Em 14 de agosto de 1997, às 6:22 da manhã, um autocarro de transferência penitenciária saiu do pátio da casa de detenção de Marabá, no Pará, com destino ao estabelecimento prisional regional de Altamira. A distância entre as duas cidades, pela P150 e pela antiga estrada vicinal que cortava a floresta era de aproximadamente 340 km.
O trajeto levava em condições normais entre 5 e 6 horas. O autocarro nunca chegou. Dentro dele seguiam 15 reclusos, dois agentes penitenciários e um motorista. O veículo era um autocarro adaptado da frota do estado, de cor branca com faixa azul, identificado lateralmente com a sigla Susep Pa. Os reclusos viajavam algemados por pares, sentados em bancos metálicos fixados na carroçaria.
As janelas tinham grade, as portas cadeado exterior. O motorista chamava-se Nereu Tavares Gomes, tinha 52 anos. era funcionário da Secretaria de Segurança há mais de 20 anos e conhecia aquela estrada como conhecia o quintal de casa. Ninguém viu o autocarro chegar, ninguém o viu parar. Ninguém, ao longo de toda aquela auto-estrada e dos seus ramais, se lembrou de ter visto aquele veículo passar naquela manhã de agosto.
O primeiro alerta chegou à esquadra de Altamira ao fim da tarde, quando o autocarro não apareceu e nenhum dos agentes conseguia ser localizado. Não havia telemóvel para a maioria dos colaboradores nesse ano. O rádio de comunicação instalado no veículo tinha sido reportado com defeito duas semanas antes.
A solicitação de reparação constava num ofício que aguardava ainda a resposta na secretaria em Belém. Durante 9 dias, o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar e agentes da Secretaria de Segurança Pública do Pará vasculharam a P 150. os ramais laterais e as margens dos ribeiros que atravessavam aquela região. Não encontraram vestígios do veículo, não encontraram vestígios das pessoas, não não encontraram nada que indicasse o que tinha acontecido naquela manhã entre Marabá e Altamira.
O caso foi registado, investigado por algumas semanas e depois engavetado. A versão oficial que prevaleceu foi a de fuga planeada com clicidade interna. Os detidos, dizia o relatório, tinham dominado os agentes, forçado a paragem e desaparecido na floresta. Os agentes, segundo essa mesma versão, também tinham desaparecido porque estavam envolvidos.
Nenhuma destas afirmações foi provada, nenhuma foi oficialmente descartada. 28 anos depois, em março de 2025, um grupo de trabalhadores a abrir uma picada para instalação de linha de transmissão elétrica no interior do Pará, encontrou um autocarro encoberto pela vegetação a mais de 40 km de qualquer estrada pavimentada.
A vegetação tinha crescido sobre ele. O teto tinha cedido em dois pontos. As laterais estavam tomadas pela ferrugem e cipó. Mas o que chamou a atenção dos trabalhadores não foi o estado do veículo, foi o que estava no interior. As algemas, todas as algemas abertas, organizadas sobre os bancos, como se alguém as tivesse retirado com cuidado e as tivesse deixado ali em ordem antes de sair.
Não havia ossos, não havia pertences, não havia qualquer sinal de violência visível, apenas o silêncio de uma floresta que tinha crescido em volta de um veículo fechado durante quase três décadas. certo? E as algemas abertas sobre os bancos de metal enferrujado. O que aconteceu naquela manhã de agosto de 1997 entre Marabá e Altamira? Quem abriu aquelas algemas? E onde estão hoje as 18 pessoas que entraram naquele autocarro e não chegaram ao destino? Há detalhes neste caso que a investigação original nunca conseguiu explicar e que o reaparecimento do autocarro em 2025
tornou ainda mais difíceis de ignorar. O primeiro deles é técnico. As algemas utilizadas no transporte penitenciário do Pará nesse período eram do modelo padrão da frota estatal com trava dupla. Para abri-las era necessária uma chave específica. Cada agente levava consigo um par de chaves guardado no cinto.
A perícia realizada após a descoberta do autocarro confirmou que as algemas não foram forçadas. Não havia marca de arrombamento e de corte nem de deformação no mecanismo. Foram abertas com chave, uma a uma. O segundo detalhe é geográfico. O local onde o autocarro foi encontrado fica a mais de 40 km da estrada mais próxima, dentro de uma área de floresta densa que em 1997 não tinha ramal carroçável com acesso para um veículo daquela dimensão.
Os peritos que estiveram no local em 2025 levantaram uma questão que ainda não foi respondida. como aquele autocarro chegou até ali. O terceiro pormenor é humano. Entre os 15 reclusos transportados naquele autocarro, houve um nome que voltou à tona assim que o caso foi reaberto. Evanildo Custódio Braga, de 38 anos, condenado por crimes patrimoniais em Marabá, havia pedido transferência para Altamira três vezes nos seis meses anteriores.
Os pedidos constavam do processo clínico. No o motivo declarado era a ameaça de morte dentro da casa de detenção. O verdadeiro motivo, segundo os investigadores que reviu o caso em 2025, ainda está sendo apurado. Ficou aqui porque sabe que esta história não termina onde parece terminar. Um autocarro que desaparece numa estrada de floresta.
28 anos de silêncio e de algemas abertas com cuidado sobre os bancos enferrujados. O que vem agora vai mostrar passo a passo tudo o que se sabe e tudo o que ainda não se sabe. Na manhã de 14 de Agosto de 1997, a casa de detenção de Marabá acordou mais cedo do que o habitual. As transferências eram sempre assim.
