Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada, independentemente da hora a que está a ver, seja bem-vindo e aproveita para subscrever o canal para me dar uma força e comenta lá de qual a cidade que tás a ver essa história. O meu nome é Valdeci Santos, mas na estrada toda a gente me conhece como Gavião, 54 anos às costas, dois filhos que mal me ligam e uma ex-mulher que decidiu que eu era melhor longe de casa do que perto. Talvez ela tivesse razão.
Há 17 anos que vivo mais dentro desta Scânia azul do que em qualquer lugar que possa chamar de lar. O sol de dezembro castigava o asfalto da BR153. aquela serpente de betão que corta o coração do Brasil de norte a sul. Eu estava a descer de Goiânia com destino a Uberlândia, carregado de soja, mais um frete como tantos outros.
Mais uma semana longe de tudo e de todos. O rádio chiava uma música sertaneja que eu já tinha ouvido umas 15 vezes só naquela manhã. A cabine estava um forno. O ar condicionado tinha pifado três dias atrás e não tinha dinheiro para arranjar. O suor escorria pelo meu rosto barbado, misturado com o pó que entrava pelas frestas das janelas.
O cheiro a gasóleo misturava-se com o aroma doce dos campos de milho que se estendiam até ao horizonte. Eram quase 2as da tarde quando senti que tinha de parar. Não só para verificar as lonas da carga. Mas porque havia algo de diferente no ar, uma sensação estranha, como se a estrada estivesse a chamar-me para prestar atenção a alguma coisa.
Depois de tantos anos a rodar, a gente desenvolve um sexto sentido para estas coisas. Encostei-me num troço reto, uns 15 km antes de morrinhos. Era um desses lugares que parecem esquecidos por Deus e pelo mundo. Mato dos dois lados, algumas árvores tortas. e um silêncio que pesava na alma, nem cigarra cantava. Desci da cabine e senti o calor do asfalto subir através da sola das minhas botas gastas.
Comecei a verificar as cintas da carga quando o vento parou por completo. Foi aí que ouvi um gemido baixinho, quase engolido pela terra seca. Parei o que estava a fazer e agucei o ouvido. Por momentos, pensei que tinha sido imaginação. Depois de tantas horas sozinho na estrada, às vezes a mente prega partidas, mas não. Lá estava de novo.
Socorro! A palavra chegou até mim como um sussurro desesperado vindo do terreno baldio ao lado da pista. O meu coração disparou. Olhei em redor, mas não via nada além de mato seco e terra gretada pelo sol. O som parecia vir debaixo da terra. Entrei no mato, espinhos a arranhar-me as pernas através das calças de ganga. A cada passo, o gemido tornava-se mais claro, mais desesperado, até que vi um montículo de terra fresca no meio daquele terreno ressecado.
Terra que alguém tinha cavado e ali atirado há pouco tempo. Minha garganta secou de uma só vez, as mãos começaram a tremer. Ajuda, por favor. A voz vinha debaixo daquele monte de terra. Alguém estava enterrado vivo ali. Ajoelhei-me sem pensar duas vezes e Comecei a escavar com as minhas próprias mãos. A terra estava dura como pedra na superfície, mas mais funda, ficou mole e húmida.
As minhas unhas partiram, a pele dos dedos rasgou-se, mas eu não parei. Não podia parar. O suor queimava-me os olhos. A respiração saía pesada, ofegante. Cada punhado de terra que eu tirava parecia pesar mais do que o anterior, como se o próprio chão estivesse a lutar contra mim. Foi então que vi um cabelo escuro entre a poeira.
Cavei mais depressa, o coração batendo que nem um bombo de uma festa junina. E quando finalmente tirei terra suficiente, dois olhos fitaram-me. Olhos de criança cheios de lágrimas. cheios de medo, mas vivos. Um menino de uns se anos estava ali em baixo, abraçado ao pescoço de uma mulher, os dois cobertos de terra, respirando com dificuldade, mas vivos, vivos.
Continuei cavando feito desesperado, e aos poucos Consegui ver que a mulher estava enterrada até ao peito. O menino tinha conseguido ficar com a cabeça de fora, protegendo a mãe com o seu próprio corpinho magro. Calma”, disse eu, tentando manter a voz firme. “Vou tirar-vos daí”. Os olhos da mulher abriram-se lentamente.
Ela estava fraca, muito fraca, os lábios gretados, a pele pálida e cheia de arranhões, mas quando me viu, uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto sujo de terra. “Obrigada”, ela sussurrou com uma voz que mal saía da garganta. “Obrigada. Cavei até às mãos sangrarem. Usei a minha navalha para cortar algumas raízes que atrapalhavam.
Quando finalmente consegui soltar os dois, caíram para a frente, exaustos, respirando como se fosse a primeira vez na vida. A mulher tentou falar, mas eu levantei a mão. Depois vocês contam-me, agora vamos sair daqui. Carreguei o menino ao colo. Pesava menos que um saco de farinha, e ajudei a mulher a andar até à carreta.
Ela cambaleava, mas não reclamou. Senti que havia nela uma força que ia muito para além do corpo frágil. Quando chegámos à estrada, ela agarrou o meu braço com uma força que não esperava. “Não me pode levar pro hospital”, disse ela, “O medo estampado nos olhos. Eles vão encontrar-nos. Quem vai encontrar-vos?” Ela olhou para trás, para o monte de terra de onde eu tinha tirado ela e o menino.
Depois olhou para mim e Vi que havia algo mais do que medo naqueles olhos. Havia desespero. As pessoas que fizeram-nos isso. Foi nesse momento que soube que a minha vida tinha mudado para sempre. Eu podia ter seguido viagem, fingindo que não tinha visto nada, deixado para lá. Mas quando olhei para o rostinho daquele menino, lembrei-me da minha própria filha quando era pequena e soube que não havia volta a dar.
Então vamos para a minha casa, eu disse, lá vocês ficam seguros enquanto decidimos o que fazer. A mulher assentiu, mas pude ver que a luta estava apenas a começar. O que eu não sabia era que estava prestes a descobrir uma verdade que mexeria com muito mais gente do que eu podia imaginar. Ajudei os dois a subir para a cabine e liguei o motor.
Enquanto a Scania ganhava velocidade na estrada, Olhei pelo retrovisor e vi o monte de terra ficando para trás. Alguém tinha tentado enterrar aquela mãe e aquela criança vivas e agora eu era a única pessoa no mundo que sabia que eles tinham sobrevivido. A viagem até ao meu casa em Uberlândia foi a mais longa da a minha vida.
Não pelos quilómetros, eram apenas uns 80, mas pelo peso do silêncio que tomou conta da cabine. A mulher segurava o menino contra o peito, como se ele fosse desaparecer a qualquer momento. De vez em quando, ela olhava pelo retrovisor lateral, o rosto tenso, à procura de alguma coisa que eu torcia para não aparecer. O menino não disse uma única palavra, só ficou ali colado à mãe, os olhinhos arregalados, observando cada movimento meu.
Era como se ele tivesse visto coisas que uma criança nenhuma deveria ver. Fez-me lembrar do meu neto, filho da minha mais nova, quando ele tinha pesadelos e vinha dormir para o meio dos meus pais. “Como se chamam?”, Perguntei quando estávamos a passar por morrinhos, tentando quebrar aquele silêncio pesado. A mulher hesitou.
Pude ver que ela estava a pensar se podia confiar em mim. Marina, ela disse finalmente, e este é o Gabriel. Não acreditei que eram os nomes verdadeiros, mas não insisti. Depois do que eles tinham passado, mentir sobre o nome era o menor dos problemas. E o Sr. Valdeci, mas podes tratar-me por gavião. Gavião? Ela repetiu como se estivesse testando o som.
Porquê, Gavião? Dizem que vejo longe demais na estrada. Vejo sempre os problemas antes de chegarem perto. Ela quase sorriu. Quase. Então, já nos viu há tempo. É, acho que sim. O resto da viagem foi feito em silêncio. Quando chegámos a Uberlândia, eram quase 6 da tarde. O sol estava a se pondo, pintando o céu de laranja e roxo. A minha casa fica num bairro simples, longe do centro.
Três quartos, quintal grande nos fundos e, mais importante, vizinhos que não fazem demasiadas perguntas. Ajudei os dois a descerem da carreta. A Marina mal conseguia andar direito. As pernas tremiam e ela apoiava-se em mim a cada passo. Gabriel continuava colado nela, como um pequenote assustado. “Vamos entrar”, disse eu, abrindo o portão.
“Vocês precisam de comida, de banho e um lugar seguro para dormir.” Dentro de casa acendi as luzes e pude ver melhor o estado dos dois. A Marina tinha arranhões profundos nos braços e no pescoço, marcas que pareciam de corda. As suas roupas estavam rasgadas e sujas de terra. Gabriel estava em melhor estado físico, mas o que mais me chamou a atenção foram os olhos dele.
Olhos de criança que cresceu demasiado rápido. Tem casa de banho ali apontei para o corredor. Toalhas limpas no armário. Vou aquecer alguma coisa para vocês comerem. Enquanto eles se lavavam, fiquei na cozinha a preparar um macarrão simples. As minhas mãos tremiam um pouco mexendo o molho. Não era de cansaço, era de raiva.
Raiva de imaginar que tipo de pessoas era capaz de enterrar uma mãe e um filho vivos. Quando a Marina saiu do banho, parecia outra pessoa. O cabelo limpo mostrava que era mais nova do que tinha pensado, uns 35 anos, talvez. bonita, apesar do cansaço e do medo que ainda marcavam o rosto. Ela tinha vestido uma blusa minha que ficou enorme nela.
O Gabriel apareceu atrás da mãe, limpinho, usando uma t-shirt que tinha guardado do meu filho mais novo. A roupa estava grande, mas parecia mais relaxado. “Senta-te aí”, disse eu, indicando a mesa da cozinha. “A comida está pronta”. Eles comeram em silêncio, devagar, como se não quisessem desperdiçar nenhum fio de macarrão.
Eu fiquei de pé, encostado à pia, à espera. Sabia que uma hora eles iam ter de me contar o que tinha acontecido. Foi Marina quem partiu o silêncio. Tens família, Gavião? Tive, ex-mulher, dois filhos, mas isso já há tempo. E vocês? Onde está o pai do menino? O rosto dela endureceu. O Gabriel parou de comer e olhou para a mãe.
Foi ele que fez isso connosco. As palavras saíram como um murro no estômago. Olhei para o Gabriel, que tinha baixado a cabeça, mexendo no garfo, sem comer mais nada. O pai dele? Marina assentiu, os olhos enchendo-se de lágrimas. O meu ex-marido, ou melhor, o meu marido ainda. Nunca consegui me divorciar-se dele porque porque ele não deixa.
Como assim não deixa? Ela respirou fundo antes de continuar. Cleiton. Cleiton Rodrigues. Ele tem dinheiro, tem influência, tem advogados caros e tem amigos perigosos. Que tipo de amigos? O tipo que enterra as pessoas vivas quando sabem demais. Senti um calafrio subir pela espinha. Puxei uma cadeira e sentei-me à frente dela. Me conta tudo, Marina, desde o início.
Ela olhou para o Gabriel, que fez que sim com a cabeça, como se estivesse a dar permissão para a mãe falar. Cleayon tem uma empresa de construção, ganha concursos públicas aqui na região, hospitais, escolas, estradas, dinheiro do governo, sabe? Abanei a cabeça para ela continuar. No início pensava que era tudo limpo.
A gente vivia bem. O Gabriel estudava em escola particular. Eu tinha tudo o que uma mulher podia querer. Mas, mas comecei a perceber umas coisas estranhas. Reuniões de madrugada em nossa casa, homens que nunca tinha visto a entrar e a sair. Dinheiro a mais para o tamanho das obras que ele fazia.
E descobriu o que era? Marina limpou uma lágrima que escorreu pelo rosto. Descobri que ele sobrefatura todas as obras. Cobra do governo três vezes o que realmente custa. Usa material barato, paga subornos para os fiscais fingirem que não viram e embolsa a diferença. Isto é corrupção, mas não é motivo para Ainda não acabei. Ela interrompeu-me.
Descobri também que ele lava dinheiro a traficante. A construtora é apenas fachada. O dinheiro da droga entra como se fosse pagamento de obras fantasmas. Agora entendia a gravidade da coisa. Não era só corrupção, era um esquema pesado. Como você descobriu tudo isso? Eu cuidava da contabilidade da empresa. Cléon confiava em mim porque, pronto, porque eu era mulher dele.
Ele achava que eu nunca ia ter coragem de nada fazer contra ele. Mas que teve. Ela assentiu. Comecei a juntar provas, faturas falsas, contratos sobrefaturados, transferências bancárias suspeitas. Guardei tudo num pen drive. O meu coração disparou. Você ainda tem essas provas? A Marina sorriu pela primeira vez desde que a tinha encontrado.
Um sorriso triste, mas determinado. Tenho escondido num lugar que só eu sei. E Cleiton descobriu que estava a juntar essas provas. Descobriu quando eu disse que ia deixar ele e levar o Gabriel. Ele ficou louco. Disse que eu sabia demais que nunca ia deixar-me ir embora. Foi aí que tentou matar-me. Da como? Gabriel, que tinha ficado quieto até então, falou pela primeira vez: “O papá mandou o tio Ronaldo e o tio Beto nos levarem para uma viagem”, disse que era surpresa. Marina completou.
Os capangas dele drogaram-me, doparam o Gabriel também. Quando acordei, estava naquele buraco com o meu filho, coberto de terra até ao peito. Eles tinham-nos deixado morrer lentamente. A raiva que eu estava segurando explodiu. Filho da puta eu – murmurei entre dentes. Tio gavião. O Gabriel olhou para mim com aqueles olhos grandes.
A mamã disse que ias nos proteger. Olhei paraa Marina, que estava fitando-me com uma expressão que misturava esperança e desespero. Disse mesmo? Disse porque foi o único que parou para nos ouvir. Levantei-me da mesa e caminhei até à janela. Lá fora, a noite tinha chegado completa. As luzes dos postes iluminavam a rua vazia.
Pensei na a minha vida solitária, nos filhos que mal ligavam-me, na ex-mulher que tinha desistido de mim. Pensei também no rostinho do Gabriel quando o tirei debaixo daquela terra. Virei-me para eles. Ok, vou ajudar-vos, mas preciso saber onde estão essas provas. Marina hesitou. Não te posso falar agora. É demasiado perigoso.
Se o Cleiton descobrir que sabe, ele já sabe que eu existo. Eu disse na altura que vocês desapareceram daquele buraco, ele soube que alguém os ajudou. E não deve ser difícil descobrir que foi um camionista que passou pela estrada. O rosto dela empalideceu. Meu Deus, não pensei nisso. Então não há mais volta. Ou a gente para esse cara de vez, ou vamos todos acabar debaixo da terra.
Naquele momento, como se o destino me estivesse a testar, o meu telemóvel tocou, um número desconhecido. Atendi sem pensar. Olá, Valdeci Santos. Uma voz grossa perguntou do outro lado. O meu sangue gelou. Ninguém deveria saber o meu nome completo. Quem quer saber? Alguém que sabe que meteste o bedelho onde não devia. A Marina olhava-me apavorada.
