da sua riqueza.
A honra era o único capital que que realmente tinha e agora estava em frangalhos. O barão não pensava no amor, em desejo ou em tédio. Ele pensava em sangue, em linhagem, em propriedade. A Dona Isabela, Assiná, estava recolhida no seu quarto, fingindo um mal-estar profundo. Ouvia os berros do marido e sentia um frio na barriga que não era medo do barão, mas medo de zombie.
O barão estava furioso, mas zombie era o arquiteto daquela fúria. E ele tinha conseguido o impossível fazer assim. e as duas filhas, cúmplices de um crime capital. A casa transformou-se em uma prisão. O barão mandou trancar as janelas e colocou sentinelas armados nas portas, homens da sua confiança trazidos de São Paulo.
Ninguém podia entrar ou sair sem sua permissão. Ele estava decidido a descobrir o nome do homem que ousara tocar as suas mulheres. Pro Barão, a ideia de que o culpado pudesse ser um escravo era impensável. Era uma ofensa que ia para além do crime. Era uma impossibilidade social. O toque de um escravo era tão baixo que nem sequer merecia ser considerado.
Procurava um vizinho invejoso, um lavrador falido, um jovem da corte. Ele procurava um homem. E zombie, entretanto, continuava o seu trabalho. Ele passava silencioso perto do escritório, onde o barão roía as unhas e bebia a cachaça para acalmar os nervos. Zumbi colhia o chão, limpava os sapatos e a cada movimento sentia o poder que emanava do seu segredo.
Ele era o único homem na quinta que não tremia de medo e essa calma era ironicamente a sua maior proteção. As três mulheres tinham de conviver com a terrível verdade. Num dia de costura forçado no salão, enquanto o Barão estava no campo, a Letícia e a Sofia estavam sentadas de frente para a mãe. O silêncio era tão pesado como a seda que bordavam.
A Letícia, a mais velha, estava com o rosto inchado de tanto chorar. Ela sentia que a sua vida tinha acabado antes de começar. Ela olhava para a mãe e para a irmã e via o reflexo do seu próprio pecado. Sofia, no entanto, tinha um brilho febril nos olhos. Ela estava assustada. Claro, mas havia também a excitação da revolta.
Ela olhou para a mãe e sussurrou tão baixo que só as três ouviram quem ele vai culpar. Dona Isabela não levantou os olhos da costura. Não importa quem ele culpe Sofia. O importante é que ele não culpe a pessoa certa. A pessoa certa. Elas sabiam quem era e de forma bizarra nenhuma delas estava disposta a entregar zombie. Dona Isabela, por egoísmo.
Se zumbi fosse apanhado, ela seria exposta e o seu gravidez seria provada como adultério. Letícia, por desespero, entregar zombie seria admitir a ruína da sua honra para um homem que ela odiava e ela não lhe daria essa satisfação. Sofia, por convicção, zombie era a materialização da sua rebeldia. Entregá-lo seria entregar a sua própria liberdade.
O Barão, cego pela fúria e pela arrogância, começou a procurar o inimigo entre aqueles que tinham a ousadia de se considerar os seus iguais. Começou a desconfiar do feitor Custódio. Custódio era um homem cruel, de origem humilde, mas que tinha subido na vida por ser um capataz implacável. Batia nos escravos com gosto e era conhecido pela sua luxúria.
“Custódio!”, gritou o Barão, chamando-o ao escritório. O Zumbi estava a limpar a varanda bem perto e ouviu tudo. “Sim, Barão, o senhor tem andado muito perto da casa grande ultimamente, não é?” Custódio suou frio. Ele sabia que o barão estava a falar das filhas. Não, Barão, apenas no serviço. Nunca. Nunca o quê, seu verme.
Acha que eu não sei como são os homens? Você tem acesso. Tem a chave de alguns portões. Zumbi percebeu que a oportunidade estava ali. Ele precisava de empurrar o barão para a conclusão mais conveniente. No dia seguinte, enquanto o custódio estava no campo, Zumbi foi até ao pocilga e pegou num pedaço de pano sujo de massa lubrificante que Custódio utilizava para limpar as suas botas de couro.
Ele dobrou o pano e escondeu-o discretamente atrás de um vaso de flores que se encontrava à entrada do corredor dos quartos das raparigas. Mais tarde, o barão estava a inspecionar a casa, procurando qualquer sinal de intrusão. Quando viu o vaso, moveuo e encontrou o pano sujo. O barão cheirou o pano.
Cheiro a gracha, suor e tabaco barato, o cheiro a custódio. O barão Donato não precisou de mais nada. Sua mente, já tomada pela paranóia, selou à conclusão. Custódio era o desgraçado que tinha deshonrado a sua família. Tomem custódio!”, rugiu. “Tragam-no para o tronco.” A cena que se seguiu foi de uma brutalidade que fez a quinta verde parar.
Custódio foi amarrado ao tronco no pátio central. O barão com um chicote na mão estava vermelho de ódio. Zumbi estava misturado na multidão de escravos a observar. Os seus olhos não demonstravam nada, mas por dentro ele sentia a vingança concretizar-se. O homem que tinha chicoteado a sua mãe, o homem que representava a crueldade do sistema, estava prestes a pagar por um crime que não cometeu.
Quem te deu permissão para tocares as minhas filhas, o seu animal? O barão gritava a cada chicotada. Custódio gritava de dor e confusão. Eu não fiz nada, Barão. Juro por Deus, nunca o usaria. Mentiroso. O barão parou ofegante. Ele precisava de uma confissão, de uma confirmação. Ele precisava que Custódio nomeasse qual das filhas ou se foram as duas.
Ele mandou que trouxessem as mulheres, uma de cada vez, para olhar para o feitor. Dona Isabela foi a primeira. Estava pálida, mas a sua determinação era fria. Ela tinha que guardar o seu segredo. “Simar, olha para este verme. Foi ele que te deshonrou?”, perguntou o Barão, apontando para Custódio, que estava irreconhecível, coberto de sangue.