Acordavam o pavilhão todo, mesmo os que não iam a lado nenhum. Havia um ruído diferente naquelas manhãs, um movimento nos corredores que os reclusos reconheciam mesmo antes de os agentes começarem a chamá-los pelo nome. Era o som das chaves a bater nas grades, dos passos apressados no betão, das vozes baixas que tentavam manter a ordem sem precisar de gritar.
Quem ia embora sabia que ia, quem ficava também sabia. Nereu Tavares Gomes chegou ao pátio às 5h40 da manhã, meia hora antes do previsto. Como era o seu hábito? Não era um homem de chegar em cima da hora. A sua filha mais velha, Soraia, que tem hoje 42 anos, recorda que o pai acordava antes do despertador tocar.
Dizia que preferia ter tempo do que ter pressa. Naquela manhã de agosto, Nereu verificou o nível do óleo, testou os travões, verificou a reserva de combustível. O autocarro havia sido abastecido na véspera com o suficiente para o percurso de ida com folga. A lista dos reclusos a transferir tinha sido entregue aos dois agentes na noite anterior.
Os agentes eram Valdemar Souza Correia, de 44 anos, com 12 anos de serviço, e Geraldo Matos Figueiredo, 37 anos, que tinha entrado na Secretaria de Segurança há 4 anos. Os dois se conheciam, mas não eram próximos. trabalhavam em turnos diferentes e aquela foi das poucas vezes em que coincidiram numa mesma missão. Tudo seguia o procedimento.
Os formulários foram assinados. Os reclusos foram conduzidos ao parque em fila, algemados dois a dois antes de entrar no veículo. O embarque demorou aproximadamente 20 minutos. A porta traseira foi trancada com cadeado por fora. Valdemar subiu pela porta da frente e ficou de pé no corredor interior junto aos bancos.
Geraldo ocupou o banco atrás do condutor, voltado para os detidos. Nereu ajustou o espelho retrovisor, nhe ligou o motor e saiu do estaleiro às 6h22 da manhã. O que Nereu não sabia, o que nenhum dos três sabia era que o rádio instalado no veículo, aquele equipamento que deveria manter contacto com a central durante todo o percurso, tinha sido verificado formalmente na semana anterior e tinha sido considerado operacional no relatório de manutenção, mas não estava.
A verificação tinha sido feita com o veículo parado no parque, sem carga e sem percurso. Em movimento dentro da floresta, o rádio perdia o sinal nos primeiros quilómetros depois de Marabá e não regressava. Esse defeito tinha sido relatado informalmente por outros motoristas da Frota, mas nunca foi registado em documento oficial.
E o ofício de pedido de reparação que constava na secretaria em Belém se referia-se a outro problema, uma falha na ignição que tinha sido corrigida trs meses antes. O rádio seguia tecnicamente operacional no papel. O pátio da casa de detenção de Marabá cheirava naquela manhã a diesel e a terra molhada. Tinha chovido de madrugada, uma daquelas chuvas rápidas e fortes que o pará de agosto às vezes traz sem aviso.
E o chão de betão ainda estava húmido. O céu estava claro quando o autocarro saiu. O motorista do turno da noite, que se encontrava saindo quando Nereu chegou, disse mais tarde à polícia que tinham trocado duas palavras no portão. Nereu tinha dito que estava bem e que o tempo prometia. O outro condutor confirmou que sim, que estava a prometer.
Essa foi a última conversa documentada que alguém teve com o Nereu Tavares Gomes. Liu o autocarro dobrou à esquerda à saída da casa de detenção, tomou a rua principal em direção à marginal e entrou na PA150 em direção ao norte. Um guarda do portão registou a saída no livro de ocorrências com a hora exata, 6:22 minutos.
Esse registo manuscrito num livro de capa dura que sobreviveu ao tempo foi o único documento oficial que confirmou com precisão o momento em que aquele veículo deixou o Marabá. Depois disso, o autocarro desaparece de qualquer registo. De todos os nomes que constavam da lista de transferência desse dia, a investigação de 2025 conseguiu reconstituir com precisão a história de 11.
Os outros quatro seguiam com identidades registadas de forma incompleta nos registos médicos da época, um problema comum na administração penitenciária do Pará nos anos 90 e havia reclusos cujos registos de entrada na unidade tinham apenas um nome e um número de RG que quando cruzado com os sistemas estatais não retornava nenhum resultado consistente, não era falsidade ideológica.
necessariamente era muitas vezes apenas o reflexo de um sistema que registava o que conseguia registar com os recursos que tinha na rapidez que a burocracia permitia. Entre os 11 identificados com segurança, as histórias repetiam-se com variações pequenas. A maior parte tinha sido condenada por crimes patrimoniais, furto qualificado, roubo simples, receptação.
Dois respondiam por tráfico de estupefacientes em escala pequena. O tipo de caso que na linguagem dos agentes penitenciários daquela época era chamado de tráfico de sobrevivência, porque envolvia quantidades que não indicavam organização nem liderança, e um havia sido condenado por ofensa à integridade física grave após uma rixa num garimpo ilegal próximo de Marabá.
Nenhum dos 15 tinha sido condenado por homicídio. Nenhum constava em nenhuma lista de liderança de organização criminosa. Este pormenor importa porque nos anos seguintes ao desaparecimento, uma das versões que circulou nos corredores da Secretaria de Segurança e chegou mesmo a algumas redacções de jornais era a de que o autocarro havia sido intercetado por um grupo criminoso organizado que procurava resgatar algum líder.
transportado naquele veículo. A versão nunca foi sustentada por nenhum nome, por nenhum prontuário, por nenhuma investigação formal, mas circulou. E circulou porque, na ausência de uma explicação oficial consistente, qualquer narrativa que preenchesse o vazio encontrava espaço para crescer. E Evanildo Custódio Braga era o nome que mais aparecia nas conversas informais dentro da casa de detenção de Marabá nos meses anteriores à transferência.
