Você Não VAI ACREDITAR no que o PASTOR fez com Essa IRMÃ depois do culto. É Chocante.
A paz do Senhor, meus queridos irmãos em Cristo. O meu nome é Rute Ferreira dos Santos, tenho 74 anos e hoje sou conhecida no bairro como aquela senhora alta, de óculos, sempre de preto, que passa as tardes a conversar com as mulheres mais novas da igreja. Muita pessoas me procuram pedindo oração, pedindo conselho, mas nem sempre foi assim.
Houve um tempo em que eu era apenas uma sombra, uma mulher destroçada que mal conseguia olhar para o próprio reflexo no espelho. Se prepare-se para acompanhar mais uma história emocionante. Mas antes de começar, subscreva aqui o canal. Isso ajuda-me a continuar a contar essas histórias e faz toda a diferença para que mais pessoas também possam ouvir.
Preciso de pedir desculpa logo de início. Os factos que vou narrar aconteceram há mais de 40 anos. A minha memória já não é mais tão firme como antes. Posso confundir algumas datas, alterar a ordem de certos acontecimentos menores. Mas uma coisa garanto com toda a certeza, os momentos mais importantes, aqueles que mudaram a minha vida para sempre.
Esses estão gravados na minha alma como se tivessem acontecido ontem. E é sobre eles que vou falar. Tudo começou numa época muito difícil da minha vida. Eu era casada com Almir Santos, um homem que bebia demais. e tratava-me como se eu não valesse nada. Ele trabalhava como pedreiro quando queria, mas passava mais tempo no bar do que em casa.
Costurava para fora, fazendo bainha de calças, ajustando vestido, arranjando o que aparecia. Era o meu dinheiro que pagava a renda do Casebre onde morávamos. Mas, mesmo assim, o Almir fez-me humilhava à frente dos vizinhos. dizia que eu era feia, que era inútil, que tinha sorte em ter um homem como ele. O cheiro a aguardente na roupa dele dava-me ânsia.
O som da porta a bater quando ele chegava de madrugada fazia-me encolher na cama. Eu vivia com medo, mas nem sabia bem de quê. Medo de ficar, medo de sair, medo de tudo. Mas o pior tinha acontecido 4 anos antes de eu conhecer a igreja. Eu tinha um filho, um lindo bebé chamado Samuel. Ele tinha apenas seis meses quando começou com febre alta e uma tosse que não passava.
Implorei ao Almir que me levasse ao hospital. Era noite, chovia e não tinha dinheiro para o táxi. Ele estava bêbado, atirado para o sofá e disse-me para deixar de frescuras que as crianças têm febre mesmo. Que ia passar. Não passou. Na manhã seguinte, quando finalmente Consegui dinheiro emprestado com a vizinha e corri para o centro de saúde, já era tarde.
O Samuel morreu nos meus braços de complicações respiratórias. “Pneumonia”, disseram os médicos. “Se tivesse chegado mais cedo, talvez tivesse salvado.” Nunca perdoei a Mir, mas pior do que isso, nunca me perdoei a mim mesma. Fiquei a acreditar que Deus tinha castigado-me, que eu devia ter feito algo de demasiado errado para merecer perder meu filho.

Assim, carregava uma culpa que pesava mais do que qualquer saco de cimento que Almir já carregou na vida. Depois de Samuel morrer, eu tornei-me uma morta viva. Costurava de dia, chorava de noite. Não tinha amigas, não tinha família por perto, vivia naquele silêncio pesado que sufoca aos poucos. Até que o Almir finalmente me abandonou.
Foi no início de 1981. Arranjou outra mulher, mas nova e foi embora sem olhar para trás. Mas antes de ir, espalhou no bairro todo que eu estava a ficar louca, que falava sozinha, que não prestava para mais nada. As vizinhas começaram a olhar para mim diferente, com pena, misturada com medo. Fiquei sozinha naquele casebre, completamente sozinha.
Foi aí que o fundo do poço me chamou. Uma noite, sentada na cozinha, olhei para a faca que utilizava para cortar tecido. Pensei que seria tão fácil acabar com tudo aquilo, sem dor, sem culpa, sem Almir, sem a lembrança de Samuel a perseguir-me todas as madrugadas. Peguei na faca, senti o metal frio na palma da mão, mas algo me segurou.
Não foi uma voz, não foi uma visão, foi apenas uma sensação, um aperto no peito que me fez largar aquilo e desabar no chão a chorar. Chorei a noite inteira. No dia seguinte, acordei cansada, mas viva. Foi numa tarde de Abril desse ano que a vizinha do lado, dona Marlene, bateu-me à porta. Ela frequentava uma igreja evangélica e me convidou para ir com ela no domingo.
Eu nem acreditava muito em Deus naquela época. Achava que ele se tinha esquecido de mim já há algum tempo, mas também já não tinha nada a perder. Aceitei só para não ficar sozinha mais um domingo. A igreja do O Caminho da Luz ficava a três quarteirões de casa. Era um edifício pequeno, pintado de branco e azul, com um portão de ferro que rangia quando abria.
Entrei devagar, sentei-me no último banco, mesmo no canto. O culto estava cheio. As pessoas cantavam alto, batiam palmas, levantavam as mãos. Eu só observava desconfiada de tudo aquilo. O pastor era um homem com cerca de 40 anos, fato escuro, voz mansa, mas firme. Ele pregou sobre o amor de Deus, sobre como Jesus veio buscar os perdidos, os quebrados, os rejeitados.
Eu ouvia, mas não sentia nada. Pensava que aquilo não era para mim. Quando o culto terminou, eu já se estava a levantar para ir embora. Mas uma senhora baixinha, rechonchuda, de cabelo branco, aproximou-se de mim. Era dona Cida, a cozinheira da igreja. Ela abraçou-me, simplesmente abraçou-me, sem perguntar nada, sem me conhecer, e disse: “Sê bem-vinda, filha.
Estás em casa agora”. Depois levou-me até ao pequena cozinha nas traseiras da igreja e deu-me um prato de comida. Arroz, feijão, um pedaço de frango, comida quente feita com carinho. Eu nem me lembro quando foi a última vez que alguém tinha feito comida para mim. Sentei-me ali naquela cozinha a cheirar a tempero, e chorei enquanto comia.
Voltei no domingo seguinte e no outro e no outro. Dona A Cida esperava-me sempre com um sorriso e um abraço. O pastor Elias, descobri que era esse o nome dele. Sempre vinha conversar comigo depois dos cultos. Perguntava como estava, se precisava de algo. Ele tinha um jeito de olhar para as pessoas que nos fazia se sentir importante.
Três semanas depois, chamou-me para uma conversa. Perguntou se eu queria entregar a minha vida a Jesus, se queria fazer parte daquela família. Eu nem sabia bem o que aquilo significava. Mas eu queria pertencer a algum lugar. Gostava de não estar mais sozinha. Disse que sim. No culto seguinte, aceitei Jesus publicamente.
Fui até à frente, todo mundo a rezar por mim. E o pastor Elias colocou a mão na minha cabeça e pediu que Deus me curasse de toda a dor. Chorei tanto que mal conseguia respirar. O batismo foi duas semanas depois. Entrei naquela água sentindo o peso de tudo o que eu carregava. Quando o pastor me mergulhou e levantou-me, senti algo diferente.
Não foi magia, não foi um milagre instantâneo, mas foi como se, pela primeira vez em anos, talvez desde a morte de Samuel, consegui respirar de verdade. Saí daquela água chorando, a tremer, molhada e fria, mas também saí com uma coisa que não tinha há muito tempo. Esperança. Talvez, apenas talvez Deus ainda pudesse amar-me, apesar de tudo.
Os primeiros meses depois do batismo foram como acordar de um pesadelo longo e perceber que o sol ainda existe. Eu estava encantada com tudo. Ia para a igreja três vezes por semana. Domingo de manhã, quarta-feira à noite e sábado para o ensaio do coral. Não cantava bem, mas gostava de estar ali no meio daquelas vozes que se elevavam juntas.
A Dona Cida colocou-me para ajudar na cozinha. Eu descascava batatas, lavava a panela, arrumava as mesas para o café depois do culto. Gostava de trabalhar em silêncio enquanto ouvia as irmãs a conversar, a rir, a contar da semana. Era como se finalmente fizesse parte de algo.
Foi ali na cozinha que conhecia a irmã Lúcia, uma mulher alegre, cheinha, que vivia com a voz alta e o sorriso fácil. Tinha quatro filhos pequenos e vivia a queixar-se deles, mas era daquele jeito carinhoso de reclamar. Contava-me das traquinagens dos meninos, das contas apertadas no final do mês, do marido mecânico, que por vezes se esquecia de lavar a mão e sujava tudo de gordura.
Eu ouvia e ria. Fazia tempo que não ria, de verdade. Conheci também o Jonas, um jovem diácono com cerca de 25 anos. Ele era magro, alto, sempre arranjado e tinha um forma gentil de falar. Cada vez que eu chegava à igreja, ele vinha cumprimentar, perguntar se estava bem, se precisava de alguma coisa. No início, achei estranho.
Não estava habituada a homem que tratasse mulher com respeito, mas percebi que era apenas o jeito dele, um coração bom mesmo. O pastor Elias Moura era o centro de tudo. Quando pregava, toda a igreja ficava em silêncio. Ele falava com uma autoridade que nunca tinha visto. Dizia que conseguia ver o mundo espiritual.
que Deus mostrava coisas para ele que outros não viam. As pessoas acreditavam em cada palavra. Eu também acreditava. Ele pregava sobre a batalha espiritual, sobre os anjos e os demónios, sobre a forma como o inimigo atacava as famílias. dizia coisas que me arrepiavam, mas ao mesmo tempo era como se ele soubesse tudo, como se nada escapasse dos olhos dele.
Eu sentia-me segura ali. Finalmente havia alguém que entendia as coisas de Deus de verdade. Foi num culto de domingo, cerca de dois meses depois do meu batismo, que aconteceu algo que me marcou profundamente. O pastor Elias estava a orar pelas pessoas em frente da igreja. Ele ia de um em um, colocava a mão na cabeça e rezava alto, pedindo que Deus revelasse o que estava escondido.
Quando chegou a minha vez, ele colocou a mão na minha testa, ficou em silêncio durante uns segundos, depois disse alto para todos ouvirem. Há uma criança nos braços do Senhor, uma criança que partiu cedo demais. E Deus quer curar essa dor no seu coração. Ele quer que saiba que o seu filho está bem, que está seguro, que está em paz. Fiquei paralisada.
Eu nunca tinha contado a ninguém daquela igreja sobre o Samuel, nem para a dona Cida, nem para a irmã Lúcia, para ninguém. Como o pastor sabia? Será que Deus tinha mesmo revelado aquilo a ele? Será que Samuel estava mesmo bem? Desabei ali mesmo. Chorei tanto que mal conseguia ficar em pé. O pastor continuou a rezar, pedindo que Deus me libertasse da culpa, que me curasse das feridas.
