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Disparou sobre a esposa e atirou o carro para um lago.

O crime que chocou o Brasil: Mércia saiu de casa em um domingo e nunca mais voltou viva

 

Era para ser apenas o fim de mais um domingo em família. No dia 23 de maio de 2010, a advogada Mércia Nakashima, de 28 anos, deixou a casa da avó, em Guarulhos, na Grande São Paulo, entrou em seu Honda Fit prata e seguiu para o que todos imaginavam ser o caminho de volta para casa. Mas aquela despedida simples, comum, quase banal, se transformaria no último momento em que seus familiares a veriam com vida.

Durante 18 dias, o Brasil acompanhou uma busca angustiante. Onde estava Mércia? Por que seu telefone havia silenciado? O que poderia ter acontecido com uma jovem advogada, querida pela família, dedicada ao trabalho e cheia de planos para o futuro? A resposta viria de forma brutal, escondida no fundo de uma represa.

O caso começou a ganhar contornos macabros quando um pescador indicou à polícia que havia algo estranho nas águas da represa de Atibaia. Mergulhadores foram acionados. A cada minuto, a esperança da família se misturava ao medo. Até que, submerso, apareceu o carro da jovem. Dias depois, veio a confirmação que ninguém queria ouvir: o corpo de Mércia também estava ali.

Ela havia sido baleada e jogada ainda viva na água. A morte, segundo a investigação, ocorreu por afogamento. A crueldade do crime chocou até investigadores experientes. Não se tratava apenas de um desaparecimento. Era uma execução calculada, praticada por alguém que conhecia a vítima, seus hábitos, sua rotina e suas fragilidades emocionais.

 

O principal suspeito não era um desconhecido. Era Misael Bispo de Souza, ex-namorado de Mércia, também advogado e ex-policial militar. Durante cerca de quatro anos, os dois viveram uma relação marcada por idas e vindas. Para quem via de fora, Misael podia parecer um homem da lei, alguém preparado, instruído e respeitável. Mas, segundo relatos reunidos pela investigação, por trás dessa fachada havia ciúme, possessividade e uma recusa perigosa em aceitar o fim do relacionamento.

Mércia havia seguido em frente. Jovem, bonita, inteligente e com uma carreira promissora, ela queria reconstruir sua vida longe de uma relação desgastada. Mas Misael, de acordo com a acusação, não aceitava perder o controle. O término, para ele, não era uma escolha dela. Era uma afronta. E foi justamente esse sentimento de posse que, segundo o Ministério Público, transformou rejeição em sentença de morte.

 

Na noite do crime, Mércia teria sido atraída para um encontro. A confiança que ainda existia por causa do passado e de pendências pessoais e profissionais foi usada como armadilha. Ela entrou no carro sem imaginar que estava diante dos últimos minutos de sua vida. O veículo seguiu até uma área isolada, próxima à represa de Atibaia. Ali, longe dos olhos de testemunhas, uma discussão teria começado.

Misael estava armado. O disparo atingiu Mércia na região da boca. Mas o tiro não a matou imediatamente. Gravemente ferida, sem condições de se defender, ela foi colocada em uma situação ainda mais cruel: o carro foi empurrado para dentro da represa. A água, que o assassino acreditava que apagaria todos os vestígios, tornou-se o túmulo temporário da jovem e, ao mesmo tempo, a peça que ajudaria a revelar a verdade.

 

Misael acreditava ter construído um álibi perfeito. Disse que estava em Guarulhos, em frente a uma casa de shows, conversando com uma acompanhante no horário do crime. Achava que, sem testemunhas diretas e com o veículo submerso, a polícia jamais conseguiria ligá-lo à morte de Mércia. Mas a investigação mostrou que o crime perfeito, muitas vezes, desmorona nos detalhes que o criminoso não consegue controlar.

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O trabalho da polícia foi decisivo. A quebra do sigilo telefônico desmontou a versão apresentada pelo suspeito. Por meio das estações rádio base, as antenas de telefonia celular, os investigadores reconstruíram o caminho do aparelho de Misael naquela noite. O celular não estava parado em Guarulhos, como ele afirmava. Os dados indicavam deslocamento compatível com a rota até a região da represa de Atibaia, justamente no período em que Mércia desapareceu.

 

A tecnologia falava. E falava alto.

