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O que acontecia com os escravos que ficavam velhos demais para trabalhar?

Existe uma pergunta sobre a escravidão que os livros de história raramente fazem diretamente. Uma pergunta que quando feita revela algo sobre a lógica interna de um sistema que tratava seres humanos como investimento, como propriedade, como ferramenta de produção. A pergunta é esta: o que acontecia com um escravo quando ficava velho demais para trabalhar? A resposta não é simples, é múltipla, incontraditória, geograficamente variável, historicamente específica e profundamente reveladora da natureza de cada sistema escravista que

o mundo já produziu. E é uma resposta que a historiografia levou muito tempo para investigar com o rigor que ela merece. Em parte porque a velice dos escravizados era um tema que os proprietários escravocratas não tinham interesse em discutir abertamente e que os abolicionistas mencionavam apenas quando lhes convinha para fazer argumentos retóricos.

Este documentário vai tentar fazer isso de forma diferente. vai olhar para os dados que existem, os inventários de propriedade, os registros de alforrias, os documentos legais, os relatos de ex-escravizados, os dados demográficos e tentar reconstruir o que realmente acontecia em diferentes sistemas escravistas, quando um ser humano escravizado chegava ao fim de sua utilidade econômica para quem o possuía.

Vamos começar pelo Brasil, que foi o maior importador de pessoas escravizadas do mundo atlântico. Aproximadamente 4 milhões de africanos chegaram ao Brasil entre o início do século X e 1850, quando o tráfico atlântico foi finalmente suprimido. Mas vamos começar com um fato demográfico que define tudo que se segue. Brasil colonial e imperial, a expectativa de vida de uma pessoa escravizada era extraordinariamente baixa.

Os historiadores estimam que um africano chegado ao Brasil adulto, entre 15 e 25 anos de idade tinha uma expectativa de vida de aproximadamente 7 a 10 anos após o desembarque. As condições de trabalho nas fazendas de açúcar, depois nas de café, depois nas minas de ouro, eram suficientemente brutais para que a maioria dos escravizados não chegasse a uma velice funcional. Eles morriam antes.

Isso por si só é um dado que transforma a pergunta. No Brasil escravista, a questão do que fazer com o escravo velho demais para trabalhar era menos urgente como questão prática do que parece, porque o sistema havia sido construído implicitamente, sem nenhum documento, dizendo isso explicitamente, sobre a premissa de que os escravizados seriam repostos por novos africanos antes de ficarem velhos.

A taxa de mortalidade era tão alta que o proprietário médio precisava repor sua força de trabalho escravizada regularmente, não porque os escravizados envelheciam, mas porque morriam. A velice dos escravizados era no Brasil colonial um problema estatisticamente raro, precisamente porque o sistema os consumia tão rapidamente. Mas quando a velice chegava e chegava para aqueles que sobreviviam ao trabalho brutal das primeiras décadas, o que acontecia variava enormemente, dependendo do tipo de trabalho que o escravizado havia realizado, do

relacionamento que havia desenvolvido com a família proprietária, do tipo de propriedade em que vivia e das leis vigentes no período. Os escravizados que haviam trabalhado como domésticos, cozinheiras, amas de leite, costureiras, criados pessoais, tinham uma probabilidade muito maior de receber cuidado na velice do que os escravizados que trabalhavam nos campos, não por bondade abstrata, mas porque as relações de dependência mútua que o trabalho doméstico criava eram mais pessoais, mais visíveis, mais carregadas de

obrigação sentimental. Uma senhora de fazenda que havia sido criada por uma ama de leite escravizada desde o nascimento, sentia, não necessariamente, mas frequentemente, uma obrigação emocional com essa mulher que não sentia em relação aos trabalhadores dos campos que nunca havia conhecido pessoalmente. Essa obrigação podia-se traduzir em provisão de abrigo e comida na velice, às vezes em alforria formal, às vezes simplesmente em permissão para não trabalhar enquanto continuava formalmente escravizada.

Mas não se deve romantizar esse arranjo. A ama de leite que envelhecia na Casa Grande dependia inteiramente da boa vontade do proprietário. Não tinha direito legal a nenhuma provisão. Se o proprietário morresse e os herdeiros decidissem vender tudo, ela podia ser vendida junto com o resto da propriedade.

mesmo velha, mesmo incapaz de trabalho pesado, mesmo que houvesse dedicado décadas ao serviço da família. Os registros de leilões de escravizados no Brasil mostram consistentemente a presença de pessoas idosas sendo vendidas, pessoas descritas nos inventários como velhas, sem valor, aleijadas, doentes, e ainda assim sendo transacionadas como propriedade, porque formalmente ainda o eram.

