Eu avisei o meu ajudante, mas ele não me ouviu. E quando tirou aquele colar de dentro do caixão, senti que algo mudou naquele cemitério. Eu trabalhei durante 19 anos como coveiro. Mas o que aconteceu depois daquela esumação no dia 6 de Março de 2007? Eu nunca esqueci. O meu nome é Geraldo Ferreira dos Santos, Tenho 71 anos e esta é a minha história em minutos.
Naquela manhã cheguei ao cemitério de São Benedito mais cedo do que o costume. O céu ainda estava cinzento, o sol mal tinha saído e o cemitério estava vazio. O administrador esperava-me na porta do escritório com um papel na mão. Era uma ordem de esumação. Eu olhei para o nome no papel, Thago Melo, 24 anos de idade, ali sepultado desde 2004.
A família tinha esperado o prazo e havia solicitado a libertação do espaço. A a esumação não é uma coisa fácil de explicar a quem nunca trabalhou num cemitério, mas para mim nesse tempo já fazia parte da rotina. Eu tinha 54 anos na altura e estava prestes a completar 19 anos de serviço.
O meu ajudante chegou logo depois. Era um rapaz novo, devia ter uns 20 e poucos anos. Tinha uns ito meses que trabalhava no cemitério, mas nunca tinha feito uma esumação. Era a primeira vez dele. Mas não perdeu o tempo em deixar claro que não acreditava em nada do que as pessoas diziam sobre aquele lugar. Ele disse que cemitério era só terra e osso.
Disse que a história de espírito era coisa para meter medo nos outros e que qualquer pessoa que tivesse medo de trabalhar num local assim era porque nunca tinha chegado perto de verdade. Eu deixei-o falar. Não havia nada que eu fosse dizer que ia adiantar alguma coisa. Há coisa que só a vida ensina e às vezes da forma mais difícil.
Então eu levei as minhas ferramentas e fui à frente. O cemitério estava sossegado naquela manhã. Só o ruído dos nossos passos na terra batida e o som de algum pássaro lá longe. Eu gosto deste silêncio. Aprendi a respeitá-lo com o tempo. Não é um silêncio vazio. É o silêncio de um lugar que pede cuidado, que pede que a gente chegue com calma e saia da mesma forma.
Mas o rapaz não parou de falar no caminho. Continuava com os comentários, rindo-me de coisas a que não achava graça. E foi aí, enquanto ele falava, que eu sentia alguma coisa mudar à volta. Foi como se o ar tivesse pesado de repente, sem motivo nenhum. Aquilo não era novidade para mim. já tinha sentido outras vezes nesse mesmo cemitério, em dias diferentes, em situações diferentes.
E quando aparecia assim, eu ficava quieto. Assim, chegamos ao túmulo do Thiago Melo. Era uma sepultura simples, sem nada de diferente das outras. Uma pequena lápide com o nome, a data de nascimento e a data de falecimento. Eu Olhei para ela por um segundo antes de começar. Tirei o boné e pedi licença em voz baixa, como sempre fazia.
Era um hábito que tinha desde o início, uma forma de avisar que chegámos ali para fazer um trabalho, não para desrespeitar ninguém. O ajudante olhou para o túmulo e largou as ferramentas do lado com descuido e ficou parado, olhando em redor, como se aquilo fosse um lugar qualquer. Eu não disse nada, só pedi-lhe para me ajudar a começar o trabalho.
A terra estava firme e o trabalho foi lento. Eu tentei me concentrar e ignorar a sensação que estava ali desde que tínhamos chegado perto do túmulo. Era difícil. Estivemos um bom bocado a escavar, cada um no seu lado, até chegar ao caixão. Quando a pá bateu na madeira pela primeira vez, o som ecoou entre as covas. O rapaz ficou sossegado pela primeira vez naquela manhã.
Os comentários pararam e o silêncio do cemitério voltou. Abri o caixão com cuidado, da forma que sempre faço. O cheiro veio primeiro e fiquei a olhar para dentro do caixão durante alguns segundos. sem dizer nada, tentando ignorar aquela sensação que não tinha diminuído desde que ali chegámos. O ajudante ficou parado ao meu lado, olhando também.
pela primeira vez nessa manhã, não tinha nada a dizer, mas foi então que se baixou ao meu lado e antes que pudesse reagir, já tinha puxado alguma coisa e estava a segurar na frente do rosto para ver melhor. Era um colar, uma corrente fina com um pequeno pendente. Estava ali dentro juntamente com os ossos de Thago.