O Gabriel se colou-se mais à mãe. Não sei do que é que tá a falar. Tentei disfarçar. Claro que sabe. Tirou alguma coisa que não era sua de um terreno na BR153 hoje à tarde. Matrícula do seu camião JSQ4267. Scania azul. Quer que continue? Minha mão começou a tremer, segurando o telefone. O que quer? Que você devolva o que apanhou.
Amanhã, meio-dia, no posto Shell da saída para Araguari, sozinho. E se não for? A gargalhada do outro lado foi gelada. Aí vai descobrir como tratamos quem se mete nos nossos negócios, Gavião. A ligação caiu. Marina estava pálida como um fantasma. Era ele, não era? Ela perguntou, um dos seus capangas. Eles sabem onde moras? Olhei para a janela da cozinha.
Lá fora, um carro escuro estava parado do outro lado da rua. Não estava ali quando chegámos. Acho que sim. Gabriel começou a chorar baixinho. Marina levantou-se da mesa determinada. Gavião, fizeste demais por nós. Pode deixar-nos aqui e seguir a sua vida. A gente se vira. Olhei para ela, depois para o Gabriel, que estava a tentar ser corajoso, mas não conseguia parar de tremer. Não disse.
Ninguém mais vai magoar-vos, nem que eu tenha que enfrentar o diabo em pessoa, mas eles vão-te matar só se me apanharem primeiro. Fui até ao quarto e peguei numa mochila velha. Comecei a atirar algumas roupas dentro. O que estás a fazer? Marina perguntou. A gente vai sair daqui agora, enquanto eles pensam que estamos dormindo.
Para onde? Tem um amigo que pode ajudar-nos. Delegado aposentado. Vive numa quinta a uns 100 km daqui. E as provas? A Marina olhou-me nos olhos. Se prometeres-me que me vais proteger até o fim, digo-te onde estão. Estendi a mão para ela. Prometo. Ela apertou-me a mão. Uma mão pequena, mas com a força de quem não tinha mais nada a perder.
Estão num cofre do Banco do Brasil da rua Floriano Peixoto, aqui em Uberlândia. Cofre 247. E a chave? Marina sorriu e puxou uma corrente de dentro da blusa. Pendurada nela, tinha uma pequena chave dourada. Sempre o transportei comigo. O Gabriel levantou-se e veio até mim. Tio Gavião, não vais deixar o papá magoar a mamã outra vez, vai? Me ajoelhei-me à frente dele e segurei os seus ombrinhos. Não vou, campeão.
Palavra de gavião. 15 minutos depois, saímos pela porta dos fundos. O carro escuro continuava em frente da casa. Caminhamos pelo quintal do vizinho, saltámos uma cerca baixa e chegámos até onde eu tinha deixado a carreta estacionada, duas quarteirões mais para baixo. Quando liguei o motor, olhei para o retrovisor e vi a Marina segurando Gabriel ao colo, os dois encolhidos no banco de trás da cabine.
Pronto, perguntei. Pronto, ela respondeu. Meti a Scania na estrada de novo, mas desta vez não estava carregando soja, estava a carregar duas vidas que dependiam de mim e a responsabilidade pesava mais do que qualquer carga que já tinha transportado. A madrugada estava gelada quando saímos de Uberlândia.
Dezembro, no interior pode enganar. De dia o sol castiga, mas de madrugada o frio corta a alma. A Marina tinha encontrado um cobertor velho na cabine e estava enrolada com Gabriel, os dois grudadinhos a tentar aquecer-se. Peguei a BR262 na direção de Arachá. Meu amigo Sebastião vivia numa quinta perto de Sacramento, a cerca de 120 km dali.
Ex-delegado, homem de confiança, alguém que conhecia os meandros da lei e dos bandidos. Se alguém nos podia ajudar a sair desta enrascada, era ele. Gavião. A Marina chamou baixinho passado uns 40 minutos de estrada. Posso fazer-te uma pergunta? Pode. Por que é que você tá fazendo isso? Não me conhece? Não conhece o Gabriel? Por que razão tá a arriscar a sua vida por nós? Diminuí a velocidade um pouco pensando na resposta.
As luzes dos postes da auto-estrada passavam pela janela como fantasmas amarelos. “Sabe que eu não sei bem?”, respondi. “Acho que acho que toda a gente merece uma segunda oportunidade na vida. E já teve a sua segunda oportunidade?” A pergunta apanhou-me desprevenido. Fiquei um tempo em silêncio, ouvindo apenas o roncar do motor da Scânia e o barulho dos pneus no asfalto.
“Ainda estou à espera que ela chegue”, disse finalmente. Marina não insistiu no assunto. O Gabriel tinha adormecido no colo dela, respirando lentamente, finalmente relaxado depois de tanta tensão. Era bom ver o menino descansando. criança não devia carregar tanto medo assim. Eram quase 4 da manhã quando chegámos à quinta do Sebastião.
O local ficava no final de uma estrada de terra, rodeado de eucaliptos e escondido dos olhares curiosos, perfeito para quem queria desaparecer do mapa por uns tempos. Estai a carreta perto do portão e buzinei três vezes. O nosso código desde os velhos tempos. Uma luz acendeu-se na varanda casa e logo apareceu a figura comprida do Sebastião, de chinelos e t-shirt com uma espingarda na mão.
“Gavião, que porra é esta de chegar aqui de madrugada?”, gritou, mas já estava a abrir o portão. “Emergência, Seba, precisamos de falar.” Ele nos ajudou a descer do reboque. Quando viu Marina e Gabriel, franziu o sobrolho. “Que situação é esta? Longa história, posso contar para dentro? O menino está com frio.
Sebastião levou-nos paraa sala. A casa era simples, mas acolhedor. Cheiro de café passado misturado com fumo de cigarro. Ele ligou o aquecedor elétrico e foi buscar mais cobertores. “Senta-te aí”, disse à Marina e ao Gabriel. Vou fazer um café para vos aquecer. Enquanto ele mexia na cozinha, contei-lhe tudo, desde o momento em que ouvi os gemidos na berma da estrada até ao ligação ameaçadora e a nossa fuga de Uberlândia.
Sebastião ouvia em silêncio, abanando a cabeça de vez em quando. Quando acabei, ele ficou uns minutos pensativo, mexendo o açúcar no café. “Cleon Rodriguez”, murmurou. Já ouvi falar desse nome. Já quando eu ainda era delegado, chegaram umas denúncias anónimas sobre ele: sobrefaturamento de obras públicas, ligação ao tráfico, mas nunca conseguimos provas suficientes.
Marina animou-se. Eu tenho as provas. Que tipo de provas? Contratos falsos, faturas, sobrefaturadas, transferências bancárias, gravações de conversas, tudo guardado num cofre do banco. Sebastião assentiu lentamente. Isso pode ser o suficiente para o derrubar e a quadrilha toda, mas mas também pode ser suficiente para vocês os três acabarem mortos.
Este tipo de gente não brinca em serviço. Gabriel, que tinha acordado com o cheiro do café, veio sentar-se ao meu lado. Tio Gavião, o que é mortos? O coração apertou. Como explicar para uma criança de 6 anos que os homens adultos queriam fazer-lhe mal e aos mãe dele? Eh, é quando vamos embora para sempre, campeão. Como o avô foi, a Marina puxou o filho para o colo.
Mais ou menos isso, meu amor. Mas ninguém vai embora. O tio Gavião e o tio Sebastião vão cuidar de nós. O Sebastião olhou para mim com aquela cara que eu conhecia bem, a cara de quem estava a calcular os riscos de uma operação perigosa. Gavião, você tem a certeza que se quer meter nisso? Ainda vai a tempo de recuar.
Como assim recuar? Entrega os dois à Polícia Federal. Entram no programa de proteção da testemunha. Você volta paraa a sua vida. Todo o mundo fica bem. Marina ficou pálida. Não, por favor, não me entregue à polícia. Cleayon tem contactos lá dentro também. Já tentei denunciá-lo uma vez e o delegado que me atendeu ligou-lhe no mesmo dia.
Isso é verdade? Ela assentiu. Cléon riu da minha cara quando chegou a casa naquela noite. Disse que eu era muito inocente, que tinha amigos em todos os os locais certos. Sebastião suspirou fundo. Assim, a situação é pior do que pensava eu. Levantei-me da cadeira e fui até à janela. Lá fora, o sol estava começando a clarear.
Os eucaliptos balançavam com o vento fresco da manhã. Tudo tão bonito e tranquilo. Difícil acreditar que há poucos quilómetros dali havia gente a querer matar-nos. Seba, eu disse sem me virar. Conhece alguém na Polícia Federal que seja de confiança? Alguém que não esteja na folha de pagamento do Cleiton? Conheço delegado federal em Brasília, António Mendes.
Trabalhamos juntos há uns anos atrás numa operação contra o tráfico. Homem sério, incorruptível. Pode falar com ele? Posso, mas vou necessitar das provas em mãos antes de fazer qualquer movimento. Marina apertou a corrente com a chave do cofre. Então, precisamos de voltar a Uberlândia. Isso é uma loucura, Sebastião disse.
A cidade deve estar cheia de capangas à vossa procura. Mas não tem outro jeito. Eu argumentei. Sem as provas é a nossa palavra contra a dele. E adivinha quem tem mais dinheiro para comprar testemunhas? O Gabriel puxou a minha t-shirt. Tio Gavião, posso tomar café também? Claro, campeão. Sebastião serviu um café com leite bem doce para o menino e aproveitou para preparar uma sanduíche de queijo.
O Gabriel comeu com apetite, parecendo finalmente uma criança normal. “Gavião”, falou Marina baixinho. “Se a gente for buscar as provas, tem de ser hoje. Amanhã é sábado, o banco fica fechado.” Olhei para o relógio, 7 da manhã, o banco abre a que horas? 10 horas. Então, temos 3 horas para elaborar um plano. Sebastião acendeu um cigarro e ficou pensativo.
Posso ir comigo? Ele disse finalmente. Conheço a cidade, sei os pontos onde possam estar à espera. É demasiado perigoso para si, Seba Gavião. Eu passei 30 anos a prender bandido. Não vou começar a ter medo agora. Marina levantou-se e veio até nós. Posso sugerir uma coisa? Pode. O cofre está no subsolo do banco. Tem duas entradas, uma pela agência principal e outra pelo estacionamento.
Se vocês me levarem até à entrada do estacionamento, consigo pegar nas provas e sair sem ninguém ver. Nasce e se for uma armadilha, se os capangas estiverem à sua espera lá, é um risco que vamos ter de correr. O Gabriel terminou o sanduíche e veio ter com a mãe. Mamã, onde vamos morar depois? A Marina olhou para mim, depois para o Sebastião.
Nos olhos dela, vi uma mistura de esperança e desespero. Não sei ainda, meu amor, mas será num lugar seguro, longe do papá. O papá é mesmo malvado, certo? A pergunta partiu o coração de todos nós. Marina abraçou o filho. Papai ficou doente. O Gabriel ficou doente do coração. E quando uma pessoa fica doente do coração, às vezes faz coisas más.
Mas ele vai sarar. Não sei, filho. Não sei. Sebastião apagou o cigarro. Bom, se vamos fazer isso, temos de fazer direito. Gavião, levas-la até ao banco. Eu fico aqui com o menino. Não, Gabriel gritou. Não quero estar longe da mamã. Marina ajoelhou-se em frente do filho. Meu amor, vai ser só um pouquinho.
A mamã precisa de pegar umas coisas importantes para a gente poder ficar em segurança para sempre. Mas e se o o papá pegar? Vocês não vão apanhar. O tio O Gavião é muito esperto, igual a um gavião de verdade. O Gabriel olhou para mim com aqueles olhos grandes e sérios. Tio Gavião, tu promete que vais trazer a minha mãe de volta? Ajoelhei-me do lado da Marina.
Prometo, campeão. Palavra de gavião. Ele pensou por um momento, depois fez que sim com a cabeça. Está bom, mas vocês têm que regressar antes do almoço. Eu vou ajudar o tio Sebastião a fazer comida. Sebastião sorriu. Combinado, miúdo. Vais ser o meu ajudante de cozinheiro. 9 horas da manhã, hora de partir.
Marina beijou Gabriel na testa e prometeu que voltaria em breve. Sebastião deu-nos um rádio comunicador e deu-me o número do telemóvel dele. Qualquer coisa vocês me ligam. Qualquer coisa mesmo. Pode deixar. Subimos à Scânia. A Marina estava tensa, mas determinada. Enquanto ligava o motor, ela chegou pela décima vez se a chave do cofre estava no lugar. “Pronta?”, perguntei.
“Pronta?” “Então vamos acabar com isto de uma vez por todas. A estrada de regresso para Uberlândia nunca tinha aparecido tão longa. A cada curva, a cada lomba, esperava ver uma barreira policial ou um carro dos capangas.” A Marina esteve o tempo todo a olhar pelo retrovisor, as mãos a tremerem ligeiramente.
“Gavião”, disse ela quando estávamos chegando à cidade. “Se alguma coisa der errada lá no banco, não vai dar. Mas se der, se me apanharem, prometes que vai cuidar do Gabriel?” Parei a reboque no acostamento e olhei bem nos olhos dela. Marina, ouve uma coisa. Nada vai correr mal. A gente vai apanhar essas provas.
vai levar ao amigo do Sebastião em Brasília e vocês vão ficar livres desse desgraçado para sempre. Como tem tanta certeza? Porque eu não vou deixar que aconteça de forma diferente? Ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Obrigada, gavião, por tudo. Não me agradeça já. Agradece quando estivermos todos sentados à mesa do Sebastião, comendo o almoço que o O Gabriel vai ajudar a fazer.
Liguei o motor novamente e entramos em Uberlândia. O banco ficava no centro da cidade. Às 10 horas da manhã, o movimento era intenso. Pessoas a entrar e a sair, carros, autocarro, perfeito para passar despercebido, ou pelo menos era o que eu esperava. Estai a Scania numa rua paralela ao banco, de onde se via a entrada principal e a do estacionamento.
Ficamos a observar por uns 15 minutos. Movimento normal, nada suspeito. Vou descer, disse Marina. Espera. Peguei no rádio comunicador. Sebastião, aqui é o Gavião. Estamos no local. Tudo tranquilo por enquanto. Entendido. O miúdo está aqui ao meu lado, ansioso para que vocês voltem. Fala para ele que já já lá estamos.
Marina desceu da carreta. Antes de fechar a porta, ela olhou para mim mais uma vez. Se eu não sair em 20 minutos, vais sair, Hawkeye. Vai logo antes de eu mudara e ir junto. Ela fechou a porta e caminhou na direção do banco. Eu fiquei a observar cada movimento, cada pessoa que passava perto dela.
O meu coração batia que nem um tambor de uma escola de samba. A Marina entrou pela entrada do estacionamento e desapareceu da minha vista. Foram os 20 minutos mais longos da minha vida. 15 minutos, 16, 17.No 18º minuto, vi dois homens de fato aproximando-se da entrada principal do banco. Caminhavam devagar, olhando para os lados.
