FEMINICÍDIO EM MARABÁ TERMINA EM JULGAMENTO HISTÓRICO COM CONDENAÇÃO
O Desaparecimento e o Início da Busca
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/G/c/mjxvWZSWCCneKjercMHA/tatuadora.jpeg)
Flávia Alves Bezerra, tatuadora renomada de 25 anos em Marabá, Pará, desapareceu no dia 14 de abril de 2024 após sair de um bar com uma prima chamada Fernanda. A jovem era mãe de um menino de seis anos e possuía uma carreira consolidada no ramo de tatuagem, sendo admirada e respeitada por colegas e clientes. Desde o início, sua mãe, Paula Carneiro, percebeu que o desaparecimento não era normal, pois Flávia sempre avisava onde estava e não deixava o filho sozinho sem avisar. A família imediatamente iniciou buscas, contatando amigos e conhecidos, além de registrar boletim de desaparecimento na delegacia. Imagens de câmeras de segurança mostraram Flávia entrando no carro do tatuador William Souza, colega de trabalho e alvo de suspeita desde o início .
Nos dias seguintes, a família e amigos refizeram todos os passos da jovem, tentando localizar qualquer vestígio. O casal William Souza e Tendy L de Oliveira foi preso no dia 25 de abril, 11 dias após o desaparecimento, depois que a polícia localizou imagens que confirmaram sua presença no local e suspeita de envolvimento no sumiço de Flávia. Acompanharam as prisões investigações sobre o trajeto do veículo e depoimentos das testemunhas próximas, garantindo que as provas fossem consistentes e detalhadas.
O Crime e a Motivação
As investigações revelaram que William Souza desenvolveu uma obsessão por Flávia, que nunca correspondeu aos sentimentos dele. A tensão aumentou após um desentendimento em um bar, onde Flávia teria quebrado o vidro do carro de William com uma pedrada. O conflito escalou, e na madrugada do dia 15 de abril, William e sua esposa, Didell, teriam planejado o homicídio e a ocultação do corpo. O corpo de Flávia foi encontrado em Jacundá, a 114 km de Marabá, dentro de uma cova rasa em estado avançado de decomposição, sendo necessário o auxílio do Corpo de Bombeiros para retirá-lo. A polícia confirmou que o crime ocorreu dentro do veículo antes da ocultação, e a vítima foi submetida a violência extrema, motivada pela rejeição amorosa e pela obsessão de William .
A participação de Didell foi confirmada como colaboração na ocultação, enquanto o irmão dela, David de Oliveira Alves, também foi envolvido, embora tenha respondido apenas por omissão e tenha obtido acordo de não persecução penal. A polícia ainda investigava a dinâmica exata do crime e se houve outras infrações associadas, incluindo possíveis relações não consentidas, mas a falta de material genético impediu que essa linha fosse confirmada.
O Julgamento e as Reações

O julgamento de William Souza foi marcado para o dia 7 de agosto de 2025, coincidindo com o aniversário de 19 anos da Lei Maria da Penha, tornando o caso emblemático no contexto da luta contra a violência de gênero. No dia do júri, familiares e amigos da vítima organizaram protestos e manifestações cobrando justiça. Durante a sessão, momentos de tensão foram registrados quando a defesa tentou anular a sessão, resultando na retirada temporária da advogada do réu, o que causou grande repercussão.
A advogada justificou que sua ação se devia a uma oratória inoportuna da juíza sobre feminicídio, e pediu desaforamento do processo. Apesar da controvérsia, o julgamento prosseguiu e os jurados consideraram William culpado pelo feminicídio qualificado, ocultação e fraude processual. A pena final foi de 17 anos, 10 meses e 16 dias, sendo 16 anos, 7 meses e 17 dias pelo homicídio, 1 ano e 2 meses pela ocultação e 6 meses pela fraude processual. A decisão foi unânime e reconheceu todas as qualificadoras apresentadas pelo Ministério Público, rejeitando a tese da defesa .
Didell, por sua vez, respondeu apenas pelos crimes de ocultação e fraude processual, com pena máxima prevista de cinco anos, podendo responder em liberdade. A decisão da juíza considerou a gravidade do crime, o risco de represália e o histórico de ações do casal, garantindo que William permanecesse preso e Didell fosse monitorada.
Impacto na Família e na Comunidade
A mãe de Flávia, Paula, relatou que durante todo o processo nunca conseguiu viver o luto plenamente, pois precisava lutar pela justiça e pela memória da filha. A perda afetou profundamente o filho de Flávia, que participou das homenagens e rituais de despedida, colocando uma vela no túmulo da mãe em ato simbólico de memória e resistência.
A comunidade de Marabá mobilizou-se durante todo o processo, acompanhando o julgamento, promovendo manifestações e garantindo que o caso não caísse no esquecimento. O velório contou com homenagens de amigos, colegas de trabalho e cidadãos, que vestiram camisetas brancas pedindo justiça e fizeram orações em memória de Flávia.
Conclusão: Justiça e Reflexão Social
O caso de Flávia Alves Bezerra evidencia os perigos da obsessão não correspondida, a vulnerabilidade de mulheres diante de violência doméstica e o impacto profundo de crimes de feminicídio na sociedade. A condenação de William Souza serve como exemplo da atuação do sistema judicial, enquanto a pena de Didell reforça a responsabilidade por colaboração em ocultação e fraude processual.
Apesar da justiça ter sido feita formalmente, a dor da família permanece, e o caso reforça a necessidade de políticas públicas eficazes de prevenção à violência de gênero, proteção de mulheres e apoio psicológico às vítimas e familiares. A memória de Flávia será preservada como alerta e inspiração para combater a impunidade e fortalecer a conscientização sobre os riscos e consequências da violência contra mulheres no Brasil .