A história do sistema prisional brasileiro é repleta de capítulos obscuros, mas poucos são tão densos e aterrorizantes quanto os eventos ocorridos no Presídio Dr. João Chaves, em Natal, durante as décadas de 80 e 90. Naquela época, a unidade não era conhecida pelo seu nome oficial, mas por um apelido que sintetizava a rotina de horror entre seus muros: o “Caldeirão do Diabo”. E se aquele lugar era o inferno, Vladimir Alex Mendes de Oliveira, popularmente conhecido como Demir, era um de seus demônios mais implacáveis. Com uma ficha criminal que misturava audácia juvenil e uma psicopatia latente, Demir não apenas sobreviveu ao sistema; ele o dominou através de uma violência gráfica e rituais que beiravam o inacreditável.
O Despertar de um Criminoso: Da Liberdade às Grades
A jornada de Demir no mundo do crime começou cedo. Em março de 1987, com apenas 18 anos, ele já demonstrava que não possuía freios morais. Ao lado de dois comparsas, realizou um assalto audacioso contra um agente da Polícia Federal. Mesmo diante de um profissional treinado e armado com um revólver calibre .38, o grupo não recuou. Roubaram o agente e fugiram, mas a justiça foi rápida. Em menos de 24 horas, Demir estava atrás das grades do Dr. João Chaves. O que as autoridades não previram é que, ao encarcerar o jovem, estavam plantando a semente de um poder paralelo que floresceria com sangue.
Dentro da prisão, Demir encontrou o ambiente perfeito para suas inclinações violentas. Longe de ser intimidado pelos veteranos, ele buscou alianças estratégicas. Foi assim que nasceu o “Trio Ternura”, um nome irônico e quase poético para um grupo formado pelos criminosos mais perigosos do estado: Demir, Paulo Queixada e Naldinho do Mereto. Paulo era o cérebro, um estrategista frio que já carregava o peso de assassinatos brutais de profissionais de saúde em Natal. Naldinho, por sua vez, era o braço executor, acostumado ao crime desde a infância. Juntos, eles estabeleceram um regime de terror que silenciou pavilhões inteiros.
O Pacto de Sangue e a Marca do Horror
O que diferenciava o Trio Ternura de outras facções carcerárias era a natureza de seus crimes. Não se tratava apenas de controle de tráfico ou disciplina interna; havia uma carga de crueldade gratuita e perturbadora. Relatos da época indicam que o trio foi responsável por pelo menos seis assassinatos dentro do presídio em menos de um ano. A marca registrada do grupo era algo que parecia saído de um filme de terror: eles bebiam o sangue de suas vítimas. Esse ritual macabro servia para dois propósitos: selar o pacto de amizade entre os três e projetar uma imagem de invencibilidade e loucura que impedia qualquer tentativa de retaliação por parte de outros presos.
Demir, apesar de ser o mais jovem em certos aspectos, logo assumiu uma posição de liderança. Em entrevistas da época, ele falava sobre a morte com uma naturalidade desconcertante. Para ele, o presídio era um tabuleiro onde “quem vacilava, morria”. Essa filosofia de sobrevivência extrema o manteve no topo, mas também começou a corroer as fundações da aliança que o sustentava. No Caldeirão do Diabo, a lealdade durava apenas até o próximo conflito de interesses.

Traição e o Fim da Aliança: O Ataque a Paulo Queixada
A tensão entre Demir e Paulo Queixada começou a transbordar em 1993. O ego e a disputa pelo controle absoluto do presídio colocaram os antigos “irmãos” em rota de colisão. Demir alegava que Paulo estava tentando jogar a administração do presídio e outros detentos contra ele. Fiel à sua natureza reativa, Demir não esperou para ser atacado. Em uma briga violenta, ele desferiu uma facada profunda na barriga de Paulo Queixada, resultando na perda de um dos rins do ex-aliado.
A imagem de Demir após esse incidente é a definição da frieza. Em uma entrevista gravada logo após o ataque, ele descreveu o ato como uma “besteirazinha”, um ajuste de contas necessário porque Paulo o estava “insultando”. A partir dali, o Trio Ternura estava morto, e o destino de seus membros seria selado pela mesma violência que eles pregaram. Naldinho do Mereto foi o primeiro a cair, executado brutalmente na frente de sua própria mãe durante um dia de visitas — um ato de vingança de rivais que Demir assistiu com uma indiferença gélida, afirmando que “estava pronto para o que viesse”.
O Crime que Chocou o Estado: O Enterro no Cimento
A liberdade condicional em 1995 não mudou a essência de Demir. Mesmo fora das grades, ele continuou a agir como juiz e carrasco. Ao ser procurado por um antigo aliado chamado Ivan para um assalto, Demir desconfiou de uma armadilha. Sua resposta foi levar Ivan para um local isolado, onde o executou com três tiros e diversas pauladas. Ao retornar ao presídio após o julgamento desse crime, a rivalidade com Paulo Queixada atingiu seu ápice macabro.
Apesar de tentativas superficiais de trégua, o ódio entre os dois era palpável. Demir esperou o momento de maior vulnerabilidade de Paulo. Convidou o ex-parceiro para tomar uma cachaça na cela e, em um momento de distração, desferiu a primeira facada no pescoço. O que se seguiu foi um frenesi de violência: foram mais de 100 perfurações. Mas Demir não parou na morte. Em um ato de degradação final, ele esquartejou o corpo, defecou sobre os restos mortais de Paulo e tentou ocultar tudo sob uma camada de cimento e azulejos no banheiro da cela. O crime foi descoberto pelo odor e pela perícia, consolidando Demir como o homem mais temido e odiado do sistema.
A Queda do Rei do Crime e o Legado de Medo
O poder de Demir parecia inabalável. Em 1996, ele ainda liderou uma rebelião onde fez um soldado como refém, demonstrando que não temia enfrentar o Estado diretamente. No entanto, o Caldeirão do Diabo tinha suas próprias regras de equilíbrio. O excesso de violência e a imprevisibilidade de Demir começaram a incomodar não apenas os presos, mas possivelmente a própria estrutura administrativa da prisão, que via nele um obstáculo para qualquer tipo de ordem.
O fim veio em 1996, de forma tão brutal quanto a vida que ele levou. Demir foi atacado por três detentos, liderados por um homem conhecido como “Chocolate”. Sem chance de defesa contra a investida coordenada, o homem que bebia o sangue de seus inimigos e enterrava aliados no cimento foi finalmente subjugado. Há teorias nunca confirmadas de que a morte teria sido facilitada por agentes que “abriram o caminho” para que os inimigos de Demir chegassem à sua cela.
A morte de Vladimir Alex encerrou um dos ciclos mais violentos da história de Natal. Demir deixou um rastro de pelo menos seis mortes confirmadas dentro das prisões e tantas outras fora delas. Sua história permanece como um lembrete sombrio de uma era onde as prisões brasileiras eram terras de ninguém, e onde homens como ele transformavam o castigo do Estado em um reino de terror pessoal. O “Caldeirão do Diabo” esfriou com sua partida, mas as cicatrizes daquela época ainda marcam a memória daqueles que sobreviveram para contar a saga de Demir.