As irmãs em volta colocaram as mãos em mim e rezaram junto. Sentia o calor daquelas mãos, ouvia aquelas vozes a subir e pela primeira vez desde a morte do meu filho, senti que talvez Deus realmente me visse, que ele sabia da minha dor. Saí daquele culto diferente, mais ligeiro, com uma sensação de que finalmente Deus tinha falado comigo através do pastor.
Aquilo aumentou ainda mais a minha admiração por ele. Pensei: “Este homem tem realmente uma ligação especial com Deus.” Mas nem tudo era perfeito. Tinha uma irmã na igreja chamada Teresa Batista. Ela era mais velha, já estava ali havia muitos anos e tinha um jeito duro de ser. Usava um vestido comprido e florido.
Prendia o cabelo num carrapito bem apertado e andava sempre com uma bíblia grande debaixo do braço. Ela olhava-me de um modo estranho. Não era um olhar mau exatamente, mas era desconfiado. Quando eu ajudava na cozinha, ela fazia comentários do tipo: “Novas convertidas querem sempre aparecer demais logo no começo”.
Ou então há pessoas que vêm para igreja à procura de atenção, não procurando a Deus. Eu fingia que não ouvia. Não queria brigas, não queria confusões, só queria aquele lugar de paz que eu tinha encontrado. Mas o olhar duro da irmã Teresa fez-me incomodava, fazia-me sentir que não era bem-vinda de verdade. Fui numa tarde, depois de um culto de quarta-feira, que finalmente desabafei com a dona Cida.
Estávamos sozinhas na cozinha a lavar as últimas panelas. Eu disse baixinho que sentia a falta do meu filho todos os dias, que ainda carregava uma culpa enorme por não o ter conseguido salvar. A Dona Cida deixou de lavar a panela, secou as mãos no avental e abraçou-me. Ela cheirava a sabão e a comida caseira.
Disse: “Filha, Deus nunca te castigou. O que aconteceu ao seu menino foi uma tragédia, mas não foi um castigo. Deus chora contigo por aquele bebé e agora ele quer curar-te, não condenar-te.” Então ela rezou por mim. Não foi aquela oração alta e cheia de autoridade como o pastor fazia.
Foi uma oração simples, sussurrada, mas tão cheia de amor, que senti cada palavra a entrar no meu peito. Nessa noite, quando voltei para o meu Casebre, ajoelhei-me do lado da cama. Agradeci a Deus pela igreja, pelo pastor, pela dona Cida, pela irmã Lúcia, pelo Jonas. Agradeci por não estar mais sozinha.
Agradeci porque, pela primeira vez em tanto tempo, sentia que a minha vida estava a recomeçar de verdade. Olhei para o teto rachado do quarto, para a parede descascada, para o colchão fino em cima do estrado de madeira. Nada tinha mudado por fora, mas por dentro algo estava diferente. Eu tinha esperança, eu tinha uma família, eu tinha um lugar onde pertencer.
Aquela A quarta-feira de junho começou como qualquer outra. O calor do dia ainda colava-se à pele quando a noite chegou. Saí de casa cedo para o culto, levando comigo apenas a Bíblia que tinha ganho no batismo e um lenço para enxugar o suor. As ruas do Recife cheiravam afrituras das casas e ao cheiro forte dos esgoto que subia dos boeiros.
Caminhei rápido, ansiosa por chegar. O culto daquela noite foi diferente desde o início. O pastor Elias pregou com uma intensidade que nunca tinha visto. Ele falava sobre a batalha espiritual, sobre como o inimigo rondava na igreja tentando derrubar os fiéis, sobre a necessidade de discernir os espíritos. Sua voz subia e descia.
Ora mansa, ora trovejante. As pessoas respondiam com amém alto. Umas choravam, outras levantavam as mãos a tremer. Eu estava ali no meio, de olhos fechados, a rezar, como tinha aprendido. Sentia o calor daquela igreja apinhada. Ouvia o barulho dos velhos ventiladores a rodar no teto, o cheiro a suor misturado com perfume barato.
Orava fervorosamente, pedindo que Deus me protegesse, que me ensinasse a discernir o bem do mal. Quando o culto terminou, as pessoas começaram a sair aos poucos. A Dona Cida foi para a cozinha guardar as coisas. A Irmã Lúcia saiu apressada, levando os filhos que já estavam com sono. Eu estava a juntar a minha Bíblia para ir embora quando senti uma mão leve no meu ombro.
Era o pastor Elias. Ele inclinou-se um pouco e disse baixinho, quase sussurrando no meu ouvido: “Irmã Rute, o Espírito Santo me incomodou durante a pregação. Preciso rezar pela senhora, mas precisa de ser a sós. A senhora pode acompanhar-me até ao sala de intercessão?” O meu coração disparou. O pastor raramente o fazia.
Orar pessoalmente, em privado, era uma honra que dava apenas para casos especiais. Senti-me escolhida, importante. Disse que sim com a cabeça, sem conseguir falar corretamente. Segui-o pelos corredores estreitos da igreja. Os nossos passos ecoavam no piso de cimento frio. Passamos pelo púlpito, pela pequena sacristia, até chegarmos a uma porta de madeira no fundo.
Ele abriu devagar. A porta rangeu. A sala era minúscula, apenas duas cadeiras de plástico e uma pequena mesa com uma bíblia em cima. Uma lâmpada amarela pendia do tecto, lançando sombras nos cantos. Cheirava a mofo e a cera de vela. O ar estava parado, abafado. O O pastor Elias fechou a porta atrás de nós.
O som da tranca a encaixar me fez engolir em seco. Ele indicou o chão. Vamos ajoelhar-nos aqui mesmo, irmã. Deus quer falar algo importante. Ajoelhei. O chão era gelado, duro. Ele ajoelhou-se ao meu lado, tão perto que Sentia o calor do corpo dele. Pegou a minha mão. A mão dele estava húmida, demasiado quente. Então começou a orar. Mas a voz já não era aquela voz mansa que eu conhecia.
Era diferente, mais pesada, mais grossa, como se viesse de um lugar fundo, de dentro do peito. As as palavras saíam lentas, arrastadas, quase gulturais. Senhor, mostra a esta serva o que o Senhor quer revelar. Abra os olhos espirituais dela. Que ela veja o que precisa de ver. Que ela dissirna, que ela entenda. Apertou-me a mão com força. Doeu.
Continuou. Feche os olhos, irmã. Feche bem fechado. E clame. Clame com toda a força. Deixe o espírito tomar conta. Fechei os olhos. Comecei a rezar em voz alta, da forma como via as pessoas fazendo nos cultos, quase gritando, pedindo que Deus me mostrasse, que me revelasse, que me usasse, mas algo estava errado.
Não sentia paz, não sentia presença divina, sentia algo pesado, opressivo, como se o ar tivesse tornado mais denso, mais difícil de respirar. O meu coração batia cada vez mais rápido, um aperto no peito, um frio na borbulha, apesar do calor. E então, não sei porquê, abri os olhos. O que vi me congelou. O pastor Elias estava imóvel.
O seu rosto estava tenso, quase contorcido, como se estivesse a fazer força para segurar algo dentro de si. Os olhos fechados com força, a boca entreaberta. E atrás dele, por um instante que pareceu durar uma eternidade, viu uma sombra. Não era uma sombra normal, não era ausência de luz, era algo, uma presença, algo alto, negro, desforme, que parecia envolver ele, dominá-lo, sugar-lhe.
Tinha contornos que se moviam, que pulsavam. Recuei instintivamente. Bati com as costas na parede, o coração disparado, a respiração presa. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Então o pastor abriu os olhos lentamente, muito lentamente, e sorriu. Mas não era um sorriso normal. Era estranho, torto, como se outra pessoa estivesse por trás daquele rosto.
Ele perguntou com voz baixa e rouca. Também viu, não foi? O espírito que tentava manifestar-se contra nós, o inimigo querendo-nos atacar. Eu não conseguia falar. Minha boca estava seca como areia, a língua colada no céu da boca. Apenas balancei a cabeça sem saber se estava a concordar ou negando. Ele colocou a mão no meu ombro.
O toque era demasiado firme, quase agressivo. Os dedos apertavam a minha carne. Ele disse: “A senhora tem especial sensibilidade espiritual, irmã Rute. Deus está a abrir-lhe os olhos, mas isto significa que o inimigo também vai atacar mais. Precisamos de rezar juntos mais vezes. A senhora precisa de vir aqui regularmente para que possa fortalecer a sua proteção espiritual.
” Tentei levantar-me, as pernas tremiam. Ele ajudou-me a ficar de pé, segurando o meu braço. Abriu a porta. O corredor parecia diferente agora, mais escuro, mais longo. Saí daquela sala cambaleando. Mal despedi. Atravessei a igreja vazia, quase a correr. Empurrei o portão de ferro que rangeu alto na noite.
Caminhei pelas ruas escuras do Recife, sentindo que algo tinha mudado para sempre. Quando cheguei a casa, tranquei a porta, encostei uma cadeira, sentei-me na beirada da cama e fiquei ali parada, revivendo tudo. A voz diferente, o rosto contorcido, a sombra, aquela sombra. O que era aquilo? Era real ou imaginação? Era um teste de Deus? Era o diabo a tentar confundir-me? Será que estava a ficar louca de verdade, como dizia Almir? Não consegui dormir a noite inteira.
Cada vez que fechava os olhos, via aquela sombra envolvendo o pastor e aquele sorriso estranho e aquela mão a apertar o meu ombro com demasiada força. Quando amanheceu, eu ainda estava sentada na cama, a tremer, com a mesma roupa do culto, tentando perceber o que tinha acontecido naquela sala. Os dias seguintes foram os mais confusos da a minha vida.
Eu tentava continuar tudo normal, ia à igreja, ajudava na cozinha, cantava no coro, mas por lá dentro estava um turbilhão de perguntas sem resposta. Será que o que vi foi real? Será que era o inimigo a tentar-me atacar, fazendo-me ver coisas que não existiam? Ou será que Deus me estava a mostrando algo? Como saber a diferença? Cada vez que via o pastor Elias pregando, o meu corpo ficava tenso.
Observava cada gesto, cada palavra, à procura de algum sinal. Ele parecia normal. Sorria para as pessoas, cumprimentava as crianças, rezava pelos doentes. Nada de diferente. Será que eu tinha inventado tudo na minha cabeça? Mas não conseguia esquecer a sensação daquela sala, o peso no ar, a voz gultural, a sombra.
Foi numa tarde, depois de um culto dominical, que arranjei um momento a sós com a dona Cida na cozinha. As outras irmãs tinham ido embora. Estávamos só nós as duas a lavar os pratos do café? Perguntei, tentando soar casual. A Irmã Cida, como a gente sabe quando uma revelação vem de Deus e quando vem de outro lugar? Ela parou de esfregar a panela e olhou para mim com aqueles pequenos olhos e brilhantes.