Na mesma altura, aquele peso ficou mais forte do que antes. Era como se uma pressão tivesse descido sobre aquele lugar de repente, como se tivesse mais alguém ali connosco parado, olhando para nós os dois. Parei o que estava fazendo, larguei o que tinha na mão e Olhei em redor com cuidado. Não tinha ninguém. O cemitério estava vazio, mas a sensação estava lá.
Olhei para ele e Falei calmamente, sem levantar a voz, que que devia ficar onde estava, que o que estava dentro daquele caixão tinha sido ali colocado por algum motivo e que não tinha direito a tirar e que tem coisas que não compreendemos, mas que precisam de ser respeitadas da mesma forma. Olhou-me por alguns segundos e depois deu uma gargalhada.
Disse que eu era supersticioso, que colar não morde ninguém. que estas histórias eram para convencer as pessoas que não pensam direito. E depois enfiou o colar no bolso das calças e voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parado olhando para ele [música] e não disse mais nada. Não adiantava insistir.
Eu sabia disso. Há gente que só aprende quando a coisa acontece da forma mais difícil. A gente terminou o trabalho em silêncio. Eu fiz o que tinha de ser feito. Recolhi o que precisava. Arrumei tudo da forma que aprendi a fazer. Eu Notei que o ajudante foi ficando mais quieto à medida que o trabalho avançava.
E quando acabámos e começámos a juntar as ferramentas, aquele peso ainda não tinha ido embora. Ele ficou ali comigo o tempo todo até ao fim. Só quando passei pelo portão e saí do cemitério nesse dia, a sensação foi enfraquecendo aos poucos. O rapaz que me ajudou foi-se embora sem falar comigo. Eu Fui para casa a pensar no que tinha acontecido ali.
19 anos de serviço me ensinaram que há coisas que nós não entende, mas que existem da mesma forma. E aquela pressão que eu tinha sentido no momento em que o colar saiu do caixão, já tinha sentido antes, noutros momentos, nesse mesmo cemitério. Ela nunca aparecia por acaso, nunca aparecia sem que alguma coisa viesse depois. Eu sabia disso melhor do que ninguém.
Eu avisei o rapaz, mas ele não quis ouvir. E enquanto tentava dormir naquela noite, uma coisa ficou a rodar na minha cabeça. Era aquela certeza de que o que tinha começado ali naquela manhã ainda não tinha terminado, que ia continuar e que ainda não sabia de que forma nem quando.
E na manhã seguinte o ajudante não apareceu. Cheguei no horário de sempre, peguei nas minhas ferramentas e esperei um pouco antes de começar. Dei uma volta pelo corredor principal e voltei. E depois fui até ao escritório para perguntar e o administrador disse que não tinha recebido qualquer notícia. Então peguei nas ferramentas e fui trabalhar sozinho, sem fazer mais perguntas.
Fui fazendo o que tinha de fazer, varrendo, limpando, arrumando o que precisava. O trabalho de sempre, do jeito de sempre, mas a cabeça não parava. Eu ficava a pensar no rapaz e no colar que tinha tirado do caixão e continuava a perguntar-me o que teria acontecido para ele não ter aparecido naquela manhã. O dia foi passando devagar, a tarde chegou e o rapaz ainda não tinha dado sinal.
E quando o serviço estava quase no fim, um colega chamou-me perto do escritório e disse que tinha acabado de saber uma notícia e queria-me contar. O rapaz que me tinha ajudado na esumação tinha passado muito mal de madrugada e a família teve de chamar ambulância para o levar ao hospital. Não sabiam bem o que tinha acontecido com ele.
Os médicos não tinham dado explicação nenhuma ainda. Eu ouvi tudo sem dizer nada. O colega ficou olhando para mim, esperando alguma reação minha, mas eu só baixei a cabeça e não disse nada. Não havia nada que eu pudesse dizer naquele momento que fosse fazer-lhe algum sentido. Peguei nas as minhas coisas devagar, guardei as ferramentas no lugar habitual e fui embora sem comentar o assunto com ninguém.
Nessa noite, fiquei em casa deitado, a olhar para o teto, pensando em quantas vezes tinha avisado alguém sobre estas coisas ao longo de 19 anos de serviço. E em quantas vezes a pessoa se tinha rido daquele jeito. Nem sempre acabava assim, mas quando acabava nunca ficava surpreendido. No dia seguinte, quando eu cheguei ao cemitério, o vigia estava a me à espera perto do portão.
