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EX-COVEIRO CONTA O QUE VIVEU NO CEMITÉRIO APÓS O ENTERRO DA FAMILIA RODRIGUES EM 1997

Em 12 de agosto de 1997, enquanto eu fechava o túmulo de um casal no cemitério municipal de Astorga, um rapaz aproximou-se da sepultura e falou uma coisa que nunca devia ter ouvido. Naquele momento, não compreendi o peso daquelas palavras, mas o cemitério compreendeu e nas semanas seguintes começaram os relatos.

Funcionários ouvir vozes, pessoas sentir presença perto daquele túmulo. Eu vivi uma coisa que em anos de cemitério nunca tinha vivido antes. É algo que não consigo explicar até hoje. O meu nome é Valdecir Mendes, tenho 64 anos e esta é a minha história em minutos. Naquele dia, o enterro foi marcado paraa tarde. Eu já tinha preparado a vala desde cedo.

Dois caixões, marido e mulher. António Alves Rodrigues e Marlene Rodriguez. Tinham morreu num acidente na auto-estrada, carro contra camião. E quando o cortejo chegou, fui ocupar o meu lugar. Era um enterro simples. Poucas coroas de flores, umas 20 pessoas no máximo. Era o tipo de enterro que já tinha feito dezenas de vezes.

Posicionei-me do lado da vala, segurei as cordas e esperei que o hora certa para iniciar o serviço. Foi ali, enquanto observava que notei um rapaz jovem. devia ter uns 17, 18 anos. Estava no meio dos familiares, mas ao mesmo tempo parecia estar separado do todo mundo. Ele estava ali rodeado de gente, mas havia algo nele que era diferente.

Ele chorava, mas era um choro contido, com raiva misturada. E foi nesse momento quando o vi pela primeira vez que senti alguma coisa diferente no ar. Não sei explicar direito o que foi. Era como se o ambiente circundante tivesse mudado por um segundo e voltado ao normal. Logo em seguida vi que os mais velhos da família não largavam o rapaz.

tinha sempre uma mão no ombro, um abraço, alguém perto dele, mas ele simplesmente ficava parado, como se o toque das pessoas não chegasse até ele de verdade. Na hora de baixar os caixões, os familiares se aproximaram-se da beira da vala, aquele momento em que todos querem estar perto pela última vez. Mas o rapaz não foi.

Ficou onde estava, alguns passos atrás, mais longe que todos. Os caixões foram descendo e quando a reza terminou, os familiares foram-se despedindo aos poucos e um a um foram saindo. Eu fui pegando na pá para começar a fechar o túmulo. Queria terminar antes de escurecer. Foi aí que percebi que o rapaz ainda lá estava. Enquanto todo o mundo ia embora, ele ficou.

Os mais velhos tentaram levá-lo. Viu uma senhora, devia ser avó, puxar o braço dele com cuidado. Ele abanou a cabeça que não. Ela ficou mais um tempo do lado, depois foi-se embora também e ele ficou sozinho, parado, a olhar para o chão. Eu continuei o serviço. Não era da minha conta.

Cada um tem a sua forma de lidar com perda e aprendi cedo a não me meter nisso. O cemitério tinha ficado quase vazio. Só eu, o rapaz, e o silêncio daquela tarde. Foi quando ele mexeu-se e caminhou lentamente até à beira do túmulo. Parou mesmo à frente, olhando para a terra que eu estava a fechar. Eu continuei a trabalhar, mas fiquei de olho. Ficou ali parado por um tempo.

Então abriu a boca e falou: “Por a senhora fez isso, mãe? Foi uma coisa atirado para o ar, direto para terra, direto para quem estava debaixo daquela terra. E foi nesse momento que o senti de novo. Mas desta vez foi uma coisa mais pesada, diferente da primeira, como se o ar ao redor do túmulo tivesse mudado.

O rapaz ficou mais uns segundos em silêncio, depois virou-se e foi-se embora, sem olhar para trás. e desapareceu pelo caminho do cemitério. Eu acabei de fechar o túmulo e alguma coisa tinha mudado nesse fim de tarde, mas não sei dizer que era. Só sei que quando saí do cemitério nesse dia, fui com duas coisas que não me saíam da cabeça.