Não tinham cara de bancários. 19º minuto. Os homens entraram no banco. 20º minuto. Marina não tinha aparecido. 21º minuto. Peguei o rádio. Sebastião, acho que temos problema. O que foi? Marina entrou há mais de 20 minutos. Dois tipos suspeitos entraram atrás. Sai daí, gavião. Sai daí agora. Da Não posso abandoná-la. Não seja burro, pá.
Se pegar em si também, quem vai cuidar do menino? Estava prestes a descer do reboque quando vi a Marina a sair a correr pela entrada do estacionamento. Ela segurava uma pasta na mão e olhava para trás, apavorada. Liguei a Scania e acelerei na direção dela. Marina abriu a porta e saltou para dentro ainda antes de eu parar completamente.
“Pisa fundo!”, gritou ela. “Viram-me? Pisei fundo mesmo. A Scânia saiu cantando pneu daquele quarteirão. Pelo retrovisor, vi os dois homens de fato saindo a correr do banco. “Conseguiu?”, perguntei. A Marina mostrou a pasta. “Consegui. Está tudo aqui. Contratos, gravações, extratos bancários, tudo. Então, vamos embora desta cidade maldita.
” Apanhei a BR262 de volta para quinta do Sebastião. A Marina estava abraçada com a pasta, como se fosse o tesouro mais precioso do mundo. E talvez fosse mesmo. Era a nossa única hipótese de acabar com aquele pesadelo de uma vez por todas. Na rádio, a voz do Sebastião. Gavião, como estão? Estamos bem e temos o que viemos buscar. Ótimo. O miúdo tá aqui a ajudar a descascar batata para o almoço.
Marina sorriu pela primeira vez em horas. Fala-lhe que a mamã já tá voltando. Gabriel, a voz do Sebastião chamou. A tua mãe tá voltando e ela está a trazer uma coisa muito importante. A voz do Gabriel chegou até nós pelo rádio. Tio gavião, tio gavião, eu já descasquei cinco batatas. A Marina começou a chorar, mas desta vez eram lágrimas de alívio.
Estamos quase a chegar, campeão. Respondi na rádio. Guarda uma batata para eu descascar. A estrada de regresso à quinta parecia mais clara, mais bonita, como se até o solbesse que tínhamos dado o primeiro passo para acabar com aquela história. Mas eu sabia que a parte mais perigosa ainda estava para vir.
Cleiton Rodrigues não ia desistir facilmente. Quando chegamos de volta à quinta, Gabriel veio a correr para o portão antes mesmo de eu parar a carreta completamente. O menino tinha os olhos a brilhar de alegria, as mãozinhas sujas de terra de tanto ajudar o Sebastião na horta. “Mamã, mamã!”, gritou atirando-se nos braços da Marina assim que desceu da cabine.
Ajudei o tio Sebastião a plantar alface e descasquei um molho de batatas. Marina abraçou-o com força, respirando o cheirinho do cabelo do filho, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Que orgulho em ti, meu amor, tornaste-te um fazendeirinho. Sebastião veio chegando atrás, limpando as mãos num pano de cozinha, sorrindo ao ver a cena.
Mas quando os seus olhos encontraram os meus, a expressão ficou séria. Correu tudo bem? Ele perguntou baixinho. Marina levantou a pasta que tinha protegido com a sua própria vida. Tudo está tudo aqui. Então vamos dar uma olhada. Entrámos todos na sala. Gabriel foi brincar com os carrinhos velhos que Sebastião tinha encontrado no sótam enquanto debruçamo-nos os três sobre a mesa da cozinha.
Marina abriu a pasta com cuidado, como se estivesse a manusear uma bomba. E de certa forma era exatamente isso. Meu Deus do céu, Sebastião murmurou quando viu o primeiro documento. Era um contrato de reforma de um hospital em Ituiutaba. Valor oficial, R$ 500.000. Mas havia uma segunda via manuscrita com o valor real, 150.000$. A diferença de 350.
000 tinha sido embolsada. Isto aqui é só o início, disse Marina, tirando mais papéis da pasta. Tem mais de 20 contratos assim, escolas, postos de saúde, obras de saneamento. Sebastião pegou numa calculadora velha e começou a somar os valores. Gavião, pela minha conta aqui, só nestes contratos, o Cleayon desviou mais de 5 milhões de reais do dinheiro público.
5 milhões? Isto só nos últimos dois anos. E olha só isto aqui. A Marina mostrou uma pilha de extratos bancários, conta à ordem da construtora do Cleayon, mas os depósitos não batiam certo com as obras realizadas. Valores redondos, sempre em dinheiro, sempre acima de R$ 100.000. Esse dinheiro vem de onde? Perguntei tráfico. A Marina respondeu.
Cleayon lava dinheiro do tráfico através da construtora, recebe o dinheiro sujo, faz parecer que é pagamento de obras que nunca existiram e depois transfere limpo para contas no estrangeiro. Sebastião assobiou baixinho. Marina, tem ideia da dimensão do que está denunciando? Isto aqui não é só corrupção, é uma organização criminosa, branqueamento de capitais, formação de quadrilha.
Eu sei, por isso eles quiseram matar-me. Há mais coisa? Perguntei. A Marina sorriu de um jeito triste e puxou uma pen drive de dentro do pasta. Tem as gravações. Gravações? Cleayon sempre gostou de gravar as reuniões importantes. Dizia que era para se proteger caso alguém tentasse passar-lhe a perna. Ele não sabia que tinha acesso ao sistema.
O Sebastião foi buscar um portátil velho e colocou o pen drive. Ficámos os três em volta do pequeno ecrã esperando carregar. A primeira gravação era de três meses atrás. A voz do Cleiton era inconfundível. Ronaldo, preciso que me resolva o problema da Marina. Ela sabe demais, patrão.
Posso só pregar um susto nela? Não, não. Susto já não resolve. Ela tem documentos, tem provas. Se ela abrir a boca, vamos todos presos. Então, que é que o Senhor quer que eu faça? O que acha que eu quero? Faz ela desaparecer e leva o miúdo junto. Não pode deixar testemunha. O meu sangue gelou. Marina estava pálida como papel. Mesmo já sabendo do que era o ex-marido capaz, ouvir aquilo gravado era chocante. Tem mais? Sebastião perguntou.
A Marina fez que sim e saltou para a próxima gravação. Desta vez, além do Cleiton, havia outras vozes. Delegado Carvalho, o senhor tem a certeza que consegue controlar a situação? Clayton, relaxa. Qualquer denúncia que chegue à minha mesa vai desaparecer. Sabe que pode confiar em mim.
É mesmo bom, porque se alguém descobrir o nosso esquema, todo mundo vai junto para o buraco. Ninguém vai descobrir nada. E se descobrir, bem, os acidentes acontecem, não é? Os três riram-se na gravação. Uma gargalhada gelada, sem humor algum. Filho da puta! Eu murmurei. O gajo até comprou delegado. Por isso que não posso confiar na polícia local.
A Marina disse: “Não sei quantos outros estão na folha de pagamentos dele.” Sebastião estava a fazer anotações numa folha de papel. Marina, sabe quantas pessoas estão envolvidas neste esquema? Pelo que eu Consegui descobrir, o Cleiton, os capangas dele, do Ronaldo e do Beto, este delegado Carvalho, o contabilista da empresa, dois vereadores da Câmara Municipal de Uberlândia e um promotor. Promotor também. Também.
Tem gravação dele a negociar o arquivamento de uma investigação. Sebastião recostou-se na cadeira. Gavião, isto aqui é maior do que eu pensava. Não é só uma quadrilha, é uma organização que infiltrou o poder público da região. O Gabriel veio até a mesa puxando a minha t-shirt. Tio Gavião, posso ver os papéis da mamã? Marina rapidamente fechou a pasta.
Não, o meu amor. São papéis de trabalho muito chatos. Porque é que não vai brincar mais um bocadinho? Mas eu quero ajudar a mamã. Já está a ajudar, sendo um menino corajoso. O Gabriel fez um beicinho, mas voltou para o chão da sala com os carrinhos. E agora? Perguntei baixinho. Como é que nós entregamos isso tudo para a Polícia Federal sem levantar suspeita? Eu já pensei nisso, Sebastião respondeu.
Vou ligar ao António Mendes hoje mesmo, mas não posso dizer nada por telefone. Vou ter de ir até Brasília e deixar-nos aqui sozinhos não tem outro jeito. Se eu disser qualquer coisa suspeita no telefone, podem estar escutando. A Marina segurou-me o braço. Hawkeye, achas que eles descobriram onde estamos? Espero que não, mas fui interrompido pelo som do carro e subindo à estrada de terra batida da quinta.
Sebastião correu para a janela. Merda! Ele disse. Três carros, vidros escuros. O meu coração disparou. São eles? Só pode ser. Marina agarrou Gabriel ao colo. O que a gente faz? Sebastião correu para um armário e pegou em duas espingardas. Gavião, você sabe disparar? Sei. Então pega nesta aqui, Marina.
Leva o menino para o quarto dos fundos e deita-se no chão. Não. Gabriel gritou. Não vos quero deixar, meu amor. Marina tentou acalmar o filho, mas a voz dela tremia. É só por um minutinho. Os carros pararam à frente da casa. Ouvi portas a bater, vozes baixas a conversar. Pelo menos seis ou sete homens. Sebastião Santos. Uma voz gritou lá fora.
Sabemos que estão aí dentro. Entrega a mulher e o miúdo e ninguém se magoa. Sebastião me olhou. É agora ou nunca, gavião. Fui até a janela da frente, mantendo a distância das vidraças. Lá fora, homens armados se espalhavam pelo terreiro. Reconheci dois deles, os mesmos que tinham entrado no banco atrás da Marina.
“O que é que vocês querem?”, gritei de volta. Sabe muito bem o que queremos. A mulher apanhou uma coisa que não era dela. Não não há aqui mulher nenhuma. A gargalhada que veio de fora foi sinistra. Gavião, não seja burro. A gente sabe que vocês estão aí. Viram-vos a chegar? Sebastião estava na janela lateral, espingarda na mão. Quantos conta? Sussurrei.
Sete. Mas pode haver mais nos carros. Do quarto dos fundos, ouvi o Gabriel a chorar baixinho. Marina tentava acalmá-lo, mas também estava aterrorizada. Última oportunidade! O homem gritou lá fora. Sai todo o mundo de mãos para cima ou vamos entrar. Vai-te foder. Sebastião gritou de volta. A resposta veio sob a forma de tiros.
Balas partiram as vidraças da frente. Lascas de madeira voaram pela sala. Atirei-me no chão atrás do sofá. Gavião, Sebastião chamou. Janela da cozinha. Tem dois tentando entrar pelos fundos. Corri agachado até à cozinha. Pela janela, vi dois homens a aproximarem-se da porta dos fundos. Um deles estava a tentar arrombar a fechadura.
Apontei a espingarda e disparei. O homem gritou e se atirou-o para o chão. O outro correu para se esconder atrás de uma árvore. “Filhos da puta!”, gritei. Mais por raiva do que por estratégia. Os tiros da frente pararam por um momento. Aproveitei para correr até ao quarto onde Marina e Gabriel estavam escondidos.
Como estão? Marina estava abraçada com o filho, os dois a tremer de medo. Tio Gavião. – perguntou Gabriel com a voz embargada. São os homens do papá? São, campeão. Mas a gente não vai deixá-los magoarem-vos. Promete? Antes que eu pudesse responder, ouvi passos no telhado. Alguém estava a tentar entrar por cima.
Marina, já disse, tem alguma saída pelas traseiras da casa? Não sei. Esta é a primeira vez que aqui venho. Os tiros recomeçaram lá na frente. Sebastião ripostava quando podia, mas éramos dois contra sete ou oito. As hipóteses não eram boas. Foi então que tive uma ideia. Marina, dá-me essa pasta. Por quê? Vou fazer uma proposta para eles. Gavião, não.
Sebastião gritou da sala. Se entregar as provas, vão matar-vos aos três do mesmo jeito. Não vou entregar. Só vou fingir que vou entregar. Peguei na pasta e Caminhei até à janela da frente, tomando cuidado para não estar exposto. “Ei, gritei parem de disparar!” Os tiros cessaram. Estou com a pasta. Continue, mas só entrego se vocês libertarem a mulher e a criança.
Primeiro mostra a pasta. Ergui a pasta por cima da janela, só suficiente para eles verem. Está aqui. Agora dá-me garantia que eles vão ficar bem. Garantia é o cacete. Sai daí com a pasta e todos juntos. Não, primeiro vocês recuam para os carros. Houve um silêncio lá fora. Ouvi vozes a conversar baixinho, a discutir. Está bem.
O homem gritou finalmente. A gente recua, mas tem 30 segundos para sair daí. Corri de volta para o quarto. Marina e Gabriel continuavam no chão. Marina, ouve bem o que te vou dizer. Tem uma pequena janela nos fundos do banheiro. Tem. Vocês vão sair por ali enquanto os distraio na frente. O Sebastião vai convosco e vocês.
Eu seguro-os aqui até vocês chegarem à carreta. Não! Ela gritou. Não te vou deixar aqui sozinho. Marina, escuta. Se a gente morrer todos aqui, de que adianta? Pelo menos assim, vocês têm hipótese de escapar. Gabriel soltou-se dos braços da mãe e veio ter comigo. Tio Hawkeye, não vais morrer, pois não? Me ajoelhei-me à frente dele.
Não vou morrer, campeão. Mas vocês precisam de ser corajosos e fazer o que eu vou dizer, está bom? Fez que sim com a cabeça, tentando ser forte. Sebastião, chamei. Vem cá. Sebastião apareceu à porta do quarto, suando com arranhões na cara dos pedaços de vidro. Qual é o plano? Você vai levá-los até à carreta pela janela do banheiro.
Eu fico aqui a segurar os caras. Isso é suicídio, Hawkeye. É a única hipótese que têm. Marina segurou a minha mão. Gavião, vem com a gente, por favor. Não posso. Se eu sair daqui, eles vão perceber que vocês fugiram e vão atrás. Preciso de ganhar tempo. Tempo? O homem gritou lá fora. Acabou o tempo. Os tiros recomeçaram, mais intensos do que antes.
Desta vez eles estavam a disparar para valer, tentando entrar. Vai! Gritei por cima do barulho. Vai agora! O Sebastião pegou no Gabriel ao colo e ajudou Marina a levantar-se. Os três correram para a casa de banho. Ouvi a janela pequena a abrir, vidro a partir. Voltei para a sala. As balas tinham atravessado a porta da frente e estavam fazendo buracos nas paredes.
Uma delas passou-me raspando no ombro. Atirei de volta algumas vezes, mais para fazer barulho que para atingir alguém. “Onde está a mulher e o miúdo?”, gritaram lá fora. “Estão aqui, menti, mas se vocês entrarem, eu mato-os primeiro. Você tá blefando? Queres apostar?” Corri até ao janela da casa de banho.
Lá fora, vi Sebastião, Marina e Gabriel a correr agachados na direção do reboque. Gabriel estava a ser carregado no colo do Sebastião e Marina segurava a pasta contra o peito, mais alguns metros e estariam a salvo. Foi quando ouvi um dos capangas gritar: “Ali! Estão fugindo para os fundos”. Merda! Tinham descoberto.
