“SÓ NAMORO SE ELE DISSER QUE VAI ARRASTAR A MINHA E ME DAR UMA SURRA!”: O macabro fim de Paola Corrêa, obrigada a assistir à escavação da própria cova após desafiar líder de facção em Porto Alegre

O submundo das facções criminosas em Porto Alegre, cidade que historicamente já figurou nos rankings internacionais como uma das cinquenta metrópoles mais violentas do mundo, foi o cenário de uma das crônicas mais brutais, coreografadas e pedagógicas sobre as ilusões da juventude periférica.
Paola Avale Corrêa, uma jovem de apenas 18 anos de idade, teve sua biografia tragicamente encerrada ao ser convertida em estatística forense de homicídio qualificado.
Criada em um ambiente familiar estruturado e sem qualquer histórico de envolvimento com a ilicitude, a adolescente permitiu-se seduzir pela estética do poder paralelo e pela sensação ilusória de proteção conferida pelos senhores das armas na capital gaúcha.
Guiada por uma autoconfiança cega e pela busca por validação nas plataformas digitais, a jovem não apenas ignorou os apelos e advertências desesperadas de sua mãe, como também fez questão de gravar e espalhar áudios em tom de deboche, vangloriando-se de sua preferência por homens perigosos com extensas fichas criminais.
A última e mais assustadora declaração proferida por Paola em um aplicativo de mensagens, recuperada pela inteligência policial e anexada aos autos do inquérito como prova de sua submissão psicológica, detalhava o nível de perversão de suas escolhas afetivas: “Para me pegar tem que ter no mínimo três passagens. E se quiser namorar comigo, namorar a sério, tem que ter pelo menos um homicídio, um 33 de tráfico. Eu não consigo namorar se ele não disser que vai arrastar a minha cabeça, se não ameaçar me tacar fogo ou se não me der uma surra quando tiver com ciúmes!”.
A Forja da Armadilha: O Romance Virtual e o Cárcere Invisível
A reconstituição cronológica elaborada pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul demonstra que a descida de Paola ao abismo iniciou-se em 2017, quando ela tinha apenas 17 anos. Por meio de redes sociais, a adolescente estabeleceu contato com Nathan Cirangelo, uma liderança de destaque no tráfico de drogas do bairro Bom Jesus, zona leste de Porto Alegre.
Nathan já se encontrava recolhido ao sistema penitenciário desde 2016, despachando ordens de dentro de uma cela na Cadeia Pública da capital (o antigo Presídio Central, historicamente classificado por organismos internacionais como uma das piores e mais superlotadas masmorras do Brasil).
Mesmo ciente de que o namorado operava atrás das grades, Paola engajou-se no relacionamento e, ao atingir a maioridade civil, passou a registrar-se formalmente como visitante oficial do detento. A partir daquele momento, a estrutura de sua vida foi integralmente desmontada.
A jovem abandonou os estudos, demitiu-se do emprego regular, cortou os laços afetivos com os familiares e passou a depender exclusivamente da mesada financeira fornecida pela facção. Ela foi alojada em diferentes imóveis mantidos pela organização de Nathan, sendo submetida a uma rotina de monitoramento tático onde horários, companhias e comportamentos eram geridos à distância pelo criminoso.
O relacionamento, fundado na assimetria de poder e na violência psicológica, deteriorou-se rapidamente ao longo dos meses. As discussões tornaram-se frequentes e escalaram para a violência física dentro do próprio parlatório da prisão, exigindo a intervenção dos agentes penitenciários para conter as agressões de Nathan contra a jovem.
Em suas postagens no Facebook, Paola alternava momentos de ostentação com desabafos de profundo arrependimento, chegando a ironizar em uma mensagem que estava “fazendo faculdade no crime” — um sinal claro de que ela começava a perceber o tamanho da armadilha que a cercava, mas já não detinha a autonomia necessária para escapar.
A Noite do Rompimento e o Tribunal do Crime de dentro da Cela
O estopim para a tragédia ocorreu no dia 9 de maio de 2018. Após uma discussão violenta na sala de visitas do presídio, Paola Corrêa tomou a decisão de romper definitivamente o relacionamento com o traficante e deixar a moradia da facção. Na lógica territorial e patriarcal do crime organizado, ser rejeitado por uma mulher representa uma humilhação pública e uma perda severa de autoridade perante os soldados.
A situação agravou-se exponencialmente quando rumores falsos começaram a circular nos grupos de mensagens da Vila Tamanca, indicando que Paola estaria mantendo conversas com integrantes de uma facção rival.
Reagindo com deboche e empáfia digital, a jovem publicou prints de telas nas redes sociais, ridicularizando as tentativas de Nathan de intimidá-la através da exposição de fotos suas. Em sua última e desafiadora postagem, ela escreveu: “Meu ex colocando foto minha no grupo dos Leão (risos), otário! Nem de ex-marido um chá de merda desses serve para chamar. Gosto de causar impacto, acha que me abalo? Uma hora todo mundo esquece, otário, você que foi corno!”.
A resposta de Nathan foi imediata e implacável. De dentro de sua cela, utilizando um telefone celular clandestino, ele acionou seu braço direito nas ruas, Bruno Cardoso Oliveira, ordenando o planejamento operacional e a execução sumária da ex-namorada.