Porquê a pergunta, filha? Hesitei. Não podia contar tudo. Não, ainda. É que às vezes fico confusa. Tanta coisa espiritual a acontecer, tanto poder, tantas revelações. Como saber o que é verdade? A Dona Cida secou as mãos no avental, pegou na minha mão molhada de sabão e disse: “Filha, a árvore é conhecida pelos frutos. Se uma coisa traz paz, alegria, liberdade, é de Deus.
Se traz confusão, medo, prisão, não é. Simples assim. Aquelas palavras ficaram a ecoar na minha cabeça. Frutos. Observar os frutos. Então comecei a prestar atenção, não apenas ao que eu sentia, mas naquilo que via. Durante os cultos seguintes, observei as pessoas que passavam pelas orações fortes com o pastor Elias. Saíam exaustas, olhos vermelhos, tremendo.
Algumas choravam durante horas depois, sentadas nos bancos vazios. Outras voltavam todas as semanas pedindo mais oração, como se nunca fosse suficiente, como se nunca estivessem livres de verdade. Vi uma irmã que o pastor tinha orado dizendo que ela estava liberta da depressão, mas ela continuava triste, arrastada, tomando os mesmos medicamentos, só que agora com culpa por ainda estar deprimida depois de uma oração tão poderosa.
Vi também como ele usava informações. Num culto, o pastor Elias revelou pormenores da vida de uma irmã chamada Miriam, coisas íntimas. Disse que Deus lhe tinha mostrado que ela tinha um pecado escondido relacionado com dinheiro. Miriam ficou vermelha, envergonhada, mas sorriu e disse: “Amém”. Depois do culto, soube que ela lhe tinha contado aquilo num aconselhamento particular dias antes. Aquilo incomodou-me.
Se era revelação divina, por que razão Deus revelaria algo que a pessoa já tinha contado? Encontrei o Jonas num sábado à tarde. Ele estava a arrumar as cadeiras da igreja para o culto da noite. Fiquei ajudando e quando ficamos sozinhos comentei baixinho: “Jonas, não achas que algumas coisas aqui na igreja são meio estranhas?” Parou o que estava fazendo e olhou-me assustado.
Que tipo de coisas? Não sei explicar bem. Só acho que nem tudo o que parece espiritual realmente é. Jonas ficou em silêncio durante um tempo, depois disse, quase sussurrando: “Eu também noto umas coisas, mas quem somos nós para julgar o ungido de Deus? E se estivermos enganados? E se for o diabo a plantar a dúvida?” Tinha medo nos olhos dele.
Medo de questionar, medo de estar errado, medo de Deus? Foi neste período que uma jovem nova apareceu na igreja. Ela chamava-se Helena Mendes. Tinha uns 19 anos. Muito magra, pálida, olheiras fundas, parecia um passarinho assustado. Sentava-se sempre no último banco, encolhida, abraçando a própria bolsa como se se fosse proteger de algo.
O pastor Elias percebeu-a logo no primeiro culto. Depois da pregação, chamou-a para a frente e disse diante de todos que Deus tinha revelou que ela estava sob forte opressão espiritual, que necessitava de sessões especiais de libertação. Helena aceitou. Claro que aceitou. Quando um pastor diz que Deus revelou algo, quem vai questionar? Nas semanas seguintes, vi a Helena a ser levada várias vezes para aquela mesma sala onde eu tinha estado, a sala de intercessão.
Ela entrava frágil e saía ainda pior, a tremer, chorando. Uma vez vi-a vomitar no casa de banho depois de uma dessas sessões. Tentei falar com ela uma vez. Perguntei se estava tudo bem. Ela me olhou com os olhos arregalados, assustados. e disse: “O pastor disse que os demónios estão a resistir, que preciso de mais oração, que se eu não vir, me vão destruir. Senti um aperto no peito.
Aquilo não estava certo. Aquilo não parecia libertação, parecia prisão. Foi numa tarde, quando estava a sair da igreja, que a irmã Teresa me encurralou no portão. Ela cruzou os braços sobre o Bíblia grande que sempre trazia e disse com voz dura: “Anda a fazer perguntas a mais, irmã Rute?” Anda questionando muito.
“Cuidado para o diabo não usar a sua boca para semear discórdia no meio do povo de Deus.” Fiquei calada. Não tinha o que responder. Ela continuou. Novas convertidas precisam de aprender a ter reverência. O pastor Elias é ungido de Deus. Quem toca no ungido do Senhor está tocando na menina dos olhos de Deus. Baixei a cabeça e saí.
Mas por dentro algo estava a mudar. Já não era só dúvida, era certeza crescendo aos poucos. Certeza de que algo estava muito errado. Nessa noite, ajoelhei-me no meu quarto. A madeira do chão rangia sobre os meus joelhos. Fechei os olhos com força e orei: “Deus, mostra-me a verdade, por favor. Não me deixe perder.
Se estou errada, se estou a ser usada pelo inimigo, corrija-me agora. Mas se estou a ver o que penso que estou a ver, dê-me sabedoria, dai-me coragem, porque eu tenho medo, muito medo. Fiquei ali por horas, sem resposta audível, sem visão, sem relâmpago do céu, apenas silêncio. E naquele silêncio, uma certeza pequena, mais firme, começou a crescer.
Eu não estava louca. Eu estava a ver e Deus estava a mostrar-me. Aquele domingo de julho começou com um calor sufocante, o tipo de calor que cola a roupa ao corpo e faz latejar a cabeça. Mesmo assim, a igreja estava lotada para o culto da noite. As pessoas abanavam-se com os inários velhos, o suor a escorrer pela testa.
Eu estava sentada algumas filas atrás, como sempre. Observa Helena lá à frente, encolhida no banco, mais magra e pálida do que nunca. Ela tinha vindo a todas aquelas sessões de libertação nas últimas semanas, mas parecia cada vez pior, não melhor. O O pastor Elias subiu ao púlpito com uma expressão séria. Não fez a pregação normal.
anunciou que Deus tinha revelado que aquela noite seria especial, um poderoso culto de libertação. A igreja inteira ficou num silêncio tenso. Ele apontou para Helena. Irmã Helena, venha aqui à frente. O Senhor mostrou que hoje é o dia da sua libertação completa. Vi o corpo dela enrijecer. Ela olhou para os lados, como um animal encurralado à procura de saída, mas não tinha como recusar. Não.
Quando o pastor diz que Deus revelou, ela levantou-se lentamente, as pernas trémulas, e caminhou até ao púlpito. Cada passo parecia custar uma eternidade. Quando lá chegou, o pastor Elias colocou as duas mãos sobre a cabeça dela com força. Helena fechou os olhos, o rosto contraído. Começou a rezar, mas a voz foi subindo, ficando cada vez mais alta, mais autoritária, mais dura.
Eu repreendo-te, espírito imundo. Eu ordeno-lhe que saia desta serva de Deus agora, em nome de Jesus. Manifeste-se e saia. Helena começou a tremer, o corpo inteiro a abanar, as mãos crispadas. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O pastor apertou com mais força a cabeça dela. Saia. Você não tem autoridade aqui.
Eu ordeno que se manifeste. Foi então que Helena desmaiou. Simplesmente desabou no chão do púlpito como um boneco de trapos. O som do corpo a bater no piso de cimento ecoou pela igreja. Várias pessoas gritaram e depois ela começou a gritar também. Mas não eram gritos demoníacos como as pessoas esperavam. Eram gritos de terror.
Frases desconexas a sair da boca dela enquanto se debatia no chão. Não pára. Solta-me, por favor, para. A igreja entrou em pânico total. Algumas pessoas começaram a chorar, outras oravam em línguas, de braços levantados. Outras recuaram para os cantos com medo. As crianças choravam assustadas. O pastor Elias ajoelhou-se sobre Helena, segurando-a. Gritava ainda mais alto.
Saia. Eu ordeno-lhe que saia. Manifeste o seu nome. Quantos são? Falem. Mas quanto mais gritava e repreendia, mais Helena debatia-se. Ela contorcia-se no chão, tentava afastar-se dele, gritava aquelas frases. Não pára, dói, pára. Jonas e outros diáconos apressaram-se a ajudar.
Tentaram segurar a Helena, que se debatia com uma força que parecia impossível para aquele corpo tão magro. O pastor mandou trazer óleo ungido. Alguém correu para o buscar. Ele derramou na testa dela. Ela gritou mais alto. Eu estava na última fila, de pé, observando tudo. E de repente compreendi como um raio a cortar a confusão. Helena não estava possuída, estava aterrorizada.
Estava a reviver algo, um trauma, uma dor antiga. E aquelas orações agressivas, aqueles gritos, aquelas mãos a segurá-la com força, estavam a piorar tudo. Não era libertação, era tortura. Sem pensar, me ajoelhei-me ali mesmo onde estava, no meio do caos, do barulho, dos gritos. Fechei os olhos e rezei. Mas não rezei como o pastor estava a fazer.
Não gritei, não não repreendi nada, apenas falei baixinho, com lágrimas a escorrer pelo rosto. Senhor, traz a paz. Espírito Santo, acalme esta menina. Mostre-lhe que o Senhor não é violento, que o Senhor não magoa, que o Senhor é refúgio, é descanso, é paz. Por favor, Deus, acalma-te o coração dela. Continuei a rezar baixinho, repetindo aquelas palavras simples: paz, refúgio, descanso.
E depois, tão devagar que quase ninguém percebeu no meio do caos, Helena começou a acalmar. Os gritos diminuíram. O corpo deixou de se debater com tanta força. A respiração, que era rápida e desesperada, começou a normalizar. O pastor ainda gritava, ainda repreendia, mas Helena já não estava a responder aquilo.
Ela estava a ficar quieta, tranquila, os músculos a relaxar. Finalmente ela abriu os olhos. estava exausta, o rosto molhado de lágrimas e suor, mas nos olhos dela já não tinha aquele terror absoluto, tinha apenas cansaço. O pastor Elias levantou os braços para o alto, triunfante. Glória a Deus. Aleluia. O espírito saiu. A irmã está liberta.
A igreja explodiu em aleluias e amém. Palmas, choro de alegria, as pessoas abraçando umas as outras. Mas o irmão João, esse diácono mais velho que estava sempre quieto observando, estava a olhar para mim. Ele tinha visto. Tinha visto quando eu Comecei a rezar e quando a Helena começou a se acalmar.
Os nossos olhos se encontraram por um instante. Ele sentiu-a levemente com a cabeça, como quem reconhece algo. Não era só ele. Algumas outras pessoas também tinham percebido. Um murmúrio discreto começou a espalhar-se pela igreja. Olhares na minha direção, coxichos. Helena foi levada para uma cadeira. A Dona Cida correu buscar água. Jonas trouxe um lenço para ela limpar o rosto. O culto terminou logo a seguir.