Tinha 38 anos. Era natural de Tucuruí, filho de uma família que se tinha estabelecido na região depois da chegada da Hidroelétrica, quando muita gente veio e muita gente ficou sem ter para onde ir. Depois de o lago ter subido e as terras desapareceram, Evanildo tinha entrado no sistema penitenciário com 29 anos, condenado por burla e falsidade documental.
Não era um crime violento, era o tipo de crime que dentro das cadeias colocava o homem numa posição delicada, sem o respeito que os crimes de sangue às vezes geravam entre os reclusos, mas com acesso a competências que os grupos organizados valorizavam. Tinha pedido transferência para Altamira três vezes em se meses, certo? O motivo declarado nos formulários era ameaça de morte dentro da unidade.
Os formulários existiam, foram localizados pelos investigadores de 2025 no prontuário original de Evanildo, e estavam preenchidos com a letra dele, legível e cuidada. A administração da casa de detenção tinha respondido ao primeiro pedido, dizendo que estava em análise. Ao segundo, dizendo que dependia de vaga em Altamira.
Ao terceiro, não havia resposta formal registada. A transferência tinha sido aprovada por outros critérios administrativos, sem relação direta com os pedidos de Evanildo, e tinha sido incluído na lista daquela manhã de agosto, sem que ninguém aparentemente tivesse cruzado o seu nome com os seus pedidos anteriores e com as razões que tinha apresentado para querer sair.
O que Evanildo sabia que os outros não sabiam. E se é que sabia alguma coisa, é uma das questões que os investigadores de 2025 não conseguiram responder. O seu prontuário foi vasculhado, as suas visitas foram rastreadas. Os seus registos de chamadas telefônicas dentro da unidade foram analisados na medida em que sobreviveram ao tempo.
O que surgiu deste material foi um homem que recebia a visita da mãe de três em três semanas e que tinha recebido, nos dois meses anteriores à transferência duas visitas de um homem identificado no registo como primo, cujo nome constava nos livros da unidade, mas cujo BI, quando verificado em 2025, pertencia a uma pessoa que tinha falecido em 1993.
Este detalhe foi destacado no relatório preliminar da investigação de 2025. Não foi explicado. A PA 150 não estava em 1997 aquilo que ela é hoje. Havia trechos asfaltados, sim, e mas também havia longos intervalos de terra batida que o verão endurava e o inverno amazónico transformava-se em lamaçal.
O troço entre Marabá e a primeira bifurcação obrigatória do percurso, aproximadamente 60 km depois da saída da cidade, tinha asfalto irregular, com remendos que os os condutores aprendiam a desviar-se na memória, porque a sequência dos orifícios não mudava de um ano para o outro. Depois desta bifurcação, a estrada perdia a qualidade progressivamente.
A terra vermelha aparecia entre as pedras. As árvores aproximavam-se do acostamento. A sombra da floresta chegava mais cedo do que em qualquer cidade. Entre Marabá e Altamira, o percurso oficial passava por dois ramais obrigatórios nesse período. N o primeiro era necessário para desviar de uma ponte sobre o rio Itacaiunas.
que tinha sido interditada desde 1994 por problemas estruturais e que em 1997 aguardava ainda recurso federal para a reforma. O desvio acrescentava aproximadamente 30 km ao percurso e passava por dentro de um troço de assentamento do Incra, onde a estrada era de terra batida pura e onde nos dias seguintes a chuva, veículos pesados deixavam sulcos fundos que o sol depois endureceu como cimento.
O segundo ramal era necessário para contornar uma área de conflito agrário junto ao município de São João do Araguaia, onde a Polícia Militar mantinha presença intermitente desde 1996, depois de um confronto entre trabalhadores rurais sem terra e seguranças de uma quinta que havia resultado em mortes. Este segundo desvio não estava sinalizado, não é? era conhecido pelos motoristas da Frota por instrução verbal passada de um para outro, porque nenhum documento oficial reconhecia oficialmente que aquele troço principal estava interditado.
Os condutores da frota penitenciária conheciam estes desvios. Nereu os havia feito dezenas de vezes. Sabia onde a estrada afunilava, onde havia pedra solta, onde o mato crescia sobre a faixa de rolamento nos meses de chuva. Sabia também que nestes troços não havia ninguém, nenhuma casa, nenhum comércio, nenhum posto de abastecimento de combustível, nenhum ponto de paragem formal.
Uma vez dentro daqueles atalhos de terra, um veículo podia desaparecer da vista de qualquer observador em questão de minutos e podia ficar desaparecido sem que ninguém, ao longo de toda aquela extensão de floresta, soubesse dizer se tinha passado ou não havia passado. Conseguiria continuar a sua rotina sabendo que alguém que se ama saiu de casa numa manhã comum e que ninguém, em nenhum ponto da estrada consegue dizer se chegou a passar.
É este o tipo de silêncio que a família de Nereu Tavares Gomes começou a viver a partir da tarde do dia 14 de Agosto de 1997. Não o silêncio de quem sabe e não fala, o silêncio de quem procura e não encontra, nem o rasto de uma resposta. O primeiro funcionário a notar que algo estava errado foi o chefe de segurança do estabelecimento prisional de Altamira, Raimundo Pereira das Neves, que esperou pelo autocarro até às 14 horas antes de ligar para o secretaria em Belém.
