Nome é Gerson. 61 anos nas costas e mais de 40 a circular nestas BRs da vida. Por aí conhecem-me como Gerson do Sul, porque saí lá de Vacaria, no Rio Grande, e nunca mais consegui tirar o sotaque carregado. Na boleia vemos de tudo, mas naquele dia vi o que nunca vou esquecer.
Há pessoas que dizem que eu sou bruto, grosseirão, cara fechada. E é verdade mesmo. A estrada vai deixando a gente assim com casca grossa. Não é vida fácil não, estás a ver? Solidão dos infernos, pó, buraco, assalto, fiscal chato no pé, rastreador a vigiar-te até para mijar, mas aprendi a viver com isso tudo. O problema é viver comigo mesmo, com as minhas culpas e arrependimentos. Aí é mais complicado.
Estava eu naquela madrugada frienta de junho cortando a BR282 em Santa Catarina. Céu estrelado, serra abaixo. O velho Scania 113 a roncar firme. Estava a levar carga de Chapecó para Florianópolis. Frango congelado. Não é o melhor frete, mas paga as contas, não é? Sabe como é. A gente não escolhe muito, principalmente nesta idade.
É cada vez mais difícil para nós, os dinossauros da estrada. Quando a gente vai ficando velho, tudo se complica. Os olhos já não vêem direito. A coluna está toda ferrada. A diabetes não dá sossego, mas a cabeça essa fica mais mole. É engraçado, certo? Quanto mais duro for o corpo, mais mole a cabeça. Hoje emociono-me com publicidade de margarina na TV.
Vê se pode. Antigamente eu era um touro bravo. Hoje choro ao ver passarinho. Era umas 3 e pouco da madrugada quando passei naquele desgraçado troço da serra do rio do rasto. Lugar perigoso da porra. Nevoeiro a entrar, visibilidade quase zero. Ia devagarinho, só no farol alto e rezando a São Cristóvão. Foi quando vi assim meio de relance uma coisa estranha na berma, perto daquela curva apertada antes do miradouro.
No início pensei que era lixo, sabe? Tem muito camionista, filho da puta que deita tralha na estrada. Mas algo me fez dar uma melhor vista de olhos pelo retrovisor e o meu coração gelou na hora. Parecia uma pessoa. Num primeiro momento, pensei, é algum malandro a armar casinha para me assaltar.
Não seria a primeira vez, mas eu estava errado. Reduzzi, encostei mais à frente e peguei na lanterna no porta-luvas. Não sou daqueles que para qualquer um, não. Mas algo me dizia que era diferente. Desci do camião praguejando baixinho. Vou meter-me em problemas, seu burro velho. Mas continuei a andar e lá estava. Vi uma cadeira de rodas encostada à mureta da estrada.
Quando cheguei perto, ela olhou para mim com os olhos mais cansados do mundo. Uma senhora devia ter os seus 80 anos, toda encolhidinha com um cobertor fino nos ombros, pálida como papel, a tremer de frio, com uma malinha surrada no colo. Meu Deus do céu, foi só o que consegui dizer. A velhinha sorriu um sorriso sem dente, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Estar sozinha numa cadeira de rodas no meio da serra às 3 da madruga, com uma temperatura de quase 0 grau. Fiquei parado nem sei quanto tempo, só a olhar, sem acreditar. Era como ver um ET. Não fazia sentido, nenhum sentido. Como uma idosa de cadeira de rodas foi ali parar. Quem deixou? Por quê? Mil perguntas. explodindo na cabeça.
Acho que a vida quis dar-me uma lição naquela noite. Eu que sempre me queixei de tudo, da minha solidão, dos meus problemas, do meu joelho doendo. E ali estava alguém que tinha razões de verdade para se queixar. E mesmo assim sorria com aquela cara enrugada. Nesta vida de estrada a gente endurece, vira bicho, mas há alturas em que Deus manda-nos uns tapa na cara para mostrar que ainda somos humanos e que ainda há gente mais fodida que a gente por aí.
Aquela senhora ia-me ensinar mais sobre a vida do que os meus 40 anos de asfalto. Sabe o que é acordar todo o santo dia sem saber em que cidade você tá? É a minha vida há mais de quatro décadas. Este trecho aí é meu endereço fixo. BR para aqui, BR para ali, postos de abastecimento a cheirar a óleo diesel e mijo de camionista.
Banheiro sujo que se precisa de tomar banho depois de utilizar o vaso. Aquela é a minha casa. Minha rotina é uma desgraça só. Levanto-me cedo para caralho quando o sol nem pensou em aparecer. Escovo os dentes com água de garrafa PET, como pão dormido com mortadela e café requentado do dia anterior.
Tudo isto sentado na boleia, encarando o para-brisas embaciado. Não tem nada de romantismo nesta porra, não. Quem diz que adora a estrada ou nunca apanhou um fretes na vida ou é maluco de pedra. Meu colchonete é fino que nem uma lasca de queijo. O banco é duro como pedra. E a minha almofada é um casaco velho dobrado.
Durmo como um cão, sempre com um olho aberto. Já levei rubaço duas vezes a dormir e na segunda quase não saí vivo. Desde então durmo com um 38 debaixo do banco. Não conto isto a ninguém, mas ali está ele, o meu companheiro de sono mais fiel do que qualquer mulher que já tive. Fazia três semanas que eu estava a emendar frete.
Saí de Uruguaiana com arroz, descarreguei em São Paulo, peguei eletrônico em Guarulhos e levei para Porto Alegre. Depois subi com calçado até Chapecó e agora estava com esse frango congelado. É o que nós chama de fechar a volta. Mas a volta nunca fecha verdadeiramente. A gente só segue a rodar, a rodar igual hsterquela rodinha de merda.
Há dias que fico 14, 16 horas seguidas ao volante. É proibido? Pois, mas e então? Se eu não o fizer, tem 10 putos louco de rebit a querer o meu lugar. A concorrência está braba e ninguém quer saber se dormiu ou não. O que importa é entregar no prazo, senão já não tem frete. A verdade é que eu ando a tentar esquecer um monte de coisa rodando assim, tentando deixar os problemas para trás, mas eles sempre alcançam-nos, né? Não adianta correr.
A minha ex-mulher, a Marinette, desistiu de mim depois de 17 anos de casamento. Não aguento olhar para a foto dela até hoje. Cansou-se de esperar pelo marido. Disse que casou com um fantasma, não com homem. Foi-se embora com um vendedor de consórcio lá da cidade, um tal de Rogério consorciador, sujeito de bigodinho fino, cabelo pintado, virou piada no excerto todo.
Então, Gerson? O consórcio da Marinete está em dia? E o meu filho, esta é a ferida que não fecha. O O Denis deve ter agora uns 32 anos. Não o vejo há mais de 15. No início ainda falava ao telefone. Depois foi espaçando, espaçando. Até que um dia ele disse na cara dura: “Pai, se nunca está aí quando preciso.
Cansei-me de ser órfão de pai vivo. Porra, aquilo doeu mais que facada. Desde então, mudou de número, bloqueou no Facebook e desapareceu. Eu até tento uma vez ou outra. Mando mensagem no seu aniversário no Natal, mas é igual atirar garrafa para o mar. Nunca sei se ele recebe, se lê, se ri, se chora, ou se nem está nem aí.
O meu filho nem se lembra mais que eu existo. A mulher cansou-se de esperar e foi-se embora com outro. Só me sobrou estrada e solidão. Solidão que eu mesmo construí asfalto por asfalto. A verdade é essa. Fui um mau marido e um pai mais merda ainda. Escolhi a estrada e a estrada escolheu-me de volta. Troca justa, mas dolorosa para caralho.
De tanto estar sozinho, a gente começa a falar sozinho. Eu converso com o painel do camião, dou nome às marchas, à conversa com São Cristóvão no santinho do painel, discuto com os pardal da estrada, xingo os buraco como se tivessem culpa de existir. É assim que mantemos um teco de sanidade ou insanidade, não sei. O negócio é não ficar em silêncio por muito tempo, porque senão os pensamentos maus vem com tudo.
Há época que fico três, 4 meses sem abraçar ninguém. Abraço de verdade, sabes? Não esses palmadinhas nas costas que a gente dá em outro camionista no posto. Um dia destes, uma empregada de mesa num boteco de beira de estrada colocou a mão no meu ombro para perguntar se queria mais café e quase chorei. Patético, certo? Mas é assim que vamos ficando.
O corpo todo duro por fora e a alma toda mole por dentro. E eu estou nessa idade escrota que nem velho sou direito, nem jovem sou mais. Pego nas duas desvantagens, as dores da velice e a obrigação de trabalhar como se fosse novo. Ninguém respeita mais camionista velho. Somos tratados como lixo, como entúo. Os mais novos gozam.
Chamam-nos de jurásico, de tartaruga. Não sabem nem trocar uma embraiagem e já vem com um carrão zero, tudo automatizado. No meu tempo, a gente tinha que saber arranjar motor na estrada, mudar correia, adivinhar o problema só pelo barulho. Tudo o que eu tenho hoje é este Scania 113 vermelho desbotado com quase 1 milhão de quilómetros rodados.
É mais velho do que muito colega de estrada por aí, mas é meu fiel companheiro. Brutus. Esse é o nome dele. Dei quando o comprei já usado há 18 anos. A cabine está remendada. O motor já foi retificado três vezes, mas ainda ressona firme. É como eu, velho, batido, mas ainda no ativo, todo rabiscado de autocolante, santinho, frase de pára-choques, uma colxa de retalhos ambulante.
Este camião é a minha casa, consultório confessionário. Já chorei litros dentro dessa cabine. E ali estava eu, naquela madrugada fria, rodando e tentando não pensar muito na vida, ouvindo modão sertanejo antigo, dos que falam de dor de cotovelo, de amor perdido. Fumando mais do que devia, tinha prometido a mim mesmo parar e bebendo café amargo para espantar o sono.
Foi quando encontrei aquela senhora na cadeira de rodas. Eu não sabia, mas aquela senhora ia mudar o meu rumo. É engraçado como a vida dá voltas, certo? Achamos que está tudo definido, que o nosso caminho já está atraçado até ao fim e do nada vem uma curva que nenhum GPS avisou. Parece que Deus ou o destino ou não sei quem comanda esta bagaça toda, de vez em quando atira uma pedra para o meio da estrada só para ver como vamos desviar ou se vamos ter coragem de parar e tirar a pedra do caminho.
Aquela velhinha na cadeira de rodas era a minha pedra ou seria a minha salvação? Eu que nunca paro para ninguém, que passo a direito em batida na estrada para não me envolver, que faço de conta que não vejo o caroneiro. Parei para ela. Por quê? Até hoje não sei explicar bem. Talvez porque aqueles olhos cansados me lembraram os da minha mãe.
Talvez porque lá no fundo queria que alguém parasse por mim se estivesse na mesma situação. Ou talvez porque depois de tantos anos de estrada ainda restava um tiquinho de humanidade neste corpo velho e cansado. Aquela cena não me sai da cabeça, nem que eu queira. Era uma madrugada filha da puta de fria, daquelas que fazem o nariz pingar e as juntas doerem tudo.
Céu limpo, estrelado, lua grande, mas um frio do caralho que entrava na alma. A serra estava tão deserta que até metia medo. Só se ouvia o barulho dos motores e vez ou outra, algum bicho na mata ao lado. Não estava a passar nem 10 carros por hora naquele trecho. Eu cago-me sempre todo quando passo naquela merda de serra do rio do rasto.
É bonita de se ver na foto, mas é o inferno na terra para conduzir. Mais de 250 curvas coladas uma à outra, umas tão fechadas que tem que manobrar o camião igual pescaria de anzol. Uma travagem brusca, um volante errado e tu já viras presunto lá no fundo do vale. Há trecho que não tem nem guard rail direito. É só uma mureta vagabunda entre ti e a queda livre pro abismo.