Todos ainda agitados com o que tinha acontecido. Esperei que todos saíssem. Fiquei sentada no meu banco até à igreja ficar quase vazia. Então aproximei-me de Helena, que ainda estava sentada na frente, a tremer, abraçada a si mesma. Ajoelhei-me na frente dela, toquei-lhe na mão levemente. Ela olhou-me com aqueles olhos fundos, cansados.
“Estás bem?”, perguntei baixinho. Ela olhou para os lados, verificando se alguém estava a ouvir. Então, sussurrou: “Eu não estava possuída. Eu só estava com muito medo. As orações dele me deixavam apavorada. Eu não conseguia respirar. via coisas da minha infância, coisas más, e quanto mais gritava, pior ficava. Segurei-lhe as duas mãos.
Eu sei, eu percebi. Ela começou a chorar de novo. Mas toda a gente vai dizer que eu estava com demónio. O pastor disse, todos acreditam nele. Helena, você não precisa de voltar àquelas sessões com o pastor. Você não está possuída, você está ferida. E as feridas não se curam com gritos, curam-se com cuidado.
Ela me olhava com um misto de esperança e medo. Mas e se ele tiver razão? E se eu realmente tiver espíritos e eles voltarem? Segurei-lhe firmemente as mãos. Você não tem. Confia em mim. O que você tem é dor. E Deus não cura a dor com violência. Abracei aquela menina magra e trémula. Ela chorou no meu ombro e eu também chorei.
Não de alegria pela libertação que não tinha acontecido, mas de tristeza pelo que estava a acontecer naquela igreja em nome de Deus. Nos dias seguintes ao episódio com Helena, Percebi que algo tinha mudado. Não para melhor. No primeiro culto, depois desse domingo, cheguei à igreja como sempre. Algumas irmãs estavam a conversar perto da entrada.
Quando me viram, o papo morreu logo. Elas me olharam, deram um sorriso rápido e falso e afastaram-se. Entrei e sentei-me no meu lugar de sempre. A Irmã Lúcia, que sentava-se sempre perto de mim, sentou-se do outro lado da igreja. Quando os nossos olhares cruzaram-se, ela desviou rápido. O pastor Elias subiu ao púlpito.
Não olhou na minha direção uma única vez durante todo o culto, mas a pregação parecia ser para mim. sobre ovelhas rebeldes que semeiam a discórdia, sobre pessoas que querem aparecer mais do que os líderes, sobre o espírito de Jezabel, aquela mulher da Bíblia que queria usurpar a autoridade masculina. Ele não disse o meu nome, mas toda a gente sabia de quem ele estava a falar.
Senti as pessoas a olharem-me de canto de olho, uns com pena, outros com desaprovação, outros com algo pior, desprezo. Quando o culto terminou, fui para a cozinha ajudar a dona Cida, como sempre o fazia. Mas a Irmã Teresa já estava ali com os braços cruzados, segurando aquela Bíblia enorme contra o peito. “Acho melhor a Irmã Rute não ajudar aqui hoje”, disse à dona Cida, mas olhando para mim.
Há muita gente na cozinha. Espaço demasiado pequeno. Dona Cida abriu a boca para protestar, mas A Teresa já tinha virado costas. Olhei para Cida. Ela fez um gesto discreto para eu sair, mas vi nos olhos dela a tristeza. Saí dali com as bochechas ardendo de vergonha. Na semana seguinte foi pior. A irmã Dalva, aquela mulher magrela de batom vermelho que adorava mexericos, estava a espalhar histórias.
Ouvi-a a contar para um grupo de irmãs no corredor. Dizem que a Rute tem inveja do pastor, que ela quer aparecer mais que ele, que ela quer ser a líder espiritual da igreja no seu lugar. Passei perto delas. O papo morreu. Me encararam em silêncio até eu passar. Quando me virei no corredor, ouvi risinhos baixos.
Outro dia, no culto de quarta-feira, o A irmã Dalva estava a contar para todo mundo que me ouviu. A Rute está a ser usada pelo diabo. Vocês não percebem? Ela chegou aqui há poucos meses e já quer mandar. Quer questionar o ungido de Deus. Isso é coisa do inimigo. Comecei a perceber que as pessoas me evitavam. Quando me aproximava, as conversas paravam.
Quando me sentava, quem estava ao lado arranjava uma desculpa e mudava de lugar. Quando oferecia ajuda, diziam que não precisavam. Até a irmã A Lúcia, minha amiga, deixou de falar comigo. Tentei meter conversa com ela uma vez. Foi educada, mas fria. Disse que estava com pressa e saiu rápido. Vi nos olhos dela a culpa, mas também vi o medo.
Medo de ser associada a mim. O pior aconteceu num domingo depois do culto. Eu estava a sair quando à Edna Moura, a esposa do pastor, me barrou à porta. É uma mulher magra, sempre arranjada, com aquele ar de quem é importante por ser esposa de pastor. Tinha várias pessoas por perto. Ela levantou a voz de propósito para todo o mundo ouvir.
Rut Ferreira, preciso falar consigo. Parei, o meu coração já apertando. O meu marido é um homem de Deus, um servo escolhido pelo Senhor. Se tem problemas com ele, o problema está em si, não nele. Está a ouvir? Em você. É nova na fé e já quer questionar quem foi chamado por Deus? Isto é soberba, isto é orgulho. Pare de espalhar veneno nesta igreja antes que seja tarde demais.
disse tudo isso na frente de toda a gente. As pessoas pararam para assistir. Algumas balançavam a cabeça a concordar, outras apenas observavam. Eu não respondi. Não conseguia. A garganta estava fechada, os olhos a arder de lágrimas que me recusava a deixar cair ali à frente de todos. Baixei a cabeça e saí. Quando cheguei a casa, desabei.
Sentei-me no chão do meu czasebre e chorei. Chorei como não chorava desde a morte de Samuel. O Jonas também se afastou. Ele, que sempre foi tão amável, tão atencioso, começou a evitar-me. Descobri depois, através de dona Cida, que o pastor Elias tinha chamou-o para uma conversa particular. Tinha dito que eu estava em desvio espiritual, que eu estava a ser utilizada pelo inimigo, que se aproxima de mim poderia contaminar Jonas espiritualmente.
Jonas, dividido entre o que o pastor dizia e o que o seu coração sentia, escolheu afastar-se. Vi a dor nos olhos dele quando passávamos um pelo outro nos corredores da igreja, mas não falava mais comigo. Fiquei completamente sozinha. A única pessoa que ainda mantinha contacto era a dona Cida, mas até ela tinha de ser discreta.
Não podia ser vista a falar muito comigo, porque as outras irmãs começavam a comentar. Numa tarde, depois de um culto especialmente difícil, onde o pastor tinha pregado de novo sobre a rebeldia e insubmissão, cheguei a casa e encontrei dona Cida à minha espera sentada no degrau da porta.
Ela entrou comigo, olhou para o Casebre simples, para os meus olhos vermelhos, para a forma como eu estava curvada, quebrada. “Irmancida, será que estou louca?”, desabafei. “Será que é tudo coisa da a minha cabeça? Toda a gente diz que estou errada, que estou a ser utilizada pelo diabo. E se for verdade? E se eu realmente estiver enganada? Dona Cida sentou-se ao meu lado no chão, pegou na minha mão com aquelas mãos velhas e calejadas.
Filha, não estás louca. Eu também estou a ver coisas. Outras pessoas também estão, mas tem medo de falar. Então, porquê eu? Porque é que eu tenho que ser a que todos odeiam? Porque teve coragem de ver. E a verdade sempre incomoda antes de libertar. A verdade dói, tem um preço e você está a pagar esse preço agora.
Não sei se consigo continuar a pensar seriamente em ir embora da igreja, voltar à minha vida de antes. Pelo menos aí sabia que estava sozinha. Aqui achei que tinha encontrado uma família, mas estou mais sozinha do que nunca. A Dona Cida apertou-me a mão. Não vai-se embora. Ainda não. Deus está a fazer algo. Você ainda não o vê, mas ele está.
Aguente só mais um pouco. Chorei no ombro daquela mulher que cheirava a sabão e comida caseira. A única pessoa que ainda acreditava em mim. Mas por lá dentro, uma parte de mim queria desistir. Queria largar tudo e desaparecer. A a solidão dentro da igreja doía mais do que a solidão fora dela.
Porque dentro de si espera o amor e encontra a rejeição. Espera acolhida e encontra desprezo. Aquela noite, ajoelhada no meu quarto, rezei: Deus, não aguento mais. Se o senhor quer que eu fique, vai ter de me dar forças, porque as minhas acabaram. Não tive resposta, apenas silêncio. Mas, mesmo assim, algo dentro de mim, algo que ainda não percebia bem, impedia-me de ir embora, como se uma mão invisível me segurasse, dizendo-me: “Aguenta só mais um pouco.
Aguenta!” Depois de semanas aguentando o isolamento, percebi que não podia mais carregar aquilo sozinha. Precisava de ajuda. Precisava que alguém com autoridade visse o que eu estava vendo. Alguém que pudesse fazer alguma coisa. Foi a dona Cida quem me deu a ideia. Ela apareceu em minha casa numa tarde com um bolo de farinha de milho ainda quente embrulhado num pano.
Sentamo-nos à mesa e ela disse: “Filha, precisas de falar com o pastor Ruben Santana. Ele é o líder distrital, o superior do pastor Elias. Se alguém pode fazer alguma coisa, é ele. A ideia metia-me medo, mas também me dava esperança. Marquei uma reunião através da secretária da sede regional. Disseram que ele me poderia receber numa terça-feira à tarde.
O escritório do O pastor Rubens ficava num edifício comercial no centro do Recife, terceiro andar, sem elevador. Subi as escadas com o coração apertado, ensaiando mentalmente o que ia dizer. A secretária fez-me esperar numa salinha pequena que cheirava a papel velho e a café requentado. Tinha uma mesinha com revistas evangélicas e um quadro na parede com versículo bordado.
Esperei quase 40 minutos. Quando finalmente me chamaram, o pastor Rubens estava sentado atrás de uma mesa grande, cheia de papéis. Era um homem de uns 40 anos, cabelo castanho penteado para o lado, óculos de armação grossa, fato escuro. Não se levantou para me cumprimentar, apenas indicou a cadeira em frente da mesa.
A irmã tem 10 minutos. Tenho outra reunião mais logo. Sentei-me na ponta da cadeira, as mãos suadas. Comecei a falar. Tentei explicar tudo. Como o pastor Elias manipulava informações e apresentava como revelações. Como usava o medo para controlar as pessoas, como as orações dele deixavam os membros pior em vez de melhor.