A frase que o rapaz disse e aquela sensação de que algo não tinha terminado. Dois dias depois do enterro, cheguei ao serviço normal. Era cedo ainda, o sol mal tinha subido. Fui direto paraas ferramentas, peguei no que precisava e fui começar o dia. Foi quando me apercebi que um colega meu estava diferente, demasiado quieto.

Ele era um rapaz que tinha sempre alguma coisa para contar, mas nesse dia não abriu a boca para nada. Na hora do intervalo, fui até ele e perguntei-lhe o que tinha acontecido. Contou-me que no dia anterior, no final do expediente, estava trabalhando perto do túmulo dos Rodrigues, quando teve uma certeza estranha de que tinha algo do lado dele.

Não viu nada, não ouviu nada, mas era tão forte que largou o serviço na metade e foi-se embora. Eu ouvi tudo sem comentar. Por dentro, pensei que era coisa da cabeça dele. Tr anos de cemitério já me tinham ensinado que o lugar prega partida a muita gente. A gente trabalha rodeado de morte todo o dia e é normal a imaginação trabalhar em conjunto.

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Agradeci por ter contado e cada um voltou ao seu serviço. Então, passou mais alguns dias. Eu estava na minha rotina quando o outro colega me chamou de lado. Este era mais novo no serviço, tinha menos tempo do que eu ali dentro. Ele falou baixo, como se não quisesse que ninguém mais ouvisse. Disse que tinha passado perto do túmulo dos Rodrigues e ouviu vozes. Não uma voz, vozes.

Como se houvesse gente a conversar bem ali do lado. E foi lá ver quem era. Quando chegou perto, não estava ninguém. Eram dois casos de duas pessoas diferentes, os dois a acontecer perto do mesmo túmulo. Não disse nada ao meu colega, mas por dentro algo tinha mudado. Comecei a prestar mais atenção àquele canto do cemitério.

Passava por ali, olhava e seguia o serviço. E foi nesse tempo que a cabeça voltou ao rapaz do enterro, para as palavras que ele disse em cima daquele túmulo. E comecei a me perguntar pela primeira vez se tinha alguma ligação entre o que os meus colegas estavam a viver e o que eu tinha ouvido nesse dia. Era uma questão que eu não queria fazer, mas ela veio.

Na semana seguinte, vi com os meus próprios olhos. Estava a fazer um serviço numa área próxima do túmulo dos Rodrigues quando ouvi um cão ladrando sem parar. Levantei a cabeça e vi. O animal estava parado em frente ao túmulo, ladrando para algo que eu não estava a ver, como o bicho faz quando bloqueia e não sai do lugar por nada.

O dono puxava a trela com força, tentando fazer o cão andar, mas o cão ficava com os quatro pés cravados no chão, sem desviar o olhar daquele túmulo. Parei com a pá na mão e fiquei a olhar. O homem acabou por ter que pegar no cão ao colo para conseguir sair dali. E mesmo no colo, indo embora, o bicho ficou com a cabeça virada para trás, olhando para o mesmo lugar até desaparecer de vista.

Eu fiquei parou depois de os dois irem embora, olhando para o túmulo dos Rodrigues por um tempo. Não senti nada naquele momento, mas também não tive de sentir. O que eu tinha visto era suficiente para mim. Animal não imagina coisa. animal não inventa história. Ele viu algo ou sentiu algo ali naquele túmulo e isso pesou dentro de mim de uma forma que as histórias dos meus colegas não tinham pesado.

Fui terminar o serviço daquele dia a tentar não pensar muito, mas não consegui. A imagem do cão travado em frente daquele túmulo ficou na cabeça o resto da tarde. E, juntamente com ela, veio de novo a lembrança do rapaz, das palavras que ele disse, da forma que ele foi-se embora, sem olhar para trás, eu não percebia o que estava a acontecer, mas estava a começar a aceitar que estava acontecendo alguma coisa.