Dona Isabela olhou para Custódio. Ela sentiu nojo, mas não reconhecimento. Não, Donato, não foi ele. Eu nunca vi este homem no meu quarto. O barão ficou ainda mais furioso. O que quer dizer, Isabela? Se não foi ele, quem foi? Está me protegendo? Estou dizendo a verdade. Eu juro. A mentira de dona Isabela era fácil.
Ela sabia que se confirmasse custódio, o barão poderia suspeitar que as filhas também estariam envolvidas com ele, aliviando a situação. Mas ela não podia arriscar que o barão a pressionasse para dar pormenores da época, o que revelaria a discrepância das datas de gestação. Custódio foi levado de volta para o cativeiro, mas a tortura não parou.
O barão estava confuso. Em seguida, foi a vez de Letícia. Letícia estava em frangalhos. Foi arrastada para o pátio a tremer. Ela viu o estado de custódio e sentiu um calafrio, mas quando olhou para ele, ela lembrou-se da força proibida de zombie, do único momento em que ela se sentiu dona de si mesma. Letícia, olhe bem.
Foi esse canalha que a enganou? Diga a verdade, minha filha. Letícia os dentes. Não, papá, não foi ele. Eu nunca ouvia para além do pátio. O Baram estava à beira de um ataque. Tinha a prova física, o pano, mas a negação das mulheres. A a última a ser trazida foi Sofia. Ela caminhou com uma surpreendente dignidade para uma rapariga de 17 anos em tal situação.
Ela olhou para custódio e depois olhou para o tronco. Sofia, dizei-me, foi este homem que corrompeu você? A Sofia olhou para o pai e depois para o grupo de escravos que observava a cena onde zombie estava parado, imóvel. Ela sentiu que estava a selar o seu pacto de rebelião. Não, não foi ele. A negação das três mulheres, cada uma motivada por um medo e um segredo diferentes, protegeu zombie de forma absoluta.
O barão, na sua mente tacanha, concluiu que custódio devia ser o pai, mas que as mulheres, por medo ou vergonha, estavam a mentir para protegê-lo ou a si próprias. Ele não podia aceitar a negação, pois esta significaria que o culpado ainda estava a solta. Nessa noite, o Barão Donato tomou a decisão. Custódio seria punido até à morte como exemplo.
Não importava se ele era culpado ou não. Ele era a desculpa perfeita para a desgraça. Custódio morreu na manhã seguinte sob os golpes finais do barão, que estava mais interessado em descarregar a raiva do que em procurar a verdade. Com a morte de Custódio, a quinta ganhou uma paz enganadora. O barão acha que tinha resolvido ao problema.
que tinha matado o culpado e limpou a honra, pelo menos à frente dos vizinhos. Mas o barão cedo percebeu que a desgraça ainda estava viva, crescendo nos ventres da sua mulher e filhas. E começou a ficar paranóico. Se não foi custódio, quem foi? A partir desse momento, a caça mudou de foco.
O barão começou a olhar para dentro da casa grande, para os seus próprios criados. Começou a observar zombie. Não era uma suspeita direta, mas um incómodo. Zumbi estava sempre ali, forte, silencioso, eficiente. O barão começou a sentir que zombie era demais. Demasiado calmo no meio do caos, demasiado presente. Ele mandou o zombie para trabalhos mais distantes, para os estábulos, para o campo.
Ele não queria zombie por perto, mas zombie era indispensável. Um dia, a dona Isabela estava no jardim a tentar respirar um pouco de ar fresco, a barriga já começando a denunciar o segredo. Zumbi estava a reparar o portão de ferro. O barão observava da janela. Dona Isabela, por um reflexo de medo e necessidade, olhou diretamente para o zombie.

Era um olhar rápido, mas carregado de uma súplica silenciosa. Tem que me proteger. Zombie, habituado a nunca olhar para devolveu o olhar por um instante. Não era um olhar de amor, mas de posse. Ele era o pai do filho dela e ela era dele. O barão viu o intercâmbio. Foi um segundo, um piscar de olhos, mas foi o suficiente para acender uma faísca de dúvida na mente do barão.
O que foi aquilo? O barão murmurou para si mesmo. Porque é que ela olhou para o escravo? Desceu as escadas rapidamente e foi para o jardim. Zombie? Sim, barão. Zumbi respondeu sem se virar imediatamente. Deixe o portão para lá. Vá lustrar a prata na sala de jantar. E você, Isabela, volte para dentro. O barão estava a testar, a separá-los.
Zumbi obedeceu, mas o barão seguiu-o com os olhos. Ele notou a musculatura das costas de zombie, a forma como se movia, a dignidade que era imprópria para um escravo. O barão sentiu um arrepio. Aquele homem era perigoso. A vigilância do Barão tornou-se obsessiva. Ele não podia chicotear zombie por suspeita, pois zombie era um escravo de elevado valor.
Ele precisava de uma prova. O terror na casa grande era palpável. As filhas tinham agora de lidar com a gravidez a avançar e o olhar penetrante do pai sobre elas e sobre zombie. Sofia, a mais ousada, foi a primeira a cometer um erro. Ela estava na biblioteca a ler. Zombie estava na sala ao lado, a reparar uma estante. O barão estava na varanda, longe, mas observando.
A Sofia precisava de um livro que estava na prateleira mais alta. Ela tentou alcançar, mas a barriga atrapalhava-a. Ela suspirou frustrada. Zumbi, sem que Sofia pedisse e sem quebrar a formalidade do silêncio, apenas se aproximou. Subiu à escada, pegou no livro e no entregou-lhe, sem lhe tocar, mas com uma proximidade que era íntima.