O episódio com a Helena, a sala de oração, aquela sensação opressiva. Ouvia-me com um rosto duro, sem expressão. Quando terminei, ficou em silêncio durante um tempo que pareceu eterno. Depois tirou os óculos, limpou com um lenço, voltou a colocá-lo e disse: “Irmã Hut, estas são acusações extremamente graves contra um pastor estabelecido.
O pastor Elias está na liderança há anos, tem excelentes reputação. A igreja dele cresceu bastante sob a sua direção. Você tem provas concretas do que está a dizer? Documentos, gravações, testemunhas dispostas a falar publicamente?” Engoli em seco. Não tenho provas assim, mas tenho visto com os meus próprios olhos. Testemunhas.
Assim, quem mais pode confirmar estas acusações? As pessoas têm medo de falar, mas vêm. O irmão O João viu quando a Helena medo de falar ou simplesmente não concordam com a sua interpretação dos factos? Ele inclinou-se para a frente. Irmã, às vezes, quando somos novos na fé, podemos interpretar mal certas coisas.
O fervor pastoral pode parecer agressivo para quem não está habituado. Revelações proféticas podem parecer estranhas para quem ainda não conhece bem as coisas do espírito. Senti o sangue subir-me para o rosto. Mas eu vi coisas, pastor. Vi uma sombra. A irmã viu ou sentiu porque os sentimentos podem enganar-nos? O coração é enganoso, diz a escritura.
Não foi só sentimento. Ele levantou a mão interrompendo-me. Sugiro que a irmã reze muito e reflita se não está a ser influenciada por algum ressentimento pessoal. Por vezes guardamos mágoas sem nos apercebermos e distorcem a nossa visão. O pastor Elias referiu que a irmã tem demonstrado o comportamento rebelde ultimamente, que tem questionado demasiado, causado divisão. Fiquei paralisada.
Ele falou de mim ao senhor. Pastores conversam entre si e irmã. É natural. E demonstrou preocupação genuína com o seu estado espiritual. Ele olhou para o relógio. Já não tenho tempo hoje. Vou anotar a sua queixa. Mas sem provas concretas ou testemunhas, não há muito que eu possa fazer. Sugiro que a Irmã converse diretamente com o pastor Elias com humildade e resolva isso em amor fraternal.
Saí daquele escritório com as pernas bambas. Desci as escadas segurando no corrimão porque estava tonta. A estrutura oficial da igreja não ia ajudar-me. Pior do que isso, o pastor Elias já se tinha antecipado, já tinha plantado dúvidas sobre mim na cabeça do líder distrital. Voltei para casa arrasada. Estive dois dias sem conseguir sair da cama.
Só se levantava para beber água. A Dona Cida apareceu de novo, preocupada. Quando contei o que tinha acontecido, ela abanou a cabeça tristemente. Eu imaginei que seria assim. O sistema protege os seus. Ela ficou quieta durante algum tempo, pensando, disse então: “Mas conheço alguém que pode ajudar. O Pastor Hélio Brandão da Igreja da Betânia, no bairro ao lado.
Ele não é da mesma denominação, mas é conhecido pela sabedoria e não deve nada para ninguém. Quer que eu marque uma conversa?” Três dias depois, fui encontrar o pastor Hélio. A igreja dele era bem mais simples que a nossa. Um salão alugado, bancos de madeira, paredes descascadas, mas tinha algo de paz naquele lugar.
O pastor Hélio era um homem negro, alto, cabelo totalmente branco, apesar de não parecer tão velho. Devia ter uns 50 anos. Voz grave e calma. Recebeu-me na própria igreja. Sentamo-nos nos bancos da frente. Ele não tinha pressa. Não ficou a olhar o relógio, apenas ouviu de verdade. Fiz perguntas, pediu pormenores, quis saber sobre os padrões que tinha observado.
Quando acabei de contar tudo, ele ficou em silêncio durante muito tempo. Depois disse: “Irmã Hud, vou ensinar-lhe algo importante. Discernimento espiritual verdadeiro não se trata de ver sombras ou ter visões sobrenaturais. Essas coisas podem acontecer sim, mas não são o centro. O discernimento dos verdade vem de três coisas.
Ele levantou três dedos. Primeiro, conhecer profundamente a palavra de Deus, saber o que ela diz sobre como os líderes devem agir, sobre os frutos do Espírito, sobre como é o caráter de Cristo. Segundo, observar os frutos ao longo do tempo. Não é sobre um momento isolado, é sobre padrões. E terceiro, ter a coragem de falar a verdade em amor, mesmo quando isso custa caro.
Ele olhou-me diretamente nos olhos. O que me descreveu não são apenas impressões vagas, são padrões concretos de comportamento manipulativo, utilização de informação privada como se fosse revelação divina, o controlo através do medo, dependência emocional, isolamento de quem questiona. Estes são sinais clássicos de liderança tóxica, não de liderança ungida.
Senti algo se desatando dentro do meu peito. Alguém finalmente estava a validar o que eu via. Portanto, não sou louca. Não, irmã, não é louca. Você está a ver. E isto não é um ataque do inimigo, é Deus abrindo-lhe os olhos. A questão agora é: O que vai fazer com ele? Passamos mais de uma hora a conversar. Ele me ensinou a diferença entre liderança servidora e liderança controladora.
Falou sobre como os pastores saudáveis empoderam as ovelhas, enquanto pastores tóxicos mantêm-nas dependentes. Como líderes de Deus, trazem paz e liberdade, enquanto os manipuladores trazem confusão e medo. Continue a observar, continue orando, documente mentalmente os padrões e confie que no tempo certo de Deus, a verdade virá à luz. Vem sempre.
Mas você precisa de se preparar, porque o preço pode ser alto. Quando saí dali, era outra pessoa. Pela primeira vez desde essa noite na sala de oração, tive clareza. Não estava a ser enganada, não estava a ser usada pelo diabo. Estava vendo a verdade e Deus estava comigo naquilo. Cheguei a casa já quase anoitecendo.
Ajoelhei-me no chão do meu quarto e tomei uma decisão. Ia fazer um jejum de três dias completo, só água. Precisava de ouvir de Deus claramente sobre qual deverá ser o meu próximo passo. O jejum começou numa quinta-feira de manhã. Acordei cedo, bebi um copo de água e ajoelhei-me. Deus, vou ficar aqui até o Senhor me mostrar o que devo fazer.
Não vou comer até ter clareza. O primeiro dia foi o mais difícil. A fome apertava, o estômago roncava, a cabeça doía, mas cada vez que a vontade de comer vinha, orava, lia a Bíblia, caminhava pelo quartinho pequeno, repetindo versículos. No segundo dia, a fome diminuiu. O corpo começou a habituar-se, mas a fraqueza veio, as pernas moles, a vista escurecendo quando se levantava rapidamente.
Passei o dia todo deitada, a rezar, a dormir, a acordar e a rezar de novo. Foi na madrugada do terceiro dia que aconteceu. Tinha dormido de exaustão. Deviam ser umas 3 horas da manhã quando acordei subitamente, mas não acordei normal. Acordei com o coração aos saltos, suada, sabendo que tinha visto algo importante.
Tinha tido um sonho, mas não era um sonho comum. Era daqueles que sabe, no fundo da alma que veio de Deus. Tinha peso, tinha significado, tinha clareza. No sonho eu estava na igreja do Caminho da Luz, especificamente naquela pequena sala de oração, onde tudo tinha começado, mas desta vez estava diferente. Eu não estava assustada.
Estava calma, firme, como se eu pertencesse ali. O pastor Elias estava ajoelhado no chão, de costas para mim, diante do púlpito, os ombros curvados, a cabeça baixa e as mãos dele estavam sujas. Não era sujidade normal, era algo escuro, viscoso, que escorria entre os dedos e pingava no chão, formando poças negras. Ele esfregava uma mão na outra desesperadamente, tentando limpar, mas quanto mais esfregava, mais se espalhava.
até os braços ficando manchados. E ele chorava, um choro baixo, engasgado, de desespero, repetia: “Não sai, não sai! Como é que tiro isto? Eu queria aproximar-me, mas estava paralisada, a observar. Então, senti algo. Não foi voz audível, não foi som que entrou pelos ouvidos, foi algo que ecoou dentro do meu espírito. Claro, inconfundível.
Como quando sabe que alguém está a falar diretamente com você. Rute, reze por ele. Tentei responder no sonho, mas não saiu som. A voz continuou firme, mas amorosa. Ele se perdeu no orgulho, afogou-se na vaidade, mas ainda vai a tempo. Ainda vai a tempo. Não o destrua. Restaure. O meu propósito não é condenação, é restauração.
Sempre foi restauração. No sonho olhei para as minhas próprias mãos. Estavam limpas. Mas por que as minhas estavam limpas se eu também era pecadora? Então entendi. Não era sobre eu ser melhor do que ele, era sobre eu ter recebido misericórdia quando não merecia e agora precisava estender essa mesma misericórdia. Acordei de verdade.
Sentei-me na cama ofegante, o quarto escuro, o silêncio da madrugada, mas aquela voz ainda a ecoar dentro de mim. Restaure, não destrua. Levantei-me, acendi a lamparina de querosene que utilizava para poupar energia. A luz fraca lançou sombras nas paredes rachadas. Ajoelhei-me ali mesmo no chão de tábua.
E pela primeira vez rezei por Elias de verdade, não pedindo que Deus o expusesse, não pedindo justiça, pedindo misericórdia. Senhor, tenha misericórdia dele. Quebre o orgulho que o prendeu. Abra-lhe os olhos para que ele veja o que se tornou. Restaure-o, Deus. Não para que o meu nome seja limpo, não para que eu seja vingada, mas porque também é seu filho, porque o Senhor também chora por ele.
Aquela oração doía. Doía porque ia contra tudo o que eu queria. Eu queria justiça. Queria que toda a gente visse que eu estava certa. Queria que ele pagasse por me ter humilhado, por isolar, por destruir a minha reputação. Mas Deus estava a pedir-me outra coisa. Estava a pedir-me para morrer. Morrer para o meu orgulho ferido.
Morrer para o meu desejo de vingança. Morrer para precisar de ter razão. Chorei ali naquele chão. Chorei de dor e de rendição. Continuei a rezar. Não sei por quanto tempo, horas talvez. Pedi que Deus curasse Elias, que o libertasse, que o trouxesse de volta para o caminho verdadeiro.
E depois algo mudou dentro de mim. A raiva foi-se embora, a mágoa foi embora. Ficou só tristeza. tristeza por ele, por estar tão preso, por ter trocado a glória de Deus pela glória dos homens. Quando o sol começou a clarear por entre as frinchas da janela, eu estava em paz. Uma paz estranha. Não era felicidade, era apenas paz, a certeza de que estava a fazer o que Deus queria.