Existe um tipo específico de documento histórico que revela isso com clareza brutal. O inventário postem. Quando um proprietário morria no Brasil do século XVI ou XIX, era feito um inventário detalhado de todos os seus bens para a partilha entre os herdeiros. Esse inventário incluía os escravizados como itens de propriedade, com suas características descritas e seu valor estimado.

E nos inventários, a velice dos escravizados é registrada como depreciação de valor. Um escravizado de 20 anos podia valer 800 ou 1000 réis. O mesmo indivíduo, 40 anos depois, se ainda vivo, podia aparecer no inventário como velho, fraco, sem valor para vender, mas ainda listado, ainda contabilizado como em propriedade, ainda tecnicamente pertencente ao espolho do proprietário morto.

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O que esse detalhe revela é algo sobre a natureza do sistema que vai além da crueldade individual. O sistema escravista brasileiro havia criado uma categoria de ser humano que era simultaneamente inútil como trabalhador e ainda formalmente propriedade. E a lei que reconhecia essa pessoa como propriedade não previa nenhuma provisão automática para sua manutenção.

O proprietário que morria não tinha, perante a lei, nenhuma obrigação de garantir o sustento de seus escravizados na partilha do espólio. A questão de quem ficaria responsável pelo escravizado velho e incapaz era uma questão de negociação entre herdeiros e frequentemente não era negociada, era simplesmente ignorada, com consequências para o escravizado que os documentos raramente registram, porque não havia ninguém interessado em registrá-las.

A lei brasileira que governava a escravidão conheceu ao longo dos séculos algumas disposições que tocavam tangencialmente na questão da velice dos escravizados, mas sempre de forma incompleta e frequentemente contraditória. A lei do ventre livre de 1871, que libertou os filhos de escravizadas, nascidos após sua promulgação, tinha uma disposição que determinava que proprietários que desejassem abandonar ou desamparar escravizados doentes ou inválidos deveriam primeiro conceder-lhes alforria.

A intenção era impedir que proprietários simplesmente jogassem à rua escravizados que não podiam mais trabalhar. Uma prática que aparentemente era suficientemente comum para merecer atenção legislativa. A existência dessa lei é evidência indireta de que o abandono de escravizados velhos e doentes era uma realidade documentada o suficiente para o legislador considerar necessário.

proibi-la. Mas a lei tinha um limite óbvio. Ela obrigava o proprietário a dar a alforria antes de abandonar o escravizado, mas não previa nenhum sistema de apoio para o escravizado após a alforria. Um escravizado de 65 anos, sem família, sem recursos, sem nenhum sistema de previdência, porque não existia nenhum que recebia sua alforria por ordem legal.

antes de ser abandonado, estava formalmente livre e praticamente desamparado. A liberdade, nesse contexto era uma liberdade de morrer sem ninguém legalmente obrigado a ajudá-lo. Os Estados Unidos do período escravista tinham um sistema demograficamente diferente do brasileiro. A diferença fundamental é que a população escravizada nos Estadosu por reprodução natural desde pelo menos o início do século XIX, sem depender de importação contínua de africanos, que havia sido proibida em 1808.

Embora o contrabando continuasse em menor escala, isso significava que havia uma população escravizada, com distribuição de idades mais ampla, com mais idosos, com mais crianças do que o Brasil havia tido durante seus séculos de tráfico atlântico intenso. E isso tornava a questão dos escravizados velhos mais visível e mais urgente [limpando a garganta] como problema de gestão para os proprietários.

Os registros de grandes plantações no sul dos Estados Unidos mostram uma variedade de abordagens ao problema dos escravizados velhos. Em algumas plantações havia uma prática documentada de realocar escravizados idosos para funções mais leves. Trabalho de supervisão de crianças, cuidados domésticos simples, trabalho de jardim, tarefas de manutenção que não exigiam força física intensa.

Essa realocação era apresentada pelos proprietários escravocratas em suas comunicações privadas e em sua retórica pública, de justificação da escravidão como evidência da benevolência do sistema, de que os senhores cuidavam de seus escravizados, mesmo quando estes não podiam mais trabalhar intensamente. Era o argumento da família extensa, da paternalidade, do contrato implícito de cuidado vitalício.