Lembro-me que tinha uma neblina rala começando a formar-se. daquelas traiçoeiras que vão engrossando devagarzinho até se não ver um palmo na frente do nariz. Estava a conduzir quase abraçado ao volante, com os olhos arregalados que nem uma coruja, tentando ver cada curva. E depois do nada vejo aquela silhueta à beira da estrada. No início achei que era uma ilusão de ótica, sabe? A mente da gente prega cada peça quando está cansada.
Mas quando passei ao lado e olhei melhor, vi que era uma cadeira de rodas mesmo. Uma cadeira de rodas empetiada, daquelas antigas, pesadona, com uma velhinha sentada nela. Quando voltei e cheguei perto, a minha lanterna mostrou a cena completa. Puta que pariu, era uma senhora de idade, cabelo todo branco, preso num cocozinho apertado.
Devia ter no máximo 1,50 m, toda mirradinha. Estava encolhida como um passarinho, tremendo mais que vara verde. No colo dela, uma mala pequena, daquelas de mão, toda judiada, fechada com um cordel amarrado à volta, porque o fecho tinha partido, e nos ombros uma manta de lã desbotada, que nem dava para a cobrir direito.
O rosto dela, isso nunca vou esquecer, todo enrugado, que nem um mapa cheio de estradas, mas de uma delicadeza, sabe? Uma pele fina que parecia que ia rasgar se encostasse muito forte. E os olhos, meu Deus do céu, olhos castanhos, fundos, com uma tristeza que não cabia dentro deles. Olhos que já tinham visto tanta coisa nesta vida que pareciam estar a olhar através de mim, não para mim.
E o mais estranho, ela não estava a pedir ajuda, não estava a acenar, não estava a gritar, não estava a fazer nada, só estava ali sentada a olhar para o nada, como se tivesse se conformado com aquela situação absurda. “Menina, está tudo bem por aqui?”, – perguntei, sentindo-me um completo idiota. Nada estava bem naquela cena.
Era óbvio que não estava bem porra nenhuma. Como uma velhinha aleijada na berma de uma perigosa autoestrada no meio da madrugada gelada poderia estar bem. Ela demorou uns segundos a responder, como se a minha voz a tivesse acordado de um transe. Depois olhou para mim, deu um sorrisinho sem graça e falou com uma voz fininha: “Só estou à espera do meu filho, mas acho que ele se esqueceu de mim.
Na hora eu congelei, não pelo frio, mas por dentro mesmo. Aquela frase simples fez-me atravessou igual faca. Quase não Consegui disfarçar o choque. Esqueceu-se. Como assim esqueceu-se? Quem raio se esquece a própria mãe idosa e utilizadora de cadeira de rodas na berma de uma rodovia? Nemum cão a gente abandona assim.
Há quanto tempo que a senhora está aqui? Perguntei tentando manter a calma. Desde ontem de tarde, meu filho. Ele disse que ia até ao cidade comprar um medicamento para mim e que voltava logo. Mas já anoiteceu, passou a noite e amanheceu de novo. Deve ter acontecido alguma coisa com ele. Meu sangue ferveu de imediato.
Eu conhecia bem aquela história. Não era a primeira vez que ouvia falar de filho da puta abandonando idoso na estrada, mas ver com os próprios olhos era diferente. Dava um mau negócio na boca do estômago, uma raiva misturada com tristeza. “A senhora está sem comer desde ontem?”, perguntei, já procurando na boleia algo para lhe dar.
“Não, não. Eu trouxe uns biscoitinhos na bolsa. Levo sempre comigo. E um moço passou de moto mais cedo e deu-me uma garrafa de água. As pessoas são muito boas, graças a Deus. Puta que pariu. A velhinha agradecendo a bondade das pessoas, quando na verdade o próprio sangue dela tinha-a abandonado para morrer ali.
Aquilo mexeu comigo de um maneira que nem sei explicar. Ela estava ali tão indefesa. O corpo frágil todo exposto, a pele enrugada já roxa de frio, os lábios meio arrocheados, as mãos trémulas. A cadeira de rodas era daquelas antigas, toda pesada. dura de movimentar, com o estofo rasgado e remendado com fita isoladora. Parecia até de museu de tão velha.
Como a senhora veio parar aqui? Tentei perceber melhor. O meu filho disse que me ia levar para um lugar melhor, que me ia dar uma nova casa. Viemos no carro dele, um Monza verdinho, depois parou aqui e disse que precisava de ir rapidamente à farmácia comprar o meu medicamento de pressão. Me deixou à espera e disse que voltava logo.
Enquanto ela falava, vi que tinha uma sacola plástica atada na lateral da cadeira. Lá dentro tinha uns documentos, uma carteira de identidade toda batida, uma receita médica amarelada e um terço católico velho. O que será que se passa na cabeça de um homem quando planeia abandonar assim a própria mãe? Será que dormiu descansado esta noite? A senhora há mais algum parente que a gente possa chamar? Algum telefone de outro filho, sobrinho, sei lá.
Ela abanou a cabeça negativamente. Só tenho ele, o júnior. O meu marido morreu há 15 anos. e a minha outra filha faleceu de cancro às cinco. Morávamos só os dois numa casinha em Lauro Müller. Ali entendi toda a situação. O desgraçado aproveitou-se que mais ninguém lhe ia cobrar e simplesmente se livrou da carga que considerava demasiado pesada.
Devia ter planeou tudo. Escolheu um lugar isolado onde poucos carros param, numa temperatura que uma pessoa idosa não aguentaria muito tempo. Olhei em redor e não tinha nada. Nenhuma casa, nenhum posto, nem uma biboca de estrada por perto, só asfalto, curvas e o precipício ao lado. O posto mais próximo ficava a uns A 30 km dali.
Se ela ficasse ali mais um dia, com aquele frio, não iria sobreviver. “Como se chama, minha senhora?”, perguntei enquanto tirava o casaco e colocava nas costas dela. Áurea. Áure Maria da Conceição. “E o seu moço?” “Gerson?” Respondi, sentindo um nó na garganta. Olhe, dona Áurria, eu acho que o seu filho não vai voltar.
A senhora acha que ele pode ter tido algum acidente? Ela ficou em silêncio por um momento, olhando para o chão. Depois levantou a cabeça com os olhos marejados, mas sem derramar lágrima nenhuma. A dignidade daquela senhora era algo fora do comum. Não, o seu Gerson. Acho que ele só se cansou de cuidar de mim.
Faz dois anos que tive o AVC e já não ando. Dou muito trabalho, sabe? Ele tem a sua vida, os filhos dele. Eu compreendo. Nessa altura quase desabei. Como é que ela conseguia ter compaixão por alguém que fez aquilo com ela? Que tipo de amor é este que perdoa até o imperdoável? Fiquei sem palavras, só ali parado com a lanterna na mão, olhando para aquela mulher que tinha mais força na alma que muito marmanjo por aí.
Não dava para deixar aquela história assim, não é? Queria entender melhor quem era aquela senhora, como tinha chegado até ali. Mal sabia que cada pormenor que ela me fosse contar ia espetar um punhal no peito. Puxei um velho caixote que tinha na boleia para sentar-se na frente dela. Quer dizer, a dona Áurria. Vê só.
Já a estou chamando de dona, instintivamente, respeito de filho que a mãe ensinou na base da chinelada. Dona Áurria, a senhora tem 79 anos, é isso? perguntei enquanto oferecia o meu café quente da garrafa térmica. Isso mesmo, o senhor Gerson. Faço 80 em Dezembro, se Deus o permitir. Ela respondeu, aceitando a caneca com as mãos a tremer.
Uau, que café tão saboroso. Faz tempo que não bebo um café quentinho assim. Precisava de extrair mais informação, por isso emendei. E o seu filho, a senhora falou que é o Júnior? Ele tem quantos anos? O Edilson Júnior tem 53 anos. trabalha numa empresa de exploração de madeira em Lauro Müller. Pelo menos trabalhava já não sei.
Nos últimos tempos andava muito nervoso, queixando-se que era difícil, que o dinheiro não dava. Ela bebericou o café com cuidado antes de continuar. Eu tenho minha aposentadiazinha, sabe? Mas não é muito. R$ 600 e poucos reais. No início ajudava nas despesas, mas depois que Fiquei na cadeira veio gastos com fralda, medicamento, pomada.
Aí ficou mais apertado. A minha cabeça fervia enquanto eu ouvia aquilo. Um homem de 53 anos a abandonar a mãe idosa e doente por causa de dinheiro. Que porra de mundo é este? Eu podia ser um camionista fodido, cheio de problema, mas nunca ponderei fazer uma atrocidade dessas. A minha mãe, quando era viva, pelo menos tinha os meus irmãos para cuidar dela, uma vez que não parava em casa.
E esse tal Júnior? A senhora vive com ele há quanto tempo? Depois que o AVC apanhou-me, faz dois anos, ele me levou paraa casa dele. Antes eu morava sozinha num quartinho que alugava perto da igreja. Era pequenino, mas dava para mim. Tinha as minhas plantinhas, minhas santinhas. Depois que fiquei assim, não tinha como estar sozinha.
E foi aí que ela começou a contar como era a vida em casa do filho. Puta que pariu, cada palavra era uma facada. O tal do Júnior era casado com uma mulher chamada Marlene, que pelos vistos, não engolia dona Áurea nem com mel. Tinham dois filhos adolescentes que tratavam a avó como um estorvo.
A velha dormia num quartinho improvisado nas traseiras, que antes era despensa. Passava o dia sozinha enquanto todos trabalhavam ou estudava. Mas eu não me queixava, não, seu Gerson. Ela justificava como se fosse culpada de algo. Eu sei que dou trabalho. Desde que fiquei na cadeira, preciso de ajuda para tudo. Para tomar banho, para ir à casa de banho, até para comer.
Por vezes a mão treme tanto que deito tudo. A Marlene queixava-se que eu sujava muito, que gastava muita fralda, que o cheiro a velho impregnava a casa. À medida que ela ia falando, ia-me dando um aperto, uma angústia. Eu imaginando-a naquela casa ser tratada como um traste velho que ninguém quer, mas que não tem coragem de deitar fora.
Até que o filho aparentemente tomou coragem. Ontem de manhã ele chegou diferente, ela continuou. Disse que tinha conseguido uma vaga num asilo muito bom em Florianópolis, que ficava perto da praia, que ia poder ver o mar todos os dias, que tinha médico, enfermeira, tudo de bom. disse para arrumar uma malinha só com o essencial, que o resto levava depois. A voz dela embargou um pouco.
Eu até fiquei entusiasmada, sabe? Fazia tempo que não saía daquela casa e gosto do mar, mesmo nunca tendo vivido perto. Coloquei as minhas fotos antigas, as minhas melhores roupinhas, o meu terço, os meus medicamentos, tudo nesta malinha aqui. A malinha era tão pequena e coçada que não devia caber nem metade da vida dela, uma vida espremida num trocinho daquele tamanho.
E mesmo assim ela sorria ao falar da possibilidade de ver o mar. Destruiu-me por dentro. E aí meteu a senhora no carro e trouxe até aqui. Isso. A gente saiu depois do almoço. Eu até achei estranho que a A Marlene e os meninos não foram se despedir. Ele disse que estavam a trabalhar, mas era sábado. Viemos neste Monza velho dele, eu no banco de trás com a cadeira desmontada no porta-bagagens.
Quando aqui chegámos, já estava a anoitecer. Ele disse que precisava de ir comprar o meu medicamento de pressão na cidade e regressava em breve. Me deixou aqui porque disse que a estrada era perigosa para estar a parar e dar carona. Só aí me apercebi que já fazia mais de 24 horas que ela ali estava. Um dia e uma noite inteira, exposta ao frio, à fome, ao perigo.
Qualquer maloqueiro poderia ter passado e feito o que bem entendesse. Ou um animal selvagem. Ou ela poderia ter tido uma queda de pressão, um AVC, qualquer coisa. Era um milagre ela estar viva. Alguém passou por aqui durante este tempo todo? Perguntei incrédulo, que ninguém tivesse parado para ajudar. Ah, passou sim.