Levantei-me do chão com as pernas bambas de fraqueza. Tinha passado três dias sem comer, mas tinha algo mais forte que fome agora. Tinha direção. Sabia o que precisava de fazer. Não ia expor o pastor Elias, não ia buscar mais nenhuma autoridade institucional, ia até ele pessoalmente e ia oferecer oração. Oração de verdade.
Não oração para expulsar demónio, oração para restaurar um homem destroçado. Tomei um copo de água, comi um pedaço de pão velho para quebrar o jejum lentamente e comecei a preparar-me porque sabia que aquele encontro mudaria tudo. Esperei dois dias depois do jejum para ir à igreja. Precisava de recuperar um pouco as forças.
Comi devagar, bebi muita água, dormi cedo. Na terça-feira à tarde preparei-me, Vesti o meu vestido preto mais simples, prendi o cabelo, peguei na minha Bíblia. Sabia que terça-feira à tarde o pastor Elias costumava estar sozinho na igreja, preparando a pregação da quarta. Era o momento certo.
Caminhei pelas ruas de Recife, com o coração aos saltos. Cada passo pesava. Não era medo propriamente, era a consciência de que aquele momento podia mudar tudo para o bem ou para o mal. Quando cheguei, o portão de ferro estava entreaberto. Empurrei devagar para não fazer barulho. Atravessei o pequeno pátio. A porta principal da igreja estava aberta, deixando entrar um pouco de ar na tarde quente. Entrei.
O salão estava vazio e silencioso, apenas o barulho dos ventiladores no teto a girar devagar. Cheiro a madeira velha e a cera de vela. Comecei a caminhar pelo corredor central. Foi então que o vi. O pastor Elias estava sentado num dos bancos da frente. Não no púlpito, não na cadeira pastoral, num banco comum, curvado, o rosto enterrado nas mãos, os ombros caídos.
Parecia mais pequeno do que eu recordava, mais velho, mais cansado. Meus passos ecoaram no chão. Ele ouviu e levantou a cabeça bruscamente. Quando me viu, a expressão dele endureceu. Os olhos ficaram duros. A mandíbula travou. O que quer? A voz saiu áspera, defensiva. Ele levantou-se rápido, como preparando-se para uma briga. Continuei caminhando até ficar a poucos passos dele. Mantive distância respeitosa.
Respirei fundo. Senhor Pastor, vim rezar pelo Senhor. Deu uma risada amarga, sem alegria. Rezas por mim? Depois de tudo o que tem feito para destruir O meu ministério, depois de espalhar mentiras, de virar as pessoas contra mim, de me tentar derrubar? Eu não fiz nada disso, senhor pastor. Apenas vi o que vi e fiquei perturbada.
Você viu o que quis ver? É nova na fé e já pensa que sabe mais do que eu, que tem mais discernimento que quem serve a Deus há anos?” A sua voz subia, as mãos fechadas em punhos. Mas percebi algo. Não era raiva de verdade, era desespero. Era medo. Medo de ser exposto, medo de perder tudo. Sentei-me num banco próximo, devagar, mostrando que não era uma ameaça.
Pastor, Deus mostrou-me algo. Mostrou que o Senhor está a sofrer, que está preso e que ele quer libertar o Senhor. Elias ficou parado, tenso, preso. Eu estou livre. Estou a servir o senhor. O senhor está a servir ou está a ser servido? A pergunta saiu antes de eu pudesse pensar. Ele ficou em silêncio, depois sentou-se de volta no banco dele pesadamente, como se as pernas não aguentassem mais tempo segurar.
Ficamos ali em silêncio durante um tempo que pareceu longo. Só o barulho dos ventiladores, só o calor da tarde a entrar pelas janelas. Finalmente falei baixinho. Posso rezar pelo senhor? Ele não respondeu, apenas ficou a olhar para o chão, mas vi quando os olhos dele ficaram brilhantes, húmidos.
Vi quando a máscara começou a rachar. Interpretei aquele silêncio como permissão. Fechei os olhos ali mesmo, sentada no o meu banco, e comecei a rezar, não com voz alta, não com autoridade imperativa, apenas falando com Deus, como se fala com alguém que está perto. Senhor, tenha misericórdia deste homem. Ele está cansado. Ele está perdido.
Liberte-o das correntes do orgulho que o prendem. Cure a alma dele. Mostre-lhe que o Senhor ainda o ama. Que ainda vai a tempo. Há sempre tempo para recomeçar. Em nome de Jesus. Quando abriu os olhos, o pastor Elias tremia, o corpo inteiro a abanar, as mãos segurando a beirada do banco com força e depois ele desabou.
Chorou? Não, aquele choro controlado de pastor no púlpito. Chorou como criança. Soluços altos, engasgados, desesperados, o corpo curvado, a cabeça baixa. Não me mexi, apenas o deixei chorar. Às vezes, precisamos de chorar tudo o que segurou durante anos antes de conseguir falar. Quando finalmente conseguiu falar, a voz saiu-lhe quebrada, entremeada de soluços.
No início, era verdade. Eu amava a Deus. Queria servir, queria ajudar as pessoas, era sincero. Parou, engoliu em seco, continuou, mas depois começou o reconhecimento, as pessoas me procurando, reverenciando-me, achando que eu era especial. E gostei, gostei de ser importante, de ser visto como profeta, como ungido.
Chorou mais um pouco, limpou o rosto com as costas da mão. Comecei a utilizar informações que as pessoas me contavam. Esperava alguns dias e apresentava como revelação divina. No início sentia-me mal, mas depois justificava. Estou a ajudá-las mesmo assim, não estou? Qual é o problema? Sua voz ficou mais baixa, envergonhada e fui cada vez mais longe.
Controlava as pessoas porque gostava de ser necessário, de ser indispensável, de sentir que ninguém conseguia viver a fé sem mim. Eu eu tornei-me o meu próprio Deus. Aquela última frase saiu quase como sussurro. Ele colocou o rosto nas mãos de novo. Senti lágrimas a escorrer pelo meu rosto também. Não de alegria, de tristeza.
Tristeza por ver como o o orgulho destrói, como a vaidade cega. Como é fácil começar por servir a Deus e terminar servindo-se a si mesmo. Me levantei-me e sentei-me no banco ao lado dele. Peguei-lhe na mão. Estava fria, trémula. Pastor, o primeiro passo para a libertação é reconhecer a prisão. O senhor acabou de dar esse passo.
Ele olhou para mim com os olhos vermelhos inchados e depois vi o medo. Mas e agora? O que vai acontecer? Como posso admitir isso para as pessoas? O meu ministério, a minha família, a minha reputação, tudo vai acabar. O orgulho ainda a lutar, mesmo partido, ainda tentando agarrar-se em algo. Falei com firmeza, mas com amor.
Senhor Pastor, o que tem agora não é ministério, é prisão. O senhor está preso. As pessoas estão presas, todos os presos numa mentira. E reputação construída sobre a mentira não vale nada. A verdade liberta mesmo quando dói, especialmente quando dói. Ele soltou a minha mão, levantou-se, começou a andar de um lado para o outro.
A luta interna visível no rosto, a guerra entre o querer ser livre e querer manter as aparências. Finalmente parou e disse: “Preciso pensar. Preciso de processar tudo isto. Por favor, vá-se embora.” Levantei-me, peguei minha Bíblia. Antes de sair, olhei para -lhe uma última vez. Estarei a rezar pelo Senhor todos os dias, não contra o Senhor, por ele, para que Deus dê coragem de escolher a verdade.
Saí dali sem olhar para trás. Atravessei a igreja vazia, empurrei o portão de ferro, Caminhei pelas ruas de volta para casa, com o coração apertado. Não sabia o que ia acontecer, se ele ia realmente se arrepender ou se ia recuar. Mas eu tinha feito a minha parte. Tinha obedecido a Deus. O resto não era comigo.
O domingo seguinte chegou pesado. Acordei com um mau pressentimento, um aperto no peito que não passava. Fui à igreja à espera de algo, mas sem saber o quê. A igreja estava lotada, mais cheia que o normal. As pessoas coxixavam entre si. Havia uma tensão no ar, como antes de uma tempestade. O pastor Elias subiu ao púlpito com a postura erecta, o fato bem passado, a Bíblia debaixo do braço.
Olhou para a congregação com aquele olhar firme que eu tão bem conhecia. Nenhum sinal da vulnerabilidade que tinha mostrado há dias. começou a pregar a voz forte, autoritária, falou sobre os momentos de fraqueza espiritual que todo o servo de Deus enfrenta, sobre como o inimigo tenta utilizar até irmãos dentro da igreja para semear divisão, sobre como Deus o tinha fortalecido e confirmado o seu chamamento.
Senti o estômago afundar. Ele estava recuando. Estava a tentar desacreditar tudo. Desacreditar-me sem falar o meu nome. “O diabo é astuto, irmãos”, ele dizia com voz forte. Ele planta dúvidas, utiliza pessoas bem intencionadas, mas imaturas na fé, para questionar os ungidos de Deus. Mas o Senhor é fiel. Ele mostrou-me que estou no caminho certo.
A Dona Cida estava sentada ao meu lado. Ela inclinou-se e sussurrou no meu ouvido. A batalha não acabou, filha. O orgulho não morre fácil. Mas enquanto pregava, percebia algo diferente. Algumas pessoas não estavam a responder como antes. Alguns olhares eram desconfiados, alguns rostos fechados, algo tinha mudado. Nos dias seguintes, soube através da dona Cida, que a Helena Mendes tinha ido à sede distrital, tinha procurado o pastor Rubens pessoalmente, tinha feito uma queixa formal sobre as sessões de libertação.
contou tudo, como a deixavam traumatizada, como reviviam os seus abusos, como ela saía pior do que entrava. E não foi só ela. O irmão Vicente, aquele zelador silencioso que nunca ninguém prestava atenção, também tinha procurado o pastor Rubens. confirmou que ao longo dos anos tinha visto coisas estranhas, manipulações, utilização de informações privadas, controlo através do medo.
O pastor Rubens não podia mais ignorar. Já não era só a palavra de uma mulher nova na fé contra um pastor estabelecido. Eram múltiplos testemunhos de pessoas diferentes, dizendo coisas semelhantes. Numa quinta-feira à noite, três homens de fato chegaram à igreja, o pastor Rubens e dois presbíteros da sede regional. Convocaram uma reunião extraordinária com os diáconos e principais membros, apenas líderes.