Frederick Douglas, o ex-escravizado, que se tornou o mais importante abolicionista americano do século XIX, desmontou esse argumento em suas memórias com uma precisão que a historiografia posterior confirmou empiricamente. Douglas descreveu sua própria avó, Bet Bailey, que havia sido uma das mais valiosas escravizadas de seu proprietário, habilidosa em agricultura, em cuidado de crianças, em todas as atividades domésticas da fazenda.

Quando ficou velha demais para trabalhar, ela foi levada para uma cabana no meio da floresta, longe da plantação principal, com uma quantidade mínima de comida e essencialmente abandonada. Douglas soube disso mais tarde, quando já havia escapado. Sua avó morreu sozinha naquela cabana, formalmente ainda propriedade do mesmo homem que havia dependas.

A história da avó de Douglas não era a norma universal. Havia proprietários que tratavam seus escravizados idosos de forma mais humana, mas era suficientemente comum para ser representativa de um padrão. E Douglas a usou com precisão retórica. Ao lado de cada exemplo que os apologistas da escravidão apresentavam de um senhor bondoso que cuidava de seus escravizados na velice.

Havia dezenas de casos de abandono, negligência ou venda que os apologistas não mencionavam. A questão da venda de escravizados idosos nos Estados Unidos é documentada nos registros de mercado. escravizados classificados nos documentos de compra e venda como velhos ou passados valiam uma fração do preço de um adulto jovem e saudável, mas ainda eram vendidos para plantações menores, que não podiam pagar o preço de um escravo jovem para proprietários que precisavam de funções específicas que um idoso ainda podia desempenhar, ou simplesmente porque o

proprietário queria se livrar da responsabilidade de manter alguém que consumia recursos sem produzir adequadamente. O mercado de escravizados idosos nos Estados Unidos revela uma lógica econômica que os proprietários raramente articulavam em público, mas que os documentos privados confirmam. Um escravizado velho tinha um valor residual derivado de sua capacidade de realizar trabalho leve, de sua experiência que podia ser transferida para escravizados mais jovens e de seu valor como objeto de troca para quem quisesse pagar pouco por uma presença

funcional. Esse valor residual era o único fator que protegia muitos escravizados idosos do abandono absoluto. Não a benevolência do sistema, mas a racionalidade econômica que via neles ainda alguma utilidade. Nas Américas espanholas, o sistema tinha características diferentes. O direito romano, que havia sobrevivido no direito espanhol de formas que não sobreviveram no direito inglês, reconhecia aos escravizados algumas capacidades jurídicas que o direito americano ou brasileiro não reconhecia, incluindo o direito de se autocomprar mediante

pagamento do valor de mercado ao proprietário em um processo chamado coarta, um escravizado que havia acumulado economias ao longo de décadas de trabalho adicional em horas livres, prática que os proprietários toleravam porque gerava renda para eles também, podia usar essas economias para comprar sua liberdade progressivamente, pagando seu preço de mercado em parcelas.

A coartacion era documentada em Cuba, no México, em outras partes das Américas espanholas e representava uma possibilidade limitada, precária, mas real, de que um escravizado chegasse a velice já parcialmente livre ou plenamente alforreado. Mas a coarta dependia de o escravizado ter sido capaz de acumular economias, o que pressupunha proprietário que permitia trabalho independente e horas livres, uma localização urbana onde havia mercado para trabalho adicional e uma trajetória de vida que não havia incluído doença grave, punição severa ou

outros eventos que eliminavam a possibilidade de acumulação. Para a maioria dos escravizados rurais, trabalhando em grandes engenhos ou fazendas, a coarta era uma possibilidade teórica sem aplicação prática. No mundo greco-romano, que produziu os primeiros grandes sistemas de escravidão que a história ocidental documentou em detalhe, a questão dos escravizados velhos foi tratada com uma candura que o mundo moderno geralmente evitou.

Catão, o censor, o estadista romano do século antes de Cristo, cuja obra de agricultura é um dos mais importantes documentos sobre a administração de uma propriedade escravista na antiguidade, recomendava explicitamente a venda de escravizados quando ficassem velhos. Cat a escravidão sem a necessidade de nenhuma justificação moral.

Era uma ferramenta de produção. Ferramentas velhas e gastas deviam ser descartadas. Um escravizado que não podia mais trabalhar eficientemente, consumia recursos sem produzir adequadamente e devia ser vendido enquanto ainda tinha algum valor residual ou simplesmente liberado. O que num contexto romano significava atirar o problema para a sociedade em vez de para o proprietário.