Logo que escureceu, passou um carro com os rapazes, mas estes apenas buzinaram e riram. Acho que pensaram que eu era um espantalho. Ela deu uma risadinha sem graça. De madrugada, passou um camião de grandes dimensões que nem o seu, mas não parou. De manhã cedinho, um motoqueiro parou e deu-me água. Perguntou se eu estava bem.
Eu falei que estava à espera do meu filho e ele disse que ia avisar na próxima cidade, mas acho que se esqueceu. Isso fez-me lembrar-me de quantas vezes eu próprio já passei em frente por gente precisando de ajuda na estrada. A gente endurece, pensa que tudo é golpe, que toda a gente quer passar-te a perna e talvez muitos sejam mesmo.
Mas e quando não é? E quando é uma dona Áurea que está ali necessitando apenas de um pouco de humanidade? E a senhora ficou aqui a noite toda com este frio da serra? Fiquei sim. Esteve friozinho, mas já passei por coisa pior na vida. Ela respondeu com uma dignidade absurda. Eu só fiquei preocupada com o meu filho. Será que aconteceu-lhe alguma coisa, o seu Gerson? Será que sofreu algum acidente? Meu Deus do céu, ela ainda se preocupava com aquele filho da puta.
Deixou-me com um misto de raiva e admiração. Como é que alguém pode ser tão bom assim, tão puro, depois de tudo o que fizeram com ela? Dona Áura, vou ser sincero com a senhora. Pelo que estou vendo, o seu filho não vai voltar. Ele, hesitei, sem saber como dizer aquilo. Ele trouxe a senhora até aqui e deixou mesmo. Não há asilo nenhum à espera.
Os seus olhinhos fitaram o chão por um longo momento. Pensei que ia chorar, desabar, ter um treco, mas não. Ela levantou o rosto, ainda sem lágrimas e disse baixinho: “Eu já sabia, o seu Gerson. Desde que me deixou aqui, no fundo, eu já sabia. Só não queria acreditar. Nesse momento, um carro passou por nós a alta velocidade, buzinando como se fôssemos obstáculos inconvenientes.
O vento gelado da serra cortou-nos os rostos. Eu já tinha decidido o que ia fazer, só não sabia como dizer-lhe. Então, lembrei-me de um pormenor. A senhora disse que um frentista viu a senhora aqui? Ah, sim. De tardezinha ontem, um moço de um posto aqui perto passou de carro e parou. disse que trabalhava num posto uns quilómetros paraa frente.
Perguntou se eu estava à espera de alguém e falei que sim. Ele disse que já me tinha visto ali fazia algumas horas e perguntou se eu não queria que ele chamasse alguém, mas eu disse que o meu filho já estava voltando. Ele disse que eu devia ser familiar de alguém da região, porque só assim estaria ali naquele lugar tão isolado. Resolvi ir a esse posto.
Talvez o frentista soubesse de mais alguma coisa. Talvez tivesse visto o automóvel anotado à matrícula, qualquer informação que pudesse ajudar. E também precisava ligar paraa polícia, pro conselho do idoso, para alguém que pudesse tomar as medidas legais contra aquele monstro. “Donaura, a senhora já comeu alguma coisa hoje?”, – perguntei enquanto abria a mochila térmica que levo sempre na boleia.
Só uns biscoitinhos que trouxe, mas estou bem, não se preocupe. Tirei um pão com mortadela que tinha preparado mais cedo e entreguei-lho. Ela aceitou com tanta gratidão que parecia que tinha dado um banquete. Comeu devagarinho, saboreando cada pedaço como se fosse a melhor refeição do mundo. O meu coração parecia eixo rebentado, bicho.
Tava doendo fisicamente ver aquela cena. O seu Gerson, o senhor é um homem muito bom”, disse ela de repente, com a boca ainda meio cheia. Deus vai abençoá-lo muito por isso. E foi aí que não aguentei. Virei-me de costas para ela não ver e Passei a manga da camisa nos olhos. Um velho camionista chorando na beira da estrada.
Se os parceiros do troço me vissem assim, iam gozar até ao fim dos tempos. Mas que se foda, algumas coisas ainda conseguem quebrar essa casca grossa que a vida criou. Olha a password. Na altura nem raciocinei direito. Só sabia que não ia deixar aquela velhinha ali, nem fodendo. Olhei para o céu e vi que estava a armar um tempão feio. Nuvensavam a formar-se, daquelas que prometem chuva grossa.
A temperatura já tinha caído ainda mais. Dona Áuria tremia que nem uma vara verde, apesar do meu casaco nas costas dela. Dona Ária, a senhora vai ter que vir comigo disse já decidido. Não posso deixar a senhora aqui. Vai chover. Está esfriando mais ainda e este lugar é perigoso para caralho. Mas e o meu filho? E se ele voltar e não me encontrar? Ela perguntou.
E juro que quase mandei aquele filho da puta para o quinto dos infernos ali mesmo, mas contive-me. Se ele voltar, vai ficar feliz por saber que a senhora está segura. Vou deixar um bilhete, está bom? E a gente vai ao posto mais próximo ligar paraa polícia ver o que pode ser feito. Nem esperei que ela concordar.
Arranquei uma folha do meu caderninho de registo de fretes e escrevi bem grande: “A tua mãe está segura. Foi levada por um camionista até ao posto Ipiranga do km78. Se existe mesmo, é só ir lá buscar ela. E por baixo coloquei o meu nome e telefone. Prendi o papel na mureta com uma pedra. Na real, eu sabia que ele nunca mais ia voltar.
Aquele papel era apenas para acalmar a dona Áurea e talvez no fundo do fundo para deixar um rasto caso alguém o encontrasse e se preocupasse. Afinal, abandonar idosos é crime e dos mais filhos da puta que existem. Vou ter que levar a senhora para o meu camião. Tudo bem? Falei já a pensar na logística daquilo tudo.
A cadeira de rodas a gente coloca na carroçaria. Mas eu não quero dar trabalho ao senhor”, ela falou com aquela voz fraquinha que me partia o coração em mil pedaços. Trabalho nenhum, menti. Na real, ia ser um puta de um trampo. Mas e então? Eu ia fazer o quê? Deixar ela ali? Nem que o diabo me viesse buscar, eu deixaria.
Vou precisar de carregar a senhora ao colo até ao camião. Depois volto para pegar na cadeira. Ela ficou toda sem graça. Ai, senhor Gerson, mas eu sou pesada. Quase me ri. Aquela coisinha devia pesar menos que um saco de amendoim. Parecia tão frágil que dava medo de quebrar. Qual nada, dona Áurea. Eu levo saco de 60 kg todos os dias.
A senhora deve ter uns 40, no máximo. Ela sorriu meio sem graça, e aquele sorrisinho sem dentes iluminou a cara dela de uma forma que é difícil explicar. Era como se alguém tivesse ligado uma luzinha dentro daqueles olhos cansados, uma esperança pequenina que eu não tinha o direito de apagar. Peguei nela no colo com o maior cuidado do mundo.
Meu Deus, parecia que estava a carregar um passarinho. Era demasiado leve, só pele e osso. Enquanto a carregava até ao camião, percebi que ela cheirava a talco e a um perfuminho barato daqueles que vendem em supermercado. Mesmo naquela situação, ela tinha-se importado em passar perfume. Dignidade da porra.
A malinha dela estava amarrada com cordel no braço da cadeira. Coloquei as duas coisas dentro da boleia. A cadeira era um trambolho dos infernos, pesada para caralho, enferrujado nas rodas, com o estofado meio podre. Devia ter uns 30 anos fácil. Foi um trabalho do caraças encaixar aquela merda no camião, mas dei o meu jeito.
Não é fácil subir uma cadeira de rodas em cabine de Scania, mas dei meu jeito. Tive de empurrar, puxar, quase parti as costas. Já não são mais as costas de um miúdo, não é? Seis décadas nas costas pesam. Mas consegui pôr aquela cadeira de rodas na boleia e amarrei com uma corda para não estar sempre a bater durante a viagem. Quando voltei para ir buscar a dona Áurria, ela estava a olhar para o alto da serra, como se esperasse algo ou alguém.
Doeu ver aquilo. Mesmo depois de tudo, ela ainda esperava que o filho regressasse. Vamos, dona Áuria, vai começar a chover daqui a pouco. Ela deu uma última olhadela na estrada, suspirou fundo e assentiu. Peguei-lhe novamente ao colo, com todo o cuidado do mundo. Era tipo carregar a minha neta pequena, só que ainda mais frágil.
Tive medo de apertar demasiado e magoar. Quando abri a porta do Scania, ela arregalou os olhos. Ena, como é alto. Eu nunca andei num camião na vida. Pois agora vai andar, falei tentando soar animado. E este aqui é dos bons. Não é 0 km, não, mas é selvagem, igual marimbondo novo. Ajeitei-a no banco do passageiro com todo o cuidado.
Coloquei a malinha dela no chão da cabine. Arrumei a cadeira amarrada atrás dos bancos, apertada naquele espaço pequeno. A cabine, que sempre me pareceu enorme, de repente ficou apertada para caraças. Mas a gente dá um jeito. Ela assustou-se quando liguei o motor. O ronco do Scania é espesso, parece trovão.
Ela deu um pulinho no banco, depois riu-se da própria reação. É barulhento assim sempre? Perguntou com os olhos arregalados. É o ressonar dele, dona. Cada camião tem o seu. A gente habitua-se tanto que é até estranho quando está em silêncio. É tipo música para nós. Ela ficou a olhar para tudo dentro da cabine, como se fosse um mundo alienígena.
Os botões, as luzes do painel, o rádio, os santinhos colados, as fitas penduradas, os autocolantes de posto que fui colecionando. Parecia uma criança à descoberta de um parque de diversões. Quando arranquei com o camião, vi pelo retrovisor que ela se agarrou à porta, assustada. Não se preocupe, dona Áurria. Comigo a senhora está segura.
Nunca sofri acidente em 40 anos de estrada. Menti de novo. Já tinha batido três vezes, mas nada de grave. E não ia contar isso a ela, não é? Coitada, já estava assustada demais. A cara dela, quando viu o estrada de cima da cabine foi impagável. Era como se tivesse a ver o mundo de um ângulo completamente novo.
Os olhos brilhavam feito duas contas. Mesmo com tudo de mau que tinha acontecido, ela conseguia maravilhar-se com aquela novidade. Isso emocionou-me para caralho. Seu Gerson! Ela disse de repente. Para onde o senhor me vai levar? E essa era a pergunta de 1 milhão de dólares. Para onde caralhos eu ia levar uma senhora de 79 anos? Cadeirante, abandonada, sem familiares, sem lugar para ficar.
Não tinha a mínima ideia, mas não podia dizer isso a ela. Vai levar-me para onde, moço? Ela insistiu com uma pontinha de medo na voz. Olhei para ela e disse o que veio no coração. Para onde tiver calor humano, porque aqui não vai ficar. Ela olhou-me por uns segundos em silêncio, depois sorriu daquela maneira sem dente que era de rachar o peito, e falou baixinho: “Obrigada, senhor Gerson.
” Conduzi em silêncio durante uns 10 minutos. pensando no que ia fazer, precisava encontrar a polícia, explicar a situação, registar um bo, denunciar o abandono, mas também precisava de pensar no bem-estar dela. Estava quase noite de novo. Estava fraca, cansada, com frio. Precisava de banho, comida quente, um local confortável para dormir.
Os procedimentos legais podiam esperar até o dia seguinte. Decidi ir até ao posto que ficava uns 30 km à frente. Era um posto grande, daqueles com restaurante, loja de conveniência, casa de banho limpa. Lá podia pelo menos comprar algo decente para ela comer, ligar para alguma autoridade, pedir orientação.
“A senhora tens fome?”, perguntei já sabendo a resposta. Ela estava há mais de um dia comendo só biscoitinho. “Por amor de Deus.” Um bocadinho”, respondeu ela, sempre minimizando as suas necessidades. “Mas não preocupe, já comi o pãozinho que o senhor me deu. Que pãozinho?” Nada, dona Áura, “Vamos comer um jantar decente.