Raimundo tinha 51 anos. tinha trabalhado em três unidades penitenciárias diferentes no Pará e estava em Altamira há 2 anos. Era um homem habituado às demoras. Note as transferências da frota do Estado chegavam atrasadas com frequência suficiente para que uma espera de algumas horas não causasse alarme imediato. A estrada era difícil, o veículo era velho, os imprevistos aconteciam.
A resposta que Raimundo recebeu quando ligou às 2as da tarde foi para aguardar mais uma hora, porque os atrasos eram comuns naquele percurso. Quem atendeu o telefone na secretaria foi uma funcionária administrativa que não tinha autoridade para acionar nenhum protocolo de emergência e que anotou a chamada num caderno de ocorrências.
Este caderno foi localizado em 2025 num arquivo em Belém. A anotação da ligação de Raimundo constava nele, com hora e resumo do que tinha sido comunicado. Ao lado, escrito a caneta, estava a instrução que a funcionária tinha recebido do seu superior imediato. Aguardar. Às 15h30, De Raimundo ligou de novo.
Desta vez, a orientação foi registar uma ocorrência e acionar a esquadra local. O boletim de ocrência foi lavrado às 4:16 da tarde na esquadra da polícia civil de Altamira, quase 10 horas depois de o autocarro ter saído de Marabá. O delegado de serviço que assinou o boletim era um homem chamado Hélio Drumond Vasconcelos, que tinha chegado àquela comarca havia menos de um ano e que, segundo relatos posteriores de colegas, tratou a ocorrência inicialmente como um caso provável de avaria mecânica ou acidente de percurso. Mandou uma viatura verificar o
troço inicial da PA150 em direção a Marabá. A viatura voltou sem ter visto nada fora do normal. Nesse intervalo de 10 horas, não se verificou busca ativa, não houve acionamento do corpo de bombeiros e não houve comunicação com as famílias dos agentes, nem dos detidos. Não houve contacto entre a esquadra de Altamira e a esquadra de Marabá para confirmar se o autocarro havia de facto saído.
O sistema tinha funcionado exatamente como estava concebido para funcionar naquele momento, com cautela burocrática, com espera como primeira resposta, com urgência, apenas quando a cadeia de comando autorizava que houvesse urgência. Na manhã do dia seguinte, quando ficou claro que o autocarro não tinha chegado e que nenhum dos três funcionários tinha dado qualquer sinal de vida, o caso mudou de natureza.
O corpo de bombeiros foi acionado. A Polícia Militar recebeu ordem para mobilizar efetivos. A Secretaria de Segurança em Belém passou a acompanhar diretamente, mas as 10 horas perdidas na véspera eram 10 horas que a floresta já tinha absorvido. E a família de Nereu Tavares Gomes soube do desaparecimento pelo vizinho. um senhor chamado Dirceu, que costumava escutar o rádio AM de Marabá durante o almoço e que dois dias depois do sucedido ouviu uma nota que mencionava um autocarro da frota penitenciária do Estado dado como desaparecido na PA150.

Dirceu foi a casa de Aparecida Gomes. A mulher de Nereu bateu à porta e perguntou-lhe se ela tinha escutado alguma coisa. Aparecida não tinha escutado nada. Ninguém da secretaria tinha ligado. Nenhum colega de Nereu tinha aparecido. A ausência do marido, ela tinha explicado a si mesma como uma daquelas situações em que o autocarro pára dormir a meio do caminho porque a noite apanha antes de chegar.
Algo que já havia acontecido antes, uma ou duas vezes em anos anteriores. Aparecida Gomes tinha 50 anos naquele Agosto de 1997. Trabalhava como merendeira numa escola municipal no bairro da cidade nova em Marabá. Acordava às 5 da manhã, preparava o café para os filhos, saía às 6 para ir buscar dois autocarros até à escola e voltava às 2as da tarde.
Criava três filhos com Nereu, Soraia, 18 anos, Cleiton, 20 anos e o mais novo, Tadeu, que tinha 16. Nereu trabalhava de forma irregular, por vezes vezes saindo segunda-feira e regressando quarta-feira, ficando por vezes a semana inteiro fora porque a viagem se repetia ou porque havia serviço extra na unidade.
Aparecida estava habituada a esperar. O que ela não estava habituada era esperar sem saber porquê. Na tarde do dia em que Dirseu lhe bateu à porta, ela foi à esquadra de Marabá. E o agente que a atendeu verificou o registo e confirmou que havia um boletim de ocorrência aberto em Altamira relacionado com o autocarro, mas disse que o caso estava a ser tratado pela delegacia daquela cidade e que ela necessitaria falar com eles.
Aparecida não tinha como telefonar para Altamira àquela hora. O telefone da esquadra de Altamira, quando ela conseguiu o número, não atendia. Ela foi para casa, deu o jantar para os filhos e ficou acordada até de madrugada à espera que o telefone tocasse. O telefone não tocou. As famílias dos reclusos tiveram ainda menos acesso à informação do que as famílias dos funcionários.
Algumas demoraram semanas a compreender que os seus não tinham chegado ao destino. A comunicação oficial entre o sistema penitenciário e os familiares de reclusos era precária naquele período e não havia um procedimento estabelecido para notificar os parentes em caso de transferência frustrada. Os reclusos não tinham direito à ligação para avisar que tinham chegado.
