A política brasileira está passando por um de seus momentos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais intensos. Em um movimento que chocou aliados e opositores, o Supremo Tribunal Federal (STF), sob a liderança de Alexandre de Moraes, começou a reverter as decisões sobre a chamada “dosimetria penal”, que envolvem a redução de penas dos condenados pelos ataques de 8 de janeiro e outras ações golpistas. A medida, que vinha sendo defendida pela extrema-direita como uma forma de “aliviar” as penas de bolsonaristas, agora enfrenta um bloqueio institucional que promete abalar as bases do governo Bolsonaro e colocar em xeque a sobrevivência política de seu clã.

A decisão de Moraes, que suspendeu temporariamente os efeitos da dosimetria, revelou as profundas divisões dentro do próprio bolsonarismo e expôs a fragilidade de um movimento político que, durante anos, se manteve unido em torno da figura de Jair Bolsonaro. Mas agora, com a pressão do STF e o enfraquecimento da narrativa bolsonarista, uma nova realidade política começa a se desenhar no Brasil.
A Inversão da Narrativa: O STF e o Fim do Jogo para Bolsonaro?
Durante anos, a extrema-direita brasileira alimentou uma narrativa de que a aprovação da dosimetria seria uma vitória contra o STF e uma forma de anistiar os condenados pelos eventos de 8 de janeiro. O bolsonarismo tentou, de todas as maneiras, transformar esse processo em um simbolismo de “vitória” contra as instituições, criando uma expectativa irreais na sua base de apoio. No entanto, o STF, agindo dentro dos limites constitucionais, suspendeu a aplicação da lei até que o plenário decida sobre a sua constitucionalidade. Essa decisão gerou uma verdadeira onda de pânico dentro do governo Bolsonaro, especialmente entre os aliados que acreditavam que a dosimetria fosse a última esperança para salvar seus aliados condenados.
A reação foi imediata. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, apareceu em diversos meios de comunicação tentando transformar a decisão do STF em mais um ataque político ao governo Bolsonaro. A narrativa de “perseguição política” foi reavivada, mas o questionamento se levantava: como pode o Congresso ser desrespeitado se um órgão do judiciário, o STF, está cumprindo seu papel constitucional de revisar a constitucionalidade das leis?
A grande questão, que agora está dividindo opiniões, é que, ao contrário do que o bolsonarismo propagou, a dosimetria nunca seria uma solução imediata para a liberação de condenados ou para a redução automática de penas. A lei precisaria passar por uma análise detalhada, o que já estava sendo previsto por aqueles que compreendem o processo legal e a jurisprudência do STF. Por mais que os aliados de Bolsonaro tentassem apresentar essa medida como uma grande vitória política, a realidade do processo penal foi duramente exposta pelo Supremo Tribunal Federal.
A Armadilha Política Criada Pelo Bolsonarismo
O bolsonarismo criou uma armadilha política para si mesmo ao construir a narrativa de que a dosimetria seria uma “porta aberta” para a redução de penas de golpistas. Essa estratégia alimentou expectativas altas entre seus apoiadores, que passaram a acreditar que a aprovação da lei significaria, na prática, a liberdade de vários envolvidos nos ataques contra as instituições democráticas no Brasil. Essa falsa expectativa foi alimentada durante meses, até que a decisão do STF chegou como um balde de água fria.
Alexandre de Moraes, com sua decisão, desmantelou politicamente a estratégia do bolsonarismo. O que parecia ser uma vitória do governo Bolsonaro, na verdade, virou uma pedra no sapato. Agora, a extrema-direita tem que lidar com a frustração de sua base de apoio e a crescente percepção de que seus discursos de “perseguição” não têm mais fundamento jurídico. As investigações sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro e as articulações antidemocráticas, incluindo a pressão sobre os ministros do STF e a desinformação em massa, começaram a ser desmanteladas no ambiente jurídico.
Flávio Bolsonaro e A Estratégia de “Vitimismo”
Flávio Bolsonaro, em sua defesa, rapidamente se utilizou do discurso de vitimismo. Ele procurou transformar a decisão do STF em mais uma suposta injustiça contra o bolsonarismo. Contudo, o que ficou claro para boa parte da população e das instituições é que essa retórica não se sustentava. Enquanto o governo de Lula tenta recuperar a imagem institucional do Brasil e se fortalecer perante a comunidade internacional, o bolsonarismo se vê envolto em uma narrativa de conflito constante, onde todas as derrotas são tratadas como “golpes”.
Esse cenário, que mais uma vez coloca as instituições contra o bolsonarismo, reflete uma estratégia de comunicação que usa a polarização para fortalecer sua base, mas que ao mesmo tempo leva à perda de apoio entre aqueles que não compartilham dessa visão extremista. Flávio Bolsonaro, em sua tentativa de gerar apoio, não faz mais que alimentar a radicalização, criando uma situação onde o conflito se torna uma necessidade política.
O Impacto Político das Decisões do STF e a Fragmentação do Bolsonarismo
A decisão do STF é apenas um reflexo das crescentes divisões dentro do bolsonarismo. O que antes parecia ser um movimento político imbatível, agora está à beira do colapso. A disputa entre as diferentes facções do bolsonarismo, as traições familiares e os escândalos de corrupção estão tornando impossível a construção de uma narrativa coesa. Mesmo aliados do ex-presidente, como Ciro Nogueira, se veem em um dilema político, já que a aliança com Bolsonaro está cada vez mais difícil de sustentar.
A fragmentação política, alimentada pela tentativa de intervenção nos processos judiciais, está criando um ambiente político caótico no Brasil. O que se viu nos últimos meses foi um governo que não conseguiu implementar suas políticas de forma eficaz e, agora, se vê cercado por crises internas. O resultado é um quadro de desconfiança institucional e uma crescente desilusão com o que o bolsonarismo representa para o país.
Lula, O STF e a Recuperação da Ordem Institucional
Enquanto o bolsonarismo se fragmenta e perde força, o governo Lula segue avançando. Lula tem buscado restabelecer a ordem institucional e reforçar a estabilidade do país, mesmo com a oposição ferrenha de setores conservadores. A relação com o STF, embora tensa em alguns momentos, não se compara ao clima de ataque contínuo e deslegitimação promovido pelo bolsonarismo.
Com a decisão do STF, o Brasil vê uma tentativa de consolidar as bases democráticas e evitar que a narrativa bolsonarista de ruptura institucional ganhe força. A “reconstrução” do país, que Lula prometeu durante sua campanha, começa a tomar forma, mas o desafio agora é a manutenção da estabilidade política diante da fragmentação da oposição e das tensões no Congresso.
Conclusão: A Guerra Política Ainda Está em Jogo
O jogo político no Brasil não está nem perto de ser resolvido. A decisão do STF sobre a dosimetria foi apenas mais um capítulo dessa luta pela sobrevivência política, onde o bolsonarismo tenta reverter sua queda e criar uma nova narrativa. A perda de apoio, a fragmentação interna e as investigações continuam a corroer as bases de apoio de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, o governo Lula se vê diante da tarefa de consolidar suas vitórias enquanto enfrenta um Congresso fragmentado e um setor conservador cada vez mais fragmentado.
Agora, a grande questão é: quem sairá vitorioso dessa guerra política? O bolsonarismo, dividido e enfraquecido, ou o pragmatismo de Lula, que busca a estabilidade institucional e a reconstrução econômica do país? O futuro político do Brasil está longe de ser claro, mas uma coisa é certa: o caminho adiante será cheio de desafios e disputas ferozes. O país está em uma encruzilhada política, e os próximos passos serão determinantes para o destino da democracia e da governabilidade no Brasil.