“Obrigada”, Sofia, sussurrou. E desta vez o agradecimento dela não foi de uma cinhazinha para um escravo, foi de uma cúmplice para um aliado. O barão viu a cena, viu a facilidade com o zombie aproximou-se, a ausência de medo em Sofia e a troca de olhares que para ele parecia conspirativa. Nessa noite, o Barão Donato não dormiu. Começou a ligar os pontos.
Zumbi era o único homem que tinha acesso constante à casa grande, de dia e de noite. Zumbi era forte, silencioso e não tinha medo. Zombie tinha sido visto em momentos de intimidade casual com as três mulheres. A ideia era repugnante, mas fazia um sentido terrível. O barão chamou o capitão do mato, um homem conhecido pela sua crueldade e lealdade chamado Firmino.
Firmino, quero que observe zombie dia e noite. Se ele tiver um movimento estranho, se ele falar com a, se ele olhar para as raparigas de forma inadequada, avisa-me. Sim, Barão. E o Firmino, se ele for culpado, eu o quero vivo. Eu não o matarei rapidamente. Eu fá-lo-ei desejar a morte. O jogo tinha mudado.
Zumbi não estava mais apenas plantando a semente da vingança. Ele estava agora sob o microscópio do barão, que finalmente tinha dirigido o seu ódio para a pessoa certa. A gravidez da dona Isabela estava no seu sexto mês. Ela estava cada vez mais nervosa, pois o barão começava a calcular as datas. Ele tinha passado os primeiros meses da sua gestação na capital.
Um dia, enquanto o zombie estava a limpar o quarto do Barão, ele encontrou um pedaço de papel no caixote do lixo. Era um rascunho de uma carta para um amigo na corte, onde o barão mencionava as datas da sua última viagem. Zumbi memorizou as datas. Ele sabia que o barão começava a suspeitar da paternidade. Ele precisava de agir, não para fugir, mas para garantir que a dúvida do Barão se voltasse contra ele mesmo. Ele usou Letícia.
A Letícia estava isolada e deprimida, passando os dias no quarto. Zumb, sob o pretexto de arranjar um armário, entrou no quarto dela. Sim, Letícia, o barão está calculando o tempo. Zumbi sussurrou sem olhar para ela. Letícia estremeceu. O que devo fazer? Ele vai matar-me. Assim precisa de uma história. Uma história que ele possa aceitar.
Que história? Diga que o homem que a deshonrou era um conhecido do Barão. Alguém que veio à quinta quando ele cá estava. Alguém que ele não pode tocar. Zumbi estava plantando a semente da suspeita de um nobre rival, desviando a atenção de um escravo. Quem? A Letícia perguntou confusa. O primo do Barão, o coronel Elias.
Ele esteve aqui na altura, não esteve? dizer que ele a forçou sob a ameaça de destruir o barão. O barão não pode matar o primo, mas pode culpar a si próprio por ter trazido o homem para cá. Letícia olhou para zombie, horrorizada pela frieza do plano, mas compreender a lógica de sobrevivência. Ela tinha de criar um monstro de elite para proteger o monstro que ela tinha em casa.
A vingança zombie era tão perversa que estava a usar a nobreza para se proteger, transformando o barão num prisioneiro de suas próprias regras sociais. O barão Donato, atormentado pelas dúvidas sobre a gravidez da esposa, decidiu confrontar novamente Letícia. Chamou-a ao escritório, a só Letícia, sei que mentiu sobre custódio. Diga-me quem é.
Eu juro que se me disser a verdade, eu não a matarei. Letícia respirou fundo. Ela olhou para o pai e viu a oportunidade de zombi. Foi o coronel Elias, papá. O barão cambaleou pálido. Elias, o meu primo. Impossível. Ele é um homem de honra. Ele ameaçou-me. Disse que se eu contasse, ele destruiria o seu nome na corte, que compraria a quinta e nos jogaria na rua. Ele usou a sua ausência.
Eu tive medo, papá. A história perfeita. Elias era um rival conhecido, poderoso e intocável. O barão não podia chicotear Elias até à morte. Ele podia, no máximo, desafiá-lo num duelo que provavelmente perderia. O Barão Donato estava preso. Ele tinha que aceitar a história para se proteger a si mesmo de um escândalo ainda maior.
Se o pai fosse um escravo, o barão seria ridicularizado e arruinado. Se fosse o primo, era uma tragédia entre nobres. O barão começou a beber pesadamente. Ele tinha uma explicação para a Letícia, mas ainda faltava a Sofia. E o que era mais urgente, faltava a esposa. Dona Isabela estava prestes a dar à luz e o barão não podia mais ignorar o calendário.
O barão tinha a certeza de que a criança da esposa não era dele. Ele tinha estado fora por quase 5 meses no início da gravidez. A guerra estava prestes a rebentar no quarto matrimonial. Zombie, sabendo que a pressão estava no máximo, usou o seu último tronfo. Ele precisava de garantir que, mesmo que o Barão desconfiasse dele, não tivesse tempo de agir.
Ele precisava que a Sofia se movesse. Zumbi usou a desculpa de levar comida para a cozinha da casa grande. Ele sabia que Sofia estaria por perto. Deixou cair um pequeno pedaço de carvão no chão, perto dos pés dela. A Sofia baixou-se para pegar. Zumbi sussurrou rápido e baixo, olhando para o frente. O barão vai matar a criança da palavra-passe. Ele sabe que não é dele.
A senhazinha precisa que a criança nasça primeiro. A mensagem era clara. A gravidez de Sofia, que estava um pouco atrás da de Letícia, precisava de ser acelerada. Se o caos fosse total, se houvesse múltiplos nascimentos, a verdade perder-se-ia na confusão. Sofia, a revolucionária, percebe? Ela precisava de um ato final de rebeldia que protegesse zombie e o filho da mãe.