Ouvi passos a correr lá fora, vozes a gritar ordens. Eles iam cercar a carreta antes de Sebastião conseguir arrancar. Não podia deixar que isso aconteça. Peguei nas duas espingardas e corri para a porta da frente. Abri-o de uma vez e comecei a disparar sobre todas as direções, gritando que nem louco: “Vem pegar, desgraçados! Vem! Os capangas atiraram-se para trás dos carros, assustados com o ataque súbito.
Aproveitei a confusão para sair a correr na direção do reboque. Sebastião estava ligando o motor quando cheguei. Marina e Gabriel já estavam dentro da cabine. “Sobe!”, gritou Sebastião. Saltei para cabine no momento em que o reboque arrancou. Pelos retrovisores, vi os capangas a correr atrás de nós. Mas já era tarde.
O Gabriel estava a chorar no colo da mãe. “O Tio Gavião não morreu?” Ele gritou aliviado. A Marina olhava-me como se eu fosse um fantasma. Achei que ias ficar lá. Eu também achei respondia ainda ofegante, mas não conseguia deixar-vos sozinhos nessa. Sebastião acelerou a carreta na pequena estrada de terra, levantando uma nuvem de poeira atrás de nós. E agora? perguntou.
Eles sabem onde eu moro. Não posso mais voltar lá. Marina apertou a pasta contra o peito. Agora vamos para Brasília, mesmo que seja a pé. Gabriel parou de chorar e olhou para mim. Tio Gavião, nós ganhámos. Olhei pelo retrovisor. Os carros dos capangas tinham desistido de nos seguir na estrada de terra batida, pelo menos por enquanto. Ainda não, campeão respondi.
Mas estamos a chegar lá. A estrada para Brasília nunca tinha parecido tão longa e eu sabia que o Cleiton Rodrigues não ia desistir fácil. A guerra tinha apenas começado. A BR040 estendia-se à nossa frente como uma promessa. Brasília ficava a quase 400 km de onde estávamos, mas pela primeira vez em dias sentia que íamos na direção certa.
O sol do meio-dia castigava o asfalto, mas dentro da cabine havia algo que não sentíamos há muito tempo, esperança. O Gabriel tinha parou de chorar e estava a olhar pela janela, fascinado com as plantações de soja que se estendiam até ao horizonte. Marina segurava a pasta no colo recém-nascido, os dedos ainda a tremer um pouco do susto que tínhamos apanhado na quinta.
Sebastião conduzia em silêncio, mas pude ver que ele estava calculando os próximos passos. De vez em quando, verificava os retrovisores, verificando se não estávamos a ser seguidos. “Sebastião”, disse eu quando passamos por Paracatu, “Tem a certeza que este delegado federal vai nos receber? António Mendes é um dos poucos homens íntegros que conheço na polícia.
” Ele respondeu: “Se alguém pode nos ajudar, é ele. Mas e se o Cleayon tiver contactos na Polícia Federal? É também um risco que vamos ter de correr.” Marina mexeu-se no banco. “Gavião, posso fazer-te uma pergunta?” “Pode.” “Porque é que não tem medo?” A pergunta apanhou-me desprevenido. Eu tinha medo, sim, muito medo. Medo de morrer, medo de não conseguir protegê-la e ao Gabriel, medo de que tudo aquilo fosse em vão.
Quem disse que eu não tenho medo? Pareces tão tranquilo, Marina. Estou cagando de medo desde o momento que vos tirei daquele buraco. Mas sabe o que aprendi em mais de 30 anos de estrada? O quê? Que medo é que nem combustível. Pode fazer com que pare no lugar ou pode fazer com que vá mais longe. Depende de como o usa. O Gabriel se virou-se no banco.
Tio Gavião, tem filhos? Tenho dois já crescidos. E eles gostam de si? A pergunta doeu mais do que qualquer bala. Pensei no meu filho mais velho, que não falava comigo há 3 anos. na minha filha, que só me ligava quando precisava de dinheiro. Não sei, campeão. Acho que não me conhecem bem. Por que não? Porque eu passava muito tempo longe de casa, na estrada.
Gabriel pensou por um momento. Mas agora estás cuidando de nós? É verdade. Então você aprendeu a cuidar de uma criança. Marina sorriu pela primeira vez em horas. mesmo. Sebastião esboçou um sorriso no retrovisor. “É, acho que aprendi”, respondi. Parámos para almoçar em Cristalina, numa cafetaria de beira de estrada.
O local estava cheio de camionistas, o que era bom. Passávamos despercebidos no meio da multidão. O Gabriel comeu um hambúrguer inteiro e ainda pediu gelado. Era bom vê-lo agindo como uma criança de novo. “Tio Sebastião?”, perguntou enquanto tomava o gelado. O delegado de Brasília é bonzinho? É sim, miúdo. Ele é um homem bom que prende os bandidos e protege as pessoas boas. Igual a vocês.
A gente está a tentar, né? A Marina estava mais relaxada também. Comeu um prato de comida caseira e até conversou com o empregada de mesa sobre a receita do feijão tropeiro. Quando estávamos a sair da cafetaria, o meu telemóvel tocou. Número desconhecido de novo. O meu sangue gelou. Não atende, disse a Marina vendo a minha cara. Tenho de atender.
Se for eles, pelo menos sei onde estão. Atendi. Gavião. Uma voz feminina perguntou quem é. O meu nome é Carla. Sou jornalista do Correio Brasiliense. Posso conversar com você? Fiquei confuso. Jornalista, como conseguiu o meu número? Não posso falar por telefone, mas tenho informações importantes sobre o caso que vocês estão a investigar.
Como sabe do caso, Gavião? Eu estou a investigar o esquema do Cleiton Rodriguees há meses. Sei que têm provas contra ele. Olhei para o Sebastião, que estava prestando atenção à conversa. Onde você quer conversar? Tem um posto Ipiranga na saída de Luziânia. Posso encontrar-vos lá em 2 horas? Como sabe que estamos a vir por essa rota? Porque é a única rota segura para chegar em Brasília sem passar pelos pontos que o Cleiton controla.

E Sebastião fez um sinal para eu aceitar o encontro. Tá bem. 2 horas no posto de Luziânia. Gavião, cuidado com quem confiam. O esquema do Cleiton é maior do que vocês imaginam. A chamada caiu. Quem era? perguntou a Marina. Uma jornalista diz que anda a investigar o Cleiton há meses. Pode ser armadilha, disse ela. Pode, mas também pode ser a nossa salvação. Voltámos pra estrada.
Gabriel adormeceu no banco, cansado de tanta emoção. A Marina ficou a olhar a paisagem do serrado, perdida em pensamentos. Marina, eu disse baixinho para não acordar o menino. Posso perguntar-te uma coisa? Pode. Como conseguiu viver tanto tempo com o Cleiton, sabendo do de que ele era capaz? Ela suspirou fundo. No início não sabia de nada.
Ele era carinhoso, atencioso, bom pai pro Gabriel. A gente tinha uma vida boa, sabe? Casa grande, dinheiro para tudo que precisava. E quando começou a desconfiar, há cerca de dois anos, o Gabriel teve pesadelos durante semanas seguidas. Dizia que tinha visto o pai a magoar alguém. Eu pensava que era só imaginação de criança, mas mas não era não era.
Um dia cheguei a casa mais cedo e ouvi o Cleayon a falar ao telefone. Ele tava ordenando que alguém partisse as pernas de um concorrente que tinha ganho uma licitação. E não fez nada. Fiz. Comecei a juntar provas lentamente, sem ele perceber. Sabia que se tentasse denunciar sem ter a certeza absoluta, ele ia matar-me.
E o Gabriel, ele sabe que o pai é, ele sabe que o pai magoa pessoas. Tentei protegê-lo da verdade o máximo que pude, mas criança apercebe-se tudo. Sebastião tinha diminuído a velocidade. Lá à frente havia uma barreira da Polícia Rodoviária Federal. parando os veículos. “Merda”, ele murmurou. “O que foi?” perguntou a Marina. “Barreira policial.
O meu coração disparou. E se fosse uma armadilha? E se Cleayon tivesse conseguido convencer os federais de que éramos nós os bandidos?” Calma, disse Sebastião. Vou parar normalmente. Se tentarmos fugir, vai ser pior. O Gabriel acordou com o barulho do motor a diminuir. Chegamos a Brasília? – perguntou esfregando os olhos.
Ainda não, campeão. Só uma paradinha. Um polícia federal aproximou-se da janela do condutor. Sebastião baixou o vidro. Boa tarde, senhor oficial. Boa tarde. Documentos do reboque e do motorista. Sebastião entregou os papéis. O policial examinou-os cuidadosamente. Qual o vosso destino? Brasília, visitando familiares.
O polícia olhou para nós no banco de trás. Gabriel acenou-lhe com a mãozinha. E essa criança é filho de vocês? Marina respondeu rapidamente: “É o meu filho. Vamos visitar o meu irmão na capital. O polícia estudou os nossos rostos durante alguns segundos que pareceram uma eternidade. Depois devolveu os documentos. Tudo certo.
Podem seguir viagem e conduzir com cuidado. Obrigado, senhor oficial. Quando nos afastamo-nos da barreira, todos respiramos aliviados. Pensei que era uma armadilha. A Marina disse. Eu também. Sebastião concordou, mas parece que foi apenas uma blitz de rotina. O posto de Luziânia apareceu à nossa frente exatamente duas horas depois da chamada da jornalista.
Era um daqueles grandes postos com loja de conveniência, restaurante e estacionamento para reboques. Sebastião estacionou num canto mais afastado. “Como vamos reconhecer esta jornalista?”, perguntei. “Ela disse que nos reconheceria.” lembrou Marina. Não precisamos de esperar muito. Uma mulher de uns 40 anos aproximou-se da carreta.
Cabelo comprido, óculos graduados com uma pasta na mão. Parecia mesmo jornalista. “Vocês são o Gavião e a Marina?”, perguntou ela quando Sebastião baixou o vidro. “Somos. Você é a Carla?” “Sou. Podemos conversar num lugar mais reservado?” Descemos da carreta. O Gabriel ficou colado na marina.
Desconfiado da mulher desconhecida, a Carla levou-nos até uma mesa nas traseiras do restaurante do posto, longe das outras pessoas. “Primeiro, deixem-me apresentar-me direito”, ela disse, tirando uma carteirinha da mala. Carla Mendonça, repórter de investigação do Correio Brasiliense. Estou investigando esquemas de corrupção no interior de Goiás e Minas há do anos.
“Como é que soubeste de nós?”, Sebastião perguntou. Tenho fontes na Polícia Civil de Uberlândia. Soube que vocês escaparam de um ataque na quinta, hoje de manhã. As suas fontes são confiáveis? São as mesmas fontes que me falaram sobre o esquema do Cleiton Rodriguez. A Marina se animou. Já sabia do esquema, Marina? Sei mais sobre o seu ex-marido do que imagina.
O problema é que nunca consegui provas suficientes para publicar a reportagem. E agora? A Carla sorriu. Agora vocês apareceram com exatamente o que eu precisava. Marina hesitou. Como a gente sabe que pode confiar em si? Porque eu vou mostrar o que já descobri. Carla abriu a pasta e espalhou várias fotos na mesa.
Fotos de Cleiton a entrar e a sair de edifícios públicos, conversando com políticos, encontrando homens de aparência suspeita. Estas fotos são de encontros que o Cleayon teve nos últimos seis meses”, explicou ela. “Aqui ele está a receber dinheiro de um traficante conhecido. Aqui está a entregar um envelope para o delegado Carvalho. E nesta aqui ela mostrou uma foto que fez a Marina ficar pálida.
Nesta aqui ele está a falar com um matador de aluguel conhecido por Tatu. Três dias depois, um empresário que estava a investigar irregularidades nas obras do Cleayon morreu num acidente de viação. “O meu Deus!”, sussurrou Marina. “Marina, o teu ex-marido não é só corrupto. Ele é o chefe de uma organização criminosa que controla os concursos em pelo menos 10 cidades da região.
” Gabriel puxou a blusa da mãe. “Mamã, posso tomar um refrigerante?” Pode, meu amor. Carla chamou a empregada e pediu um refrigerante para o Gabriel e café para nós. Carla, já disse, o que é que quer da gente? Quero as provas que vocês têm. Em troca, publico uma reportagem completa que vai deitar por terra todo o esquema e a nossa segurança.
Vou coordenar com a Polícia Federal. Delegado António Mendes já sabe que vocês vêm. Sebastião se animou. Conhece o Antônio? Conheço. Ele que me deu o contacto de vocês. Como assim, Sebastião? O António ligou-me há duas horas, dizendo que um ex-colega dele estava a trazer testemunhas importantes sobre o esquema Rodrigues.
Pedi para vos encontrar no caminho. A Marina olhou para mim. Parece que é real. Parece. O Gabriel tinha terminado metade do refrigerante quando três homens entraram no restaurante. Não eram camionistas. Vestiam roupas caras demais para quem pára num posto de estrada. A Carla viu-os pelo canto do olho e ficou tensa. “Merda”, murmurou ela.
O que foi? Aqueles três homens? Um deles é capanga do Cleiton. O meu sangue gelou. Como nos encontraram? Não sei, mas temos de sair daqui agora. Os homens estavam a espalhar-se pelo restaurante como se procurassem alguém. Marina, disse eu baixinho, pega no Gabriel e vai já para a casa de banho. Mas agora Marina levantou-se rapidamente e foi para a casa de banho com Gabriel.
Os homens não perceberam. “Carla, tem saída pelos fundos?”, perguntou Sebastião. Tem porta da cozinha? Então vamos. Sebastião foi buscar Marina e Gabriel na casa de banho. Eu e a Carla saímos pela cozinha. Os funcionários do posto olharam de forma estranha, mas não disseram nada. Quando chegámos à carreta, o coração de todos nós estava disparado.
“Como eles descobriram que estávamos aqui?”, Marina perguntou. A Carla estava a verificar o telemóvel. Só há uma explicação. Alguém está a rastrear-nos. Como? telemóvel de vocês, talvez GPS da carreta. Ou ela deixou de falar e ficou olhando para o próprio telemóvel. Ou quê? Perguntei. Ou há alguém na Polícia Federal a passar informação ao Cleayon.
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo. Gabriel, que estava ao colo da Marina, perguntou: “Tio Gavião, nós nunca vai estar em paz.” Olhei para ele, depois paraa Marina, depois pro Sebastião. Vai sim, campeão, mas antes a as pessoas precisam de ser mais esperto que os homens maus.
Como? Alterando as regras do jogo. E a Carla olhou para mim. O que tem em mente? Em vez de ir à Polícia Federal, vamos fazer com que a Polícia Federal vir até nós. Como? Sorri pela primeira vez em horas. Carla, tem uma boa câmara nesse telemóvel? Tenho. Então vamos fazer uma coisa que o Cleayon não espera. O quê? Vamos contar a nossa história ao Brasil inteiro. A Marina percebeu na hora.