Na segunda semana, depois do enterro, o vigia da noite procurou-me antes de eu pegar nas ferramentas. Eu percebi pela cara dele que não era conversa de todos os dias. Ele disse que na noite anterior, por volta das das 19 horas, estava a fazer a primeira ronda quando viu duas pessoas paradas perto de um túmulo no fundo do cemitério.

Achou que eram visitantes que tinham ficado depois da hora. Isso acontecia de vez em quando. Foi até lá para avisar que precisavam de sair. Quando chegou perto, não estava ninguém. Perguntei-lhe se tinha a certeza do que viu. Ele disse que sim. Disse que eram duas pessoas paradas em frente ao túmulo. Ele estava de olho desde que avistou.

Não desviou a vista em nenhum momento. Foi caminhando diretamente até lá. E quando chegou, não estava lá ninguém. Eu sabia exatamente de que túmulo ele estava a falar antes mesmo de ele terminar. E quando confirmou, o estômago virou. eram duas pessoas, um casal parado em frente do túmulo que eu tinha fechado dias antes, e aquilo ficou dentro de mim de uma forma que eu não conseguia mais ignorar.

Na terceira semana depois do funeral, passei pelo túmulo dos Rodrigues ao princípio do dia e parei. Foi automático. Eu fiquei a olhar para aquele túmulo por um tempo e Percebi uma coisa que deveria ter percebido antes. Não tinha flor, não tinha vela, nem sinal de visita, nada. O túmulo estava do mesmo modo que tinha deixado no dia do funeral.

Aquilo incomodou-me. Não era raro ter jazigo sem visita no cemitério. Tinha bastante, mas este era diferente. Esse tinha um filho vivo, um rapaz de 17 anos que eu tinha visto com os meus próprios olhos no dia do funeral. E em três semanas não tinha aparecido uma única vez. Nenhuma flor, nenhuma vela, nada que mostrasse que alguém tinha passado por ali.

Fui perguntar aos outros funcionários se alguém tinha visto alguma pessoa visitar aquele túmulo desde o enterro, mas ninguém tinha visto nada, nenhuma visita, nenhum familiar, ninguém. E que, juntamente com tudo o que tinha acontecido naquelas semanas, pesou de uma forma diferente dentro de mim. Fui fazer o meu serviço, mas a cabeça não largou o assunto.

Fui pensando nisso o dia todo, naquele rapaz, na forma como ficou parado à beira do túmulo, nas palavras que ele proferiu, no ódio misturado com a dor que vi na cara dele nesse dia. E comecei a pensar que talvez aquelas almas precisassem de alguma coisa, que talvez ninguém estivesse a dar atenção para elas do forma que precisavam.

No fim do expediente, por volta das 17h30, peguei numa vela que guardava na a minha mochila. Não era costume meu fazer isso. Nunca o tinha feito antes por nenhum túmulo, mas algo dentro de mim dizia que era a coisa certa a fazer. Fui até ao túmulo dos Rodrigues, agachei-me em frente dele e acendi a vela.

Fiquei de cabeça baixa por um momento em silêncio. Não sou homem de muita reza, mas pedi em pensamento que aquelas almas tivessem paz. O sol ainda estava a baixar, aquela luz amarela de fim de tarde que bate diferente no cemitério. Não estava escuro, mas o ar em redor daquele túmulo estava diferente do resto do local. Eu Apercebi-me disso assim que agachei, mais pesado, mais fechado, como se aquele espaço específico tivesse uma temperatura diferente do resto em redor.

Não era vento, não era sombra de árvore, era outra coisa. Eu fiquei agachado de cabeça baixa durante alguns segundos e foi ali que a certeza chegou. Não foi um barulho, não foi nada que eu tenha visto. Foi uma certeza no corpo inteiro de que não estava ali sozinho, de que tinha algo do meu lado naquele momento.

Não consigo explicar melhor do que isso. É o tipo de coisa que a gente sente e não sabe pôr em palavra, mas era real. Antes de me levantar, ouvi as vozes baixas perto, como se houvesse pessoas a falar a poucos centímetros de mim. Não entendi aquilo que falavam. Não eram palavras claras, era o som de conversa, o tom de duas pessoas a falar uma com a outra.

