O Dia em que a Porta Estava Aberta: Lula Revela os Bastidores do 8 de Janeiro e o Choque com a Falha da Inteligência
A sexta-feira, 6 de janeiro de 2023, deveria ter sido um dia de descanso e resoluções domésticas para Luiz Inácio Lula da Silva. Após uma posse histórica e festiva, o presidente recém-empossado viajou para São Paulo com um objetivo simples: organizar sua casa, que ficara vazia durante a transição, e visitar Araraquara, cidade castigada por chuvas severas que vitimaram uma família inteira. O clima era de otimismo, o “Brasil tinha voltado a sorrir”, como ele mesmo descreveu. No entanto, o que se seguiu nas 48 horas posteriores transformaria aquele sorriso em uma expressão de incredulidade e indignação que marcaria o início de seu terceiro mandato.
Em uma entrevista profunda e reveladora à jornalista Natuza Nery, na GloboNews, Lula abriu as portas de sua percepção sobre a tentativa de golpe que abalou as estruturas da República. Com um tom que mescla a autoridade de quem ocupa o cargo máximo da nação e a mágoa de quem se sentiu traído pelas instituições de segurança, o presidente detalhou os momentos de tensão, as decisões cruciais e a convicção de que o caos não foi um acidente, mas um plano executado por profissionais com a conivência de quem deveria proteger o Palácio do Planalto.

O Mistério das Portas Abertas e o “Apagão” da Inteligência
“Onde é que estão os soldados?”. Esta foi a pergunta que Lula repetiu exaustivamente ao telefone, enquanto assistia, pelas telas de um computador em Araraquara, a horda de invasores caminhando livremente pelos salões do poder. A narrativa de Lula é cortante: ele não viu resistência. Ele viu passividade. Mais do que isso, ele viu algo que classificou como “conivência explícita”.
Para o presidente, a facilidade com que o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal foram invadidos não deixa dúvidas. “Eles não quebraram para entrar, eles entraram porque a porta estava aberta. Alguém de dentro do palácio abriu a porta para eles”, afirmou. A suspeita recai sobre a negligência, ou algo pior, de setores da Polícia Militar do Distrito Federal e das próprias inteligências que orbitam a Presidência.
Lula foi enfático ao criticar o que chamou de inexistência de inteligência. Ele citou nominalmente o GSI, a ABIN e as inteligências das Forças Armadas. “Nenhuma dessas inteligências serviu para avisar ao Presidente da República”, desabafou. Se soubesse na sexta-feira que oito mil pessoas marchariam sobre a Praça dos Três Poderes, ele garante que jamais teria deixado Brasília. O erro elementar de avaliação, segundo ele, foi confiar em relatórios que apontavam um cenário de absoluta tranquilidade.
A Recusa da GLO: O Poder em sua Plenitude
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a explicação de Lula sobre a recusa em assinar um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Naquele domingo fatídico, com o Planalto depredado, a sugestão de uma GLO estava sobre a mesa. Lula, no entanto, recusou-a prontamente. A razão? Memória política e autoridade.
Relembrando a intervenção no Rio de Janeiro anos antes, onde o governador tornou-se, nas palavras de Lula, a “Rainha da Inglaterra”, o presidente decidiu que não abriria mão de seu poder em favor dos militares. “Eu não ia abrir mão de cumprir com as minhas funções e exercer o poder na sua plenitude”, explicou. A solução foi a intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal, focada especificamente na polícia que, segundo o governo, havia se omitido. Foi uma decisão política estratégica para manter o controle civil sobre a crise e evitar que o remédio se tornasse um novo veneno democrático.
A Sombra de Bolsonaro e a “Prática Nazista”
Lula não poupou críticas ao seu antecessor, Jair Bolsonaro. Embora ressalte que as investigações devem provar as responsabilidades, o presidente afirmou ter a nítida impressão de que os invasores cumpriam ordens e orientações disseminadas por Bolsonaro durante anos. O silêncio do ex-presidente após a derrota, a fuga para Miami e a recusa em passar a faixa foram interpretados por Lula como sinais de que ele “sabia de tudo”.
O presidente classificou os atos como uma “prática nazista e fascista”, algo nunca visto na história do país, nem mesmo nos momentos mais tensos da resistência à ditadura militar. Para ele, o que ocorreu em Brasília foi o auge de quatro anos de ódio e mentiras disseminadas 24 horas por dia. Lula traçou um paralelo entre a velocidade da mentira e a lentidão da verdade, destacando que a desinformação moderna, inspirada pelo modelo de Donald Trump nos Estados Unidos, é um desafio global para as democracias.
O Futuro das Forças Armadas e a Despolitização
Olhando para frente, Lula sinalizou um desejo de normalidade, mas sob novas regras. Ele pretende reconstruir a relação com as Forças Armadas, focando no fortalecimento da indústria de defesa e na proteção das fronteiras e da Amazônia. No entanto, o recado foi claro: a despolitização é inegociável.
“O soldado, o coronel, o general… eles defendem o Estado brasileiro. Não é o exército do Lula, não é do Bolsonaro”, afirmou. Para o presidente, quem quiser fazer política deve tirar a farda, renunciar ao cargo e fundar um partido. A mensagem de que todos os envolvidos nos atos golpistas serão punidos, independentemente da patente, serve como um divisor de águas que ele pretende estabelecer neste novo capítulo.
Uma Obsessão: Cuidar do Povo e Recuperar a Civilidade
Ao final da conversa, Lula deixou de lado os detalhes técnicos da segurança para falar de sua “obsessão”. Ele descreveu seu terceiro mandato como a missão de sua vida. Mais do que indicadores econômicos — embora tenha defendido ardorosamente a responsabilidade social caminhando junto com a fiscal —, o presidente afirmou que seu objetivo é recuperar o processo civilizatório.
Ele lamentou o estado em que encontrou o Palácio da Alvorada, descrevendo-o como “destruído” e sem cuidados básicos, um reflexo, em sua visão, do descaso com o patrimônio público nos últimos anos. Para Lula, a democracia só será plenamente respeitada pelo povo se ela for capaz de colocar comida na mesa e garantir emprego. “A democracia é o único regime que dá o direito de discordar, mas essa gente ultrapassou o limite da Constituição”, concluiu.
A entrevista de Lula à GloboNews não foi apenas um relato de um evento traumático, mas uma declaração de intenções. Entre a mágoa pela falha de segurança e a determinação política, o presidente busca reafirmar que, apesar das portas abertas aos invasores naquele 8 de janeiro, as portas da democracia brasileira permanecem vigiadas e, sob seu comando, não serão mais deixadas sem sentinelas.