De repente até um bifinho com batata frita. Que tal?” Os olhos dela brilharam de novo. Ui, faz tanto tempo que não como um bife. Puta que pariu, destruiu-me. Imagina chegar a uma idade destas e emocionar-se com a possibilidade de comer um pedaço de carne. Que raio de mundo é este? Pois hoje a senhora vai comer o que quiser. Está tudo por minha conta.
Ela tentou protestar, dizer que não precisava, que eu já estava a fazer demais toda aquela humildade que parte o coração, mas cortei logo. Sem discussão, Gerson do Sul está a dizer que hoje a senhora é minha convidada. O meu telemóvel tocou. Era o dono da transportadora, querendo saber porque eu estava parado há tanto tempo.
Expliquei rapidamente a situação. O cara ficou puto a dizer que eu tava a atrasar a entrega, que não era assistente social, blá blá blá. Desliguei na cara dele. Foda-se, se me quisessem despedir, que despedisse, eu arranjava um jeito, sempre dei. Mas deixar aquela senhora na mão, isso eu não ia fazer, nem que me pagassem.
Está tudo bem, senhor Gerson? Dona – perguntou Áuria preocupada. Devia ter notou a minha cara fechada depois da ligação. Está tudo ótimo, dona Áurria. Só patrão chato a encher o saco, coisa de sempre. Ai, não quero atrapalhar o seu trabalho. A senhora não está a atrapalhar nada. O meu trabalho é entregar carga, mas antes disso sou gente e gente ajuda gente.
Nesse momento começou a chover forte, aquela chuva grossa de serra que parece que o céu está a cair. Os os limpa-para-brisas mal davam conta. Se a dona Áurea ainda lá tivesse naquela berma de estrada, não quero nem pensar. A cidadezinha mais próxima ficava a cerca de 50 km. Lá teria esquadra, assistência social, tudo o que precisávamos.
Mas naquela chuva forte, com a estrada escorregadia, era perigoso apressar. Melhor parar no posto, passar a noite lá e seguir no dia seguinte. Já tinha decidido. Olhei para ela, que observava a chuva com olhos assustados e tentei tranquilizá-la. Não se preocupe, vamos ficar num lugar seguro hoje à noite.

Ela assentiu, confiando em mim como uma criança confia no pai. Aquela a confiança cega deu-me mais responsabilidade ainda. Era um ser humano frágil que agora dependia de mim. Eu, que nunca cuidei devidamente, nem dos meus, agora estava ali a ser guardião de alguém que mal conhecia. Chegamos nesse posto simples, eram já umas 8 da noite. Não era nenhum palácio, não.
Desses postos antigos de beira de estrada com bomba velha e aquele cheiro característico de gasóleo misturado com fritura. O letreiro piscava alto posto da beira serra, mas metade das lâmpadas estava fundida. Tava a chover para caralho, aquela cortina de água que parece que o mundo vai acabar. Parei o o mais próximo possível da entrada da snack-bar, mas ainda tinha cerca de 10 m até lá.
Olhei para a dona Áuria e pensei: “Como raio vou fazer para ela não se molhar toda?” A cadeira de rodas estava na cabine, mas levá-la para a lanchonete naquela chuva ia ser fodido. Mês de junho, na Serra Catarinense, não é? brincadeira. Um banho de chuva daqueles podia dar-lhe uma pneumonia. Dona Áurria, vou ter de fazer uma coisa meio doida aqui.
Falei enquanto tirava o meu casaco e colocava-o por cima da cabeça dela como um guarda-chuva improvisado. Vou levar a senhora ao colo até lá dentro. Depois volto para buscar a cadeira. Segura-se firmemente no meu pescoço, está bom? Ela ficou sem graça para caralho, coitadinha. Ai, o senhor Gerson, que vergonha.
O senhor vai ficar todo molhado por minha causa. Que nada. Caminhoneiro é como o pato, já está habituado à água. Brinquei enquanto me preparava para aquela corrida louca. No três a gente vai, tá? 1 2 3. Abri a porta, peguei nela no colo e saí a correr pelo estacionamento. Puta que pariu, que dilúvio. Em 2 segundos já estava ensopado até à alma.
A chuva era gelada que nem água do frigorífico entrava pelo colarinho e descia pelas costas, mas fiz de tudo para manter o casaco a proteger dona Áurria. Corri como um maluco, tendo o cuidado de não escorregar no chão molhado. Quando entramos na snack-bar, todo mundo olhou. Normal, certo? Um velho que transporta uma velhinha no colo, os dois encharcados.
Não é cena que se vê todos os dias. Tinha uns quatro camionistas a tomar café no balcão, uma família a jantar numa mesa e dois funcionários com cara de tédio. Todo mundo parou o que estava a fazer para olhar para nós. Boa noite, falei alto, tentando soar mais confiante do que tava. Esta senhora precisa de um lugar para sentar urgente.
Tem alguma cadeira disponível? Um dos funcionários, um rapaz novinho que devia ter os seus 18 anos, veio a correr ajudar. puxou uma cadeira paraa dona Áurea e eu coloquei ela com todo o cuidado. Ela estava vermelhinha de vergonha, coitadinha. “O senhor quer que eu vá buscar toalha no casa de banho?”, o rapaz perguntou o prestável.
“Seria ótimo, filho, agradeci. e depois preciso de ajuda para trazer a cadeira de rodas que está no camião. O miúdo voltou com umas toalhas de papel que não serviam para merda nenhuma naquela situação, mas pelo menos deu para lhe limpar o rosto. Reparei que a dona Áuria tremia um pouco. “Traz-lhe um café bem quente, por favor”, pedi ao empregado.
“E uma manta, se tiver. Ela precisa de se aquecer.” “E para o senhor?”, perguntou. Para mim, só um café mesmo. Vou buscar a cadeira dela e já volto. Voltei paraa chuva, todo ensopado mesmo, e fui até ao camião buscar a cadeira de rodas. Aquela merda era pesada, que nem um boi morto, toda enferrujada e dura. Quando voltei arrastando a cadeira, já tinha uma senhora que parecia ser a dona do posto a falar com a dona Áurria.
“O seu marido é muito amável, dona”, dizia ela paraa Áurria. “Quase me engasguei quando ouvi isso.” A velha pensava que éramos casados. A Dona Áuria deu uma risadinha sem graça e não corrigiu. “Vai ver.” Tinha vergonha de explicar toda a aquela situação louca. A dona do posto, que mais tarde vim a saber que se chamava Elsa, era uma senhora gorda de cabelo pintado de vermelho bombeiro e batom a condizer, daquelas bem faladeiras, sabe, mas de bom coração.
Quando viu a cadeira de rodas, logo perguntou: “A senhora sofreu algum acidente?” Antes que eu pudesse inventar alguma história, a dona Áuria respondeu com aquela voz mansinha dela. “Tive um AVC faz dois anos. Não ando mais desde então. E vocês estão a viajar para onde? A xereta continuou a perguntar. Olhei para a dona Áuria sem saber o que responder.
Ela também me olhou meio perdida. Foi aí que tive uma ideia. Vamos para casa da nossa filha em Florianópolis. Menti. Ela teve bebé recentemente e precisamos de ajudar, não é, querida? E pisquei paraa dona Áura, rezando para ela apanhar a deixa. “Isso mesmo”, respondeu ela, entrando na história com uma naturalidade que me surpreendeu. “O nosso primeiro netinho.
” A Dona Elsa abriu um sorriso rasgado. “Que maravilha! E como se chama o bebé?” Luís Carlos, não é? A Dona Áura, respondeu na lata: “Como o avô dele que já faleceu?” Puta que pariu, a velha era boa de improviso. Inventou até um nome para o netinho imaginário. Tive que segurar para não rir. Olha, a dona Elsa continuou.
Tenho um quartinho aqui nas traseiras que alugo para os camionistas que precisam descansar. É simples, mas tem uma cama de casal, casa de banho limpa e chuveiro quente. Vocês podem ficar lá esta noite se quiserem. Com esta chuva não dá para seguir viagem. Aceitei de imediato. Era exatamente o que precisávamos, um local limpo e quente para a dona Áurea passar a noite.
Eu até podia dormir na boleia, como sempre fazia, mas ela precisava de conforto. “Quanto fica?”, – perguntei já metendo a mão no bolso. “R$ 80 a diária. Mas para vocês vou fazer por 60 pela situação. E já inclui um pequeno-almoço simples. 60 conto era demasiado barato. Paguei adiantado e ainda deixei 10 de gorgeta.
Ai, o que é que vocês vão querer jantar? Ela perguntou. A cozinha está aberta até às 10. Olhei para o menu escrito num quadro preto atrás do balcão. Nada de muito sofisticado. Bife acebolado, frango grelhado, salsicha, essas coisas de posto. Dona Áuria, o que a senhora prefere? Perguntei. Ela ficou toda atabalhoada, olhando para o cardápio como se fosse um enigma.
Qualquer coisa está bom, senhor Gerson. Não precisa de gastar comigo. Que é isto? A senhora escolhe o que quiser. Hoje é por minha conta. Depois de muito insistir, ela escolheu um bife com batatas fritas. Pedi dois e dois sumos de laranja. Enquanto esperávamos pela comida, o miúdo funcionário ajudou a levar a cadeira de rodas para o quarto dos fundos.
A Dona Elsa trouxe um cobertor velho mais limpo para a dona Áureia se aquecer enquanto a roupa dela secava. A comida chegou a fumegar. Era um bifão grande, daqueles de restaurante de camionista mesmo, com uma montanha de batata frita e arroz branco. Simples, mas na situação parecia um banquete. Os olhos da dona Áurea brilharam quando viu aquele prato cheio.
“Uau, quanta comida”, exclamou ela. “Nem vou dar conta de tudo isto.” Mas deu. Comeu cada pedacinho devagarinho, saboreando. Cortei-lhe o bife porque as mãos tremiam. um pouco. Enquanto comíamos, ela começou a soltar-se mais, a contar pequenas histórias da vida dela. Sabe, o seu Gerson, eu era costureira, fazia vestido de noiva, roupa de festa, tinha muito cliente lá em Lauro Müller.
Cheguei a fazer o vestido de noiva da filha do presidente da Câmara na época. Ela falava daquilo com tanto orgulho que dava gosto a ouvir. Os olhos iam brilhando à medida contava das rendas, dos bordados, dos véus que fazia. Bordava enxoval de bebé também, lençolzinho, toalha, roupinha, tudo à mão.
Hoje já ninguém quer saber disso, não é? Tudo industrializado. Mas tinha uma magia em cada ponto feito à mão. Enquanto ela falava de bordados e costuras, lembrei-me da minha mãe. A velha também costurava, fazia croché, essas coisas de antigamente. Fazia anos que não pensava nisso, anos que não visitava o túmulo dela lá na Vacaria.
Na verdade, já nem sei se o túmulo ainda existe, se alguém cuida. Os meus irmãos também se espalharam pelo Brasil. Família de camionista é assim. Vai se desmanchando com o tempo, igual nó de gravata quando puxamos a ponta errada. O senhor está triste, senhor Gerson. A Dona Áuria perguntou de repente. Não, que é isso? Respondi meio atabalhoadamente por ela ter percebido.
Só me lembrei da minha mãe. Ela também fazia estes trabalhos manuais. Ela ainda é viva? Não. Faleceu há cerca de 15 anos. “Sinto muito”, ela disse com uma sinceridade que só os velhos têm. “Deve ter sido uma boa mãe, pois criou um filho de bom coração. Aquilo apanhou-me desprevenido. Bom coração. Eu, o filho que abandonou a própria família por amor à estrada, o gajo que passava direito por gente necessitando de ajuda.
É engraçado como às vezes precisamos que alguém de fora diga-nos algo sobre nós mesmos. Algo que nem sabíamos que existia. Depois da jantar, ajudei-a a ir até ao quarto. Era pequeno mesmo, com uma cama de casal simples, um criado-mudo, uma TV antiga e um quarto de banho apertado. Mas estava limpo, tinha água quente e, mais importante, não havia goteira nem vento a entrar, um luxo comparado à beira da estrada onde ela estava horas antes.