As famílias dependiam de cartas, de visitas agendadas e, por vezes, de boatos que corriam entre conhecidos. Benedita Custódio Braga, a mãe de Evanildo, era uma mulher de 62 anos que vivia num bairro periférico de Marabá chamado São Félix, do outro lado do rio Tocantins. trabalhava como lavadeira de roupa para três famílias da cidade e visitava o filho de três em três semanas, sempre à quarta-feira, porque era o dia em que a escola municipal onde estudava a neta fechava mais cedo e ela conseguia alguém para ir buscar a menina. Quando
chegou ao dia de visita seguinte, ao desaparecimento, ela foi à casa de detenção e foi informada de que Evanildo tinha sido transferido. Perguntou para onde, disseram que para Altamira. Perguntou quando o poderia visitar lá. Disseram que precisaria de aguardar que o registo fosse atualizado no sistema.
Benedita voltou para casa. Na semana seguinte, voltou à casa de detenção com uma carta que tinha escrito para o filho. A carta foi recusada porque o destinatário não constava mais na unidade. Ela perguntou se havia alguma forma de encaminhar a carta para Altamira. Disseram que não sabiam. Foi só quando uma sobrinha que trabalhava num cartório em Marabá ouviu falar do caso por um cliente que tinha lido num jornal que Benedita entendeu o que tinha acontecido.
Apanhou o autocarro de linha para Altamira sozinha duas semanas depois do desaparecimento. Chegou ao estabelecimento prisional regional às 10 da manhã de uma terça-feira. A funcionária que a atendeu confirmou que Evanildo Custódio Braga nunca tinha dado entrada nessa unidade. Benedita perguntou o que significava.
A funcionária disse que não sabia. Benedita regressou a Marabá no mesmo dia. Chegou a casa às 11 da noite, com os pés inchados de tanto andar e com uma resposta que não era resposta nenhuma. sentou-se na cadeira da cozinha e ficou ali durante algum tempo que a sobrinha que a esperava não soube medir.
Depois disse que ia fazer uma promessa à Nossa Senhora de Nazaré e que ia esperar. Esperou durante anos. O inquérito aberto pela Polícia Civil Pará em agosto de 1997 durou formalmente 4 meses. Nesse período foram ouvidas 16 testemunhas. Essa maioria era funcionária da Secretaria de Segurança, administradores da casa de detenção de Marabá, o chefe de segurança de Altamira, a funcionária administrativa que havia atendido a ligação de Raimundo Pereira das Neves na tarde do desaparecimento.
Os restantes eram moradores de postos de gasolina e de casas isoladas ao longo da PA150, que afirmaram não ter visto o veículo passar nessa manhã. Nenhuma destas testemunhas tinha estado nos ramais laterais. Nenhuma havia sido abordada enquanto estava dentro da floresta. Nenhuma diligência formal foi realizada nos ramais para além do primeiro troço, o que o inquérito justificou com uma frase que os investigadores de 2025 sublinharam no documento original.
Acesso impossível para veículos da polícia nas condições existentes. Esta justificação nunca foi acompanhada de um relatório técnico que descrevesse que condições eram essas, nem de uma avaliação de quanto tempo ou recurso seria necessário para ultrapassar o impedimento. Era uma frase administrativa que encerrava uma possibilidade de investigação sem precisar explicar por a encerrava.
Não houve sobrevoiros do Pará não dispunha de helicóptero próprio nesse período. O helicóptero da Polícia Militar tinha sido requisitado para outra operação na região de Belém e não foi redirecionado para a pesquisa. Não houve cão farejador, não houve comunicação formal com outros estados, nenhuma solicitação ao Sinalid, que nesse ano ainda funcionava de forma extremamente precária e sem integração entre as unidades federativas para cruzar informação sobre as 18 pessoas desaparecidas.
Não houve sequer momento do inquérito um mapa detalhado dos ramais possíveis que o autocarro poderia ter percorrido, com indicação das distâncias, condições de acesso e pontos onde um veículo daquele porte poderia ter parado ou sido travado. A conclusão do inquérito redigida em Dezembro de 1997 pelo comissário Hélio Drumon Vasconcelos apontava para a fuga organizada com participação dos agentes internos.
O texto era técnico e seco. Dizia que na ausência de indícios de crime contra os ocupantes do veículo, a hipótese mais consistente com os factos disponíveis era a de que os reclusos haviam de forma coordenada dominado os agentes e o condutor, forçado à paragem do veículo e desaparecido na floresta, possivelmente com apoio externo previamente articulado.
Os agentes, segundo este raciocínio, e teriam participado voluntariamente ou teriam sido mantidos sob coerção e depois eliminados ou integrados no grupo. Esta conclusão não estava sustentada por nenhuma prova física, nenhum testemunho direto e nenhuma investigação de campo que houvesse chegado ao interior dos ramais.
Era uma hipótese de trabalho que havia sido promovida à conclusão oficial porque o prazo do inquérito se tinha encerrado e porque nenhuma outra explicação tinha surgido para substituí-la. O comissário Hélio Drumon Vasconcelos foi transferido para a comarca de Redenção, no Sul do Pará, em Março de 1998. O inquérito original foi remetido ao arquivo da Secretaria de Segurança em Belém.
O Ministério Público homologou o arquivamento sem solicitar diligências complementares. Se fosse consigo, com alguém que você ama, acreditaria nesta conclusão? aceitaria que um familiar seu tivesse desaparecido numa floresta sem que ninguém tivesse entrado de verdade naquela floresta para o procurar. A vegetação amazónica não espera.
