Em um pronunciamento incisivo que agitou os corredores do poder em Brasília e redefiniu as pautas da imprensa nacional, o senador Flávio Bolsonaro convocou jornalistas para esclarecer, de forma detalhada e contundente, o seu suposto envolvimento com o investidor Daniel Vorcaro. A coletiva, marcada por um tom de prestação de contas e denúncias graves contra a atual gestão do Governo Federal, não apenas buscou afastar o nome do parlamentar de escândalos financeiros, mas também serviu de palco para o lançamento de uma contraofensiva legislativa em relação à polêmica escala de trabalho 6×1. Sem margem para meias palavras, o senador delineou uma cronologia de fatos que expõe as engrenagens de investimentos privados, acusa o Palácio do Planalto de interferência institucional e propõe uma modernização pragmática das leis trabalhistas brasileiras.

O Imbróglio do Filme e a Sombra de Daniel Vorcaro
O estopim da coletiva concentrou-se na figura do investidor Daniel Vorcaro, cujo nome ganhou os holofotes policiais recentemente. Flávio Bolsonaro iniciou sua narrativa retornando ao final de 2024, período em que buscava captar recursos para a produção de um filme em homenagem ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o senador, o clima de insegurança jurídica no Brasil fez com que empresários locais temessem represálias ao associarem seus CPFs ou CNPJs a um projeto de viés conservador. Diante desse cenário de receio institucional, a decisão foi viabilizar o projeto como uma produção norte-americana. Foi nesse contexto de busca por capital internacional que Vorcaro foi apresentado. O senador fez questão de frisar que, à época, Vorcaro era uma figura que transitava livremente pela alta cúpula de Brasília, frequentando eventos com ministros do Supremo Tribunal Federal, jantares da elite empresarial e patrocinando grandes emissoras de televisão, o que lhe conferia uma aura de pessoa absolutamente acima de qualquer suspeita. A cronologia dos fatos, contudo, sofreu um revés em maio de 2025, quando Vorcaro parou de honrar as parcelas estabelecidas no contrato entre sua empresa e o fundo de investimento do filme. Flávio relatou que, diante da inadimplência, passou a cobrar o investidor, chegando a enviar um áudio no final de 2025 exigindo uma posição definitiva para evitar a “catástrofe” do cancelamento da obra cinematográfica. A virada de chave ocorreu com a prisão de Vorcaro. O senador admitiu publicamente que se encontrou com o investidor em São Paulo — quando este já utilizava tornozeleira eletrônica — exclusivamente para colocar um ponto final na relação contratual. Para dirimir quaisquer dúvidas sobre a lisura do processo, Flávio Bolsonaro anunciou duas medidas drásticas: exigiu uma prestação de contas transparente e auditável em até trinta dias sobre todos os gastos da produção e garantiu que qualquer valor aplicado pela empresa de Vorcaro que venha a gerar lucro será sumariamente segregado e colocado à disposição das autoridades judiciais brasileiras, isolando o projeto cultural de qualquer contaminação ilícita.
Acusações ao Planalto e a Urgência da CPMI do Banco Master
Elevando o tom das declarações, Flávio Bolsonaro não se limitou a defender a produção cinematográfica, lançando pesadas acusações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O senador citou reportagens investigativas recentes da grande mídia que revelam supostos encontros onde Lula teria aconselhado o dono do Banco Master a não vender a instituição. O agravante dessas reuniões seria a presença de Gabriel Galípolo, à época cotado (e hoje confirmado) para a presidência do Banco Central. Na visão do parlamentar, os fatos provam que Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, era um impecilho para transações nebulosas, enquanto o atual Governo Federal agia ativamente nos bastidores do sistema financeiro. A partir dessas graves alegações, o parlamentar cobrou veementemente a instauração da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master. Com um discurso inflamado, ele acusou a base governista de covardia por se recusar a assinar o requerimento da investigação, afirmando que esta é a única via parlamentar viável para separar “bandido de inocente”. Flávio também não poupou críticas à atual condução da Polícia Federal, classificando-a como parcialmente aparelhada. Ele usou como exemplo a substituição repentina do delegado que quebrou o sigilo do filho do presidente, conhecido como Lulinha, nas investigações de desvios do INSS, um ato que classificou como uma manobra autoritária e um escândalo que a imprensa tradicional estaria ignorando.
A Alternativa à Jornada 6×1 e a Modernização Trabalhista
Na segunda etapa de seu pronunciamento, o foco migrou da seara investigativa para a pauta socioeconômica, abordando o inflamado debate sobre o fim da escala 6×1. O senador rechaçou a proposta do governo, classificando-a como um projeto populista, eleitoreiro e carregado de hipocrisia. Segundo sua análise, a imposição governamental, em vez de beneficiar o trabalhador, gerará um desemprego em massa e o aumento brutal do custo de vida, por estar amparada em uma Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) datada de 1943, uma época analógica incompatível com o home office e a economia de aplicativos. A alternativa apresentada pela sua bancada propõe a remuneração estritamente vinculada às horas trabalhadas, mas com a garantia constitucional de todos os direitos trabalhistas proporcionais, como 13º salário, FGTS e férias. O pilar central desse projeto é a liberdade de escolha do indivíduo. O parlamentar destacou um dado alarmante: 23% das mulheres brasileiras estão fora do mercado de trabalho devido à rigidez das jornadas atuais, que as impedem de conciliar o emprego com a maternidade. A nova proposta permitiria que uma mãe trabalhasse em turnos flexíveis de quatro horas, garantindo renda e dignidade sem sacrificar o convívio familiar. Encerrando a coletiva de forma abrupta e sem abrir espaço para questionamentos dos jornalistas presentes, Flávio Bolsonaro deixou claro que a direita possui uma agenda de modernização econômica pronta para confrontar o atual governo, transformando um momento de potencial crise de imagem em um palanque para pautas contundentes de oposição.