O senhor Gerson, eu Vou dormir na cama. E o senhor onde? Ela perguntou preocupada. Eu durmo no camião como sempre. Estou acostumado. Mas está a chover tanto. O senhor não vai ficar doente. Que nada. Camionista tem couro duro, já nem a gripe pega. Ela insistiu. Esta cama é grande, dá para nós os dois.
O senhor dorme de um lado, eu do outro. Prometo que não ressono. Quase ri-me com aquilo. Ela preocupada em não me incomodar com ressonar depois de tudo o que tinha passado. Mas recusei. Não queria deixá-la sem graça e também precisava de um tempo sozinho para pensar no que raio ia fazer a partir dali. Antes de sair, ajudei-a a tomar um banho.
Foi um momento delicado. Ela tinha vergonha, eu também, mas alguém precisava de ajudar. Coloquei-a sentada num banquinho dentro do box e ela fica virou-se como pôde com a porta fechada. Eu apenas ajudei a entrar e a sair. O seu pudor e a sua dignidade foram preservados. Depois emprestei-lhe uma t-shirt minha dormir, uma vez que as roupas dela ainda estavam molhadas.
A t-shirt virou um vestido nela de tão pequena que era. Ajeitei as almofadas, coloquei água num copo na mesinha ao lado, deixei a luz da casa de banho acesa para ela não se assustar no escuro e despedi-me. Qualquer coisa a senhora grita, ok? Vou deixar o camião estacionado mesmo na frente da janela. É só bater no vidro se precisar. O Sr.
Gerson ela chamou quando eu já estava à porta. Obrigada por tudo. O Senhor é um anjo que Deus colocou no meu caminho. Saí dali com um nó na garganta. Anjo eu Tomás para demónio aposentado. Mas, naquela noite, enquanto a chuva lavava o asfalto ali fora, algo dentro de mim também estava sendo lavado. Passámos a noite naquele postinho e quando acordei já eram quase 6 da manhã.
Caramba, dormi que nem uma pedra. Isso nunca me acontece. Geralmente fico a dar voltas na cabine, acordando a cada barulhinho suspeito, com medo de um ladrão ou de alguém a mexer na carga. Mas nessa noite, mesmo com toda aquela chuva dos infernos a bater no tejadilho do camião, apaguei total. Levantei-me meio grog, espreguiçando-me naquele espaço apertado da boleia.
Tava tudo embaciado de humidade, até os vidros por dentro estavam molhados. Saí do camião e fui logo ver como a dona Áuria tinha passado a noite. Bati de leve à porta do quartinho, mas ninguém respondeu. Bati um pouco mais forte, nada. Comecei a ficar preocupado. E se ela tinha passado mal? Os idosos às vezes têm estes problemas a meio da noite.
AVC, ataque cardíaco e o caralho a dona Áurea. Chamei encostando o ouvido à porta. Finalmente ouvi lá um barulhinho dentro. Já vai. Ela respondeu com a voz fraquinha. Só um minutinho. Quando ela abriu a porta, quase não acreditei. Estava toda arranjada, com o cabelo penteado num carrapito bem feito, as roupas já secas e passadas à mão, o rostinho lavado.
Como raio ela fez tudo isto sozinha numa cadeira de rodas, num quarto de posto de abastecimento de combustível? Puta que pariu, esta Velia era mesmo uma guerreira. Bom dia, senhor Gerson. O senhor dormiu bem? Dormi sim, dona Ária. E a senhora conseguiu descansar? Ah, dormi como um anjo. Aquela cama parecia nuvem depois daquele tempo todo na cadeira.
Fomos tomar café na cafetaria. Dona Elsa, a dona do posto, já lá estava a servir café fresco. Ela ficou toda sorrisos quando nos viu, achando que éramos um casal de velhinhos a caminho de conhecer o netinho. “E então, dormiram bem?”, perguntou, colocando chávenas fumegantes à nossa frente. Muito bem, graças a Deus.
A Dona Áuria respondeu com aquela educação antiga que já não existe mais. A cama é muito confortável. No pequeno-almoço, enquanto a dona Áurea tomava o seu copo de leite com pãozinho, expliquei-lhe o plano. Dona Áurria, hoje vamos até à delegacia da próxima cidade, Bom Jardim da Serra. Lá a senhora vai precisar de contar tudo o que aconteceu-nos registar um boletim de ocorrência contra o seu filho.
O o rostinho dela ficou logo triste. Ai, senhor Gerson, precisa mesmo de fazer isso? Ele já deve estar arrependido. Puta merda, ela ainda a defender aquele desgraçado. Tive de respirar fundo para não soltar um palavrão. Dona Áuria, o que fez é crime, abandono de incapaz. Se não o denunciarmos, ele pode fazê-lo com outra pessoa ou até voltar a tentar de novo com a senhora.
Ela baixou a cabeça, olhando para o café, como se ali tivesse a resposta de todos os problemas do mundo. E depois continuei a tentar ser mais gentil. Vamos procurar o CRAS, o centro de referência especializado de assistência social. Têm como ajudar em casos assim, encontrar um abrigo adequado para senhora. Um asilo, quer o senhor dizer.
Ela falou baixinho e aquilo doeu até em mim. Um lugar temporário, corrigi até a gente conseguir uma solução melhor. Terminámos o café, agradecemos à dona Elsa, paguei a conta e voltámos para o camião. O dia estava nublado, mas pelo menos a chuva tinha dado tréguas. Carreguei a dona Áurea de volta paraa cabine, dobrei a cadeira de rodas, que não dobrava bem de tão enferrujada, e coloquei-o na carroçaria desta vez para dar mais espaço na cabine.
Liguei o motor e saímos dali. A estrada estava molhada, com algumas poças grandes, mas nada que eu não lhe pudesse dar. Dirigia devagar, com cuidados redobrados. Tinha uma carga preciosa comigo agora. Não tínhamos andado nem 30 km quando o camião começou a falhar. Primeiro foi apenas uma ligeira engasgada que dava para ignorar. Depois foi piorando.
O motor começou a ratear, a perder força. Que porra é esta agora? Resmunguei, dando ligeiras palmadinhas no painel, como se isso fosse resolver. Olhei para o marcador de combustível. Depósito cheio. Não era isso. Estávamos numa subida íngreme daquelas que parecem que nunca mais vão acabar. O brutos começou a perder mais força e logo estava quase a parar.
Consegui encostar na berma antes que o motor morresse de vez. “O que é, senhor Gerson? Partiu?”, perguntou a dona Áuria preocupada. “Acho que sim, dona Áurria. Espera aí que vou dar uma vista de olhos.” Desci do camião na chuva miudinha que começava a cair. Abri o capot e olhei para aquele motor enorme, à procura do problema.
Poderia ser um milhão de coisas. Bomba de água, bomba de combustível, vela, cabo de vela, filtro entupido, sensor do caralho. A4 era um camião velho, tinha as suas manhas. Voltei para a cabine encharcado. Penso que é a bomba injetora. Vou ter de chamar um mecânico. O problema é que naquela serra sem sinal de telemóvel, chamar um mecânico era quase impossível.
E mesmo que conseguisse, ia demorar horas até alguém chegar. Tem uma caixa de ferramentas no compartimento lateral. Vou tentar resolver. Eu mesmo falei mais para me animar do que por acreditar que conseguiria. Quando saí de novo, o céu desabou. Não era mais uma chuvinha, era uma tempestade filha da puta, com trovões, relâmpagos e tudo o mais.
Em segundos, fiquei encharcado até que o alma. Abri a caixa de ferramentas e Comecei a futucar o motor. Tirei tampa, olhei mangueira, verifiquei o nível do óleo, limpei filtro. Nada. O Brutos não queria apanhar de jeito nenhum. E eu ali debaixo daquela chuva brutal, a praguejar todos os santos do céu, com as mãos todas sujas de gracha e óleo.
Depois de quase meia hora naquele inferno, voltei para a cabine. Estava a parecer um cachorro molhado, pingando água por todo o lado. A Dona Áuria olhou-me assustada. Pelo amor de Deus, senhor Gerson, o senhor vai ficar doente assim. Pior que não consigo identificar o problema. – falei frustrado. Vou ter de esperar que alguém passe e pedir ajuda.
O problema é que naquele troço, com aquela chuva podia demorar horas até aparecer outro camião. E mesmo que aparecesse, nem todos para para ajudar. A estrada endurece o coração da gente. A chuva aumentou ainda mais, se é que tal era possível. A água caía em cascatas pelo pára-brisas. Os os limpa-vidros mal davam conta e o vento começou a ficar forte, balançando o camião como se fosse de papel.
É tempestade a sério”, comentei, olhando preocupado para o céu, cada vez mais escuro. “Dessas que derruba a árvore provoca deslizamento.” Dona Áuria percebeu a minha preocupação. Eu tava nervoso para caraças, a pensar que tinha uma idosa doente sob a minha responsabilidade e a gente estava presa num camião avariado no meio de uma tempestade numa estrada quase deserta.
Foi quando ela fez algo que me surpreendeu, colocou aquela mãozinha enrugada em cima da minha e apertou de leve. Calma, moço. A gente só precisa esperar que a tempestade passe. Olhei para ela incrédulo. Era ela que me estava a acalmando. A velhinha que há 24 horas estava abandonada numa cadeira de rodas à beira da estrada que tinha sido abandonada pelo próprio filho para morrer.
Era ela que me dizia para ter calma. Nessa altura entendi que a dona Áurea era muito mais forte do que aparentava. Por fora parecia um passarinho frágil, mas por dentro tinha a resistência de um carvalho centenário. A vida deve ter atirado tanta merda para ela que uma tempestade e um camião avariado não não eram nada.
A senhora tem razão falei, me sentindo-se meio ridículo por estar nervoso enquanto ela estava tão calma. É só esperar. O senhor é camionista há quanto tempo? Ela perguntou claramente, tentando distrair-me. 40 anos, dona Áurria. Comecei com 21. E nunca estrada antes? Ah, já parti muito. Já fiquei três dias num posto à espera de peça. Já tive de empurrar camião na subida.
Já dormi debaixo do camião consertando diferencial. Isso faz parte. Então o senhor já passou por pior, não é? E sobreviveu a todas elas. Aquela lógica simples dela acalmou-me. Ela tinha razão. Eu já tinha passado por tanta merda na estrada que um camião avariado na chuva era fichinha. Há um ditado que dizia a minha avó, ela continuava a olhar a chuva pela janela.
Depois da tempestade vem a bonança. Porra, dizia a minha mãe exatamente a mesma coisa. Deve ser coisa de velho. Este otimismo teimoso que não morre nunca. Passámos mais duas horas naquele camião parado, com a chuva castigando sem piedade. Conversei com dona Áurea sobre tudo. A minha vida na estrada, os lugares que conheci, as cargas que já transportei.
Ela contou-me da sua vida como costureira, dos vestidos que fez, das noivas que vestiu. Era um papo agradável daqueles que a gente só há com pessoas mais velhas, cheias de histórias. Finalmente o milagre aconteceu. Vi pelo retrovisor um camião enorme a aproximar-se. Era um Volvo FH novinho em folha, daquele stop de gama.
Saí à chuva acenando feito um doido para ele parar. O gajo parou. Era um camionista mais novo que eu. Devia ter uns 40 anos. Parou, saiu à chuva também e veio na minha direção. Qual o problema, companheiro? perguntou, olhando para o meu velho Scania. Acho que é a bomba injetora, mas não tenho a certeza. O motor não quer pegar de maneira nenhuma.
Ele deu uma vista de olhos rápida e concordou com a cabeça. É a bomba mesmo. Tá fedendo a diesel. Deve ter dado uma pan no sistema. Queres que te reboque até ao próximo posto? Tem o cabo. Quase beijei aquele maluco. Seria uma mão na roda, irmão. Quando olhou para dentro da minha cabine e viu a dona Áurria, fez uma cara de surpresa.
Esta é a sua mãe? Não, é uma senhora que estava abandonada na estrada. Vou levá-la pra cidade para conseguir ajuda. Ele olhou para mim, depois para ela e de volta para mim. Vi ali um respeito novo naqueles olhos. É por isso é que ainda acredito nas pessoas”, disse, sorrindo. “Vá, vou-te puxar até ao posto. Tem um bom mecânico lá.