Essa não é uma metáfora. É uma descrição funcional do que acontece quando o floresta encontra uma superfície parada. As plantas pioneiras chegam primeiro. As fetos, os cipós finos, as ervas infestantes, que crescem rapidamente e morrem rápido, mas abrem caminho para o que vem depois. De seguida, chegam os arbustos, os troncos jovens, as lianas que sobem por qualquer estrutura vertical que encontrem.
Em 5 anos, um veículo parado numa clareira já há vegetação a crescer sobre o tecto, sobre os guarda-lamas, sobre os pneus desinsuflados. Em 10 anos desaparece da linha de visão de qualquer um que passe a menos de 50 m sem saber o que procura. E em 28 passa a fazer parte da paisagem. Uma forma estranha sob o sipó, uma resistência diferente no mato quando o machete bate, algo que o olho não identifica imediatamente porque o cérebro não está preparado para encontrar aquilo ali.
Os trabalhadores que encontraram o autocarro em março de 2025 eram funcionários de uma empresa contratada para realizar obras de instalação de uma linha de transmissão elétrica num troço do interior do Pará, que nunca tinha sido eletrificado. A picada que abriam era nova, traçada a a partir de um mapeamento de satélite que tinha identificado o corredor, menos acidentado para o projeto.
Nenhum deles sabia que tinha passado por aquela zona antes. Nenhum morador local havia mencionado nada de anormal naquele trecho. Um dos trabalhadores, um homem de nome Davi Pantoja, de 41 anos, estava abrindo vegetação com um machete quando sentiu a lâmina bater em metal. O som foi diferente do som da madeira, mais seco, mais duro, com uma vibração que ficou na mão.
David cortou mais mato à volta devagar e viu a superfície enferrujada por baixo. Chamou os colegas. Demoraram quase 40 minutos cortando vegetação para conseguir identificar o que tinham diante de si. A forma do veículo foi aparecendo aos poucos. Primeiro o contorno do teto, depois as laterais, depois as janelas com grade, depois a faixa azul que a ferrugem se transformara numa mancha escura, mas que ainda era reconhecível contra o branco desbotado da carroçaria.
Davi Pantja tirou uma fotografia com o telemóvel e mandou para o encarregado da obra. O encarregado ligou para a G empresa. A empresa ligou para a polícia civil. Já informação chegou à esquadra regional de Altamira na tarde do mesmo dia. O delegado que recebeu o comunicado, um homem que tinha 2 anos de cargo e que tinha nascido 6 anos depois do desaparecimento do autocarro, pediu que a área fosse preservada e que ninguém tocasse em nada.
Enquanto isto acontecia numa casa num bairro de Marabá, Aparecida Gomes, que tinha ficado viúva oficialmente apenas em 2004, quando a morte de Nereu foi declarada judicialmente por ausência após os 7 anos exigidos por lei, completava 80 anos de vida com a saúde frágil e a memória ainda intacta. A A filha mais velha, Soraia, vivia com ela.
O filho do meio, Cleiton, vivia num bairro próximo. Tadeu, o mais novo, tinha-se mudado para Belém há anos. Nesse dia de março de 2025, Aparecida estava sentada na sala quando a filha chegou com o telemóvel na mão e começou a contar o que tinha aparecido nas notícias. Aparecida, ouviu em silêncio. Depois pediu à filha repetisse.
Depois ficou quieta durante um tempo. Ninguém lhe tinha ligado antes da notícia chegar pelas redes sociais. A equipa de perícia do Instituto de Criminalística do Pará chegou ao local dois dias após a descoberta. O acesso era difícil. O trecho mais próximo de estrada praticável ficava a mais de 12 km do ponto onde o autocarro estava.
O percurso final foi feito a pé com o equipamento carregado manualmente pela equipa. Os peritos chegaram ao local ao início da manhã, quando a floresta ainda estava húmida da noite e a luz entrava pela copa das árvores em faixas estreitas que iluminavam o chão de forma irregular. E o autocarro estava numa pequena depressão do terreno, ligeiramente inclinado para o lado direito, como se as rodas dianteiras tivessem afundado progressivamente nos anos de chuva.
O teto tinha cedido em dois pontos por causa do peso acumulado de vegetação sobre a estrutura. As laterais estavam tomadas pela ferrugem e pela liana. As janelas com grade estavam no lugar, embora os vidros onde tinha existido o vidro tivessemse fragmentado. A porta da frente estava aberta, a porta traseira estava fechada. Os peritos documentaram tudo antes de entrar.
Depois, um a um, foram para dentro. O que encontraram no interior do autocarro foi registado em relatório preliminar, divulgado em abril de 2025, após revisão do Instituto de Criminalística e aprovação do delegado responsável pelo caso reaberto. As 15 algemas estavam abertas e dispostas sobre os bancos metálicos.
Cada par estava junto ao banco correspondente, como se tivessem sido retiradas e aí colocadas de forma deliberada, uma de cada vez. A disposição não era aleatória. Cada algema aberta estava no banco, onde, de acordo com a lista de transferência, estava um detido sentado. Não havia marcas de corte nas argolas, não havia deformação nas travas, não se verificou qualquer sinal de que as algemas tivessem sido forçadas ou arrombadas.
O mecanismo de cada uma estava intacto e funcionava normalmente quando testado pelos peritos. O que, dada a humidade acumulada de quase três décadas de floresta amazónica, foi considerado no relatório como um dado a verificar. O metal tinha enferrujado externamente, mas o mecanismo interno de bloqueio, protegido pelo próprio corpo da algema, se havia conservado.