Eu não fui chamada, mas a dona Cida estava lá e contou-me tudo depois. A reunião durou horas. O clima era tenso, pesado. O pastor Rubens abriu, dizendo que tinha recebido denúncias graves e que necessitava investigar, que aquilo era procedimento normal, que todos deviam falar a verdade. Começaram a recolher testemunhos. Uma a uma, as pessoas falavam, algumas com medo, outras com lágrimas, mas falavam.
relataram a manipulação emocional, as revelações que, na verdade, eram informações que eles mesmos tinham partilhado em particular, a pressão por ofertas através de profecias, o isolamento de quem questionava, o controlo, o medo. O Jonas, aquele jovem diácono que se tinha afastado de mim, finalmente encontrou coragem.
disse que também percebia coisas erradas há tempos, mas tinha medo de falar, que achava que estava a ser desleal a Deus se questionasse o pastor, mas que não conseguia mais fingir que não via. O pastor Elias tentou defender-se, negou tudo no início. Disse que eram interpretações erradas, que as pessoas não compreendiam o mover do espírito, que era uma conspiração liderada por mim para destruir o seu ministério.
Mas os relatos eram demasiado consistentes. vinham de pessoas diferentes, algumas que nem conheciam-se direito, todas dizendo coisas parecidas. Foi então que o irmão João levantou-se, aquele diácono antigo, silencioso, que nunca falava muito. Ele olhou para o pastor Elias, com os olhos cansados, mas firmes.
Pastor Elias, eu o respeito há muitos anos. Vi o Senhor construir essa igreja. Vi pessoas serem curadas aqui. Vi milagres acontecerem, mas também vi outras coisas. E fingi que não via porque tinha medo. Medo de questionar, medo de estar errado, medo de tocar no ungido do Senhor. Fez uma pausa na sala inteira em silêncio. Mas a Irmã Rut não está a mentir.
Todos vimos. Alguns de nós tiveram medo de falar. Ela teve coragem e agora precisamos de escolher. Vamos proteger um homem ou vamos proteger a verdade, porque não se pode proteger os dois. A pressão tornou-se insuportável. O pastor Elias olhou em redor, viu os rostos, uns com pena, outros com desilusão, outros com algo pior, a confirmação, como se sempre soubessem, mas nunca quisessem admitir.
E depois desmoronou de novo, mas desta vez à frente de todos. Curvou o corpo, colocou o rosto nas mãos e confessou tudo entre soluços. Admitiu as manipulações, o uso indevido de informação, o controlo, o orgulho que o havia cegado. A sala ficou em silêncio absoluto quando ele terminou. O pastor Rubens, com voz grave e formal, anunciou: “Perante estas confissões e dos múltiplos testemunhos, não tenho escolha.
O pastor Elias Moura está formalmente afastado do púlpito a partir deste momento. Um processo disciplinar será aberto pela denominação. Sua credencial ministerial fica suspensa até que a investigação seja concluída. A Edna, esposa do pastor, que se encontrava no fundo da sala, levantou-se, gritando: “Vocês vão acreditar em mexericos? Vão destruir um homem de Deus por causa da meia dúzia de descontentes?” Ela olhou diretamente para onde estava a dona Cida e gritou: “Eu sei que foi aquela Hut.
Ela destruiu a minha família, destruiu o ministério do meu marido. Ela vai pagar por isso.” Saiu a correr da sala em lágrimas. Os dois filhos do pastor estavam lá também. Samuel, o mais velho, olhava para os diáconos com ódio puro e saiu atrás da mãe. Elias filho, o mais novo de apenas 12 anos, apenas chorava em silêncio, sem compreender bem o que estava a acontecer.
No domingo seguinte, a notícia já tinha se espalhado. A igreja estava dividida. Uns apoiavam a decisão e diziam que era necessária. Outros, liderados pela irmã Teresa, culpavam-me abertamente a mim. Diziam que eu tinha destruído um homem de Deus, que tinha causado divisão, que o diabo tinha-me usado.
Cheguei à igreja e senti os olhares, alguns dos apoio tímido, outros de acusação aberta. Sentei-me no último banco, como nos primeiros dias, e fiquei ali quieta. O O pastor Rubens assumiu temporariamente e fez um culto sobre cura e restauração, mas a atenção estava no ar. A igreja estava ferida, partida.
Quando voltei para casa depois desse culto, me tranquei no quarto e chorei. Mas não era choro de alívio ou de vitória, era choro de lamento. Lamento pelo que tinha sido perdido, pelas vidas que tinham sido magoadas, pela família pastoral destruído, pelos filhos que iam carregar aquela vergonha. Não sentia vitória nenhuma, apenas sentia tristeza profunda.
Tristeza porque aquilo tudo podia ter sido diferente se tivesse escolhido a verdade desde o início, se tivesse tido a coragem de admitir os seus erros antes, se não tivesse deixado o orgulho tomar conta. Mas agora era tarde. A queda tinha acontecido e todos íamos ter de lidar com as consequências. Duas semanas depois da reunião, o família do pastor Elias deixou o Recife.
Saíram sem alarido numa manhã de outubro, enquanto a maioria dos membros da igreja ainda dormia. Levaram o que coubesse num camião de mudanças e foram embora para o interior, para a sua cidade natal. A Edna estava destroçada. Nunca mais confiou totalmente no marido. Diziam. Samuel, o filho mais velho, abandonou completamente a fé.
Ouvi dizer que ele gritou para o pai antes de sair de casa. Se enganou toda a gente, se mentiu em nome de Deus, então Deus não existe. Eu não quero mais nada disto. E desapareceu durante anos. O Elias filho, o mais novo, ficou com os pais, mas carregando uma vergonha que nenhuma criança de 12 anos deveria carregar.
A igreja entrou num período de luto. Não era luto por morte física, mas por morte de algo que todos pensavam que era real. Era como descobrir que a casa onde vivia tinha sido construída sobre a areia. Tudo parecia frágil. Agora o pastor Rubens assumiu o cargo temporariamente. Ele conduziu uma série de reuniões sobre cura e restauração.
Foram cultos difíceis, honestos, onde as pessoas choravam, abraçavam-se, pediam perdão umas às outras. Num desses cultos, o pastor Rubens fez algo que me surpreendeu. Ele chamou-me para a frente, à frente de toda a congregação, e disse: “Irmã Ruth, eu preciso pedir perdão publicamente. Quando a senhora veio ter comigo com as suas preocupações, duvidei.
Achei que era imaturidade espiritual. protegia a instituição em vez de proteger a verdade. A senhora foi a resposta que esta igreja precisava e nós tratámo-la como problema. Que Deus nos perdoe. Fiquei sem palavras. Apenas chorei. Ele abraçou-me ali à frente de todos e aquilo partiu algo na congregação. As pessoas começaram a vir ter comigo.
A irmã Dalva, aquela coscuvilheira de batom vermelho, procurou-me depois de um culto. Tinha os olhos inchados de tanto chorar. Rute, perdoa-me. Eu espalhei tanta mentira sobre ti, tanta coisa feia e tinhas razão o tempo todo. Perdoa-me, por favor. Abracei-a. Claro que perdoei. Como podia não perdoar se eu própria precisava tanto de perdão todos os dias? A Irmã Lúcia, A minha amiga, que se tinha afastado, voltou, abraçou-me a chorar e pediu desculpas. Eu fui cobarde, Rute.
Tinha medo de ficar do seu lado. Medo do que iam falar de mim. perdoa-me. Uma por uma, as pessoas vinham, algumas com lágrimas, outras com vergonha, outras com alívio. A igreja estava a curar-se devagar, mas estava. Mas nem todos se reconciliaram. A Irmã Teresa continuou amarga e distante. Ela não conseguia admitir que tinha estado errada.
Quando via-me, desviava o olhar e mudava de direção. A raiva dela parecia mais forte que qualquer possibilidade de cura. Aquilo entristecia-me, mas entendi que não podia forçar. Cada um tem o seu tempo com Deus. Foi numa tarde de final de outubro que o Jonas me procurou. Pediu para conversarmos a sós depois de um culto fomos até às traseiras da igreja, perto da cozinha vazia.
Ele estava nervoso, mexia nas mãos, olhava para o chão. Finalmente falou: “Rut, preciso dizer-te uma coisa e preciso ser honesto. Esperei em silêncio. Eu desenvolvi sentimentos por ti. Sentimentos que vão para além da amizade fraternal. Sei que não é o momento, talvez nunca o seja, mas não posso continuar aqui a fingir que sou só um irmão preocupado, quando na verdade o meu coração sente outras coisas.
Senti um aperto no peito. Jonas era um homem bom, temente a Deus e eu era sozinha. Tinha momentos que a solidão pesava tanto que pensei se Deus não tinha-me enviado ele justamente para isso. Mas eu sabia a resposta. sabia no fundo do meu espírito. Jonas, Amo-te como irmão em Cristo. Eu te amo muito.
Foste importante para mim durante tudo isto, mas não é o momento e acho que não vai ser. Deus está a me chamando para outra coisa. Ele assentiu, os olhos a brilhar de lágrimas contidas. Eu sei. No fundo, sempre soube. Por isso, pedi transferência para uma congregação no interior. Preciso de distância para reorganizar o meu coração, para aprender a amar-te só como irmã.
Abraçámo-nos, chorámos juntos, mas era choro de despedida, não de começo. Poucas semanas depois, Jonas partiu. Ouvi dizer anos mais tarde que ele se casou com uma professora de lá. Fico feliz por ele. Foi neste período, início de novembro, que recebi uma notícia inesperada. Alguém bateu à porta do meu casebre numa tarde.
Era uma mulher que não conhecia. Ela disse que um homem chamado Almir estava num cortiço próximo, muito doente, e tinha pedido para falar comigo. O Almir, meu ex-marido, o homem que me tinha abandonado, que tinha espalhado, que estava louca, que tinha deixado o nosso filho morrer por pura negligência. O meu primeiro instinto foi recusar.
Não queria ver aquele homem nunca mais na vida. Mas algo dentro de mim, algo que tinha aprendeu nas últimas semanas sobre misericórdia, me fez hesitar. Fui até ao cortiço no dia seguinte, um lugar horrível, a cheirar a urina e a mofo. Almira estava num quartinho minúsculo, deitado num colchão no chão. Estava irreconhecível, demasiado magro, a pele amarelada, tucia sangue num pano sujo.
Tuberculose descobri depois. Estava morrendo. Quando me viu, tentou sentar. Rut, vieste. Fiquei à porta sem entrar. O que é que queres, Almir? Perdão. A voz saiu fraca. Rouka, sei que não mereço. Sei que fui um demónio com você, mas estou a morrer e não quero morrer com isso na consciência. Olhei para aquele homem que tinha sido o meu marido, que me tinha batido com palavras, que tinha morto o meu filho por omissão. E não senti raiva, senti pena.
Está a pedir perdão por arrependimento ou por medo? Ele ficou quieto, depois disse honesto, “Não sei, talvez pelos dois, pelo menos era sincero. Eu te perdoo, Almir, não porque o mereça, mas porque Cristo me perdoou quando eu não merecia. Perdoo-te e liberto-te da a minha mágoa.
” Entrei no quarto, sentei-me numa caixa de madeira que servia de cadeira, mas perdoar não significa esquecer e não significa voltar. Nunca vou voltar. Você entende isso? Ele assentiu, com os olhos marejados. Nos meses seguintes, conseguiu uma vaga para -lo num abrigo mantido pela igreja. Levava comida, medicamentos quando tinha, não por amor, mas por obediência a Deus.