Bruno dividiu as tarefas entre o bando: escalou os responsáveis por monitorar os passos da jovem, os condutores do veículo de apoio, os responsáveis por cavar a sepultura oculta e a equipe que faria o registro audiovisual da execução para servir de prestação de contas ao chefe preso.
Desesperada ao perceber a movimentação de homens ao redor de seu paradeiro na madrugada de domingo, 13 de maio de 2018 — ironicamente, o Dia das Mães —, Paola efetuou duas ligações de emergência para o telefone 190 da Brigada Militar, mas as chamadas não foram atendidas a tempo devido à saturação das linhas.
O Calvário no Matagal e a Filmagem de Onze Segundos
Às 8 horas da manhã daquele domingo, sob intensa coação psicológica e promessas de uma suposta conversa de pacificação, Paola foi atraída até a fachada de uma escola pública, onde foi interceptada por dois homens e forçada a entrar em um veículo. Ela foi conduzida até um cativeiro temporário na Vila Tamanca, no bairro Lomba do Pinheiro, onde teve suas mãos amarradas e foi submetida a um “tribunal do crime” telefônico conduzido por Nathan diretamente da prisão. Mesmo sob forte pressão, a jovem recusou-se a admitir as acusações de traição faccional.
Finalizada a ligação, os criminosos transportaram a vítima até uma área de matagal denso e isolado nas periferias do bairro. O que se seguiu foi um cenário de tortura psicológica indescritível: imobilizada pelos capangas, Paola Corrêa foi obrigada a permanecer sentada à beira de um buraco, observando passivamente, durante duas exaustivas horas, os homens cavando a sepultura onde seu próprio corpo seria depositado. Não havia rotas de fuga, não havia socorro e a ilusão de poder que ela ostentava nas redes sociais desmoronou diante da realidade fria das pás batendo contra a terra.
Assista ao vídeo integrado no corpo da matéria para conferir os detalhes da investigação da Polícia Civil e os depoimentos dos delegados que desmantelaram o bando responsável pela morte de Paola.
Por volta das 17h30, com a cova totalmente aberta, o grupo iniciou a execução do protocolo de morte. A criminosa Thaís Cristina dos Santos ligou a câmera do aparelho celular para documentar o ato, enquanto Vinícius Mateus da Silva posicionou-se como o executor dos disparos.
Paola foi alvejada na cabeça à queima-roupa e jogada diretamente no fundo da cova. O vídeo de apenas 11 segundos de duração, mostrando a jovem tombando sem vida, foi enviado imediatamente para o celular de Nathan dentro do presídio como certidão de cumprimento da ordem e, poucas horas depois, foi vazado de forma proposital nos aplicativos de mensagens de Porto Alegre para servir de alerta tático a outras mulheres da comunidade.
O Veredicto do Tribunal do Júri e o Custo da Ilusão
O desaparecimento de Paola foi notificado pelos familiares na segunda-feira subsequente, quando ela não compareceu ao almoço comemorativo do Dia das Mães. O cadáver da jovem foi localizado pelas autoridades quatro dias após o crime, já em avançado estado de decomposição no matagal da Vila Tamanca, sendo identificado principalmente pelas vestimentas que ela utilizava nas imagens do vídeo de execução que já circulava publicamente na internet. A Delegacia de Homicídios agiu com rapidez e, em menos de dez dias, identificou e prendeu todos os envolvidos na engrenagem criminosa.
Em março de 2023, quase cinco anos após o episódio, o caso foi finalmente levado a julgamento perante o Quarto Tribunal do Júri de Porto Alegre, uma unidade judiciária especializada em crimes de feminicídio e violência de gênero. O conselho de sentença rejeitou todas as teses da defesa e aplicou penalidades severas aos réus, totalizando condenações que demonstram o rigor da justiça gaúcha contra os crimes mandados de dentro das penitenciárias.
| Réu Sentenciado no Júri | Função Específica no Crime | Pena Aplicada pelo Magistrado | Regime de Cumprimento |
| Nathan Cirangelo | Mandante Intelectual (de dentro da cela) | 36 anos de reclusão | Fechado (Sem benefícios) |
| Bruno Cardoso Oliveira | Coordenador e Articulador de Rua | 31 anos de reclusão | Fechado |
| Vinícius Mateus da Silva | Executor Direto dos Disparos | 28 anos de reclusão | Fechado |
| Carlos Cleomar R. da Silva | Logística e Rapto da Vítima | 16 anos e 2 meses | Fechado |
| Thaís Cristina dos Santos | Cedência de Imóvel e Filmagem do Crime | 9 anos de reclusão | Fechado |
| Paulo Henrique S. Merlo | Coveiro (Abertura da Sepultura) | 8 anos e 10 meses | Semiaberto |
A condenação unânime dos envolvidos trouxe um encerramento jurídico ao caso, mas o legado de dor deixado pela morte de Paola Corrêa permanece como um alerta social permanente. Após o veredicto do júri, a irmã da vítima utilizou os canais de imprensa para emitir um posicionamento contundente direcionado às jovens das periferias brasileiras, enfatizando que o flerte com o universo das facções carrega um custo biológico alto e irreversível.
A sensação de controle e o glamour associados aos homens fortes do tráfico são apenas ferramentas de manipulação de um ambiente hostil que não reconhece o ser humano, tratando as mulheres apenas como propriedades descartáveis cujo fim, muitas vezes, é decidido na frieza de uma cova rasa.