A conclusão provisória dos peritos era de que as algemas tinham sido abertas com chave, uma a uma, com o instrumento correto, sem pressas aparente. Mas nenhuma chave foi encontrada no interior do veículo. Os pertences dos agentes também não estavam. Não havia coldres, não havia documentos, não havia crachás.
O banco do condutor tinha o cinto desafivelhado, como se Nereu se tivesse levantado. O espelho retrovisor estava ajustado na posição de utilização normal. A chave de ignição não estava no contacto. A porta traseira estava fechada por no interior com o ferrolho interior na posição travada.
Isto significava que quem saía do veículo saiu pela porta da frente, o única que estava aberta, ou que quem fechou a porta traseira por dentro não saiu por ela. Os peritos não conseguiram explicar essa parte, não naquele momento. E o relatório final, até à última informação disponível sobre este caso, ainda não tinha sido divulgado. Lembra-se do que foi dito no início? das algemas organizadas sobre os bancos, da porta fechada por dentro, da florestal que cresceu durante 28 anos sobre um veículo que ninguém deveria ter conseguido levar até ali. A resposta
para o que aconteceu naquela manhã de Agosto de 1997 ainda não existe sob a forma oficial, mas há uma peça que os investigadores de 2025 encontraram nos arquivos e que tinha ficado esquecida por quase três décadas. E esta peça muda alguma coisa. Quando o caso foi reaberto pela esquadra de repressão de crimes contra a administração pública do Pará, em abril de 2025, o primeiro trabalho dos investigadores foi localizar o inquérito original de 1997.
O processo havia sido instaurado em Altamira, mas o arquivo físico tinha sido transferido para Belém em 1999, durante uma reorganização dos cartórios dos juízos criminais do interior. em Belém, tinha passado por pelo menos duas alterações de endereço institucional antes de chegar ao local onde foi encontrado, num corredor da cave da sede da Secretaria de Segurança Pública, no âmbito de uma caixa de cartão marcada com o número de protocolo original, que por a sua vez estava dentro de um ficheiro metálico, cujo inventário não tinha sido
atualizado desde 2007. As três pastas do inquérito estavam amareladas e com manchas de humidade nas bordas. Parte do texto era ilegível, especialmente nas páginas das extremidades de cada pasta. Os investigadores de 2025 fotografaram tudo antes de manusear por precaução. A leitura e transcrição do material demorou qu dias, nos foi nesse trabalho que apareceu o relato de Álvaro Mendes Pinto. Álvaro tinha 43 anos em 1997.
Era motorista de pesados. Trabalhava por conta própria, transportando madeira entre serrações do interior do Pará. E naquela manhã de 14 de agosto estava na PA150, no sentido contrário ao do autocarro desaparecido. O relato fora recolhido numa esquadra do interior, não em Altamira, nem em Marabá, mas em São João do Araguaia, onde Álvaro tinha parado para abastecer três semanas depois do desaparecimento.
Um agente que se encontrava no posto de combustível o tinha ouvido comentar com o frentista que tinha visto um autocarro parado numa bifurcação naquele dia e tinha levado o homem até ao esquadra para prestar um depoimento formal. O depoimento de Álvaro Mendes Pinto tinha duas páginas manuscritas com a caligrafia de um delegado de pequena comarca que escrevia rápido e com abreviaturas próprias.
Mas o conteúdo era claro. Álvaro tinha passado por uma bifurcação de Ramal a aproximadamente 80 km de Marabá, na direção norte, por volta das 9 horas da manhã do dia 14. Havia visto um autocarro branco com faixa azul parado naquela bifurcação, com o motor aparentemente desligado, sem fumo saindo do escape.
Havia dois homens exterior do veículo na área de terreno da bifurcação, junto à porta dianteira. Os dois estavam de pé e em conversa, sem aparência de agitação ou conflito. Álvaro tinha reduzido a velocidade ao passar, porque a estrada era estreita e a largura do camião exigia atenção. E naquele momento tinha observado o autocarro durante alguns segundos.
Não tinha visto sem movimento nas janelas com grade. Não tinha visto nenhuma outra pessoa fora do veículo para além dos dois homens. Álvaro tinha seguido viagem porque a cena não lhe tinha parecido estranha naquele momento. Um autocarro parado na beira de um ramal com dois homens a conversar do lado de fora não era por si só uma ocorrência incomum naquelas estradas.
Só se tinha lembrado com mais nitidez depois de escutar semanas depois que um autocarro de transferência penitenciária tinha desaparecido naquela mesma rota, nessa mesma manhã. O depoimento havia sido registado, assinado por Álvaro e agrafado aos anexos do inquérito. Nunca havia sido mencionado no corpo do documento, nunca tinha sido cruzado com os outros depoimentos, nunca tinha gerado qualquer diligência adicional.
Os investigadores de 2025 encontraram o nome de Álvaro Mendes Pinto nos registos e tentaram localizá-lo. Aí descobriram que havia faleceu em 2011 num acidente de viação na BR222 próximo de Sailândia no Maranhão. Sua versão esteve no papel durante 28 anos sem que ninguém a lesse com atenção. O que aquele depoimento sugeria era simples e incómodo ao mesmo tempo.
E Álvaro havia visto o autocarro parado a 80 km de Marabás, às 9 horas da manhã do dia 14, com dois homens fora do veículo em conversa calma. Isso significava que o autocarro tinha saído da cidade, tinha percorrido os primeiros 80 km do percurso sem incidente aparente e tinha parado voluntariamente, ou pelo menos sem sinais visíveis de conflito nesse ponto.