” Com a ajuda dele, conseguimos engatar o cabo de reboque e seguimos lentamente pela estrada ensopada. Dona Áuria estava assustada com a situação, um camião a puxar o outro na chuva em estrada de montanha, mas não se queixou nenhuma vez. naquela cabine a balançar, a serem rebocados a 20 km porh, percebi que ela, mesmo frágil, era firme como rocha, uma mulher que já tinha sofrido tanto na vida, que tinha sido abandonada pelo próprio filho, mas que ainda assim conseguia sorrir, ter fé, acreditar em dias melhores.
A tempestade continuava lá fora, mas dentro da cabine tinha encontrou uma calmaria que não conhecia antes. Chegámos a esse posto maior depois de quase 2 horas a serem rebocados naquela estrada ensopada. O camionista que nos ajudou, um rapaz chamado Marcos, ficou lá até ter a certeza que estávamos bem instalado.
Chamou o mecânico, explicou a situação e ainda deu 50 paus ao meu gasóleo antes de seguir viagem. Tem gente boa neste mundo, viu? Nem todo o filho da puta é filho da puta. O mecânico era um coroa magro com cara de poucos amigos chamado Seu Neco. Olhou para o motor do brutos durante uns 5 minutos sem dizer nada, resmungando sozinho.
Depois olhou para mim com aquela cara de quem vai dar notícias ruim. É a bomba injetora mesmo. Falou, cuspindo um cuspo amarelado para o chão. Vou ter de pedir a peça na capital. Chega só depois de amanhã, se tiver sorte. Puta que pariu. Dois dias ali parado com a carga de frango que precisava de ser entregue e a dona Áurea à espera de socorro.
Bateu-me um desespero fodido. Não tem outra solução, não, senhor Neco. Nem reparação provisória. Conserto provisório numa bomba injetora? Estás a achar-me com cara de mágico, é? Ele riu aquela gargalhada seca de quem já viu muito camionista desesperado. Relaxa que eu chamo a transportadora e explico a situação.
Mandam outro camião buscar a carga. É mais barato para eles que perder tudo. Ele tinha razão, claro. Mas e a dona Áurea? Ela não podia ficar ali parada à espera dois dias por um camião que nem sequer era dela. Eu tinha uma missão agora. Enquanto o Neco ligava para transportadora, voltei para a lanchonete, onde tinha deixado a dona Áuria a tomar um chazinho.
Ela estava lá a conversar com a empregada de mesa como se fossem amigas de longa data. Impressionante como ela fazia amizade em qualquer lugar. E aí, seu Gerson? Vai demorar muito?”, ela me perguntou quando me sentei à frente dela. “Vá, dona Áuria. A peça só chega depois de amanhã.” O seu rostinho murchou na hora. Ai, meu Deus.
E agora? Eu tô atrapalhando a sua vida, não é? Se não fosse por mim, o senhor já teria dado um jeito. Que é isto? A senhora não está atrapalhando nada. Falei meio sem jeito, porque na realidade estava a atrapalhar sim. Mas que culpa tinha ela? O negócio é o seguinte. Vou ligar paraa polícia daqui mesmo, explicar a situação da senhora e depois a gente vê como faz.
Liguei paraa esquadra de Bom Jardim da Serra. atendeu um delegado chamado Torres, que ouviu toda a história com uma paciência surpreendente. Quando acabei de explicar, suspirou fundo. Olha, o teu Gerson, infelizmente não é a primeira vez que isso acontece por cá. A serra tornou-se um ponto de abandono de idosos. É uma cobardia sem tamanho.
E o que nós faz? Perguntei. O ideal seria a senhora vir até aqui e registar o BO presencialmente, mas como estão atolados aí, vou mandar uma viatura buscar ela. Pode ser? Aí a gente cuida de tudo por aqui. Fiquei aliviado. A polícia ia vir buscar a dona Áurria, tratar da papelada, encontrar um abrigo adequado para ela. Tudo bem.
Minha parte estava cumprida. Eu tinha feito o que qualquer ser humano decente faria. Resgatei-a, dei-lhe abrigo, comida e agora estava a passar para quem realmente podia ajudar. A minha missão estava cumprida, certo? Voltei para a mesa e contei à dona Áurea o que tinha acontecido. Ela ouviu tudo em silêncio, com aqueles olhinhos baixos fitando a chávena de chá já fria.
“Então, a polícia vai levar-me?”, ela perguntou numa vozinha tão fraca que mal deu para ouvir. É, dona Áurea. Eles vão cuidar da senhora, apresentar a queixa contra o seu filho, encontrar um lugar adequado. Um lar de idosos, certo? Ela interrompeu agora olhando-me diretamente nos olhos, com uma tristeza tão profunda que me cortou o coração. “Um lar para idosos.
” Corrigi, tentando soar mais positivo. Temporário até resolver tudo. Ela ficou em silêncio durante algum tempo, depois pegou a minha mão por cima da mesa. A mão dela era tão pequena, tão enrugada, com veias azuis saltando por baixo da pele fina. Senhor Gerson, o Senhor salvou-me. Nunca vou esquecer isso. Obrigada por tudo.
Puta que pariu, parecia que ela estava despedindo-se, como se a nossa história chegasse ali ao fim. E por algum motivo bizarro, incomodou-me para caralho. Foi aí que comecei a pensar de verdade no que estava a acontecer. O que eu estou a fazer com esta senhora na boleia? Por que me preocupo tanto? Por que não consigo simplesmente entregá-la a polícia e seguir a minha vida? Sentado ali, a olhar para aquela senhora frágil que me agradecia como se eu fosse um herói, comecei a questionar tudo.
A minha vida na estrada, as minhas escolhas, o homem em que me tinha tornado. Lembrei-me do meu filho, Dinis. Quando ele era pequeno, quase não ficava em casa, sempre na estrada, sempre com a desculpa do trabalho, do sustento, do dinheiro. Mas a verdade é que fugia. fugia da responsabilidade, do compromisso diário, das pequenas e simples coisas que fazem uma família.
Quando o Denis tinha uns 8 anos, teve uma apresentação na escola. Ele ia fazer o papel principal numa peça de teatro. Ensaiou semanas, decorou todas as falas. No dia prometi que estaria lá, mas apareceu um frete extra, uma boa grana e eu aceitei. Não fui. A A Marinette contou-me depois que ele ficou o tempo todo a olhar para a porta do ginásio, à espera de me ver.
Cada vez que alguém entrava, os olhos dele brilhavam, até que compreendeu que eu não ia aparecer. Ela disse que nunca tinha visto tanta desilusão no rosto de uma criança. Essa lembrança doía até hoje e tantas outras semelhantes: aniversários perdidos, natais por telefone, formaturas que só vi por foto.
Eu abandonei o meu filho, não fisicamente como o Júnior fez com a dona Áura, mas emocionalmente, talvez tão grave quanto. Olhei novamente para a dona Áurea e vi nela todos os idosos que conheci na vida e não dei a devida importância. A minha mãe que morreu enquanto eu estava na estrada. O meu pai que enterrei a pressa para poder voltar ao trecho.
Tios e tias que nem lembro-me mais do rosto. O que eu estou a fazer com esta senhora na boleia? Pensei de novo e a resposta veio clara como a água. Talvez fosse Deus a dar-me uma chance de arranjar alguma coisa, de fazer diferente desta vez, de cuidar de alguém quando ainda ia a tempo. Dona Áura, – falei de repente, interrompendo o silêncio que se tinha instalado entre nós.
A senhora não tem de ir com a polícia agora, se não quiser. Ela levantou os olhos, confusa. Como assim? O meu camião vai ficar no conserto por dois dias. Depois disso, posso levar a senhora pessoalmente à esquadra. ou até um local melhor. Não precisa de ser agora com pressa. O senhor não se vai incomodar de ficar comigo mais uns dias? Ela perguntou.
E havia uma esperança tão grande naquela voz que me emocionou. Incomodo nenhum, dona Áura, pelo contrário. Liguei de volta para o delegado Torres e expliquei a situação. No início, ficou meio desconfiado, mas depois compreendeu. Pediu os meus dados completos, número da CNH, matrícula do camião, tudo para registar. disse que se precisássemos de qualquer coisa, era só ligar.
Quando desliguei, a dona Áurea estava a sorrir de um jeito que iluminava todo o rosto, como se tivesse recebido um presente inesperado. Passei o resto do dia a resolver a questão da carga. A transportadora enviou outro camião. Transferimos os frangos congelados e está pronto. Devolvi a fatura, expliquei sobre o defeito mecânico e até foram compreensivos.
Disseram-me para voltar paraa base quando o camião tivesse reparado. Quando voltei ao posto, encontrei a dona Áurea a tricotar. Isso mesmo, tricotando. A empregada tinha arrumado agulhas e linha para ela algures e lá estava ela, com as mãozinhas trabalhando depressa, como se nunca tivessem parado.
A cena era tão bonita, tão normal, que quase me esquecia que dias antes estava abandonada para morrer. “O que é que a senhora está a fazer?”, perguntei curioso. “Uma touquinha de bebé”, ela respondeu sem tirar os olhos do trabalho. “Para vender, assim ajudo a pagar as despesas por aqui.” Caramba, a velha tinha sido abandonada, quase morreu de frio, estava desabrigada.
E a primeira coisa que pensou foi em como ganhar uns trocos para não ser peso para ninguém. Isto é que é dignidade, porra. Não precisa de se preocupar com isso, dona Áuria. A gente dá um jeito. Mas eu gosto de tricotar, disse ela, sorrindo. Mantenha as mãos ocupadas e a cabeça limpa. Notei que ela estava diferente, mais animada, mais viva.
Não parecia mais aquela velhinha assustada da berma da estrada. Era como se ter alguém que se preocupava tivesse dado um novo fôlego para ela. Naquela noite, depois que a deixei instalada no mesmo quartinho dos fundos do posto, fiquei um tempão sentado na boleia do camião, olhando as estrelas que tinham aparecido depois da tempestade e a pensar na vida.
Eu não sabia se aquilo era apenas uma boleia ou se era uma missão. Não sabia se estava apenas a ajudar uma idosa ou salvando alguma coisa em mim próprio. Só sabia que, pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava a fazer algo que realmente importava. No dia seguinte, ainda antes do sol nascer, já estava de pé.
Fui até à lojinha do posto e comprei um monte de revista de palavras cruzadas, linha de malha, umas guloseimas que pensei que a dona Áurea ia gostar, até um radinho portátil para ela ouvir os programas de música sertaneja que eu sabia que os velhos adoram. Quando entreguei-lhe tudo aquilo no café da manhã, os olhos dela encheram-se de água.
Senhor Gerson, o senhor não precisava. Que nada, dona Áuria. É só para a senhora passar o tempo enquanto esperamos o camião ficar pronto. Ela pegou no radinho com cuidado, como se fosse feito de ouro. Há tanto tempo que não ouço música. Nesse momento, soube que tinha tomado a decisão certa.
Por vezes, a vida coloca-nos em situações que parecem um desvio no caminho, mas, na verdade, são atalhos pro realmente importa. Os dois dias que passámos naquele posto à espera da peça do camião, foram uma lição do caraças para mim. Juro que aprendi mais alguma coisa durante esse tempo com a dona Áurea do que nos 40 anos a rodar por esse Brasil.
A gente estabeleceu uma rotina tranquila. De manhã tomávamos café juntos na cafetaria. Ela sempre acordava antes de mim, já toda arrumadinha, como se fosse sair para missa. O cabelo branco, penteado com cuidado, as roupas simples, mas sempre limpas e bem passadas. Ela passava com as mãos mesmo esticando no colchão. Durante o dia, ia zanzando pelo posto, ajudando o Neco na oficina, só para passar o tempo, a conversar com outros camionistas que paravam por ali.