Um vídeo que mostra as provas. Exato. Se a história se tornar pública, ele não vai poder matar-nos sem todo mundo saber quem foi. Sebastião ligou o motor da carreta. Então vamos procurar um lugar seguro para fazer este vídeo. Gabriel bateu palminhas. A gente vai aparecer na televisão? Talvez, campeão. Talvez.
Enquanto saíamos do posto, vi pelos retrovisores que os três homens tinham saíram a correr do restaurante e estavam à nossa procura. Mas já era tarde. Estávamos de volta à estrada com um novo plano. Um plano que nos podia salvar ou condenar-nos de vez. Não havia meio termo.
Encontrámos o lugar perfeito numa estrada secundária perto de Alexânia. Era uma igrejinha abandonada no meio do serrado, rodeado de IP amarelos que davam um fundo bonito e ao mesmo tempo melancólico paraa nossa história. O sol da tarde criava uma luz dourada que parecia abençoar o nosso último recurso. Carla montou a câmara do telemóvel num tripé improvisado feito com pedras e ramos secos.
Marina sentou-se numa pedra com Gabriel ao colo. Eu e o Sebastião ficamos dos lados. A pasta com as provas estava ali à frente, como se fosse o personagem mais importante da cena. “Vocês têm a certeza disto?”, Carla perguntou antes de carregar no botão de gravar. “Um vez que este vídeo for pro ar, não há retorno. O Cleiton vai saber exatamente onde estão e o que vocês sabem.
É exatamente por isso que precisamos de fazer.” Marina respondeu: “Se ficarmos escondidos, ele vai sempre nos caçar. Se mostrarmos a verdade ao mundo inteiro, ele já não nos pode silenciar sem se entregar”. Gabriel puxou a blusa da mãe. “Mamã, tenho que falar também? Só se quiseres, meu amor. Mas lembra que isso vai ajudar muita gente boa. Como o tio Gavião nos ajudou.
Exatamente como o tio Gavião ajudou a gente. Gabriel pensou por um momento, depois olhou para a câmara com uma seriedade que não cabia naquele rostinho de 6 anos. Eu quero falar. Quero que toda a gente saiba que o meu papá é malvado. O meu coração apertou. Nenhuma criança devia ter que dizer uma coisa destas sobre o próprio pai.
Tudo bem, A Carla disse. Vamos começar devagar. Marina, você conta a sua história primeiro, depois o Gavião conta como encontrou-vos. Sebastião fala sobre as gravações e por último mostramos os documentos. E se alguém não acreditar? Perguntei. A Carla mostrou o telemóvel dela. Por isso é que vamos fazer duas versões, uma para o público em geral, que vai nas redes sociais, e outra mais detalhada, com todas as provas, que vai diretamente para o delegado federal.
E quanto tempo a gente há até o vídeo ficar famoso? Se a história for impactante como eu acho que será, algumas horas, no máximo um dia. Sebastião acendeu um cigarro. Então é agora ou nunca? A Carla carregou no botão de gravar e fez um sinal paraa Marina começar. O meu nome é Marina Santos Rodrigues, disse ela, olhando diretamente para a câmera.
Sou o ex-mulher de Cleiton Rodrigues, proprietário da construtora Rodrigues de Uberlândia. Estou aqui hoje porque o meu ex-marido tentou matar-me juntamente com o meu filho de 6 anos. A voz dela tremia ao princípio, mas foi ficando mais firme à medida que continuava. Durante dois anos, eu Descobri que o Cleiton desviava milhões de reais do dinheiro público.
Hospitais que nunca foram construídos, escolas que existem apenas no papel, obras de saneamento que são pura mentira. E pior do que isso, ele lava dinheiro do tráfico através da construtora. O Gabriel estava quietinho no colo dela, mas prestando atenção a cada palavra. Quando decidi separar-me dele e denunciar os crimes, Cleayon disse que eu sabia demais.
Mandou os capangas me drogarem, doparam o meu filho também e nos enterraram vivos num buraco à beira da BR153. Marina parou para respirar fundo. As as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas ela não parou de falar. Se não fosse um camionista que parou para nos ajudar, eu e o meu filho estaríamos mortos agora, enterrados vivos como cães.
Foi a minha vez de falar. O meu nome é Valdci Santos, mas toda a gente me chama de gavião. Sou camionista há mais de 30 anos. Ontem estava a voltar de Goiânia quando ouvi um gemido vindo debaixo da terra. Achei que era imaginação, mas decidi investigar. Parei e olhei para o Gabriel. Quando comecei a escavar, encontrei uma criança protegendo a própria mãe com o corpinho, os dois enterrados até ao peito, quase sem ar, quase sem vida.
Eu protegi a minha mãe! Gabriel disse de repente, olhando para a câmara, igual o tio Gavião está protegendo-nos agora. A Carla fez um sinal para eu continuar. Desde ontem, os Os capangas do Cleiton Rodrigue tentaram matar-nos três vezes. Invadiram a minha casa, atacaram a quinta do meu amigo com armas de guerra e ainda hoje quase apanharam-nos num posto de gasolina.
Sebastião aproximou-se da câmara. Meu nome é Sebastião Santos. Sou ex-delegado da Polícia Civil. Posso confirmar que tudo o que disseram é verdade. E mais, tenho aqui gravações do próprio Cleiton Rodriguees ordenando a morte da ex-mulher e do filho. Ele pegou no pen drive e mostrou à câmara. Nessas gravações, Cleiton admite os desvios de verba pública e combina suborno com autoridades locais, delegado, promotor, vereadores, todos comprados.
A Carla deu zoom nas gravações tocando no portátil. A voz do Cleiton ecoou no silêncio do cerrado. Faz com que ela desapareça e leva o miúdo junto. Não pode deixar testemunha. Gabriel encolheu-se no colo da Marina quando ouviu a voz do pai. Este é o meu papá, disse baixinho. Ele queria que eu morresse. As palavras da criança foram como um murro no estômago de quem estava a assistir.
Marina abriu a pasta. e começou a mostrar os documentos. Aqui estão os contratos falsos. Hospital de Ituyutaba, 500.000 em papel, 150.000 na realidade. Escola de Montealegre, 800.000 em papel, 200.000 na realidade e assim sucessivamente. Ela foliou rapidamente as páginas. No total, só nestes contratos que eu consegui documentar, o Cleayon desviou-se mais de 5 milhões de reais.
Dinheiro que era para construir hospitais, escolas, centros de saúde, dinheiro que era para salvar vidas. E há mais, Sebastião acrescentou extratos bancários provando branqueamento de capitais do tráfico. A construtora recebia dinheiro sujo e transformava em obras fantasmas. Carla aproximou a câmara dos documentos, mostrando cada detalhe, cada assinatura falsa, cada valor sobrefaturado.
Estas provas, continuou Marina, estavam guardadas num cofre de um banco em Uberlândia. Hoje de manhã, arriscando a minha vida e a vida do meu filho, fui pesquisar esses documentos para mostrar ao Brasil inteiro quem é Cleiton Rodriguez. E por que razão estão a fazer isso? A Carla perguntou como se fosse uma entrevistadora. Por quê? Eu respondi.
A gente não pode deixar que homens como o Cleayon continuam a roubar o dinheiro do povo e matando quem tenta denunciar. E porquê, Marina completou? Eu quero que meu filho cresça num mundo onde as as pessoas boas não precisam de se esconder dos bandidos. Gabriel olhou para a câmara mais uma vez.
O meu papá é muito malvado, mas o tio Gavião e a tia Carla vão prendê-lo. E se ele tentar fazer mal para vocês outra vez? perguntou a Carla. Ele não vai conseguir, disse eu, porque agora o Brasil inteiro vai saber da história e todos vão estar de olho. Carla desligou a câmara. Ficou perfeito disse ela. Emocionante, convincente e com todas as provas necessárias.
E agora? Agora edito rapidamente e posto em todas as redes sociais: Facebook, Instagram, TikTok, Twitter, YouTube. Em 2 horas o Brasil inteiro vai estar falando da vossa história. Marina abraçou o Gabriel. Você foi muito corajoso, meu amor. Igual a ti, mamã, e igual ao tio Gavião. Sebastião estava verificando o telemóvel.
Carla, pode enviar uma cópia completa ao delegado António Mendes? Já vou enviar com todos os documentos digitalizados. Enquanto Carla editava o vídeo no portátil dela, nós ficámos sentados em frente da igrejinha, observando o sol a pôr-se no horizonte. O Gabriel brincava com uns paus que encontrou no chão, parecendo finalmente uma criança normal.
Gavião, Marina disse baixinho. Obrigada pelo quê? Por ter parado naquela estrada, por fatos ouvido, por ter arriscado a vida por nós. Marina, passei a vida inteira fugindo dos problemas. Desta vez decidi enfrentar. E não se arrependeu. Olhei ao Gabriel, que estava a tentar ensinar um grilo a andar na palma da mão. Não, não me arrependi nem um segundo.
Sebastião recebeu uma chamada. Era o delegado António Mendes. António? Sim, estamos todos bem. Como assim? Tem certeza? Entendi. Pode deixar. Desligou com uma expressão preocupada. O que foi? Perguntei. O António disse que o Cleayon fez hoje um boletim de ocorrência à tarde. Está a dizer que vocês raptaram a ex-mulher e o filho dele.
O meu sangue gelou. Filha da puta. Ele tá tentando virar o jogo. Exato. Agora ele é a vítima e vocês são os maus. A Marina ficou pálida. E se as pessoas acreditarem nele? Carla ergueu o notebook. Não vão acreditar. Não, depois de verem isso no ecrã, o nosso vídeo estava editado com legendas e tudo. Tornou-se profissional, impactante, emocionante.
“Posso publicar?”, ela perguntou. Todos nos olhamos. Sabíamos que não havia volta a dar. “Posta, Marina” disse. Carla apertou alguns botões. Numa questão de segundos, a nossa história estava na internet. Pronto, ela disse, agora é com Deus e com o povo brasileiro. O Gabriel veio a correr até nós.
Tio Gavião, o que é que vamos fazer agora? Agora esperamos, campeão. Esperar o quê? Espera a verdade fazer o trabalho dela. Não precisamos de esperar muito. Em menos de uma hora, o telemóvel da Carla começou a tocar sem parar. jornalistas, outros delegados, políticos, pessoas comuns a querer saber mais da história. “Gavião”, disse ela sorrindo.
“Vocês tornaram-se notícia nacional? O vídeo já conta com mais de 100.000 visualizações.” Marina começou a chorar de alívio. Quer dizer que as pessoas acreditaram? Mais do que acreditaram, estão indignadas. Há gente a pedir prisão imediata do Cleiton. O telemóvel do Sebastião tocou. Era o delegado António Mendes outra vez. António, a sério? Já? Que bom.
E quanto a nós, entendi combinado. Desligou com um sorriso enorme no rosto. Gente, ele disse, o delegado acabou de me informar que a Polícia Federal vai prender o Cleayon ainda hoje. Mandado de detenção já foi expedido. Gabriel bateu palmas. Eba! vão prender o meu papá malvado. Marina abraçou o filho, rindo e chorando ao mesmo tempo.
E nós perguntei, estamos livres? Estamos sob proteção federal até o processo terminar, mas sim, estamos livres. A Carla mostrou o telemóvel dela. O vídeo já estava a passar na televisão, em programas jornalísticos, sendo partilhado por celebridades. “Vocês fizeram história”, disse ela. “Esta vai ser lembrada como uma das maiores operações contra a corrupção do ano.” O Gabriel veio ter comigo.
O tio Gavião, agora posso chamar-lhe quê? do que quiser, campeão. Ele pensou por um momento. Posso tratar-te por vovô? A pergunta apanhou-me desprevenido. Senti os olhos marejarem. Pode, se a sua mãe deixar. A Marina sorriu. Pode sim, o meu amor. Então está decidido. Tu és o meu vovô gavião e eu sou o seu neto, Gabriel. Ajoelhei-me à frente dele e abracei-o.
É a melhor coisa que alguém já me chamou na vida toda. O sol tinha-se posto completamente no horizonte. As primeiras estrelas começavam a aparecer no céu do cerrado. Ali naquele lugar, numa igrejinha abandonada no meio do nada. Quatro adultos e uma criança tinham mudado o rumo das suas vidas para sempre. Sebastião acendeu o outro cigarro.
E agora? O que vão fazer? Marina olhou para o Gabriel, depois para mim. Não sei ainda. Talvez fiquemos por Brasília mesmo. Recomeçar noutro lugar. Posso sugerir uma coisa? Perguntei. Pode. Que tal ficarmos junto? Eu, vocês os dois, talvez até o Sebastião, uma família de eleição. O Gabriel saltou de alegria.
Sim, quero viver com o avô Gavião. A Marina sorriu. Acho que seria bom para todos nós. Carla guardou o equipamento dela. Bom, pessoal, preciso voltar paraa Brasília. Amanhã cedo vou ter que dar entrevista em cerca de cinco programas de televisão a contar essa história. Carla, já disse, obrigado por tudo. Eu que agradeço.
Vocês deram-me a reportagem da a minha vida. Quando ela se foi embora, ficámos só os quatro na estrada. Sebastião ligou o reboque. “Vamos paraa Brasília?”, perguntou. “Vamos, Marina” respondeu. Vamos começar a nossa vida nova. O Gabriel já estava a adormecer no meu colo quando entramos na carroça. Durante toda aquela loucura, tinha sido o mais corajoso de todos nós.
Gavião, a Marina disse quando já estávamos na estrada. Sabe que mudou as nossas vidas para sempre, não é? Vocês também mudaram a minha. Como me ensinaram que nunca é tarde para fazer o que está certo. A BR040 estendia-se à nossa frente, iluminada pelos faróis da Scânia. Mas desta vez não estávamos a fugir de nada.
Estávamos indo em direção ao futuro. Um futuro onde a verdade tinha vencido a mentira, onde o bem tinha vencido o mal e onde uma família improvisada tinha encontrado aquilo que sempre procurou, um local para chamar de lar. Brasília, às 5 da manhã é uma cidade fantasma. As largas avenidas e os imponentes edifícios parecem ainda mais grandiosos no silêncio da madrugada.
Chegamos à capital federal quando o sol começava a pintar o céu de rosa e laranja e pela primeira vez em dias sentia que estávamos realmente seguros. O delegado António Mendes nos aguardava na sede da Polícia Federal, um imponente edifício no setor policial sul. Era um homem alto, cabelo grisalho, com aquele olhar firme de quem passou a vida combatendo o crime.
Quando nos viu descendo da carreta, veio ao nosso encontro com um sorriso cansado, mas genuíno. “Sebastião, meu velho”, ele disse, abraçando o amigo. “Você conseguiu dar-me o maior presente de Natal da minha carreira. António, estes aqui são os verdadeiros heróis. Sebastião respondeu, me apresentando. Gavião, Marina e Gabriel.
O Gabriel estava tímido, escondido atrás das pernas da mãe. O ambiente oficial da Polícia Federal intimidava o menino, que até então só conhecia autoridades corruptas. Gabriel, o delegado disse ajoelhando-se em frente da criança. Você foi muito corajoso. Graças a si e à sua mãe, vamos prender muitos homens maus.