Significava que pelo menos até às 9 horas da manhã todos ainda se encontravam dentro do veículo, ou que pelo menos dois dos ocupantes estavam fora por vontade própria, numa postura tranquila. E enquanto o autocarro esperava parado, o que aconteceu depois das 9 da manhã do dia 14 de Agosto de 1997, naquela bifurcação, a 40 e poucos quilómetros abaixo do ponto onde o autocarro seria encontrado 28 anos depois, não existe em nenhum registo.
Não há testemunha, não há fotografia, não há rasto físico que tenha sido preservado. Existem apenas as algemas abertas, organizadas sobre os bancos de metal enferrujado de um autocarro que a floresta guardou durante quase três décadas. Em maio de 2025, o caso continuava oficialmente reaberto.
A esquadra de repressão a crimes contra a administração pública do Pará tinha solicitado ao Ministério Público do Estado a designação de um promotor específico para acompanhar as diligências. O pedido havia sido encaminhado, protocolado e aguardava decisão. O relatório pericial completo do Instituto de Criminalística ainda não tinha sido divulgado.
A identidade do autocarro havia sido confirmada pelo número de chassis, localizado na placa fixada no painel interno do veículo, que coincidiu com o registo da frota da Secretaria de Segurança Pública do Pará de 1997, após consulta ao Arquivo Histórico do Detran estadual. Nenhuma das 18 pessoas que tinham entrado naquele autocarro em Marabá na manhã de 14 de Agosto de 1997 tinha sido localizada com vida ou morta até àquela data.
Nenhuma tinha dado entrada em hospital, numa esquadra ou em nenhum sistema de identificação oficial no Brasil ou no estrangeiro nos anos seguintes ao desaparecimento, pelo menos nenhuma, com os nomes e documentos que constavam dos registos de 1997. O Sinalid tinha sido consultado. Os registos do IML dos estados do Pará, que do Maranhão e do Tocantins, tinham sido verificados para o período imediatamente posterior ao desaparecimento.
Os registos de entrada em estabelecimentos prisionais de outros estados também tinham sido verificados para os nomes constantes na lista de transferência. Nada havia devolvido que fosse conclusivo. A Defensoria Pública do Pará tinha-se manifestou, no caso em abril de 2025, solicitando o acesso ao inquérito original e ao relatório pericial do autocarro encontrado.
Em nome dos familiares de três dos detidos transportados naquela manhã, cujos descendentes ainda residiam no Estado e que haviam procurado assistência jurídica. após a notícia da descoberta do veículo. Entre esses familiares estava uma mulher chamada Rosângela Braga, filha de Benedita Custódio Braga e sobrinha de Evanildo, L que tinha 7 anos quando o tio desapareceu e que tinha agora 35.
Rosângela tinha lido a notícia da descoberta do autocarro num aplicativo de telemóvel num domingo de manhã, sentada na cozinha da casa onde tinha crescido, ouvindo a avó falar do filho que tinha ido para Altamira e não tinha chegado. Benedita tinha morrido em 2019, aos 84 anos, sem saber o que tinha acontecido com Evanildo.
promessa para Nossa Senhora de Nazaré. Ela tinha cumprido todos os anos até ao último. Aparecida, Gomes, ao ser informada pela filha Soraia sobre a descoberta do autocarro, ficou em silêncio durante um tempo que a filha descreveu como longo. Depois pediu para ver a foto. Soraia mostrou no telemóvel.
Aparecida olhou para a imagem do veículo envolto em lianas e ferrugem com aquela faixa azul ainda visível por baixo da degradação e não disse nada por mais algum tempo. Depois disse que queria saber onde estava o corpo do marido. Não a versão oficial, o corpo. Soraia não soube o que responder. Essa é a questão que permanece em aberto neste caso.
Não é uma pergunta retórica, é uma pergunta real, formulada por uma mulher de 80 anos que esperou 21 anos por uma declaração judicial de óbito e que agora sabe que o autocarro onde o marido entrou em 1997 foi encontrado vazio com as algemas abertas a 40 km de qualquer estrada numa floresta que não deveria ter conseguido chegar até ali.
A pergunta não tem resposta disponível, e as pessoas que poderiam tê-la, se é que alguém a tem, não se manifestaram. O Brasil tem, segundo os dados mais recentes, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 60.000 pessoas desaparecidas por ano. A maior parte destas desaparições tem explicação, muitas não a têm. Algumas mantêm-se abertas durante décadas, engavetadas em arquivos físicos que se deterioram antes de serem lidos, esquecidas em boletins de ocorrência que mais ninguém revisita.
Guardadas na memória de famílias que aprenderam a carregar em silêncio o que não conseguiram resolver. O caso do autocarro da PA150 é diferente na escala. 18 pessoas, um veículo do Estado, um percurso documentado, mas é o mesmo na essência. Alguém saiu, não voltou e o sistema que deveria explicar não explicou.
O que os trabalhadores encontraram em março de 2025 naquela clareira de floresta não foi uma resposta. Foi uma questão mais profunda do que a que existia antes. Foi a confirmação de que o autocarro esteve lá, que as algemas foram abertas e que as 18 pessoas saíram ou foram retiradas, e que a floresta fechou sobre aquele lugar com a mesma indiferença com que fecha sobretudo.
O processo está aberto. As famílias ainda esperam. E as algemas, que agora estão numa sala da perícia em Belém, dentro de sacos de plástico numerados, foram abertas por alguém com uma chave, uma a uma, numa manhã de Agosto de 1997, que ainda não terminou de ser explicada. M.