Nessa mesma noite, a Sofia forçou o seu corpo, subindo e descendo as escadas do casarão repetidamente, ignorando a dor e o cansaço. Ela queria que a criança nascesse e, tal como zombie havia planeado, a natureza vergou-se ao desejo de vingança. A meio da madrugada, os gritos de Sofia ecoaram pela quinta. Estava em trabalho de parto, prematuro, mais violento.
O barão correu para o quarto da filha em pânico. O médico foi chamado. O caos era total. E no meio da confusão, Zumbi estava na porta observando. Ele já não era apenas o escravo. Era o único pai de três crianças que estavam prestes a nascer sob o tecto do barão. A primeira criança estava a caminho e a vingança de zombie estava prestes a ganhar carne, sangue e voz.
A fase de plantil estava encerrada. A fase de colheita, a mais perigosa, estava a começar. E o barão, ainda cego pelo ódio e pela honra, estava prestes a segurar nos braços a prova viva da sua derrota total. O grito do bebé rasgou o silêncio da noite e logo de seguida o grito da dona A Isabela começou no quarto ao lado.
A emoção do parto de Sofia apressou o trabalho de parto da Sinh. Em poucas horas, dois bebés nasceriam na casa grande. Eram os primeiros filhos de zombie na casa do seu inimigo. O barão estava prestes a ser pai de dois netos e um filho, todos de sangue escravo. No mesmo dia, Zumbi apenas sorriu, um sorriso sombrio enquanto se afastava para a cenzá-la, esperando o amanhecer e a inevitável descoberta.
O barão tinha matado o homem errado e agora teria que viver com as consequências. O jogo estava prestes a tornar-se letal. A fazenda Ouro Verde acordou a meio da noite com um som que era a mistura de vida e a morte, o grito agudo de um bebé. O barão Donato correu pelo corredor, o roupão de seda despenteado, o rosto inchado pelo sono interrompido e pelo medo. Viu o médico, o Dr.
Peixoto, sair do quarto de Sofia, pálido, limpando o suor da testa. “O que se passou? Ela está bem?”, perguntou o barão ofegante. A assinhazinha Sofia está exausta, Barão, mas está livre de perigo. O bebé nasceu. Um menino? O barão tentou suar vitorioso, mas a voz falhou. Sim, barão. Um menino. O barão empurrou a porta do quarto.
A Sofia estava deitada, fraca, mas com um olhar de desafio que nunca tinha visto. A parte segurava o bebé enrolado num lençol de linho branco. O barão aproximou-se, esperando ver a pele clara, os olhos azuis que eram a marca da sua família. A barteira, com as mãos trémulas, desenrolou um pouco o lençol para mostrar o recém-nascido. O choque foi físico.
O barão cambaleou para trás, como se tivesse levado um soco no peito. O menino era lindo, forte, mas a cor do a sua pele era inconfundível. Não era a palidez dos albuquerques, era escura, um tom de café misturado com leite, com um cabelo crespo e denso. As feições eram fortes, o nariz largo, a boca cheia. O barão estava a olhar para uma cópia em miniatura de zombie.
“Que desgraça é esta?”, sussurrou, a voz a desaparecer. “Isto não é, não é meu.” Sofia da cama reuniu as forças que lhe ram. “É o meu papá e é forte.” O barão não teve tempo de iniciar o seu interrogatório. Um grito, mas forte e desesperado, veio do quarto ao lado. A Dona Isabela estava em trabalho de parto, apressada pelo nervosismo e pela adrenalina da filha.
O médico. Volte a rápido. O Dr. Peixoto, quase desmaiando de terror, correu para o quarto da baronesa. Ele sabia que o que tinha visto no quarto de Sofia era apenas o início do inferno. Em menos de uma hora, a porta do quarto da dona Isabela se abriu. O barão entrou agora com a fúria fria de quem já tinha visto o pior.
O bebé da dona Isabela estava a ser lavado. Era uma menina. E o barão olhou para ela a mesma cor, as mesmas feições fortes. A menina era irmã de sangue do bebé da Sofia e não tinha o menor traço da linhagem Donato de Albuquerque. O Barão sentiu o mundo ruir. Ele tinha um filho bastardo da sua mulher e um neto bastardo da sua filha, todos com a mesma marca biológica, a marca proibida.
Olhou para a dona Isabela, que estava chorando em silêncio na cama. “Quem?” Perguntou, não gritando, mas com uma voz tão baixa e carregada que era mais aterrador que qualquer berro. “Quem se atreveu a fazer-me isto, Isabela?” A Dona Isabela fechou os olhos. Não sei, Donato. Juro que não sei. Era um homem que estava de passagem.
Mentira. O barão agarrou-lhe o braço. O mesmo homem visitou-o a si e à Sofia na mesma noite. E a cor, Isabela? Por que razão a cor? A baronesa tremeu. Ela não podia culpar zombie. Ela tinha de manter a mentira. Não sei, Barão. Talvez, talvez seja a maldição da terra. O barão soltou-a com repulsa.
Ele olhou para os dois bebés embrulhado separadamente. Eram a prova viva de que ele havia matou o homem errado. Custódio era inocente. O culpado era alguém que ainda estava na quinta, alguém que tinha acesso íntimo, que era forte e que tinha o sangue escuro. O barão, pela primeira vez na sua vida, pensou em zombie. Ele pensou na força silenciosa de zombie, nos olhares rápidos que tinha apanhado, na forma como as filhas e a esposa pareciam acalmar-se estranhamente na presença do escravo.
A ideia era tão monstruosa, tão humilhante, que o barão sentiu náuses. Um escravo, um pedaço de propriedade, um animal, tinha destruído a sua honra e a sua linhagem, e o barão tinha matado o capataz branco, pensando que a ameaça vinha dos seus iguais. Ele saiu dos quartos cambaleando, indo diretamente para o escritório.