Parei completamente, fui ouvindo e junto com aquele som, vi pelo canto do olho um vulto mover-se rápido entre as árvores do lado do túmulo. Virei a cabeça. Não tinha nada. Levantei-me devagar. As pernas estavam pesadas. Era todo o meu corpo avisando que aquele lugar estava para além do que eu sabia lhe dar.

Olhei paraas árvores, pro túmulo e ao redor. O cemitério estava vazio, só eu e aquela vela acesa, à luz do fim de tarde. Comecei a andar de volta para o caminho principal. Tentei ir devagar, sem correr, mas o passo estava mais rápido do que o normal, e eu sabia disso. E andando e sentindo que aquele lugar tinha algo que não estava em paz, não conseguia definir melhor.

Era como se algo naquele túmulo estivesse agitado, inquieto, como se não conseguisse descansar. Saí do cemitério naquele dia diferente de todos os outros dias. Não era a primeira vez que eu tinha sentido algo estranho dentro daquele lugar, mas era a primeira vez que tinha sentido tudo de uma vez, no mesmo momento, no mesmo local.

E era exatamente o mesmo local onde os meus colegas tinham sentido as coisas que contaram-me. O mesmo túmulo, sempre o mesmo túmulo. Fui para casa em silêncio. A minha mulher perguntou se eu estava bem. disse que estava cansado. Não contei nada, nem sabia por onde começar. E também não queria falar em voz alta o que tinha vivido naquele fim de tarde.

Parecia que falar ia dar mais força para aquilo. Então fiquei quieto. Nessa noite pensei muito no rapaz, no que tinha falado. Eu não sabia o que tinha acontecido àquela família, não sabia o que estava por detrás daquelas palavras, mas sabia que tinha ali algo que ia para além de um acidente de viação. Alguma coisa ali não estava resolvida.

Eu, sem querer, tinha-me colocado no meio disso quando fui acender aquela vela. Alguns dias depois do que vivi naquele fim de tarde, estava a fazer o meu serviço normal quando vi movimento perto do túmulo dos Rodrigues. Levantei a cabeça e vi duas pessoas mais velhas paradas em frente do túmulo.

Um casal de idosos tinham flores na mão. Era a primeira visita desde o enterro. Fiquei olhando de longe, sem me aproximar, mas não eram só eles. Um pouco mais afastado, sentado num banco de cimento que ficava perto daquela zona, estava um rapaz jovem e reconheci-o logo. Era o mesmo rapaz do enterro. Eu tinha certeza, mas alguma coisa nele estava diferente.

O ódio que eu tinha visto naquele dia já não estava na cara dele. O que eu via agora era cansaço, era tristeza, era a forma de quem carregou um peso durante demasiado tempo. Os dois mais velhos ficaram algum tempo na frente do túmulo, rezaram, colocaram as flores, ficaram em silêncio durante alguns minutos.

O rapaz não foi lá, ficou no banco, olhando de longe, separado dos dois. Eu fui fazendo o meu serviço, mas o olho voltava para ele sem querer. E foi crescendo dentro de mim uma vontade de ir até ele. Não sei explicar de onde veio isso. Só sei que era forte, que parecia que precisava de ir. Eu larguei as ferramentas e fui.

Cheguei ao banco lentamente, sem fazer barulho. Ele não me viu chegar, só se apercebeu quando eu estava do lado. Olhou para mim e voltou a olhar para o chão. Perguntei com cuidado se estava tudo bem. Era a única coisa que sabia dizer naquele momento. Ele não respondeu rápido, ficou a olhar para o túmulo dos pais durante algum tempo e depois ele começou a falar baixo, devagar, sem me olhar, como quem está a contar uma coisa que ficou guardada durante demasiado tempo e finalmente encontrou um lugar para falar. Disse que o casamento dos pais