De vez em quando ia ver como a dona Áurea tava. Geralmente encontrava-a tricotando, ouvindo o radinho ou conversando com as funcionárias do posto. Todo o mundo já tinha se apaixonado por ela. A velhinha tinha esse dom, sabe, de fazer com que as pessoas gostem dela. Numa dessas tardes, enquanto ela tricotava e eu tentava arranjar o rádio do camião, ela soltou-me uma bomba.
Senhor Gerson, tem filhos? A pergunta apanhou-me de surpresa. Até então tínhamos falado de tudo menos disso. Era como se tivéssemos um acordo silencioso de não tocar em feridas abertas. Tenho apenas um, o Denis, respondi meio travado. E vocês dão-se bem? Respirei fundo. Era tempo de ser sincero. Não, não nos falamos há anos.
Ela continuou a tricotar, sem levantar os olhos do trabalho. O senhor fez com ele O que o meu filho fez comigo? Caralho. A pergunta foi direta no estômago, tipo soco de pugilista. Me até deu um embrulho nas tripas. Minha vontade foi negar na altura, dizer que nunca faria algo assim, que era completamente diferente.
Mas era mesmo? Não fisicamente, dona Áurria. Nunca abandonei-o numa estrada. Mas de outros jeitos, talvez. Sim. Ela finalmente olhou-me sem julgamento nenhum nos olhos. Só uma curiosidade genuína. Como assim? E foi aí que desabafei. Contei tudo. Como fui pai ausente sempre na estrada, como perdi momentos importantes da vida dele.
Como escolhi o trabalho acima da família. Como deixei o casamento desmoronar-se por negligência, como me fui embora quando o A Denise mais precisava de uma figura paterna? como ele cresceu vendo-me mais em foto do que pessoalmente. Eu era jovem e burro, expliquei. Achava que ser pai era apenas pagar as contas, pôr comida na mesa.
Nunca percebi que uma criança precisa do pai presente, nem que seja só para jogar bola no domingo. E o senhor nunca tentou corrigir isso? Ela perguntou com aquela simplicidade que só os velhos têm. Como se consertar um relacionamento quebrado fosse fácil como mudar um pneu. Tentei sim.
Quando me apercebi do estrago, já era tarde. Ele já era adolescente revoltado, já me odiava. Tentei me aproximar, mas cada tentativa parecia piorar tudo. Até que um dia disse que não me queria ver mais, que eu não era um pai a sério, só um tipo que aparecia de vez em quando para estragar o clima da casa. A Dona Áurea abanou a cabeça compreensiva.
Sabe, o senhor Gerson, o meu falecido marido também era assim. Motorista de autocarros, vivia na estrada. Os nossos filhos cresceram praticamente sem pai. Mas a diferença é que quando ele ficou doente no final da vida, ele conseguiu reaproximar-se deles. Pediu perdão, explicou que fez o que achou melhor na época. Alguns perdoaram, outros não.
Mas pelo menos tentou, sabe? E o Júnior, perdoou o pai. Ela sorriu tristemente. Não, o Júnior nunca perdoou. Talvez por isso ele me trate assim hoje. A gente repete o que viveu, mesmo sem querer. Aquilo atingiu-me em cheio. Perguntei-me se o Denis, quando fosse pai, estaria ausente como eu estive, se a mágoa dele seria passada para a frente, como uma herança envenenada.
“A senhora acha que devia tentar falar com ele de novo?”, perguntei, sentindo-me de repente como um menino a pedir conselhos paraa mãe. O que é que o senhor tem a perder? O pior que pode acontecer é ele não querer falar. E esta já é a situação atual, não é? Mais uma vez, a lógica simples e direta dela apanhou-me desprevenido. Ela tinha razão, claro.
Que merda tinha eu a perder? Já tinha perdido tudo mesmo. Nessa noite tentei ligar ao Denis. O número antigo não existia mais. Tentei encontrá-lo no Facebook, mas a minha conta estava tão abandonada que já nem se lembrava da senha. Acabei por ligar para a minha ex-cunhada, a irmã da Marinete, e implorando pelo contacto do meu filho.
Ela ficou toda desconfiada, achando que eu estava bêbado ou louco, mas acabou por passar. Enviei uma mensagem simples: “Filho, é o pai. Sei que não quer conversa comigo e tá certo. Só queria dizer que estou pensando em si e que se um dia quiser conversar, estou aqui. Ele não respondeu. Pelo menos não naquele dia.
Mas o visto apareceu, por isso pelo menos leu. No segundo dia de espera, aconteceu algo surpreendente. Eu e a dona Áurea estávamos a jantar na cafetaria do posto quando a a dona Elsa veio toda entusiasmada contar que tinha tido uma ideia. Dona Áura, a senhora disse que era costureira, não é? E que gostava de bordar.
Sim, a minha filha. Fiz isso a vida toda. Pois olha só, a minha irmã tem uma lojinha de artesanato em Bom Jardim. Ela vende estas coisas feitas à mão, croché, tricot, bordado e está sempre a precisar de mais peças. Quem sabe se a senhora não podia fazer umas coisas para ela vender. Os olhos da velha brilharam como se tivessem acendido duas lanternas por dentro.
Mas será que alguém ainda se interessa-se por estas coisas feitas à mão? Hoje está tudo na máquina na China. Pelo contrário, a dona Elsa continuou. Tá na moda de novo. O pessoal da grande cidade paga caro por peça artesanal, principalmente os turistas que passam por aqui para ir para a serra. E assim, em questão de horas, a dona Áurea tinha um trabalho.
A Dona Elsa trouxe um monte de linha, agulha, tecido e a velhinha começou a produzir que nem uma fábrica. paninho de loiça bordado, gorro de lã, sapatinho de bebé. Parecia que tinha voltado 20 anos no tempo, cheia de energia. Foi nesse segundo dia também que comecei a procurar uma solução definitiva para a dona Áurria. Não podia simplesmente levá-la para a esquadra e deixar que a atirassem para um asilo qualquer.
Não depois de tudo o que tínhamos vivido juntos. Ela merecia algo melhor, mais digno. Comecei a fazer chamadas, perguntar por aí. Falei com o delegado Torres de novo, com a assistente social da cidade, com uma enfermeira que tinha parado no posto e todos diziam a mesma coisa. Asilos públicos estavam lotados com fila de espera e os particulares eram caros para caramba.
Foi quando a enfermeira me deu uma dica. Tem uma casa de repouso pequena aqui perto em Urubissi. É da dona Conceição, uma senhora que adaptou a própria casa para cuidar de idosos. Ela cobra mais barato porque não é empresa. É um trabalho meio de coração mesmo. Só estão lá uns 10 idosos e ela cuida bem. No mesmo dia consegui o telefone da tal dona Conceição.
Era uma senhora de cerca de 65 anos, enfermeira aposentada, que explicou que realmente mantinha um lar para idosos na casa dela. Estava tudo regularizado, com alvará da câmara municipal e tudo mais. O valor era muito mais pequena que outros lugares e ela garantia que os idosos eram tratados como família.
“Mas ela precisa de cuidados especiais por causa da cadeira de rodas?”, perguntou a dona Conceição. Sim, mas ela é bastante lúcida e vira-se bastante sozinha. Só precisa de ajuda para tomar banho, essas coisas. É, isso não é problema. Tenho experiência com cadeirantes. Se quiser, pode trazê-la para conhecer o local.
Se ela gostar, e se combinarmos no valor, pode ficar. Combinámos ir lá no dia seguinte, quando o camião estivesse pronto. No fundo, estava na dúvida se estava a fazer a coisa certa. Afinal, eu mal conhecia a dona Áuria. Ela tinha apareceu na minha vida há apenas quatro dias, mas já sentia uma responsabilidade enorme por ela, como se não fosse apenas uma senhora que encontrei na estrada, mas uma missão que recebi.
Naquela noite, contei à dona Áurea sobre a lar de repouso. Expliquei como era, quem era a dona Conceição, quanto custava. Ela ouviu tudo em silêncio, olhando pela janelinha do quarto para os faróis dos camiões que passavam na rodovia. “O senhor acha que é um bom lugar?”, perguntou ela finalmente. “Parece que sim, dona Áurea.
Melhor do que um asilo público, com certeza. Lá a senhora vai ter atenção, cuidado. Vai poder continuar a fazer o seu artesanato.” “E quanto custa por mês?” “R$200.” Ela fez as contas depressa. Minha reforma é de 600 e pouco. Não dá. Os primeiros meses ajudo, a dona Áura, depois a gente vê. Com o seu artesanato, a senhora pode complementar.
Ela olhou para mim com aqueles olhos que pareciam ver através da alma e soube que ela tinha compreendido tudo, que eu estava a me oferecendo-se para pagar por um lugar para ela, que por algum motivo estranho, eu não conseguia simplesmente despedir-me e seguir a minha vida. Senhor Gerson, posso fazer uma pergunta? Claro.
Por que razão o senhor está a fazer tudo isso por mim? O senhor nem me conhece. Era uma questão simples, mas a resposta era complicada para caralho. Por que é que eu estava a fazer tudo aquilo? Nem eu próprio sabia bem. Penso que talvez, sei lá, a dona Áura, talvez precise de ajudar alguém para me sentir melhor comigo próprio.
Ou talvez a senhora me lembre a minha mãe. Ou talvez seja só porque a senhora é um ser humano e merece dignidade. Ela sorriu satisfeita com a resposta sincera. Seja qual for o motivo, obrigada. No outro dia, a peça chegou finalmente. Seu Neco instalou tudo em poucas horas. E por volta das 2as da tarde, o bruto estava a ressonar de novo, pronto para a estrada.
Paguei a conta, agradecia a toda a gente do posto e ajudei a dona Áurea a subir para a cabine novamente. “A senhora está pronta conhecer a sua nova casa?”, perguntei enquanto ajustava o seu cinto de segurança. “Estou com um pouquinho de medo”, confessou ela, “mas confio no Senhor.
Conduzimos por mais uma hora até chegar a Urubice. A casa da dona Conceição ficava num terreno grande, com jardim em frente, todo florido. Era uma casa simples, mas bonita, bem cuidada, pintada de azul claro. Tinha rampa de acesso, corrimãos, tudo adaptado para cadeirantes. A Dona Conceição recebeu-nos à porta. Era uma senhora robusta, de cabelos grisalhos e rosto amável.
Nos mostrou toda a casa, os quartos pequenos mais limpos, a sala de TV, a cozinha grande, onde todos tomavam as refeições juntos, o quintal com horta e algumas galinhas. Os outros idosos estavam na sala a ver televisão, uns mais lúcidos, outros nem tanto. Mas todos pareciam bem cuidados, limpos, alimentados.
Não tinha aquele cheiro característico de asilo, de desinfetante misturado com urina. Era cheiro a casa mesmo, de comida caseira no fogão. Dona Áurea observava tudo com atenção, fazendo perguntas, conhecendo os outros moradores. Uma velhinha chamada Lurdes logo se aproximou dela, mostrando um croché que estava a fazer.
Em minutos, as duas já conversavam como velhas amigas. Quando terminámos o tour, perguntei à dona Áuria o que ela tinha achado. “É um bom lugar”, ela disse pensativa. “As pessoas parecem felizes aqui. A senhora quer ficar?” Ela hesitou, olhando pela janela para o jardim lá fora. Depois olhou para mim com aqueles olhos profundos.
“Se puder, quero-te ver de vez em quando.” Engoli em seco. Tinha um nó do tamanho do mundo na minha garganta. Claro, dona Ária. Sempre que eu passar por aquele lado de Santa Catarina, venho visitar a senhora. Acertei tudo com a dona Conceição. Deixei três meses pagos adiantados, mais um extra para comprar roupa nova e material de artesanato para a dona Áurea.
Deixei o meu telefone, o meu endereço de e-mail, tudo para o caso de necessitarem entrar em contacto. Quando chegou a hora de me despedir, a dona Áurea segurou a minha mão forte. Nunca me queixei da vida. Mas nessa noite chorei em silêncio. Nem percebi que estava a chorar até sentir as lágrimas a molharem-me a camisa.