Anos mais tarde, em 2009, soube que ele tinha morrido. Fui ao funeral, rezei pela alma dele e fechei aquele capítulo para sempre. Enquanto isso, a igreja continuava a reconstruir-se. A Helena me procurou querendo ser discipulada. Aceitei, mas com uma condição. Ela também necessitava de ajuda profissional. Consegui encaminhá-la para um psicólogo através de um projeto social da câmara municipal. O trabalho foi duplo.
Cura espiritual e cura emocional. Aos poucos, Helena começou a florescer. Outras mulheres vieram. Miriam Andrade, que tinha sido manipulada pelo pastor Elias sobre o dinheiro. Outras que tinham sido controladas, envergonhadas, presas em culpa. Uma a uma, começaram a aproximar-se de mim. Percebi que Deus estava a dar-me um novo propósito.
Cuidar das ovelhas feridas, ensinar sobre o discernimento verdadeiro, mostrar que Deus não é controlador, não é manipulador, não usa o medo. Mas então veio a notícia que me destruiu. Dona A Cida estava doente, cancro do pâncreas, avançado. Os médicos deram no máximo três meses. Fiquei arrasada. Logo agora, justo quando as coisas estavam a melhorar, quando eu finalmente tinha um propósito, porque Deus ia tirar a única pessoa que tinha ficado do meu lado desde o início.
Visitei-a no hospital. Estava num leito da ala pública, demasiado magra, a pele amarelada, mas sorria. Como é que ela conseguia sorrir? Sentei-me ao lado da cama, segurei a mão dela. Irmã Cida, vou rezar pela sua cura. Vou jejuar. Vou clamar. Ela apertou minha mão com a força que ainda tinha. Não, filha, não reze pela minha cura.
Ore para que termine bem a minha corrida. Mas, Rute, nem toda a vitória é sobre não morrer. Por vezes a vitória é sobre morrer em paz, em repouso, sabendo que cumpriu o seu propósito. Ela torciu, respirou fundo, continuou. Você foi corajosa. Continue a ser. E lembre-se sempre, a verdade é liberta. Ela pediu à filha, que estava ali, trazer um saco.
De dentro tirou uma Bíblia velha, gasta com a capa de couro gretado, colocou-o na minha mão. Esta Bíblia é minha há 40 anos. Está marcada, rabiscada, cheia de apontamentos. Quero que fiques com ela e todas as vezes que duvidar, abra em João, capítulo 8, versículo 32. Leia e recorde. Abracei aquela mulher. Chorei no ombro magro dela.
Ela afagou o meu cabelo como mãe faz com filha. Dona Cida morreu três semanas depois, em dezembro de 1981. Em paz, com a família em redor, sem desespero, apenas gratidão. O funeral da dona Cida foi num sábado de manhã. A igreja estava lotada. Pessoas que ela tinha alimentado, consolado, rezado, gente simples, gente que ela tinha tocado com amor, sem ruído, sem palco, sem reconhecimento.
Eu estava na primeira fila, segurando aquela Bíblia velha que ela me tinha dado. As as pessoas revesavam-se contando histórias, como ela tinha acolhido, como tinha cuidado, como tinha amado sem nada pedir em troca. Não era um funeral triste no sentido desesperador, era um testemunho. A vida dela tinha sido uma semente plantada e agora víamos a colheita.
Compreendi ali algo que mudou a minha visão para sempre. Nem toda a vitória é sobre não morrer. Por vezes a vitória é sobre morrer, tendo cumprido o propósito. Dona Cida tinha ganho. Depois de todos os saíram, fiquei sozinha na igreja vazia. Sentei-me num banco e deixei as memórias virem.
A mulher destroçada que ali entrou pela primeira vez, desesperada, sem a esperança, a conversão, o batismo, a alegria dos primeiros meses. E então aquela noite de junho, a sala de oração, a sombra, o início de tudo, o o isolamento, a luta, a dor, a tentação de desistir, o sonho, o confronto, a queda, as consequências. Olhei para as minhas mãos.
Já não eram as mãos daquela mulher assustada, eram mãos que tinham aprendido a rezar verdadeiramente, a discernir de verdade, a falar a verdade em amor. Eu tinha sido transformada e nem me apercebi quando aconteceu. Nos meses seguintes, Iniciei um pequeno grupo de oração. Começou com apenas três mulheres numa quinta-feira à noite em minha casa.
Helena, Miriam, outra irmã chamada Joana. Sentávamo-nos em círculo, tomávamos café, conversávamos. orávamos. Ensinava o que tinha aprendido, que a espiritualidade saudável não se trata de manifestações extravagantes, é sobre transformação interior, sobre verdade, sobre a liberdade, sobre não ter medo de Deus, mas ter reverência amorosa.
O grupo cresceu lentamente, mas cresceu. Em 1983, já éramos 10. Em 1985, 20 mulheres feridas. Mulheres presas em culpa, mulheres que tinham sido manipuladas em nome de Deus. A Helena se tornou missionária anos mais tarde. Casou, teve filhos, levou o evangelho a comunidades ribeirinhas. Quando regressava ao Recife, sempre me visitava.
O Jonas regressou em 2005 para um congresso. Estava casado, tinha três filhos, era feliz. Agradeceu-me pela sabedoria que eu tive e que ele não tinha na altura. Abraçámo-nos como irmãos de verdade. A irmã Teresa sofreu um AVC em 2018. Ficou paralisada. Fui visitá-la no hospital, mesmo ela nunca me tendo perdoado. Orei por ela. Ela não conseguia falar, mas apertou-me a mão e chorou.
Um ano depois, pouco antes de morrer, enviou-me uma carta escrita com dificuldade, pedindo perdão por anos de inveja e maldade. O Almir morreu em 2009. Fui ao funeral, rezei pela alma dele e finalmente fechei aquele capítulo. E o pastor Elias, ele nunca regressou ao ministério. Trabalhou vendendo livros cristãos numa pequena cidade do interior. Vivia modestamente.
Alguns membros antigos da igreja perdoaram-no, outros nunca perdoaram. Quando ele faleceu em 2005, fui ao funeral. Orei por -lhe uma última vez. Acredito que ele morreu em paz com Deus, mas as cicatrizes que deixou em tantas vidas nunca desapareceram completamente. O Samuel, o seu filho mais velho, só voltou para a fé depois de o Pai ter morrido.
Levou anos para conseguir separar as falhas humanas do pai da verdade sobre Deus. O Elias Filho tornou-se missionário no interior. Um missionário humilde, discreto, que fazia questão de servir, não de ser servido. Em 1998, Fui convidada para dar o meu testemunho num congresso regional de mulheres. Mais de 500 pessoas me ouviram.
Não falei com amargura sobre o pastor Elias. Falei sobre o discernimento, sobre o idolatrar líderes, sobre buscar a Deus diretamente, sobre como a verdade liberta mesmo quando dói. E hoje, em 2025, tenho 74 anos. Estou no meu apartamento simples no Recife, me preparando-se para ir à igreja do Caminho da Luz. A igreja mudou muito.
Tem um pastor jovem agora, o Paulo Silveira, humilde, servo, que ensina que os líderes não são donos de ovelhas, são cuidadores. Ainda lidero o grupo de oração. Já não tenho a mesma força de antes, mas treinei outras mulheres que continuam o trabalho. O meu maior orgulho não são visões ou revelações. São as vidas que foram libertas, as mulheres que aprenderam que Deus não controla, não manipula, não usa o medo.
Pego a Bíblia da dona Cida, o meu bem mais precioso. Abro em João, capítulo 8, versículo 32. Leio em voz alta, como Faço-o quase todos os dias, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Reflito sobre tudo. A dor de perder Samuel, o casamento com Almir, a conversão. Aquela noite em que abri os olhos e vi a sombra, o isolamento, a luta, a vitória da verdade, as décadas de ministério silencioso.
Sorrio não é sorriso de quem não sofreu, é sorriso de quem sofreu e foi curada. Entendo agora, com a clareza de quem viveu uma vida inteira, que naquele culto de Junho de 1981, quando abri os olhos e vi o que vi, Deus estava a abrir os meus olhos espirituais, não para destruir, mas para discernir, não para escândalo, mas para restauração.
E é essa a história que carrego, um testemunho de que Deus usa os mais improváveis para trazer luz onde há trevas. Levanto-me, visto o meu casaco preto favorito. Coloco os óculos, pego no bíblia da dona Cida e a mala. Saio de casa. As ruas do Recife mudaram tanto, mas algumas coisas permanecem. O calor, o cheiro dos fritos, o barulho dos carros.
Caminho devagar porque as pernas já não são as mesmas. Hoje é dia especial na igreja. Várias mulheres que disciplei ao longo dos anos vão estar lá. Helena veio de longe especialmente para isso. A Miriam também, a Joana, tantas outras mulheres que foram libertas, restauradas, capacitadas. Caminho pelas ruas segurando firmemente a Bíblia velha da dona Cida.
E enquanto caminho, penso na lição mais importante que aprendi em mais de 40 anos de fé. Aprendi que a fé verdadeira não é ausência de dúvidas ou de dor. É escolher a verdade mesmo quando ela custa caro. É discernir não apenas com sentimentos ou visões, mas com sabedoria, amor e coragem. É compreender que os líderes são humanos e só Deus merece adoração.
É saber que cura verdadeira não provém de gritos ou manifestações, mas da presença bondosa do Espírito Santo. E aprendi que no final quem liberta não somos nós. É sempre, sempre a verdade de Deus. A igreja do caminho da luz surge ao fundo da rua, o mesmo edifício, renovado, mas o mesmo. Empurro o portão de ferro que agora não range mais. Atravesso o pátio, entro.
Várias as mulheres já lá estão. Quando me vem, vem abraçar-me. Irmã Rut, sorrisos, lágrimas boas, abraços apertados. Sento-me no banco, o mesmo banco onde tantas vezes me sentei. Fecho os olhos, sinto a presença de Deus, não como algo pesado ou opressor, mas como descanso, como paz, como lar. E agradeço, agradeço por tudo, pela dor que me ensinou, pela luta que me fortaleceu, pela verdade que me libertou.
Porque no final, irmãos, é isso é que importa. A verdade, sempre a verdade. Ela pode doer, pode custar caro, mas sempre, sempre liberta. Que Deus vos abençoe. Se essa história tocou o seu coração, subscreva o canal, deixe o seu like e partilhe com quem precisa de ouvir. Existem muitas Ruts por aí a lutar sozinhas, muitas Helenas sendo magoadas, muitos que precisam saber que a verdade ainda vale a pena, que Deus ainda vê, que ainda age e que no final, sempre no final, a verdade liberta. A paz do Senhor.