O senhor vai prender o meu papá? Gabriel perguntou com a voz pequena. Já prendemos esta madrugada. Marina segurou a respiração. Como assim já aprendemos? O António sorriu. Às 3 da manhã, uma operação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público cumpriu 17 mandados de detenção. Cleiton Rodriguees foi o primeiro a ser detido, ainda a dormir na casa dele em Uberlândia.
E os outros? Perguntei. Delegado Carvalho, os capangas Ronaldo e Beto, o contabilista da empresa, dois vereadores, um promotor, todo o esquema desmantelado numa só operação. Sebastião assobiou baixinho. 17 detenções, isso é histórico. E há mais, com base nas provas que vocês trouxeram, conseguimos mandados de busca e apreensão em 12 moradas.
Aprendemos mais de 2 milhões de reais em dinheiro vivo, jóias, carros de luxo e documentos que comprovam outros esquemas. Marina começou a chorar, mas desta vez eram lágrimas de alívio. Quer dizer que acabou, que realmente acabou? Ainda vai ter o julgamento, explicou António. Mas com as provas que trouxeram, é impossível escaparem.
O Cleiton vai apanhar pelo menos 20 anos de prisão. Gabriel puxou as calças ao delegado. Tio polícia, o meu papá nunca mais vai poder magoar a minha mãe. Nunca mais, campeão. Nunca mais. Levaram-nos para uma sala confortável, onde podemos finalmente relaxar. Havia café fresco, pão de açúcar e frutas.
O Gabriel comeu duas bananas seguidas enquanto contava ao delegado sobre os carrinhos que o tio Sebastião tinha-lhe dado. Marina, – disse António, puxando uma cadeira para sentar-se perto dela. Preciso que você saiba que o que fez foi para além de corajoso, foi heróico. Eu só queria proteger o meu filho. E protegendo o seu filho, protegeu centenas de outras pessoas.
Os hospitais que seriam construídos com o dinheiro roubado vão salvar vidas. As escolas vão educar crianças. Não o fez só pela sua família. A Marina olhou para o Gabriel, que estava a desenhar numa folha de papel. Ele vai ter de depor no julgamento. Não, se não quiser. O depoimento gravado ontem já é suficiente. Aliás, por falar nisso, o António pegou no tablet e nos mostrou.
O vosso vídeo já tem mais de 2 milhões de visualizações. Tornou-se o assunto mais comentado do país nas últimas 12 horas. 2 milhões? – perguntei incrédulo. 2.300.000 Para sermos exatos, há gente do Brasil inteiro a enviar mensagem de apoio, oferecendo emprego, casa, ajuda financeira. Sebastião Rio. Gavião, tu tornou-se celebridade.
Não quero ser celebridade. Só quero que esta família fique em paz. O Gabriel veio a correr até nós. Avô Gavião, olha o que eu desenhei. Era um desenho simples, feito com lápis de cera. Mostrava quatro bonecos de palito em frente a uma casa. Um grande com barba, I. Uma mulher com cabelo comprido, Marina. Uma criança no meio, Gabriel, e um homem de óculos a fumar, Sebastião.
Somos nós na nossa casa nova, explicou orgulhoso. Que linda família, disse António. E falando numa casa nova, tenho uma proposta para vocês. Que tipo de proposta? Marina perguntou. O governo federal tem um programa de proteção de testemunhas. Vocês teriam casa, documentos novos, trabalho garantido em qualquer parte do país que escolherem.
Documentos novos significa nomes novos? Perguntei se vocês quiserem. Ou podem manter os nomes e só mudar de cidade. Marina olhou para mim. O que achas, Gavião? Acho que vocês merecem escolher. Passaram tempo demais sendo obrigados a fazer coisas que não queriam. Gabriel largou o desenho e veio sentar-se no meu colo. Vovô, se mudarmos de nome, ainda vais ser o meu avô? Sempre, campeão.
Não importa como nos chamamos. Então eu quero continuar a ser Gabriel. É o nome que a minha mãe escolheu para mim. Marina sorriu. Eu também quero manter o meu nome. Marina Santos sem o Rodriguez. E você, Gavião? Sebastião perguntou: “Valdeci Santos é bom para mim, mas se vocês quiserem mudar para outro estado, vou junto.
E eu?” Sebastião perguntou: “Posso ir junto também?” Gabriel bateu palmas. Sim, o titio Sebastião também é da família. António Rio da Cena. Então está decidido. Vou providenciar a documentação de vocês como uma família. Pai, mãe, filho e avô. Pai e mãe. Marina ficou vermelha. É só para facilitar a burocracia.
Vocês não são obrigados a nada. Olhei para a Marina e ela olhou para mim. Havia algo no ar que não conseguíamos nomear ainda, mas que estava a crescer a cada dia que passávamos juntos. Por enquanto, eu disse, somos uma família de eleição. O resto vemos com o tempo. “Concordo”, disse ela sorrindo. Gabriel não compreendeu a conversa dos adultos, mas estava feliz por ter uma família numerosa.
“Tio António?” perguntou. “O senhor pode vir à nossa casa nova quando ela estiver pronta?” “Claro, Gabriel, vai ser um prazer.” Uma assistente social entrou na sala. “Delegado, a imprensa está do lado de fora. Querem entrevistar a família.” O António olhou para nós. Vocês querem dar entrevista? Não.
A Marina disse rapidamente. Só queremos sossego. Eu falo com eles. Ele disse: “Vou pedir para respeitarem a vossa privacidade. Passámos o resto da manhã a acertar os pormenores da nossa nova vida. Escolhemos Goiânia como a nossa nova cidade, longe de Uberlândia, mas não muito longe de Brasília.
A Marina poderia recomeçar a carreira como contabilista. Sebastião abriria uma empresa de consultoria de segurança e eu, bem, eu continuaria a ser camionista, mas agora com uma família para regressar a casa. Gavião, António disse quando estávamos a sair. Posso te fazer uma pergunta pessoal? Pode. Porque fez isso tudo? Podia ter seguiu viagem nesse dia e fingiu que não viu nada.
A pergunta fez-me pensar nos meus próprios filhos que mal conhecia, na ex-mulher que tinha desistido de mim, nos anos que passei fugindo dos problemas em vez de enfrentá-los. Sabes, António, eu passei a vida inteira na estrada a fugir de responsabilidades. Quando ouvi aquela voz debaixo da terra, soube que não podia fugir mais.
E se arrependeu-se? Olhei para o Gabriel, que estava a dormir no colo da Marina depois de tanto movimento. Foi a melhor decisão que já tomei na vida. Saímos da Polícia Federal ao final da tarde. Lá fora havia alguns jornalistas à espera, mas respeitaram o nosso pedido de privacidade. Sebastião conduziu a carreta até um hotel simples, mas limpo, onde passaríamos a nossa última noite juntos antes de começar a nova vida no quarto de hotel.
Enquanto Gabriel tomava banho, Marina mostrou-se aproximou-se de mim. Gavião, posso-te perguntar uma coisa? Claro. Você tem certeza que quer fazer parte da nossa confusão? Recomeçar a vida aos 54 anos não é fácil. Marina, salvou a minha vida tanto quanto eu salvei a sua. Como assim? deu-me um propósito, deu-me uma família, deu-me uma hipótese de ser a pessoa que sempre quis ser, mas nunca tive coragem.
Ela sorriu e, pela primeira vez deu-me um abraço verdadeiro, não de agradecimento, não de medo, mas de carinho genuíno. “Obrigada por nos escolher”, sussurrou ela. “Obrigado por me deixarem fazer parte”. O Gabriel saiu da casa de banho de pijama com o cabelo molhado e a cheirar a sabonete infantil. Avô Gavião, amanhã a gente vai ver a nossa casa nova. Vamos, campeão.
E vai ter um quintal para eu brincar. Vai ter quintal, piscina, árvore para trepar, tudo o que quiser. E um quarto só meu. Um quarto só seu. O Gabriel pensou por um momento. E se tiver pesadelo, posso dormir convosco? A Marina pegou nele no colo. Sempre, meu amor, sempre. Nessa noite, deitado na cama do hotel, Olhei pela janela as luzes de Brasília.
Algures na cidade, Carla estava provavelmente a trabalhar até tarde, escrevendo outras reportagens sobre corrupção. Em Uberlândia, Cleiton Rodriguees estava numa cela, a pagar pelos crimes que cometeu. E ali no quarto ao lado, uma mulher corajosa e o seu filho dormiam tranquilamente pela primeira vez em meses.
Peguei no meu telemóvel e liguei para o meu filho mais velho. Não falávamos há 3 anos. Alô. Ele atendeu surpreendido. Olá, João. É o pai. Pai. Ena, há quanto tempo. Tudo bem? Tudo bem. Escuta, eu sei que nos afastou, mas será que podemos falar? Claro, pai, podemos sempre falar. João, queria dizer-te que que aprendi algumas coisas importantes estes dias sobre a família, sobre responsabilidade.
Que tipo de coisas? Olhei paraa porta do quarto ao lado, onde a minha nova família dormia. Aprendi que nunca é tarde para fazer o que está certo e que a família não é só sangue, é escolha. Conversamos por mais de uma hora. Pela primeira vez em anos falamos verdadeiramente sobre mágoas, sobre saudades, sobre segundas oportunidades.
Quando desliguei, tinha lágrimas nos olhos. Sebastião estava a fumar na varanda, olhando as estrelas. Tudo bem, gavião? Tudo. Pela primeira vez em anos, tudo está bem. E agora? Pronto para a vida nova? Mais que pronto, apagou o cigarro. Sabe que mudou as nossas vidas para sempre, não é? Vocês mudaram a a minha também.
Como me ensinaram que um herói não é quem não tem medo, é quem faz o que está certo mesmo com medo. E fez a coisa certo, fizemos, todos juntos. No quarto ao lado, ouvi o Gabriel a rir baixinho de algum sonho bom. Pela primeira vez, em 6 anos, o menino estava sonhando em paz e eu também. Amanhã começaríamos a nossa vida nova, uma família improvisada, mas verdadeira.
Uma segunda oportunidade que nenhum de nós esperava, mas que todos merecíamos. A estrada que nos trouxe até ali tinha sido longa e perigosa, mas valeu cada quilómetro percorrido. Três meses depois, estava sentado na varanda da a nossa casa nova em Goiânia, tomando café e a ver o Gabriel brincar no quintal com pipoca, um rafeiro caramelo que ele convenceu a Marina a adotar.
O menino corria atrás do cão entre as mangueiras que plantámos juntos no primeiro fim de semana. rindo daquela gargalhada gostosa que uma criança tem quando está verdadeiramente feliz. A casa ficava num bairro simples, mas tranquilo, no setor das Campinas, três quartos, grande quintal, uma varanda onde podia fumar o meu cigarro de fim de dia sem incomodar ninguém.
Marina tinha decorado tudo com muito carinho, colocando cortinas floridas, comprando plantas para a sala, fazendo com que se torne um lar de verdade. Vovo gavião. Gabriel gritou do quintal. Olha o que a pipoca aprendeu. O cão tinha aprendido a buscar a bolinha que o Gabriel jogava. Coisa simples, mas para o menino era o maior espetáculo do mundo.
“Muito inteligente!”, gritei de volta. Ela é quase tão esperta como você. Gabriel veio a correr paraa varanda suado e feliz. Avô, a mãe disse que hoje tu regresso de viagem. É verdade. É verdade. Na próxima semana não vou viajar. Vamos ficarem todos juntos. Eba! E o titio Sebastião? Vem jantar. Vem. A sua mãe tá fazendo aquele frango assado que ele gosta.
A Marina apareceu à porta da cozinha, limpando as mãos ao avental. Nesses três meses, ela tinha engordado uns quilinhos, coisa boa, porque estava muito magra antes. O rosto estava mais cheio, mais corado, parecia 10 anos mais nova. “Gabriel, vai lavar essas mãos sujas antes do almoço”, disse ela, mas com aquele tom carinhoso que uma mãe usa.
“Já vou, mamã. Só quero contar uma coisa para o avô”. O Gabriel subiu para a minha cadeira de baloiço e ficou sério. Vovô, hoje na escola a professora perguntou sobre a minha família. O meu coração deu uma pequena acelerada. Desde que começou a estudar na nova escola, o Gabriel por vezes fazia perguntas sobre a nossa família diferente.
E o que disse? Falei que a minha família és tu, a mamã e o titio O Sebastião e as pipocas também. E a professora disse alguma coisa? disse que eu tenho sorte em ter uma família que se escolheu por amor. Marina sorriu à porta da cozinha. Nós os dois nunca falámos abertamente sobre o que estava a acontecer entre a gente, mas havia algo a crescer ali, devagar, sem pressa, como planta que brota no tempo certo.
“A tia Márcia tem razão,” disse ao Gabriel. Família de eleição é por vezes mais forte que a família de sangue. Porquê, avô? Porque quando escolhe alguém para ser seu família, é porque realmente ama esta pessoa. Gabriel sentiu-a como se aquilo fizesse todo o sentido no mundo dele. Então escolheu-nos porque nos ama. Escolhi e vocês também me escolheram.
E vamos ficar juntos para sempre. Para sempre, campeão. O Gabriel deu-me um abraço apertado e saiu a correr para lavar as mãos. A Marina veio sentar-se na cadeira ao lado da minha. Como foi a viagem? Ela perguntou. Tranquila, frete para Goiás velho. Voltei ontem à noite, mas vocês já estavam a dormir.
Sentimos a sua falta. Eu também senti falta de vocês. Era verdade. Depois de 30 anos viajando sozinho, regressar a casa tinha se tornado a melhor parte das viagens. Saber que havia pessoas à minha espera, jantar quentinho à mesa, abraço de criança e boa conversa antes de dormir. Marina, já disse, posso perguntar-te uma coisa? Pode.
Arrepende-se de ter mudou de vida, saído de Uberlândia, largou tudo para recomeçar? Ela ficou pensativa por um momento, olhando para o O Gabriel, que brincava com o cão no quintal. Gavião, nos últimos três meses senti-me mais viva que nos últimos 5 anos. O Gabriel ri todos os dias, dorme tranquilo todas as noites.
Tenho um trabalho que gosto, amigos novos, uma casa que é nossa de verdade. E tenho-te a ti e Sebastião. Tenho uma família que me protege, que me respeita, que me faz sentir segura. Mas sente falta de alguma coisa da vida antiga? Da vida antiga? Nada. Do dinheiro que tinha antes, um pouco, mas não faz falta. Da segurança financeira, por vezes.
Mas prefiro ganhar pouco e dormir descansado. Marina levantou-se e foi até à beira da varanda. Gavião, sabes o que mais mudou na minha vida? O quê? Eu voltei a sonhar, literalmente. Fazia anos que eu não sonhava a dormir. Só tinha pesadelos. Agora todas as noites sonho com coisas boas. Que tipo de coisas? Ela coroou um bocadinho.
Sonho com a nossa família a crescer, com Gabriel se formando, casando, dando-me netos. Sonho contigo e comigo envelhecendo juntos nesta casa. As palavras dela apanharam-me desprevenido, não porque fossem estranhas, mas porque sonhava exatamente com as mesmas coisas. Marina, desculpa, disse ela rapidamente. Não quero pressionar-te.