A recomendação de Catão era prática demais para ser retórica. era instrução de gestão agrícola e o fato de que ele a fazia publicamente, sem nenhuma justificativa moral de bondade ou cuidado, revela algo importante sobre como o mundo romano pensava a escravidão, como uma relação econômica que não exigia nenhuma obrigação de cuidado além da utilidade.

Mas o mundo romano também tinha manumição, a alforria, que no direito romano criava um cidadão com status civil definido, o liberto, que tinha relações de dependência e obrigação com seu antigo senhor, o patrono. A mano missão romana era frequentemente motivada por uma mistura de afeto genuíno, cálculo econômico.

O escravo liberto às vezes continuava trabalhando para o antigo Senhor em termos comerciais, pagando por sua liberdade com trabalho futuro e demonstração de status social, pois liberar escravizados era visto como sinal de riqueza e generosidade, a documentação de escravizados sendo libertados por proprietários romanos exatamente porque eram velhos e incapazes de trabalho.

Não por bondade, mas porque mantê-los custava mais do que valiam. A manição de um velho escravo romano podia ser um ato de descarte economicamente racional, disfarçado de generosidade. A África escravista pré-colonial, os sistemas de escravidão que existiam no interior do continente africano antes e durante o período do tráfico atlântico tinha lógicas diferentes das escravidões atlânticas.

Em muitos sistemas africanos de escravidão, o escravizado era incorporado ao grupo doméstico de maneiras que criavam obrigações de cuidado que não existiam nos sistemas atlânticos. Um escravizado envelhecido em muitas sociedades africanas podia tornar-se um membro de status intermediário da família, não livre, mas não descartável, com um lugar definido na hierarquia doméstica, que incluía algum grau de segurança na velice.

Isso não era universalmente verdade. Havia sistemas africanos de escravidão extremamente brutais, mas a integração doméstica era uma característica mais comum nos sistemas africanos do que nos sistemas atlânticos orientados para a produção de commodities. O contraste é revelador da diferença entre uma escravidão voltada para a incorporação que integrava o escravizado ao grupo social, ainda que em posição subordinada.

e uma escravidão voltada para a extração que via o escravizado exclusivamente como produtor de valor econômico e descartava o que não podia mais produzir. Voltando ao Brasil e a última fase da escravidão brasileira, o período entre 1850 e a abolição em 1888, existe um fenômeno específico que a historiografia documentou e que é diretamente relevante à questão dos escravizados.

Velhos, a alforria condicional. Com a proibição do tráfico atlântico em 1850, o preço dos escravizados no Brasil subiu dramaticamente. escravizados jovens tornaram-se ativos muito mais valiosos e proprietários que haviam sido relativamente generosos com alforrias, porque a reposição da força de trabalho por novos africanos era relativamente barata, tornaram-se muito mais relutantes em alforrear, escravizados em idade produtiva.

O que aconteceu em compensação foi um aumento nas alforrias de escravizados velhos. A lógica era perversa, mas clara. Um escravizado de 65 anos que não podia mais trabalhar era um passivo para o proprietário. Consumia comida, abrigo, atenção médica sem produzir. Ao forrear esse escravizado, transferia o custo de sua sobrevivência para o próprio escravizado, para sua família ou para a caridade pública.

uma solução que os proprietários apresentavam como generosidade e que, na prática, era descarte econômico. O abolicionista brasileiro André Rebolsas, engenheiro negro, filho de pai livre e mãe escravizada, que havia comprado sua liberdade, um dos intelectuais mais brilhantes do Brasil do século XIX, documentou e criticou esse padrão em seus escritos.

Rebolsas apontava que as alforrias de escravizados velhos nos registros paroquiais do Rio de Janeiro e da Bahia eram desproporcionalmente altas em relação à população idosa escravizada. O proprietário libertava o escravo velho, não quando o escravo ficava velho, mas quando ficava velho o suficiente para não mais compensar os custos de sua manutenção.

Era a liberdade como descarte. A dimensão de gênero nessa história é importante e frequentemente negligenciada. As mulheres escravizadas envelheciam com uma desvantagem adicional que os homens não tinham na mesma medida. Seu valor econômico havia sido parcialmente definido pela capacidade reprodutiva.

Uma escravizada jovem valia mais do que um escravo jovem de capacidade física equivalente, porque sua capacidade de gerar filhos que nasciam escravizados e pertenciam ao proprietário era um componente de seu valor de mercado. Quando a capacidade reprodutiva cessava com a menopausa, uma parte significativa do valor econômico da escravizada desaparecia de uma vez.

