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“NEGATIVO, MERITÍSSIMO!”: O EMBATE ENTRE A PERÍCIA E AS RESPOSTAS DE GILVAN VIEIRA NO JÚRI DA ESPOSA ENFORCADA

“NEGATIVO, MERITÍSSIMO!”: O EMBATE ENTRE A PERÍCIA E AS RESPOSTAS DE GILVAN VIEIRA NO JÚRI DA ESPOSA ENFORCADA

O Tribunal do Júri de Montes Claros transformou-se em um cenário de tensão absoluta durante o interrogatório de Gilvan Vieira Pinto. Acusado de asfixiar a esposa, Elisângela Gomes Vieira, com uma corda elástica, o réu adotou uma estratégia de defesa baseada na negação sistemática de cada prova apresentada. O que se viu foi um homem que, apesar dos laudos e testemunhos, manteve uma calma perturbadora ao confrontar o juiz e os promotores.

Elisângela foi encontrada morta em 22 de junho de 2019. Para o Ministério Público, o crime foi um feminicídio clássico motivado por ciúme doentio. Para Gilvan, foi um suicídio causado por depressão. O embate no tribunal, entretanto, revelou detalhes de uma vigilância obsessiva que antecedeu a tragédia.

O Confronto Direto: “Eu Não Fiz Isso”

O interrogatório começou com o juiz detalhando as acusações de homicídio qualificado e fraude processual. A resposta de Gilvan foi curta e seca:

Juiz: “O senhor confirma ou não ter morto a dona Elisângela Gomes Vieira?” Gilvan: “Negativo, tá? Negativo.”

A partir daí, cada evidência técnica foi rebatida pelo réu com justificativas que beiravam o inverossímil. Quando questionado sobre o laudo de necrópsia, que afirma categoricamente que Elisângela foi vítima de estrangulamento (asfixia mecânica por força externa) e não de enforcamento por suspensão (suicídio), Gilvan manteve sua narrativa:

Gilvan: “Eu vi aquela cena ali e tentei ajudar… Desamarrei a corda no automático para ver se ela estava viva. Foi o automático meu.”

A Vigilância: Clonagem e Rastreadores

Um dos pontos mais sensíveis do julgamento foi a revelação de que Gilvan monitorava Elisângela de forma profissional. A perícia encontrou indícios de que ele havia clonado o celular da esposa e instalado um rastreador GPS na motocicleta dela. O promotor não hesitou em confrontá-lo:

Ministério Público: “O senhor diz que tinha um casamento aberto, mas a perícia mostra que o senhor clonou o celular dela e colocou um rastreador na moto. Isso não é contraditório?” Gilvan: (Silêncio inicial) “A moto estava no meu nome… coloquei o rastreador porque trabalhava de mototaxi e já tentaram me assaltar.”

Sobre a clonagem do celular e as mensagens de ódio, Gilvan preferiu exercer seu direito ao silêncio em vários momentos, uma tática que aumentou a tensão no plenário. Ele insistia que “não se importava” com as supostas traições, mas os autos mostram que, dias antes, ele levou Elisângela à casa da sogra para “devolvê-la”, expondo a vida íntima da mulher como um troféu de vingança.

A Mensagem de Amor e a Cena do Crime

Um dos momentos mais dramáticos foi o depoimento sobre a última mensagem recebida de Elisângela. Gilvan alega que ela escreveu: “Sempre foste e serás sempre o grande amor da minha vida”. Para a acusação, essa mensagem foi enviada sob coação ou é fruto de uma manipulação do réu para criar um álibi.

A testemunha Márcia, que chegou ao local após o crime, afirmou ter visto o corpo de uma forma que desmente a versão de Gilvan. O réu, novamente, atacou o testemunho:

Juiz: “A testemunha diz que viu o corpo pendurado. O senhor confirma?” Gilvan: “Ela não está dizendo a verdade, não. Porque como é que ela vai dizer que o corpo está pendurado sendo que a boa parte do corpo estava deitada? O que ela pode ter visto foi a corda, mas o corpo não.”

A Indignação Final: O Silêncio sobre o Funeral

A frieza de Gilvan atingiu o ápice quando o promotor tocou em um ponto humano: a ausência no último adeus à esposa.

Ministério Público: “Se o senhor cuidava dela esses anos todos e a amava, por que o senhor não foi ao velório e ao funeral da Elisângela?” Gilvan: “Não vou responder.”

O julgamento seguiu com a defesa tentando focar no histórico de depressão de Elisângela, alegando que ela já havia tentado o suicídio outras vezes. Contudo, para os jurados, a questão central permaneceu: como uma mulher que estava trabalhando normalmente e enviando mensagens de amor acabaria morta por “estrangulamento” — uma ação que exige a força de outra pessoa — exatamente no momento em que o marido estava por perto?

Gilvan Vieira Pinto saiu do interrogatório mantendo sua máscara de “marido injustiçado”, mas as interações agressivas e as negativas diante de fatos científicos deixaram no ar uma pergunta que o júri terá de responder com o peso da lei.