Sei que a nossa situação é complicada, que não se pediu para se tornar pai de família de uma hora para a outra. Levantei-me e fui até onde ela estava. Marina, olha para mim. Ela virou-se meio tímida. Eu tenho 54 anos. Tens 36. Eu sou um camionista com estudo de segundo grau incompleto. É uma mulher formada, inteligente, bonita.
Aonde quer chegar? Quero chegar ao facto de que no papel não combinamos. Mas na vida real, na vida real, na vida real eu nunca fui tão feliz, nunca me senti tão útil, nunca soube o que era o amor de família até vos conhecer. Marina sorriu. Então também sonha com a pessoas a envelhecer juntos? Sonho. E com muito mais do que isso.
Com o quê? Antes que eu pudesse responder, Sebastião chegou buzinando ao portão. O Gabriel saiu apressando-se a abrir, gritando: “Titio Sebastião, titio, Sebastião!” Sebastião saiu do carro carregando sacos de supermercado e presentes para o Gabriel. Nesses três meses, tinha-se tornado oficialmente o tio preferido do menino.
“Olá, pessoal, como estão?” “Titio? A pipoca aprendeu uma coisa nova.” Gabriel falou, saltando de alegria. Aprendeu? Mostra-me. Enquanto Gabriel mostrava os truques do cão, Marina e eu acabámos de preparar o almoço. Trabalhávamos na cozinha como um casal que já estava junto há anos. Ela temperando a salada, eu fritando a mandioca, dividindo as tarefas sem precisar de combinar.
“Gavião”, disse ela baixinho enquanto mexia a panela. Depois acabamos aquela conversa. Terminamos. À mesa do almoço, Sebastião contou as novidades de Uberlândia. O julgamento do Cleiton está marcado para mês que vem. Ministério Público pediu 25 anos de prisão. E os outros? Perguntei. Delegado Carvalho confessou tudo em troca de redução da pena. Os vereadores também.
Só o Cleayon é que está a negar tudo até agora. A Marina ficou tensa. E se ele conseguir livrar-se? Não consegue. Sebastião disse com certeza. As provas são irrefutáveis e há mais. Com as confissões dos outros, descobriram mais dois esquemas nas cidades vizinhas. O gajo vai morrer na cadeia.
O Gabriel, que estava a comer quietinho, levantou a cabeça. Titio Sebastião, o meu papá nunca mais vai sair da cadeia. Nunca mais, campeão. Que bom. Assim ele não pode mais magoar ninguém. A naturalidade com que o menino falava sobre o assunto impressionava-me. Em três meses de terapêutica com uma psicóloga infantil, Gabriel tinha conseguido processar o trauma de uma forma surpreendente.
Gabriel, Sebastião, disse, posso-te contar um segredo? Pode. Semana passada encontrei os seus antigos vizinhos de Uberlândia no supermercado, dona Conceição e o seu Manuel. Eles perguntaram se estava bem. E o que é que o Sr. falou? Eu disse que estavas bem demais, que se tinha tornado um menino ainda mais esperto e corajoso. É verdade.
Agora eu Sei ler as horas no relógio. Sabe mesmo? Mostra-me. O Gabriel correu buscar o despertador da cozinha e mostrou orgulhoso como sabia ler as horas. Depois do almoço, enquanto Gabriel dormia uma sesta e a Marina lavava a louça, eu e o Sebastião ficámos na varanda conversando sobre a vida. “Gavião, ele disse, posso fazer-te uma pergunta indiscreta?” “Pode.
” “Está apaixonado pela Marina?”, A pergunta não me surpreendeu. Sebastião era um homem observador. Estou. E ela por si? Acho que sim. Então porque é que vocês não acertam isso logo? Porque é complicado, Seba. A gente não pode esquecer como tudo começou. Ela saiu de um casamento traumático. O menino ainda tá a recuperar. Não quero apressar as coisas. Gavião.
Olha bem para mim. Vocês já são um casal de facto. Dormem na mesma casa, cuidam do mesmo filho, partilham as mesmas responsabilidades. A única coisa que falta é oficializar. E se correr mal? E se ela descobrir que não sou o homem que ela precisa? Sebastião riu-se. Pá, ela já te descobriu.
Nesses três meses, ela viu-te cansado, preocupado, a lutar com Gabriel quando fez arte, tentando montar aquele guarda-roupa sem saber utilizar a broca. E daí? E daí que ela ainda está aqui? Ainda sorri quando se chega a casa, ainda faz a sua comida preferida. Isto não é amor, é o quê? Marina apareceu à porta da varanda. Estão a falar de mim? Estamos.
Sebastião respondeu sem vergonha. Eu estava a dizer ao Gavião que vocês os dois são parvos. Tolos porquê? Porque são claramente apaixonados um pelo outro e vão enrolando para assumir. A Marina ficou vermelha, mas sorriu. Sebastião, não tem papas na língua mesmo. Na minha idade não dá tempo para rodeios. A vida é curta demasiado para desperdiçar amor.
Gabriel apareceu à porta com cara de sono e o cabelo despenteado. Por que razão estão falando alto? Não estamos a falar alto, filho. A Marina disse. Vem cá. Ainda está com sono? O Gabriel veio acomodar-se no colo da mãe. Mamã, posso fazer uma pergunta? Pode. Porque é que você e o vovô gavião não se casam? A pergunta saiu da boca da criança com uma naturalidade que deixou-nos a todos sem resposta.
Gabriel, Marina começou: “É que na escola a Júlia disse que quando o pai e a mãe vivem na mesma casa e cuidam do filho em conjunto, eles são casados.” Sebastião riu-se baixinho. “A A Júlia tem razão.” continuou Gabriel. E queria muito que vocês fossem casados de verdade. Assim poderia chamar o avô gavião de pai.
Senti o meu coração apertar. Olhei paraa Marina, que estava com os olhos marejados. Gabriel, eu disse, queres mesmo chamar-me pai? Quero. O Senhor cuida de mim, brinca comigo, protege-me. Isso é coisa que o pai faz, não é? Marina limpou uma lágrima. É coisa que um pai faz. Sim. O Gabriel saltou do colo da mãe e veio ter comigo.
Então, avô, quer dizer, pai Gavião, quer se casar com a minha mãe? A pergunta mais importante da minha vida estava a ser feita por uma criança de 6 anos na varanda da nossa casa numa tarde de domingo qualquer em Goiânia. Olhei para Marina. Ela estava à espera da minha resposta com aqueles olhos que me cativaram desde o primeiro dia.
Marina, disse eu levantando-me da cadeira. O Gabriel acabou de me dar coragem para fazer uma coisa que eu tenho vindo a pensar há semanas. O quê? Ajoelhei-me na frente dela, ali na varanda com o Sebastião e Gabriel como testemunhas. Marina Santos, queres casar comigo? Não porque precisamos, não porque seja conveniente, mas porque te amo, porque amo o Gabriel, porque quero passar o resto da vida cuidando de vós e sendo cuidado por vós.
A Marina começou a chorar de verdade agora. Gavião, mãe Gabriel disse, diz que sim, por favor. Marina olhou para mim, depois para o Gabriel, depois para o Sebastião, que estava com um sorriso enorme no rosto. Sim. Ela disse: “Sim, quero casar contigo”. Gabriel explodiu em gritos de alegria. Eba, eba, agora tenho pai e mãe de verdade. Sebastião bateu palmas.
Finalmente! Pensei que vocês nunca se iam decidir. Beijei a Marina ali mesmo na frente do nosso filho e do nosso melhor amigo no quintal da nossa casa, com o som dos passarinhos e das pipocas a ladrar de alegria. Quando nos separamos, O Gabriel estava a abraçar-nos dos dois lados.
Agora somos uma família de verdade, disse ele. Sempre fomos, filho. Eu respondi: “Sempre fomos. Nessa tarde, sentados na varanda da a nossa casa, planear o nosso casamento simples, pensei em como a vida pode mudar de uma hora para a outra. Três meses atrás, eu era um camionista solitário que não falava com os seus próprios filhos. Hoje era um pai de família, noivo da mulher que amava, avô de uma criança que chamava-me herói.
A estrada que me trouxe até ali tinha sido a mais importante da minha vida. E o melhor de tudo é que ela ainda não tinha acabado, estava apenas a começar. Se meses depois do nosso casamento, eu circulava pela BR153 novamente, a mesma estrada onde tudo começou, mas desta vez não estava sozinho.
O Gabriel ia comigo na cabine de férias da escola, vivendo a sua primeira aventura de camionista infantil. Marina tinha resistido um pouco à ideia, mas acabou por concordar quando Gabriel prometeu que seria bem comportado e faria todos os deveres na estrada. Pai, – disse Gabriel, olhando pela janela. É aqui que o Senhor me encontrou? Diminuí a velocidade quando passamos pelo local exato onde tudo começou.
O terreno baldio continuava ali, mas agora tinha uma placa. propriedade da câmara municipal municipal, futuro parque ecológico. É ali, filho, naquele cantinho, perto daquelas árvores. O Gabriel ficou quieto por momentos, observando o local. Pai, posso perguntar-te uma coisa? Pode. Se o senhor não tivesse parado nesse dia, eu e a mamã teríamos morrido? A pergunta apanhou-me desprevenido.
Mesmo passado todo este tempo, Gabriel ainda fazia perguntas que mexiam comigo. Provavelmente sim, filho. Então o Senhor salvou-nos a vida e vocês salvaram a minha. Como assim, Gabriel? Antes de conhecer-te e à tua mãe, eu era um homem triste e solitário. Não tinha qualquer propósito na vida.
Vocês deram-me uma família, deram-me deram amor, fizeram-me querer ser uma pessoa melhor. Gabriel sorriu e se aconchegou-se mais no banco. Então a gente se salvaram mutuamente. Mutuamente. Repeti, impressionado com o vocabulário do menino. Onde aprendeu essa palavra? Na escola. A tia Cláudia disse que é quando duas pessoas se ajudam ao mesmo tempo. A sua tia Cláudia tem razão.
Continuamos viagem até Uberlândia. Era a primeira vez que regressávamos à cidade desde que fugimos. O Gabriel queria conhecer onde tinha nascido e Marina achou importante que ele fizesse as pazes com o passado. Chegamos à cidade ao final da tarde. Tinha mudado pouco, mas para mim parecia um lugar completamente diferente.
Já não era a cidade onde quase morremos. Era apenas mais uma cidade no mapa. Fomos direto pro cemitério, onde estavam sepultados os pais da Marina. O Gabriel nunca tinha conhecido os avós maternos, mas Marina fazia questão de contar histórias sobre eles. O avô António e a avó Rosemeir, Marina disse ajoelhada em frente às lápides.
Este é o Gabriel, o neto de vocês, e este é o Gavião, o meu marido. O Gabriel pôs uma florzinha que tinha colhido no caminho. Olá, avô e avó. Eu Sou o Gabriel. A mamã disse que vocês eram muito bons e que iam gostar muito de mim. A Marina estava a chorar, mas eram lágrimas boas. Pai, mãe! Ela continuou. Voltei a casar com um homem bom que cuida de mim e do Gabriel com muito amor. Vocês iam a provar.
E ficamos ali uns 20 minutos. Gabriel conversou com os avós como se estivessem vivos, contando sobre a escola, sobre as pipocas, sobre a nossa casa nova. Quando estávamos à saída do cemitério, uma mulher se aproximou-se de nós. Marina, Marina, é você? Era a dona Conceição, a vizinha antiga da Marina. Dona Conceição.
Marina abraçou-a. Como está a senhora? Bem, filha. Bem. E este lindo menino deve ser o Gabriel. Sou eu, disse Gabriel educado. E esse é meu pai, gavião. Ah, você é o famoso gavião, o homem que lhes salvou a vida. Somos uma família agora eu disse um pouco constrangido com a fama. Que bom, que bom, Marina.
Não imagina como Fiquei feliz quando soube que vocês estavam bem. E o casamento como foi? A Marina sorriu. Foi lindo, dona Conceição. Simples, mas com muito amor. O nosso casamento tinha sido mesmo simples. Na igrejinha do bairro onde vivíamos, só com o Sebastião, alguns vizinos novos e o delegado António, que fez questão de vir de Brasília para cerimónia.
O Gabriel foi o nosso pagem, todo orgulhoso com o fato novo. E o Cleiton, a dona Conceição, perguntou baixinho, condenado a 22 anos, vai ficar muito tempo preso. Graças a Deus, aquele homem fez-vos muito mal. Gabriel puxou a saia à dona Conceição. O senhor conhece a minha história? Sei sim, meu anjo. Toda a gente aqui sabe.
Você e a sua mãe são muito corajosos. E o meu pai também. Ele é um herói. A Dona Conceição olhou-me com carinho. É sim, meu bem. O seu pai é um herói de verdade. Despedimo-nos da dona Conceição e fomos jantar a um restaurante no centro da cidade. O Gabriel estava entusiasmado por conhecer onde a mãe tinha crescido.
“Mamã”, disse ele enquanto comia um hambúrguer. “Sente saudade de viver aqui?” Não, filho. Esta cidade traz-me más recordações. A nossa vida agora é em Goiânia. Mas não fica triste de ter perdido tudo? A Marina olhou para mim, depois para o Gabriel. Gabriel, sabe o que perdi quando saímos daqui? Casa grande, carro bonito, roupa cara.
Isso mesmo. E sabe o que ganhei? O quê? Paz, liberdade, amor verdadeiro, um marido que me respeita e me protege. E, principalmente, viu filho voltar a sorrir. Gabriel sorriu. Assim, valeu a pena perder as coisas? Valeu muito a pena. Nessa noite no hotel, enquanto Gabriel dormia numa cama de solteiro do nosso lado, eu e a Marina conversamos sobre o futuro.
“Gavião, ela disse baixinho, preciso de te contar uma coisa.” Conta. Estou grávida. Senti o mundo parar por um segundo. Grávida? Tem a certeza? Fiz três testes todos positivos. Estou de dois meses. Olhei para o Gabriel a dormir, depois para a Marina. E como está a se sentindo? Com medo ela admitiu. Medo de que não queira outro filho.
Medo de como o Gabriel vai reagir. Medo de não dar conta. Levantei-me da cama e a abracei. Marina, está a brincar comigo? Eu vou ter um filho meu biológico? Vai, vai ter. Meu Deus do céu, comecei a chorar. Aos 55 anos, eu ia voltar a ser pai, pai de verdade, presente, participativo. “Você está feliz?”, perguntou ela.
“Estou em êxtase. Quando nasceram os meus outros filhos, estive sempre na estrada. Perdi os primeiros passos, as primeiras palavras, tudo. Agora vou poder acompanhar tudo. E o Gabriel? O Gabriel vai ficar louco de alegria. Ele sempre quis um irmãozinho. No dia seguinte, no pequeno-almoço, contámos ao Gabriel. Gabriel, Marina disse: “O papá e a mamã tem uma novidade para lhe contar.