Lá ele chamou Firmino, o capitão do mato. Firmino? O capitão entrou, curvando-se. Barão, quero que reúna todos os escravos da casa grande. Todos os homens. Sim, Barão. E zombie, onde ele está? Zombie está nos estábulos preparando os cavalos para amanhã, Barão. O barão cerrou os punhos. Firmino, quero que o traga aqui agora, mas sem a Lar, diga que é para um serviço especial.
Ele precisava confrontar zombie, mas não podia fazê-lo em público. Se a verdade de que um escravo era o pai dos filhos do barão vazasse, ele seria a chacota da província. O barão esperou no salão, a luz fraca das velas projetando sombras longas e distorcidas. Ele estava com a espingarda de caça na mão, o cano frio e pesado.
Zumbi entrou no salão, silencioso como sempre. Ele estava a usar apenas uma camisa de algodão e calças gastas. Parou a uma distância segura, os olhos fixos no chão. O barão chamou-me. Olha para mim, zombie”, ordenou o barão. Zombie levantou a cabeça. O seu olhar era calmo, sem medo. Era a calma do homem que sabe que ganhou, mas que está pronto para o preço da vitória.
O barão olhou para o rosto de zombie e depois se lembrou-se dos rostos dos bebés. A semelhança era innegável. “Você é um animal zombie, um verme. Você usou a liberdade que te dei para me roubares. Eu sou o seu escravo, Barão. Eu não roubo. Eu levo o que está disponível. A audácia de zombie era uma bofetada na cara.
Ele estava confessando sem dizer uma palavra. Minha esposa, minhas filhas, tu as deshonrou. A deshonra não é minha, Barão. A deshonra é de quem não sabe proteger o que tem. A deshonra é de quem deixa a cerca partida e espanta-se com o animal que entra. O barão estava a tremer de raiva. Ele levantou a espingarda.
Eu vou matar-te lentamente, zombie. Você vai desejar não ter nascido. O barão pode-me matar, mas não pode matar a verdade, disse zombie. O barão pode chicotear-me até ao osso, mas o meu sangue já corre nas veias da sua família. Não de um, mas de dois. E logo de três, o barão congelou. Três.
Assim, assim, a Letícia também está à espera e o filho dela terá o mesmo rosto que eu. O barão terá três herdeiros, três zombies. O barão Donato soltou um grito de dor e fúria que ecoou pelos corredores. Ele atirou a espingarda contra zombie. Zumbi se baixou, desviando o tiro por um trz. O tiro atingiu o espelho veneziano atrás dele, estilhaçando o vitro em mil pedaços.
O som do tiro despertou a casa inteira. Zumbi sabia que já não tinha tempo. O segredo tinha explodido. Ele correu não para a porta, mas para a cozinha, onde sabia que a faca de açueiro estava pendurada. O barão, fora de si, gritou: “Fermino, Firmino, apanhem-no, matem-no!” O capitão do mato e mais três homens armados correram para o salão.
O que se passa, Barão? Zombie! Ele é o culpado. Ele desgraçou a casa. Peguem-no! A caçada começou! Zumbi correu pelos fundos da casa, mas não estava fugindo sem rumo, ia parazala. Ele tinha de pegar no machado que guardava e, mais importante, ele tinha que enviar uma mensagem. Ele sabia que seria difícil sair da quinta vivo, mas o principal objetivo, a vingança de sangue, estava completa.
Agora era lutar pelo legada. Chegou a cenzala, que estava empolvorosa com o som do tiro e os gritos do barão. Os outros escravos olhavam para ele com uma mistura de terror e admiração. Eles sabiam que aquele homem tinha feito o impensável. Zumbi pegou no seu machado, no ferro frio e familiar nas suas mãos.
O barão sabe, ele gritou para os homens da cenzala. Eu não fugirei, lutarei. Ele correu para a parte de trás do complexo em direção aos campos de café, onde a floresta era densa e dava alguma hipótese de defesa. O barão no salão estava a recompor-se, o rosto vermelho de ódio. Não o matem. Eu quero ele vivo.
Quero que ele confesse na frente de todos. Firmino e os seus homens embrenharam-se na mata, seguindo o rasto de zombie. Enquanto a caçada se desenrolava nos campos, na casa grande, o pânico das mulheres era total. A Dona Isabela, no seu leito, sabia que o Barão estava prestes a descobrir a verdade completa. Ela sabia que a sua vida dependia da sobrevivência de zombie, pois se ele fosse torturado, falaria.
Letícia, a única que ainda não tinha dado à luz, sentia o terror aumentar a cada hora. O seu parto estava previsto para dali a há um mês e ela seria a terceira e última prova do crime de zombie. O barão, ignorando o perigo da caçada, voltou para o quarto da Sofia. Quem mais? Ele exigiu olhando para o bebé deitado ao lado dela.
Foi zombie quem te forçou ou foi cúmplice desse animal? Sofia olhou para o pai, a fraqueza do parto sumindo e dando lugar à força da convicção. Eu não fui forçada, papá. Eu escolhi. Zumbi é o único homem nesta quinta que me tratou como gente e não como uma propriedade. O barão levantou a mão para lhe bater, mas parou. A gravidez e o parto recente protegiam-na.
Por enquanto, está louca. Você o escolheu? Um escravo. O barão me prometeu a um velho repugnante. O barão me vendeu. Zombie deu-me liberdade. A revelação de Sofia selou o destino do Barão. Percebeu que a vingança de zombie não era apenas física, era ideológica. Ele tinha corrompido a mente das suas filhas, fazendo-as acreditar que a rebeldia era a honra.
Ele virou-se e correu para o quarto de Letícia, que estava em pânico. Letícia, diga-me que não foi você também. Diga-me que o coronel Elias é o pai do seu filho. Letícia, presa entre o desespero e a lealdade a zombie e a si mesma, agarrou-se à mentira que tinha plantado. Sim, papá. Foi o Elias. Eu juro, o barão estava dividido.