Mas não foi apenas o celular que colocou Misael no centro da investigação. A perícia encontrou vestígios microscópicos que se transformaram em provas poderosas. Nos sapatos e no veículo usado por ele, foram identificados rastros de uma alga específica do ambiente da represa. Aquilo que parecia invisível a olho nu tornou-se uma assinatura silenciosa da cena do crime. A natureza, que ele imaginou usar para esconder a morte de Mércia, acabou ajudando a denunciá-lo.

Também surgiram indícios biológicos e materiais que reforçaram a suspeita. Cada laudo, cada fragmento, cada ligação telefônica formava uma peça de um quebra-cabeça sombrio. E esse quebra-cabeça revelou outro personagem: Evandro Bezerra da Silva, vigia noturno apontado como cúmplice. Segundo a investigação, ele teria ajudado Misael a fugir da região da represa depois que o carro de Mércia foi lançado na água.

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As ligações entre os dois naquela noite foram consideradas fundamentais. Não era apenas uma conversa casual. Para a acusação, os contatos mostravam articulação, combinação e participação direta na fuga. Evandro chegou a admitir ajuda em determinado momento, embora depois tenha tentado recuar. Mesmo assim, a versão da polícia ganhava força: Misael não agiu completamente sozinho.

O caso voltou a parar o Brasil em março de 2013, quando Misael foi levado a júri popular no Fórum de Guarulhos. O julgamento entrou para a história por ser um dos primeiros no estado de São Paulo a ter transmissão ao vivo pela televisão e pela internet. Milhares de pessoas acompanharam, em tempo real, os debates entre acusação e defesa. O tribunal virou palco de comoção, revolta e expectativa.

 

A defesa tentou desmontar a investigação. Alegou falta de prova direta, ausência de testemunhas oculares no momento do disparo e perseguição contra o réu. Misael manteve uma postura fria, insistindo em sua inocência e tentando se apresentar como vítima de uma armação. Mas, do outro lado, o Ministério Público apresentou uma sequência de provas técnicas que, juntas, formavam uma narrativa difícil de derrubar.

A acusação mostrou a rota do celular, os laudos periciais, os vestígios encontrados, o comportamento do réu e a participação do cúmplice. Não havia uma única câmera filmando o crime. Não havia uma testemunha escondida na mata. Mas havia ciência, lógica investigativa e uma cadeia de evidências que apontava para o mesmo destino: Misael era o responsável pela morte de Mércia.

 

Depois de quatro dias de julgamento, veio a sentença. Misael Bispo de Souza foi condenado a 20 anos e 4 meses de prisão por homicídio triplamente qualificado: motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Evandro Bezerra da Silva, apontado como cúmplice, também foi condenado posteriormente a 18 anos e 8 meses de reclusão.

A morte de Mércia aconteceu antes de o feminicídio ser incluído no Código Penal brasileiro, em 2015. Na época, crimes como esse ainda eram muitas vezes chamados de “crimes passionais”, uma expressão que por décadas ajudou a suavizar a imagem de assassinos que matavam mulheres sob o falso argumento do amor, do ciúme ou da emoção. Mas o caso de Mércia mostrou exatamente o contrário: não era amor. Era controle. Era posse. Era violência.

 

A família Nakashima nunca permitiu que a memória da jovem fosse reduzida a uma estatística. O irmão de Mércia, Márcio Nakashima, transformou a dor em luta pública contra a violência doméstica e contra a impunidade. A tragédia expôs uma realidade dura: muitas mulheres são mortas não por desconhecidos, mas por homens que um dia disseram amá-las.

Em 2023, a progressão de Misael para o regime aberto voltou a causar indignação e reacendeu o debate sobre punição, justiça e a sensação de impunidade no Brasil. Para muitos, nenhuma pena parece suficiente diante da brutalidade do que foi feito. Para a família, a perda é definitiva. Mércia não teve segunda chance. Não pôde recomeçar. Não pôde envelhecer. Não pôde viver tudo o que ainda sonhava.

 

O nome de Mércia Nakashima ficou marcado na história criminal brasileira como símbolo de uma verdade dolorosa: quando uma mulher diz “não”, esse “não” precisa ser respeitado. Quando ela decide ir embora, ninguém tem o direito de transformar o fim de uma relação em sentença de morte.

O crime que Misael tentou esconder nas águas escuras de uma represa acabou vindo à tona. A ciência encontrou o caminho. A investigação reconstruiu os passos. A família não desistiu. E Mércia, mesmo silenciada de forma brutal, tornou-se voz em uma luta que continua urgente: a luta para que nenhuma mulher seja tratada como propriedade, nenhuma ameaça seja ignorada e nenhum assassino consiga chamar controle de amor.