” “Que novidade? Vai ter um irmãozinho?” Eu disse. O Gabriel deixou de mastigar o pão na boca. Irmãozinho, a sério? De verdade? Marina confirmou. O bebé está aqui na barriga da mamã. O Gabriel pulou da cadeira e abraçou Marina. Oba, oba, vou ser irmão mais velho. Vai ser o melhor irmão mais velho do mundo. Eu disse: “Pai, posso escolher o nome do bebé?” Podemos escolher juntos os três.
Se for um rapaz, pode ser o Gavião Júnior, rie alto, pode ser qualquer nome que vocês quiserem. Voltamos paraa Goiânia com uma alegria renovada. O Gabriel não parava de falar sobre o irmãozinho que ia chegar. Sebastião quase desmaiou quando lhe contamos a novidade. Gavião, vais ser pai aos 55 anos. Vou e estou feliz demais.
E eu vou ser tio avô. Ele disse emocionado. Nunca pensei que ia viver para ver isto. Os meses seguintes passaram a voar. Marina teve uma gravidez tranquila. Gabriel ajudava a decorar o quarto do bebé, escolhia roupinhas, conversava com o barriga da mãe todos os dias. “Olá, irmãozinho”, dizia, colando o ouvido na barriga da Marina.
Sou eu, o Gabriel, seu irmão mais velho. Quando você nascer, vou ensinar-te a jogar à bola e a fazer festas às pipocas. Em março, numa manhã de sábado, Marina começou a sentir as contrações. “Gavião”, ela disse, segurando a minha mão. “Acho que é hora. Corremos para o hospital”. Gabriel ficou com Sebastião, mas fez questão de ir junto para conhecer o irmãozinho logo que nascesse.
Às 14:37 de um sábado solarengo, nasceu a nossa filha. É uma menina, anunciou o médico. Uma menininha perfeita com os olhos da mãe e, segundo as enfermeiras, o meu nariz. Como vamos chamá-la? Marina perguntou com a bebé no colo. Esperança. Eu disse sem hesitar. Vamos chamar-lhe esperança. Por quê? Porque foi o que vocês trouxeram para a minha vida. Esperança.
O Gabriel quando conheceu a irmã ficou estasiado. Ela é muito pequenina, ele disse impressionado. E muito gira. Quer pegá-la ao colo? Marina ofereceu. Posso? Pode. Senta-te aqui e apoia bem o bracinho. Gabriel segurou a irmã com todo o cuidado do mundo. Oi, Esperancinha, disse ele baixinho. Sou eu, o Gabriel.
O teu irmão, vou cuidar de ti para sempre. A bebé abriu os olhinhos e pareceu olhar diretamente para Gabriel. Pai, acho que ela me conhece. Claro que conhece. Você conversava com ela todos os os dias. Sebastião estava no canto do quarto a chorar que nem uma criança. Gavião, ele disse, realizaste todos os sonhos que não sabia que tinha. Era verdade.
Ali naquele quarto de hospital, com a minha mulher no leito, o meu filho segurando a minha filha recém-nascida e o meu melhor amigo emocionado no canto, eu Percebi que a vida me tinha dado muito mais do que merecia. Dois anos depois, estou aqui na varanda de casa, escrevendo esta história enquanto A Esperança brinca no colo da mãe e Gabriel ensina a irmãzinha a fazer carinho na pipoca.
Marina está grávida outra vez, mais três meses e vai nascer nosso segundo filho biológico. Pai, O Gabriel chama-me, vem brincar connosco. Já vou, filho. Fecho o caderno onde escrevo as nossas memórias. Uma história que começou com desespero e medo e se transformou na maior aventura de amor da a minha vida.
Às vezes, quando passo pela BR153 a trabalho, olho para o local onde tudo começou. Agora tem uma nova placa, Parque Ecológico da Esperança, em homenagem à família que encontrou esperança, onde parecia haver apenas desespero. Foi ideia do presidente da Câmara quando a nossa história deu origem a um documentário na TV. Achei bonita a homenagem.
Gabriel, que tem agora 9 anos, às vezes pergunta-me se eu me arrependo-me de ter parado naquela estrada naquele dia. Nunca, respondo sempre, foi o melhor travão que dei na vida. Por quê, pai? Porque me trouxe para casa. Hoje, com 58 anos, sou pai de três filhos, Gabriel do Coração, Esperança e logo mais o pequeno António. Nome escolhido em homenagem ao delegado que nos ajudou.
Sou marido de uma mulher que ensinou-me que o amor não tem idade nem origem. Sou amigo de um homem que provou que família se constrói com escolha e lealdade. A minha vida na estrada continua, mas agora cada viagem tem destino certo. Casa. Cada quilómetro percorrido aproxima-me do que realmente importa. A minha família.
E quando Gabriel pergunta-me qual foi a maior carga que já transportei em toda a minha carreira de camionista, respondo sempre a mesma coisa. Foram vocês, filho. Vocês dois naquele primeiro dia, não foram pesados nos braços, mas mudaram o rumo da minha vida para sempre. A estrada que me trouxe até aqui foi longa, perigosa, cheia de curvas inesperadas, mas me levou exatamente onde eu precisava chegar.
levou-me para casa, levou-me paraa família, levou-me para o amor. E essa é a única carga que um homem realmente precisa de carregar na vida. Amor. Tudo o resto é só peso. Há encontros na vida que mudam o destino de uma pessoa para sempre. O meu aconteceu numa estrada qualquer, num dia qualquer, em que duas vidas enterradas na Terra chamaram-me volta à humanidade.
E desde então, cada dia é uma nova estrada, cada amanhecer uma nova viagem, cada abraço dos meus filhos, um novo quilómetro percorrido na direção certa, rumo ao coração. Valdeci Gavião Santos camionista, pai, marido e, sobretudo, homem que aprendeu que parar para ouvir pode ser o maior ato de amor que existe.
E homem encurralado é capaz de qualquer coisa. Hoje completam-se 10 anos desde esse mês de dezembro, quando ouvi uma voz vinda debaixo da terra na BR153. Estou aqui sentado na mesma varanda onde Pedi a Marina em casamento, mas agora observando uma cena que nunca imaginei que viveria. Gabriel, com 16 anos, ensinando a sua irmã Esperança de oito e o seu irmão António de seis, a trocar o óleo da minha Scânia nova.
A Marina está na cozinha a preparar o almoço de domingo, trauteando uma música sertaneja enquanto tempera o frango assado que se tornou uma tradição da família. Sebastião, agora com 72 anos, mas ainda cheio de energia, chegará daqui a pouco com a sua nova namorada, a dona Carmen, uma viúva de 60 anos que conheceu no supermercado e que conquistou Gabriel fazendo o melhor brigadeiro que o menino já provou na vida.
A vida ensinou-nos que família não é apenas sangue, mas principalmente a escolha, o cuidado e a presença. O Gabriel nunca mais perguntou sobre Cleiton, que morreu na prisão há três anos de enfarte fulminante. Quando soubemos da notícia, a Marina chorou, não de saudade, mas de alívio definitivo. Gabriel apenas disse que agora tinha certeza de que o homem mau nunca mais poderia magoar ninguém.
Os nossos filhos mais novos sabem que têm um irmão mais velho, que não nasceu da mesma barriga, mas que isso nunca fez qualquer diferença no amor que sentimos por todos eles. Esperança, que herdou a coragem da mãe e a minha teimosia, já declarou que vai ser delegada federal quando crescer para prender todos os papás malvados do mundo.
António, quieto e observador, prefere os livros e sonha ser escritor para contar histórias bonitas como a da nossa família. A minha empresa de transportes, Gavião Transportes, família em movimento, cresceu e hoje emprego 12 camionistas, todos homens de confiança que conhecem a nossa história e partilham dos mesmos valores de honestidade e solidariedade.
Marina licenciou-se em direito aos 42 anos e hoje trabalha como advogada voluntária no Centro de Defesa da Mulher de Goiânia, ajudando outras mulheres que passaram pelo que ela passou. Sebastião abriu uma escola de formação para seguranças e tornou-se referência na área, sendo procurado por empresas de todo o Centro-Oeste.
Mas o que mais me orgulha é saber que a nossa história inspirou a criação da Lei Marina Santos, aprovado no Congresso Nacional, que garante proteção especial para as famílias que denunciam esquemas de corrupção e branqueamento de capitais. O documentário sobre a nossa vida Enterrados Vivos, uma história de coragem, ganhou três prémios nacionais e foi vendido a dezenas de países.
Os royalties do filme financiaram a construção de uma creche no bairro onde vivemos, batizada de creche esperança, onde dezenas de as crianças brincam e aprendem todos os dias. O Gabriel, que hoje é um jovem auto e responsável, trabalha a tempo parcial na empresa familiar e estuda engenharia. Já disse que quer modernizar a nossa frota com camiões ecológicos, porque a estrada precisa de ser preservada para as próximas famílias que se vão encontrar nela.
Eu e a Marina tivemos mais um filho, o pequeno Sebastião, de 2 anos, que é a cara do padrinho e já demonstra a mesma vocação para fazer rir toda a gente. Às vezes, quando estou a conduzir sozinho pela estrada, penso no homem que fui antes daquele fatídico Dezembro. Um homem vazio, amargurado, que fugia dos próprios sentimentos e responsabilidades.
Penso nos filhos que mal conhecia, na ex-mulher que desistiu de mim, nos anos desperdiçados em solidão e ressentimento. Mas também penso na providência divina que me fez parar naquele preciso momento, naquele exato lugar, para ouvir uma voz que mudasse tudo. Não foi coincidência, foi destino, cumprindo o seu papel de unir pessoas que precisavam uma das outras.
O Gabriel me perguntou ontem se me arrependo de alguma coisa nestes 10 anos. Respondi que me arrependo apenas de não ter aprendeu antes que amar é mais importante que fugir, que cuidar é mais gratificante que abandonar, que construir uma família é o maior projeto que um homem pode ter na vida. Ele sorriu e disse que eu não tinha de me arrepender de nada, porque se tudo tivesse acontecido de forma diferente, talvez a gente não se tivesse encontrado.
A sabedoria deste menino, que hoje é quase um homem, continua a surpreender-me todos os dias. Marina está grávida novamente. Aos 45 anos, carrega a nossa quinta criança, que chegará em setembro. Os médicos disseram que é uma menina e já decidimos que se vai chamar vitória, porque representa a nossa vitória definitiva sobre o medo, sobre a maldade, sobre tudo o que tentou nos separar.
Gabriel está eufórico com a ideia de ter mais uma irmã. Esperança já escolheu as roupinhas que vai emprestar. António começou a escrever um livro de histórias para a bebé que está a chegar e o pequeno Sebastião anda a apontar para a barriga da mãe, falando: “Nenê, nenê!” Com o maior orgulho do mundo. Ontem à noite, depois de as crianças dormiram, eu e a Marina fomos caminhar pelo bairro, como fazemos toda a sexta-feira há 9 anos.
Passamos em frente ao Parque Esperança da nossa rua, diferente do outro, na BR153, este foi uma criação da autarquia local em homenagem à nossa filha, onde várias famílias levam os seus filhos a brincar. Uma mãe aproximou-se de nós e disse: “Vocês são o casal da história do camionista, não são? A minha filha conhece a história de cor e diz que quando crescer quer casar com um homem igual ao seu gavião.
Marina riu-se e respondeu: “Diz à tua filha que o importante é casar com alguém que a escute, que a proteja e que escolha estar ao lado dela todos os dias, mesmo quando é difícil”. A mulher emocionou-se e foi-se embora, dizendo que contaria que para a filha. Hoje é domingo e como todos os domingo dos últimos 10 anos, a nossa mesa estará cheia.
Sebastião e a dona Carmen, o delegado António Mendes, que se tornou compadre e melhor amigo, a jornalista Carla Mendonça, que se tornou madrinha de esperança, alguns dos meus camionistas com as suas famílias, vizinhos que se tornaram irmãos e, principalmente nós os cinco, que começámos sendo três numa fuga desesperada. E hoje somos uma família completa, forte, feliz.
Gabriel vai contar sobre a prova de matemática que passou com nota máxima. A Esperança vai mostrar o desenho que fez na escola sobre profissões que salvam pessoas. O António vai ler o novo poema que escreveu sobre os camiões voadores e o pequeno Sebastião vai correr pela casa fazendo rir toda a gente com as suas travessuras. À tarde, depois de todos se irem embora, vou sentar-me aqui na varanda com a Marina e vamos falar sobre o futuro, sobre os sonhos que ainda temos pela frente, sobre os planos para a chegada da vitória. Vamos recordar a viagem que
nos trouxe até aqui e agradecer por cada obstáculo ultrapassado, por cada lágrima enxugada, por cada sorriso conquistado. E quando as crianças estiverem a dormir, vou pegar no meu violão velho e tocar aquela música que compus para a Marina no o nosso primeiro aniversário de casamento. Tiraste-me da estrada da solidão e me colocou na Avenida do Amor.
Sei que a nossa história inspirou muitas pessoas pelo Brasil fora. Recebo cartas semanal de homens que decidiram deixar de fugir das suas responsabilidades, de mulheres que encontraram a coragem para deixar relações abusivas, de famílias que se reencontraram depois de anos separadas. Isso enche-me de orgulho, mas também de responsabilidade, porque a nossa história prova que nunca é tarde para recomeçar, que o amor verdadeiro pode nascer nas circunstâncias mais improváveis, que a A coragem de uma pessoa pode transformar a
vida de muitas outras. Se eu pudesse recuar no tempo e falar com o gavião de Há 10 anos, diria-lhe para ter fé que a vida estava a preparar o maior presente que ele poderia receber. diria que vale a pena parar, vale a pena escutar, vale a pena arriscar tudo pelo amor. Diria que a família não é destino, é construção diária, é escolha renovada a cada manhã.
E principalmente diria que Deus coloca pessoas no nosso caminho exatamente na altura certa, mesmo quando achamos que é a altura errada. Hoje, aos 63 anos, conduzindo as minhas carretas pelas estradas do Brasil, já não sou um homem a fugir da vida. Sou um homem correndo para casa, para os braços da esposa que escolhi amar todos os dias, para o abraço dos filhos que me ensinaram o verdadeiro significado da paternidade, para a mesa farta, onde todos têm lugar, para a varanda, onde os os sonhos tornam-se planos e os planos tornam-se tornam realidade. A estrada continua
sendo o meu escritório, mas a minha casa é o meu coração. E no meu coração não cabe mais solidão, já não cabe o medo, não cabe mais fuga, só cabe amor, só cabe família, só cabe gratidão. Porque às vezes a vida enterra-nos em situações que parecem impossíveis, mas há sempre alguém disposto a parar, a escutar, a escavar com as próprias mãos até nos tirar de lá.
E, por vezes, nós somos essa pessoa para alguém. O importante é nunca passar direto quando ouvimos uma voz a pedir socorro. O importante é parar sempre, escutar sempre, estender sempre a mão, porque do outro lado pode estar esperando não apenas uma vida para salvar, mas uma família inteira para descobrir, um amor para viver, um futuro construir, como aconteceu comigo naquela tarde de dezembro, quando duas vozes debaixo da terra chamaram-me regresso à vida e ensinaram-me que a maior viagem que um homem pode fazer é a viagem de regresso a casa.