Duas filhas, dois culpados diferentes. A esposa, um terceiro culpado. Era demais paraa sua mente. Ele precisava de zombie. Ele precisava da confissão do escravo para dar sentido ao caos. A caçada durou toda a manhã. Zumbi, ágil e conhecedor da floresta, conseguiu manter-se à frente de Firmino e os seus homens.
Ele não estava apenas fugindo, estava a atraí-los. Ele sabia que a única forma de sobreviver era transformar a caçada em uma emboscada. Zumbi escondeu-se em um pequeno riacho coberto pela vegetação densa. Ouviu os passos pesados de Firmino e a respiração ofegante dos outros. “Ele não pode estar longe”, gritou Firmino. “O barão quer vivo”.
Quando Firmino se aproximou, zombie saltou da água, o machado erguido. O ataque foi rápido e brutal. Zombie não visava para matar, mas para encabar. Atingiu o braço de Firmino, que largou a arma, e gritou de dor. Os outros dois homens hesitaram. Eles eram caçadores de escravos, não lutadores de machado na mata.
Zombie aproveitou a confusão. Ele virou-se para um dos capangas e o atingiu-o na perna, derrubando-o. O terceiro capanga, esperto, começou a correr de volta para a quinta. Zombie parou. Ele tinha ganho tempo. Tinha partido a perna de um e o braço de outro, mas sabia que a luta não tinha terminado.
Ele precisava de um plano que fosse para além da fuga. Ele necessitava de uma libertação total. O capanga que fugiu regressou à fazenda ensanguentado e a tremer, para dar a notícia ao Barão. Barão, ele atacou-nos. Partiu o braço de Firmino. Ele está armado com o machado e está na mata. O barão domato, ouvindo que zombie tinha resistido, sentiu um novo nível de ódio.
Zumbi não era apenas um adúltero, era um rebelde. Chamem todos os homens, todos os os colonos. Quero que cerquem a mata. Ele não vai sair daqui. A quinta do Ouro Verde transformou-se em um campo de guerra. O barão montado no seu cavalo liderava a busca, a espingarda carregada. Zombie na mata viu a movimentação.
Dezenas de homens armados que cercam a única saída. Ele sabia que não podia vencer todos, mas também sabia que a casa grande estava vulnerável. Zombie esperou que a noite caísse. Enquanto o Barão e a maioria dos homens estavam ocupados na mata, Zumbi fez o caminho de volta, utilizando trilhos que só ele conhecia.
Voltou para a Senzala, onde encontrou os escravos reunidos, assustados. O barão não me pode apanhar”, disse, a voz baixa e urgente, “mas ele vai castigar-vos por eu ter fugido.” Os escravos olhavam para ele. Eles sabiam que a fuga de zombie significaria chicote e fome para todos eles. “O barão vai matar todos, um a um, para dar o exemplo.” Zombie olhou para o céu escuro.
“Eu plantei aqui a semente da vingança dentro. Agora, se querem colher a liberdade, têm de se levantar.” Era o momento da revolta. Zombie, o pai dos herdeiros do barão, estava a pedir aos seus irmãos de cativeiro que lutassem. Houve hesitação. O medo do barão era uma corrente mais forte que qualquer ferro.
E se não quisermos? Perguntou um escravo mais velho chamado João. Então morrerão de joelhos. Eu vou morrer a lutar e os meus filhos terão o barão como avô. Mas saberão que o o pai deles não foi um cobarde. A dignidade de zombie e a sua ousadia quebrou a hesitação. Eles pegaram machetes, enchadas, tudo o que podiam usar como arma.
O plano de zombie era simples, criar um caos tão grande que o barão fosse obrigado a escolher entre a vingança e a sobrevivência da sua propriedade. Entretanto, Letícia entrou em trabalho de parto. O medo, o stress, o caos da caça, tudo se combinou para acelerar o nascimento. O Dr.
Peixoto estava quase em estado catatónico, mas foi obrigado a atender Letícia. O barão estava na varanda da casa grande, gritando ordens aos homens na mata quando ouviu os gritos do seu filha. Entrou na casa e correu para o quarto da Letícia. O terceiro bebé nasceu, uma menina. O barão olhou para o terceiro filho de zombie, a terceira prova da sua desgraça.
Três, murmurou, a sanidade mental se esvaindo-se. Três, já não podia negar. A prova estava ali viva, chorando nos braços da parteira. O barão estava prestes a explodir quando ouviu um grito vindo da cenzala. O fogo. Zumbi e os escravos tinham incendiado a cenzala e o celeiro. O fogo subia, iluminando a noite. O barão foi obrigado a escolher vingar-se de zombie ou salvar a sua quinta.
Correu para fora, gritando: “O fogo! Voltem! Salvem o celeiro. A vingança de zombie tinha atingido o seu ápice. Tinha destruído a honra do Barão e agora estava a destruir o seu riqueza. No meio do caos, zombie reapareceu. Ele estava em frente da casa grande, com o machado na mão, a silhueta escura contra o brilho das chamas.
Olhou para o barão. Eu não sou o seu escravo barão. Eu sou o pai dos seus filhos. O barão, enlouquecido, correu em direcção a ele, a espingarda erguida. Eu vou matar-te. O duelo final estava prestes a acontecer no pátio da quinta Ouro Verde, como o Barão a lutar para proteger o que restava da sua vida e zombie lutando para garantir que a sua vitória biológica se transformasse em liberdade real. O barão disparou.
Zumbi desviou-se, mas sentiu o calor do tiro rasgar a sua lateral. Ele estava ferido. A vingança estava a custar-lhe caro, mas ele havia vencido. Tinha três filhos na casa do inimigo e o barão estava de joelhos. Não por causa de um machado, mas por causa de um segredo. Zumbi levantou o machado pronto para o último golpe.