Ele não costumava fazer isso, mas nessa manhã estava ali parado à espera. Dava para ver pela forma como ele estava, que alguma coisa tinha acontecido durante a noite. Ele não estava bem. O rosto estava fechado, os olhos cansados, do jeito de quem não dormiu. Ele chamou-me de lado, longe do escritório, e disse que precisava de me dizer uma coisa.
falou com a voz baixa, como se não quisesse que mais ninguém ouvisse. Eu parei o que estava a fazer e fiquei ali a escutar. Contou que de madrugada tinha acordado com um barulho que vinha do cemitério. Estava no seu posto, tinha dormiu uma sesta por um tempo e acordou com aquele som. De repente disse que era como se algo estivesse a ser arrastado lentamente pelo chão, sem pressas.
Um som surdo, pesado, diferente de qualquer barulho que tinha ouvido antes. Não era vento e nem bicho. Era um barulho que não soube explicar. Disse que ficou parado durante algum tempo, só ouvindo, esperando que parasse, mas não parou. Então pegou na lanterna e foi ver. caminhou pelo corredor principal devagar, com cuidado, até chegar ao troço de onde o barulho parecia vir.
Era a direção do ossário. Ele foi chegando aos poucos, com a lanterna apontada para a frente, tentando ver alguma coisa no escuro fechado daquela madrugada. Quando chegou perto, o barulho tinha parado de vez. Ele ficou ficou com a lanterna levantada e olhou em redor com cuidado. Não tinha ninguém ali, não havia nada fora do sítio.
Oário estava como sempre estava. O silêncio tinha voltado, mas foi aí, parado naquele troço escuro, que ele sentiu alguma coisa. Era como se algo estivesse ali perto, muito perto. Ele disse que não voltou mais àquele lugar depois, só se virou e saiu a andar depressa, sem olhar para trás. e voltou para a guarita e lá ficou até o dia clarear.

Não dormiu mais nessa madrugada. Ficou sentado com a lanterna acesa ao lado, à espera que o sol nasça. Quando amanheceu, a primeira coisa que ele quis fazer foi procurar-me. Eu ouvi tudo sem interromper uma vez. Deixei-o terminar, deixei-o dizer tudo o que precisava de falar e quando acabou, ficou a olhar para mim, esperando que eu dissesse alguma coisa.
Mas eu fiquei calado por um momento e disse que tinha entendido. Não havia mais nada que eu precisasse de perguntar. Eu já sabia o suficiente. Eu sempre acreditei e respeitei muito o cemitério, os espíritos, essas coisas e todos sabiam. Por isso contou-me, talvez estivesse esperando que eu soubesse o que fazer e como resolver.
O colar tinha saído do lugar onde devia estar. O rapaz que tinha pegado no colar estava no hospital e agora o vigia tinha ouvido e sentido alguma coisa perto do ossário. As coisas estavam a encaixar de um jeito que eu não gostava. Nesse mesmo período, o cemitério continuou pesado. A sensação que tinha começado no dia da esumação não se foi embora com os dias.
Eu fui trabalhar nessa semana, fiz o que tinha de fazer, mas o local não voltou ao normal, estava diferente, mais fechado. E eu fui carregando isso junto com o serviço, sem comentar com ninguém. Numa tarde dessa mesma semana, o calor estava pesado desde cedo. O céu estava aberto, sem nuvem nenhuma, e o sol tinha castigado o cemitério durante todo o dia.
Eu tinha trabalhado desde manhã e estava terminando os últimos reparos de um trecho distante do túmulo do Thago. A tarde estava quase no fim, o sol começou a baixar e a luz foi mudando de cor aos poucos. Eu conheço bem aquela hora do dia no cemitério. É quando as sombras entre as covas ficam mais compridas.
Não é uma coisa má. É só o fim da tarde a chegar, como todos os dias. Mas naquele dia, naquela hora específica, alguma coisa me deixou mais atento do que o normal. E aquilo fez-me parar o que estava a fazer. Não foi porque vi alguma coisa de diferente, não foi porque ouvi algum barulho fora do sítio. Foi uma sensação aquela mesma que eu tinha sentido no dia da esumação, quando o meu ajudante tirou o colar do caixão.
Só que agora estava mais forte, mais presente do que daquela vez. Era como se o troço do cemitério à minha frente tivesse mudado de repente e o meu corpo tivesse percebido antes dos meus olhos. Levantei a cabeça devagar e olhei para a frente. E foi aí que eu vi, no túmulo do Thago. Havia uma figura parada em frente do túmulo, parada, sem se mover-se, de frente para mim, como se estivesse ali há muito tempo.