dele não era o que parecia de fora, que dentro de casa era diferente do que as pessoas viam na rua. que desde pequeno ouvia as brigas, que era um barulho que conhecia desde criança, que vinha do quarto dos pais de madrugada, que atravessava a parede e chegava até à cama dele. disse que tinha aprendido a dormir com aquilo, que se tornou rotina, mas que a discussão dentro do carro foi diferente de tudo o que tinha ouvido antes, que a voz da mãe estava num tom que nunca tinha escutado, que o pai gritava e ela gritava mais, que ele

estava no banco de trás, sem compreender o tamanho do que estava a acontecer na frente dele. E depois, num momento sem aviso, a mãe puxou o volante com os dois mãos, com força. Eu deixei de respirar quando ele disse isso. Fiquei a olhar para a frente, para o túmulo, sem conseguir falar nada. Ele continuou.

Disse que o carro foi para o lado do camião que vinha em sentido contrário, que não teve tempo de nada, que o barulho foi o maior que tinha ouvido na vida e que quando abriu os olhos estava fora do carro. na berma da rodovia, sem entender como ali tinha chegado. Ele fez uma pausa longa. Eu continuei em silêncio. Não tinha nada para falar.

Não existe palavra certa para aquele momento. Existe só escutar. Eu escutei e enquanto ouvia aquela frase que ele tinha falado em cima do túmulo no dia do enterro voltou com tudo. Agora eu percebia de onde ela tinha vindo, compreendia o peso daquelas palavras, compreendia o ódio misturado com a dor que tinha visto na cara dele nesse dia.

De longe, ouvi uma voz a chamar. Era uma senhora mais velha a chamar pelo nome dele, Rafael. Vamos embora. A voz era suave. Como a avó fala quando não quer pressionar, mas precisa de ir. Ele ouviu, olhou paraa direção dela e se levantou-se devagar. Não me olhou, não se despediu-se, apenas se levantou, enfiou as mãos no bolso e foi-se embora.

Antes de chegar até eles, parou por um segundo, ficou de costas para mim, de frente para o túmulo por um curto momento. Depois continuou a andar. Os três saíram juntos pelo caminho da saída do cemitério. Eu Fiquei sentado no banco, a olhá-los irem embora até desaparecerem de vista. E depois fiquei a olhar para o túmulo dos Rodrigues durante um tempo.

Depois daquele dia, nunca mais vi o Rafael. Nunca mais vi os avós e o túmulo dos Rodrigues nunca mais recebeu visita que eu saiba. Também nunca mais aconteceu nada de estranho perto dali. Nenhum colega voltou a comentar coisa nenhuma. O lugar ficou quieto da maneira que cemitério tem que ficar, silencioso, parado, sem chamar a atenção de ninguém.

Eu fiquei mais anos naquele cemitério depois disso, 23 ao todo, até me reformar. E vi muita coisa nesse tempo. Enterrei gente nova, gente velha, família inteira. Mas o que aconteceu naquelas semanas, depois do enterro dos Rodrigues, ficou guardado dentro de mim de uma forma que mais nada ficou. Às vezes ainda penso naquele menino, no homem que deve ser hoje, com 40 e poucos anos e cheguei a uma conclusão que é só minha.

Acho que Deus protegeu aquele menino. Não era suposto ele morrer naquele acidente. Ele estava no banco de trás para poder contar o que aconteceu um dia, para não deixar que aquela verdade morrer, sepultada juntamente com os pais. Ora, as almas daquele casal, isso é mais difícil de falar. Eu não sou juiz de ninguém.

Não é meu lugar julgar o que aconteceu dentro daquele carro naquela noite, mas o que vi naquelas semanas dentro daquele cemitério diz-me que alguma coisa ali não estava em paz e que talvez ainda não esteja. É difícil não pensar nisso. É difícil não sentir que tem um peso que ainda não está resolvido. Não sei o que acontece depois da morte.

Ninguém sabe realmente, mas eu sei o que senti. E o que senti naquele cemitério em 97, não esqueço até hoje. Se acredita, deixa o seu acredito aqui nos comentários. E se já viveu algo semelhante, conta para mim. Eu quero saber. Uma ótima semana. Que Deus vos abençoe a todos e até ao próximo relato.