Ele não queria apenas a morte do Barão. Ele queria o fim de tudo o que ele representava. Mas o final da história era incerto. Ele estava rodeado pelos homens que voltavam do cerco da floresta. Zombie tinha que ser rápido. O barão estava a levantar-se, a arma vazia. O destino da exploração e da linhagem estava em causa.
E Zumbi, o escravo, que ousou tocar no intocável, estava prestes a fechar o ciclo da sua vingança ou morrer a tentar. Ele olhou para a casa grande, onde os seus filhos choravam. Ele tinha de sobreviver por eles. O Barão Donato estava cego. A fúria era tão grande que não viu o machado de zombie se mover. Apenas sentiu o golpe. Não foi um golpe para matar.
Mais um golpe para quebrar. Zombie usou o lado cego do machado e atingiu o joelho do barão, que não estava protegido pelo impulso da corrida. O barão soltou um grito medonho, não apenas de dor física, mas de horror ao ver o escravo, que ele considerava gado, ousar tocar-lhe daquela forma. Caiu no chão, a queda humilhente, no meio do pátio iluminado pelas chamas do celeiro em chamas.
O barão tentou arrastar-se, mas a perna estava inutilizada. Ele olhou para zombie, que estava ferido na lateral pelo tiro, mas de pé imponente, com o machado pingando suor e talvez um pouco de sangue da luta na mata. Aquele momento era o auge da vingança. Zombie não era mais o carpinteiro, nem o faz tudo.
Ele era o destruidor da linhagem. Os homens do barão, que regressavam a correr para apagar o fogo, pararam ao ver a cena. O seu barão estava no chão, humilhado, e Zumbi, o escravo, estava de pé sobre ele. “Apanhem-no, matem este demónio”, berrou o barão, a voz a falhar. Mas os homens hesitaram. Viram o fogo, viram a loucura nos olhos do Barão e viram a calma mortal de zombie.
Zumbi olhou para os homens armados que agora o cercavam num semicírculo hesitante. Ele sabia que se o atacassem morreria, mas não tinha de lutar mais. A luta física já tinha sido vencida pela biologia. Ele baixou o machado, mas manteve-o firme na mão como um ceptro. Se me matarem, matam o pai dos seus futuros senhores”, disse Zumbi.
A voz rouca, mas suficientemente alta para ser ouvida por todos, incluindo os criados que a espreitavam da cenzala. O silêncio foi absoluto, quebrado apenas pelo crepitar das chamas. O Barão Donato, no chão, tentou gritar, mas apenas torciu. “Mentira! É um animal, não acreditem nele. Zumbi apontou o machado para o barão.
Perguntem-lhe sobre os três bebés que nasceram hoje. A criança da senha Isabela, a da Sofia e a que acabou de nascer no quarto de Letícia. Três crianças Barão, todas com a mesma marca, todas com o meu sangue. Aquelas palavras caíram sobre os homens como pedras. Olharam para o barão, depois para a casa grande, onde as luzes estavam acesas e os choros dos recém-nascidos flutuavam no ar.
O barão Donato tinha tentado esconder a desgraça, mas um Bia tinha exposto sobre o fogo. “Será que ele está louco? É um feitiço!”, gritava o barão desesperado. Zumbi se ajoelhou lentamente, ficando à altura do barão. “Eu não sou um feitiço, Barão. Eu sou a sua verdade. Você pode matar-me agora, mas amanhã, quando o Barão Donato de Albuquerque tiver de apresentar os seus herdeiros na corte, ele terá de explicar porque têm a cor da terra que ele chicoteou.
Zumb sabia que a honra era mais importante para o barão do que a própria vida. A morte de zombie seria um final glorioso para o barão, um silvado de justiça. Mas a sobrevivência zombie e o segredo que transportava era a ruína total. Se o barão me matar, garanto que todos os saberão. Assim, e as raparigas também não guardarão o segredo para sempre.
Zumbi continuou a olhar para a casa grande. Não mentiram para me proteger, mentiram para se protegerem do barão. E se eu morrer, elas já não terão motivo para mentir. O barão, com o rosto no chão, sentiu a totalidade do seu derrota. A sua mulher, as suas filhas, haviam se aliado de forma perversa ao homem que mais desprezava.
E agora era refém daquele escravo. Zumbi levantou-se e olhou para os homens. O barão quer-me vivo. Ele precisa de mim vivo para manter o nome dele. Os homens se entreolharam. A lógica de zombie era cruel, mas irrefutável. Se o barão matasse a zombie, o escândalo seria inevitável. O barão Donato de Albuquerque, o orgulhoso senhor de ouro verde, fez a única coisa que um homem em a sua posição, com o joelho partido e a alma dilacerada, poderia fazer para salvar o que restava da sua reputação.
“Parem!”, gritou, com a voz rouca. “Parem, não lhe toquem!” Ele olhou para zombie, os olhos cheios de lágrimas de ódio. “O que é que queres, animal? Eu quero a minha alforria, Barão, e alforria dos os meus filhos. Nunca. Então mate-me, Barão, e veja a sua família virar cinzas, como o seu celeiro. O fogo na cenzala e no celeiro era a prova viva de que zombie não temia nada.
Ele estava disposto a queimar tudo para garantir a sua liberdade. O barão gemeu, esfregando o chão com a mão. Ele estava preso no tabuleiro de xadrez que zombie havia montado. “Você, terá a sua liberdade.” O barão sebilou, a voz quase inaudível. Mas vai-se embora e nunca mais voltará. Zombie abanou a cabeça. Não, não vou embora.