Eu travei completamente. A enchada ficou na minha mão, os pés ficaram no lugar e eu fiquei ali a olhar para aquilo sem conseguir tirar os olhos. Não era uma sombra, não era um reflexo da luz, não era nada que o meu olho pudesse estar a inventar por cansaço. Era uma figura de homem parada de frente para mim, no ponto exato onde tinha feito a esumação do Thiago Melo naquela manhã de março.
Eu não corri, não gritei, não sei explicar bem o porquê. O coração acelerou muito. 19 anos de trabalho naquele cemitério me ensinaram que correr nem sempre é a resposta certa. Às vezes precisamos ficar e olhar. Então aquela figura levantou o braço lentamente, como alguém que está a apontar um lugar para outra pessoa ver, e o braço apontou para baixo, para o chão do túmulo onde estava.
Eu fiquei a olhar sem conseguir piscar e depois fechei os olhos e respirei fundo uma vez. E quando abri os olhos, não estava lá mais ninguém. O túmulo estava vazio, igual sempre esteve. A luz da tarde continuava a mesma, as sombras continuavam no mesmo lugar e o cemitério continuava quieto ao redor. Era como se nada tivesse acontecido ali.
Mas eu sabia que tinha visto e sabia que o que tinha visto era real. Não tinha dúvida nenhuma. Fiquei parado no mesmo local durante um tempo, tentando organizar na cabeça tudo o o que tinha acabado de ver. E depois fui andando devagar até lá. Quando cheguei à beira do túmulo, fiquei olhando para o chão. A terra estava do maneira que eu tinha deixado depois da exumação.
Não tinha nada de diferente ali. Mas eu olhei para aquele chão e percebi o que aquela figura me queria dizer. O colar precisava de voltar, não para dentro do caixão, porque o caixão já não estava ali, mas precisava voltar para perto daquele lugar, para o chão daquele túmulo onde Thago tinha ficado enterrado durante 3 anos. Na hora eu percebi o que aquilo queria, mas eu não tinha o colar e não sabia se o rapaz ainda estava com ele.
Não sabia quando ia sair do hospital, não sabia como estava, não sabia se ia voltar para o serviço. Eu sabia só o que precisava ser feito e que não podia fazer nada enquanto o colar não estivesse na minha mão. Fui embora nesse dia com isso na cabeça. Guardei as ferramentas, fechei o que precisava de fechar, passei pelo portão e fui para casa.
Mas o pensamento não saiu. Ficou ali comigo todo o caminho dentro da cabeça. Eu tinha visto o que tinha visto. Disso não tinha dúvidas. Decidi rezar a Deus. Pedi para que cuidasse de tudo, tirasse aquele rapaz do hospital e que conseguisse ajudar aquela alma a descansar de novo. Fechei os olhos nessa noite e tentei dormir.
Eu já tinha passado por muita coisa que não tem explicação, mas o que tinha visto naquele fim de tarde, eu não ia esquecer nunca. Dois dias se passaram e quando cheguei ao cemitério de manhã, ele estava lá. O rapaz que me tinha ajudado na esumação tinha voltado. Estava parado perto do portão, mais cedo do que a hora normal, à espera.
Eu reconheci-o de longe, mas precisei de olhar para uma segunda vez para ter a certeza que era ele. O rapaz que ali estava não era o mesmo daquela manhã de 6 de março. Ele estava abatido, mais magro, com o rosto fechado e os olhos sem aquela animação que ele sempre teve. A roupa estava arrumada, mas parecia cansado de um jeito que não era só cansaço de quem adoeceu.
Era um cansaço de dentro, de quem passava por alguma coisa que não consegue explicar direito e que ficou a pesar muito. Eu já vi este jeito em outras pessoas ao longo dos anos. Ele me cumprimentou com a cabeça e disse que precisava de falar comigo. Não foi um pedido, foi uma necessidade. Dava para ver que tinha chegado cedo exatamente para isso, para me encontrar antes de mais ninguém.
Fomos a um canto mais afastado, longe do escritório, e começou a falar com o voz baixa, tal como o vigia tinha feito dias antes. Disse que durante os dias que esteve internado, sentiu uma coisa que não soube explicar a ninguém. tentou contar à família, mas a família achou que era o efeito dos medicamentos ou do estado em que estava e não levou a sério.
Então, ficou quieto e não falou mais, mas sabia que não era isso e sabia que eu era a pessoa certa para contar. Ele falou que desde a primeira noite no hospital sentiu uma presença no quarto com ele durante todo o tempo. Durante o dia, durante a madrugada, o qualquer momento em que ele abrisse o olho, havia algo ali naquele quarto, parado, sem fazer barulho, sem se mexer, mas presente da mesma forma, como se estivesse à espera de alguma coisa.