Ela não chorou, apenas sorriu aquele sorriso sem dente que já se tinha tornado tão familiar para mim, e disse: “Deus lhe pague, senhor Gerson. O Senhor é um homem bom. Saí dali com o coração mais leve e mais pesado ao mesmo tempo. Tinha cumprido a minha missão, mas também tinha criado um vínculo que não sabia bem como lidar.
Nessa noite, quando voltei pro camião e liguei o motor, o silêncio na cabine era ensurdecedor. Senti falta do barulho das agulhas de tricot a bater, da voz mansinha dela a contar histórias, até do radinho a tocar modão sertanejo que ela gostava. Percebi então que na boleia a gente aprende mais do que na escola. A estrada tinha-me ensinado a ser duro, a desconfiar, a seguir em frente sem olhar para trás.
Mas a dona Áuria tinha-me ensinado algo mais importante, que nunca é tarde para abrir o coração e fazer diferente. Já passou quase um ano desde que Encontrei a dona Áurea naquela curva da serra do Rio do Rastro. Um ano que a A minha vida mudou completamente. Quem diria que um velho camionista rabugento como eu ainda podia mudar, não é? Mas foi o que aconteceu.
Hoje passo por lá sempre que posso. No início era só quando tinha frete para aqueles lados. Depois comecei a dar os meus pulos, a apanhar cargas que passassem perto de Urubici, mesmo que não fosse o melhor frete. Às vezes faço um desvio de 100, 200 km só para poder passar por lá e ver como ela está. Isso teria sido impensável para o antigo Gerson.
Desvio de rota, perder tempo e gasóleo. Jamais. Mas este novo Gerson faz essas loucuras, sim. E não me arrependo nem um pouco. A primeira vez que lá voltei depois de a deixar na pousada foi uns 20 dias depois. Estava com o cu na mão, para ser sincero. E se ela não tivesse se adaptado? E se o casal não estivesse tratando-a bem? E se ela tivesse ficado doente? Mil preocupações na cabeça.
Quase passei direto de tanta insegurança. Quando cheguei à pousada, nem queria acreditar no que vi. Dona Áuria estava sentada numa zona coberta que tinham improvisado como atelier. Tinha uma pequena mesa de costura adaptada para cadeira de rodas, várias linhas coloridas, retalhos, uma máquina de costura antiga e ela ali a costurar com uns óculos de leitura na ponta do nariz, toda concentrada.
Quando me viu, quase caiu da cadeira de tanta alegria. O seu Gerson, o senhor veio mesmo. Parecia que tinha passado um ano, e não 20 dias. Ela mostrou-me o chalé dela, todo adaptado, como prometido. Não era nenhum luxo, mas era confortável, limpo, acolhedor. Tinha rampa na entrada, casa de banho com barras de apoio, lavatório mais baixo.
Tinham até colocado umas prateleiras mais baixas para ela alcançar as coisas sem precisar de ajuda. E o trabalho, dona Áurea? Está a dar conta? Ai, senhor Gerson, estou feliz demais. Tenho feito tanta coisa. Olha aqui. E mostrou-me as cortinas novas que tinha feito paraa pousada com um bordado delicado nas beiradas, umas toalhas de mesa com ponto cruz, colouxas de retalho que pareciam obra de arte.
A velha era boa mesmo no que fazia. A Marlene já recebeu três encomendas de hóspedes que viram o meu trabalho e quiseram igual”, contou toda orgulhosa. Uma senhora de Florianópolis encomendou um enxoval de bebé inteiro. Aquela felicidade dela era contagiante. Dava para ver que ela tinha encontrado não só um lugar para viver, mas um propósito.
Já tinha feito amizade com os funcionários da pousada, com os hóspedes regulares, até com o pessoal do posto de saúde onde ia controlar a pressão. Nesse primeiro reencontro Estive apenas 2 horas. Tinha que seguir viagem, entregar a carga, mas prometi que voltaria e voltei. No mês seguinte já lá estava de novo. Na segunda visita, levei uns presentinhos. Nada demais.
umas linhas de costura diferentes que tinha comprado numa loja de artesanato em São Paulo, uns docinhos de padaria que ela tinha comentado que gostava, uma manta mais quentinha para o inverno que estava a chegar. Ela ficou toda sem jeito com os presentes, mas dava para ver que tinha gostado.
Não precisava de se incomodar, senhor Gerson. O senhor já fez tanto por mim. Que incómodo! Nada, dona Áuria. É o mínimo. Foi nessa segunda- visita que fiquei a saber das novidades sobre o filho dela, o desgraçado do Júnior. A polícia tinha-o localizado, nem foi difícil. continuava a viver no mesmo local em Lauro Müller.
Quando confrontado, primeiro negou tudo. Disse que a mãe estava a mentir. Depois, encurralado com as provas, admitiu e começou a chorar, dizendo que estava desesperado, que não dava conta do recado, que a esposa ameaçou deixá-lo se a sogra continuasse lá. Um monte de desculpa esfarrapada. O delegado Torres ligou à dona Áurria, explicando a situação.
Perguntou se ela queria dar continuidade ao processo-crime contra o filho. Sabe o que esta santa mulher respondeu? Que não, que só queria que ele fizesse tratamento psicológico e prestasse serviço comunitário num asilo para aprender a valorizar os idosos. A senhora tem um coração muito grande, dona Áuria”, falei impressionado com tamanha bondade.
“Não é um coração grande, o seu Gerson, é que não consigo desejar mal para ninguém, muito menos para o meu filho. O que ele fez foi horrível, mas ele é meu filho ainda, sangue do meu sangue. Esta capacidade dela de perdoar me deixava de queixo caído. Eu, que guardo rancor até de um fiscal de posto que me multou há 15 anos, não conseguia compreender como alguém perdoa uma atrocidade daqueles, mas talvez seja é isso que a torna especial, esse coração enorme que não guarda mágoa.
As visitas foram ficando mais frequentes. A cada dois meses, pelo menos, arranjava maneira de passar por lá. Às vezes ficava só algumas horas. Às vezes conseguia passar à noite na pousada. António e Marlene, os donos, já me tratavam como da família. Tinha sempre um quarto disponível para mim. Sempre recusavam quando tentava pagar.
“Você trouxe a nossa melhor costureira”, dizia Marlene. “É o mínimo que podemos fazer e a dona Áuria?” Esta então só ficava melhor com o tempo. Parecia rejuvenecer a cada visita minha, a pele mais corada, o olhar mais vivo, até a postura na cadeira de rodas mais direita. O trabalho e o ambiente acolhedor tinham feito milagres por ela.
Numa dessas visitas, já no sexto mês a viver lá, ela me mostrou algo que tinha feito especialmente para mim. Um estofado novo para o banco do meu camião, todo bordado à mão com motivos de estrada, volantes, camiões, placas de rodovia e no meio bem grande ela tinha bordado Gerson e Áurea do trecho e do coração. Cacete, quase chorei ali mesmo à frente dela, mas segurei.
Um homem velho não chora, certo? Pelo menos era o que eu pensava antes. Para o senhor nunca se esquecer da velhinha que encontrou na estrada, ela disse enquanto me entregava o presente. Sempre que se sentar no banco, vai lembrar-se que ainda há gente boa neste mundo. Boa gente como se ela não fosse a própria definição de bondade, como se ela não me tivesse ensinado mais sobre ser boa gente que qualquer outra pessoa na minha vida.
Conforme as visitas se acumulavam, ia percebendo que algo tinha mudado dentro de mim. Não era só a preocupação com a dona Áurea, era algo mais profundo, um novo modo de ver o mundo, de tratar as pessoas. Comecei a parar mais vezes para ajudar os outros condutores com problemas na estrada. Comecei a falar mais com os colegas nos postos, a ouvir as suas histórias, a me importar.
E o mais incrível aconteceu cerca de ito meses depois encontrei dona Áurria. Recebi uma mensagem do Denis, meu filho, curta, seca, mas que valeu mais que o ouro. Pai, se a oferta ainda estiver de pé, acho que nós podia conversar. Nem preciso dizer que respondi de imediato. Marquei de encontrar-se com ele em São Paulo, onde ele vivia agora.
Consegui um frete para lá na mesma semana e fui. Almoçamos num restaurante simples perto do trabalho dele. Foi estranho, desconfortável, cheio de silêncios. Ele estava diferente, claro. Já não era o miúdo que me lembrava. Era um homem feito, com algumas entradas na testa iguais às minhas na idade dele. A conversa foi entrando nos eixos aos poucos.
Ele contou da sua vida. Tinha-se formado em engenharia, trabalhava numa empresa de logística. Olha só, não caiu longe do camião. Era casado há 5 anos e tinha uma filha de três, minha neta, que nem sabia que existia. Quando chegou a minha vez de falar, de repente comecei a contar sobre a dona Áurria.
Falei como a encontrei, como decidi ajudar, como a minha vida tinha mudado desde então. Eu, que nunca fui de falar muito, vi-me despejando toda a história e, pela primeira vez, viu filho a olhar para mim com algo diferente nos olhos. Não era mais mágoa ou indiferença, era respeito. No fim do almoço, convidou-me para conhecer a minha neta.
Se quiser, sem pressão. No domingo seguinte, fui à casa dele. Conheci a Maria Clara, a minha netinha, uma costelinha de anjo com os mesmos olhos do pai, que são os mesmos olhos meus. Conheci a Samara, a minha nora, uma rapariga séria, mas educada. Passámos a tarde juntos, meio sem jeito ainda, mas dando um passo de cada vez.
Quando contei à dona Áurea sobre este reencontro, na minha visita seguinte, chorou de alegria. Viu, seu Gerson? Deus escreve direito por linhas tortas. O Senhor ajudou-me e isso abriu caminho para se reaproximar do seu filho. Talvez ela tivesse razão. Talvez tudo estivesse ligado de alguma forma que não entendemos.
Ou talvez fosse apenas a vida a dar mais uma hipótese para quem decide fazer diferente. Hoje, praticamente um ano depois, a minha vida é outra. Não que eu tenha deixado de ser camionista. Continuo na estrada com o velho brutos a ressonar, mas agora tenho pontos de paragem, que são verdadeiros portos seguros. A casa do meu filho em São Paulo, onde Vou pelo menos uma vez por mês ver o meu netinha e a pousada em Urubissi, onde a dona Áurea espera-me com um sorriso desdentado e histórias para contar.
Na última vez que lá passei, levei a Maria Clara comigo. Foi a primeira vez que ela viajou na boleia com o avô. Queria que ela conhecesse a dona Áurria, a senhora que sem saber ajudou a voltar a ligar a nossa família. As duas se deram tão bem que parecia que se conheciam há anos. A Dona Áuria ensinou Maria Clara a dar os primeiros pontos de bordado e a menina ficou fascinada.
Quando estávamos a ir embora, a dona Áuria chamou-me à parte e falou baixinho: “Nunca se esqueça, senhor Gerson. As melhores coisas da vida acontecem quando a gente pára para ajudar alguém. E é é isso que levo comigo agora em cada viagem, em cada troço. Se é filho, cuida da tua mãe. E se é da estrada como eu, nunca ignora um ser humano na beira do caminho.
Pode ser que ache uma alma companheira, como eu pensava. O estofado que a dona Aurea bordou para mim está lá, banco dos brutos. Todos os dias sento em cima dele e lembro-me da lição que aprendi. A estrada pode ser dura e solitária, mas também pode levar-te pros lugares e pessoas mais incríveis se você tiver coragem para parar e olhar de verdade.
Nunca mais passei a direito por alguém a precisar de ajuda. Nunca mais fechei os olhos paraa dor alheia. A cabine do meu camião, que já foi a minha prisão solitária, é agora um espaço onde carrego não só fretes, mas memórias, esperanças e lições. Como diz a dona Áurea sempre, que me despeço dela. Vá com Deus, senhor Gerson, e volte depressa, que a vida é demasiado curta para a gente ficar longe de quem gostamos.
E é isso que eu faço. Vou, volto e sigo em frente, levando comigo a certeza de que nunca é tarde para fazer diferente, para ser melhor, para abrir o coração. Mesmo um velho camionista cascudo como eu pode aprender isso. Basta encontrar um anjo à beira da estrada para te mostrar o caminho.