Eu sou o pai dos seus netos, Barão. Eu não vou deixar os meus filhos para serem griados por um homem que os odeia. Eu vou embora sim, mas com as minhas mulheres e os meus filhos. A exigência era absurda. Levar a Simá e as duas filhas todas grávidas para longe era o roubo da sua família, do seu propriedade, do seu futuro. Se o fizer, direi a todos que que a raptou, que as levou à força.
Zumbi vorriu, um sorriso de triunfo frio. O barão pode dizer o que quiser, mas assim a Isabela e a senhazinha Sofia escolheram-me. E à Letícia, ela me escolheu para se vingar do casamento arranjado. Elas não são suas prisioneiras, Barão. Elas são cúmplices da minha revolução. Zumbi fez um gesto aos homens que o cercavam.
Levem o barão para dentro. Cuidem da perna dele e digam ao Dr. Peixoto para cuidar do Sinai e das raparigas. Os homens, confusos e aterrorizados obedeceram a zombie. A autoridade de zombie não vinha da lei, mas da força do segredo. Nos dias que se seguiram, a quinta do Ouro Verde tornou-se um lugar silencioso e estranho.
O Barão Donato estava acamado, com a perna partida e a alma em pedaços. Ele estava sob o domínio de zombie, o escravo que agora controlava a casa grande. Zumbi não fugiu, ficou. Ele supervisionou as reparações do incêndio. Ele cuidou dos cavalos. Ele garantiu que a quinta continuasse a funcionar. Mas agora caminhava com a dignidade de um homem livre e o poder de um senhor.
Ninguém ousava tocar-lhe. Os escravos o viam como um herói, o homem que tinha quebrado o barão. Os capangas viam-no como um demónio, alguém que estava protegido por uma maldição biológica. As três mulheres, por sua vez, tinham entrado num acordo silencioso. Elas sabiam que Zumbie era a única garantia de que o Barão não as mataria ou as enlouqueceria.
A Dona Isabela, assim, já pegou na criança como a sua única hipótese de recomeço, mesmo que fosse ao lado do escravo que ela temia. Letícia, a mais velha, viu no ao seu bebé a hipótese de escapar do casamento arranjado. Ela usou o zombie para subverter o seu destino e agora ela ouvia como o seu libertador.
A Sofia, a mais nova, sentiu que a sua rebeldia tinha sido validada. Ela tinha conseguido quebrar as regras e sobreviver. Uma semana depois, zombie entrou no quarto do barão. O barão estava deitado, pálido, a dor física e moral estampada no veio matar-me? Perguntou o Barão, a voz fraca. Não, Barão. Eu vim buscar a minha liberdade e a da minha família.
Zumbi colocou três papéis de alforria sobre a mesa de cabeceira. Eu escrevi esses documentos. Eu sou o carpinteiro. Eu sei escrever. Três alforrias, uma para mim, outra para Siná Isabela e uma para Sofia. E a Letícia. A Letícia é a única que ainda pode ser salva pela sua mentira. Ela dirá que o filho é do coronel Elias.
Ela voltará para a corte e viverá da sua desgraça. Ela é a mais esperta. O barão olhou para os papéis. E se não assinar? Se o barão não assinar, levo os três bebés para a capital e mostro-os a todos, dizendo que são os herdeiros do Barão Donato, nascidos da sua escrava e suas filhas. O Barão será o maior motivo de chacota do império e queimarei o resto da quinta.
A ameaça era real. O barão estava paralisado. Com a mão crêmula, o barão do nato de Albuquerque assinou os três documentos de alforria. Zombie pegou nos papéis, secou a tinta e guardou-os no bolso. O barão vê precisar de uma história disse zombie, olhando para o homem que tinha sido o seu carrasco.
Que história? Diz que assim, a e a Sofia fugiram com um amante, um homem rico de outra província, e que sois barão, por vergonha as renegou. O barão fechou os olhos. A mentira era a única coisa que lhe restava. No dia seguinte, a quinta do Ouro Verde testemunhou a partida mais estranha de a sua história.
Zumbi, o ex-escravo, saiu da casa grande carregando a menina recém-nascida da dona Isabela. Dona Isabela, assimá, vinha logo atrás com o filho de Sofia nos braços. Sofia caminhava ao lado dela com a cabeça erguida. A Letícia foi a única que permaneceu. Ela acenou à mãe e à irmã da varanda, a sua barriga de sete meses escondida sobre um grosso chale.
A sua vingança seria continuar ali sobre o tecto do barão, criando o filho de zombie como se fosse o filho de um nobre rival. Ela seria a memória constante e dolorosa da traição. Zombie olhou para trás, para a casa grande, onde o barão Donato de Albuquerque observava da janela do quarto, o rosto, uma máscara de derrota.
A vingança biológica estava completa e tinha gerado a liberdade. Zumbi, a dona Isabela e a Sofia, juntamente com os dois bebés de cor escura, seguiram para norte, para as terras distantes, onde a lei do Barão não alcançava. Eles tornar-se-iam uma nova família forjada no tabu, na dor e na revolta. O barão Donato de Albuquerque sobreviveu.
Ficou na quinta, rico em terras, mas pobre em honra. Ele tinha três netos e um filho bastardo, todos com o sangue de zombie, o escravo. Era forçado a sustentar e proteger o segredo que o destruía. A fazenda do Ouro Verde, que ele queria que representasse a pureza da sua linhagem, tornou-se o monumento vivo da sua derrota. E de cada vez que via o rosto do seu filha Letícia, ouvia o choro dos bebés que teve de fingir que não existiam, ele sabia.
Zombie tinha vencido. O escravo tinha levado tudo sem matar o corpo do barão, mas aniquilando a sua alma. E assim, Zumbi, o homem silencioso e forte, garantiu que a sua história não fosse a de um escravo esquecido, mas a do homem que usou a vida para destruir a tirania de dentro para fora, plantando a semente da liberdade na cama do seu Senhor.
E esta, meus amigos, é uma história que o tempo não se apagou. M.