E essa sensação não se foi embora em nenhum momento do internamento. Ele disse que tentou convencer-se de que era o estado em que se encontrava, que era o nervoso, o cansaço, os medicamentos atuando nele, mas não era. Porque quando a gente inventa uma coisa dentro da cabeça, ela vai e vem, ela passa. Essa não foi.
Ficou ali ao lado dele o tempo todo, sem sair um momento sequer. E ele sabia, no fundo, de onde aquilo tinha vindo. Quando acabou de falar, ficou em silêncio durante alguns segundos. Eu fiquei parado, a olhar para ele, apenas à espera. Depois meteu a mão no bolso da [música] calça devagar e tirou o colar. A mesma corrente fina, o mesmo pendente pequeno, estava da mesma forma que tinha saído de dentro daquele caixão.
Ele segurou-o à minha frente com as duas mãos e entregou-me. Eu não tive de pedir nem dizer nada. Ele entregou porque sabia que era o que tinha de fazer. Eu peguei o colar com cuidado, olhei-o por um momento e não disse uma palavra sobre o que tinha acontecido durante aqueles dias. Não era altura de falar sobre isso.
Guardei o colar no bolso e disse que estava tudo bem e que ele podia começar o serviço. O dia passou normal. Ele trabalhou ao meu lado, quieto, sem os comentários de antes. Eu fiz o meu serviço. Ele fez o seu, cada um no seu canto. O cemitério estava diferente nesse dia, mais leve. Aquele peso que tinha ficado pendurado no lugar desde o dia da esumação parecia ter diminuído.
Eu senti isso desde cedo, desde o momento em que cheguei e o vi parado no portão. No final do expediente, os outros foram saindo. O administrador fechou o escritório, o vigia assumiu o posto e o cemitério foi ficando vazio aos poucos. Eu fiquei, continuei arrumando uma coisa ou outra, como se ainda tivesse serviço para fazer.
Esperei até que não houvesse mais ninguém circulando pelos corredores. Então, peguei nas ferramentas e fui andando lentamente na direção do túmulo do Thago. Quando lá cheguei, o sol já estava quase sumindo. A luz era baixa, as sombras estavam compridas, igual àela tarde em que eu tinha visto a figura. Mas dessa vez o túmulo estava vazio, só a terra, a lápide e o silêncio de sempre.
Então eu Tirei o colar do bolso e ajoelhei-me ao lado do túmulo. E com as mãos comecei a escavar um palmo de terra junto da lápide, do lado direito, devagar, sem pressa. A terra estava fácil de mexer, não precisei de ferramenta nenhuma. Quando o buraco estava fundo o suficiente, coloquei o colar no interior com cuidado, devagar.
Fi-lo em silêncio, sem dizer nada. Depois tapei com a mão e fui passando a terra por cima, fechando o buraco aos poucos até ficar nivelado com o chão em redor. Apertei com a palma da mão por cima, da maneira que se faz quando queremos que a terra fique firme. Levantei-me devagar e olhei para a lápide do Thiago Melo por um último momento.
Não falei nada em voz alta, mas pedi dentro da minha cabeça que ele descansasse, que aquilo tivesse sido suficiente, que a paz voltasse para aquele lugar de vez. E fui-me embora. Fui andando pelo corredor principal, sem olhar para trás. Passei pelo escritório fechado, passei o portão e saí do cemitério. O que tinha de ser feito estava feito.
E pela primeira vez desde a exumação, senti que aquilo tinha acabado, que estava em paz. E depois daquilo, o vigia nunca mais me procurou com aquele rosto de quem não dormiu. Nunca mais me chamou à parte para contar sobre o barulho de madrugada perto do ossário. As noites no cemitério voltaram ao normal, da forma que sempre foram durante todos esses anos.
E eu nunca mais vi aquela figura parada junto ao túmulo do Thago. Nunca mais senti nenhuma presença naquele troço do cemitério. Não sei explicar tudo o que aconteceu nesse período. Não tenho como provar nada do que vi e senti. Mas sei o que é verdade. Sei o que eu vi com os meus próprios olhos naquele tarde.
Sei o que o vigia sentiu de madrugada. E sei que quando a gente respeita os mortos, descansam em paz. Se acredita que tem coisas neste mundo que não explicamos, mas que existem da mesma maneira, escreve aqui em baixo: “Eu acredito”. E se também já passou por alguma coisa assim difícil de explicar, pode contar aqui nos comentários. Fiquem com Deus.
Ótima semana e até ao próximo relato.