Isso criava uma precipitação na avaliação de mercado de mulheres escravizadas em torno dos 40 anos que não tinha equivalente masculino. Os homens depreciavam mais gradualmente com o declínio da força física, mas havia uma compensação parcial. As mulheres escravizadas, que haviam funcionado como amas de leite ou como cuidadoras de crianças, acumulavam laços afetivos com as famílias proprietárias, que criavam obrigações informais, de cuidado mais fortes do que as obrigações que existiam com trabalhadores rurais masculinos. A

ama de Leite, que havia amamentado o filho do proprietário, tinha uma posição particular, não segura, não garantida por lei, mas socialmente reconhecida, que criava uma probabilidade maior de provisão na velice do que a situação de um trabalhador de campo sem contato pessoal com a família proprietária. os relatos de exescravizadas publicados nos Estados Unidos no século XIX.

As narrativas de escravidão, que são um dos mais extraordinários gêneros literários da história americana, falam dessa questão com uma complexidade que os documentos dos proprietários nunca alcançam. Harriot Jacobs, Incidence in the Life of Alave Girl, publicado em 1861, descreve como sua avó, uma mulher escravizada que havia amamentado os filhos da família proprietária por gerações, foi prometida liberdade repetidamente e nunca a recebeu, vivendo sua velice formalmente escravizada, mas com alguma segurança prática derivada dos laços afetivos acumulados.

Essa segurança era frágil, dependia da boa vontade de indivíduos específicos e podia desaparecer com a morte de um proprietário ou a venda de uma propriedade. Journer Truth, outra ex-escravizada que se tornou abolicionista e ativista, descreveu em seus relatos a situação de seus pais escravizados, que haviam envelhecido no sistema e que, após a emancipação nos estados do norte, encontraram-se livres e completamente desamparados, sem recursos, sem família próxima, sem nenhuma estrutura de apoio.

A liberdade que chegou na velice, sem terra, sem dinheiro, sem educação, sem redes sociais de suporte, era uma liberdade nominal que não se traduzia em segurança ou dignidade. Essa [limpando a garganta] observação de Sogner Truth aponta para algo que a questão dos escravizados velhos revela sobre a natureza do sistema como um todo.

A escravidão não era apenas o período de trabalho forçado, era um sistema que destruía sistematicamente todas as condições que poderiam ter permitido a uma pessoa envelhecer com alguma segurança. Família, propriedade, educação, redes sociais, poupança, autonomia de decisão sobre a própria vida. Mesmo quando a escravidão terminava, formalmente o que ficava era uma pessoa que havia sido sistematicamente privada de tudo que a sociedade oferecia à aqueles que não eram escravizados como base de segurança na velice.

O que isso significava em termos práticos para as pessoas que viveram essa experiência é algo que os números e os documentos legais não conseguem capturar completamente. Existe na historiografia americana um corpus de documentação chamado de WPA Slave Narratives, entrevistas realizadas nos anos 30 do século XX [limpando a garganta] com ex-escravizados ainda vivos, pessoas que haviam nascido escravizadas e que com 80, 90, às vezes mais de 100 anos de idade, falavam aos entrevistadores sobre o que haviam vivido. Essas entrevistas

têm problemas metodológicos que os historiadores documentaram. Os entrevistadores eram frequentemente brancos sulistas, as perguntas eram às vezes tendenciosas, as memórias haviam passado por décadas de reelaboração, mas são ainda assim uma fonte insubstituível sobre a experiência vivida da escravidão americana.

Nestas entrevistas, a questão do que acontecia com os escravizados velhos aparece repetidamente, mas raramente de forma direta. Aparece obliquamente nas descrições de avós que não podiam mais trabalhar, mas continuavam presentes nas cenzalas, cuidadas por filhos e netos também escravizados. aparece nas descrições de velhos que eram levados para trabalhar no campo, mesmo quando mal conseguiam se mover, porque a alternativa ser classificado como inútil pelo proprietário era mais aterrorizante do que continuar tentando produzir.

aparece nas histórias de pessoas que viram a voz serem vendidos em leilão quando proprietários morreram, separados dos filhos e netos que os cuidavam, transacionados como propriedade numa idade em que mal conseguiam andar. O Brasil foi o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão em 13 de maio de 1888, com a assinatura da lei Áurea pela princesa Isabel.

Nenhuma reparação foi prevista, nenhuma terra foi distribuída, nenhum sistema de apoio foi criado para as centenas de milhares de pessoas libertadas, muitas delas em idade avançada, que acordaram no dia 14 de maio, formalmente livres e praticamente na mesma situação de dependência e vulnerabilidade de sempre, mas agora sem nem mesmo o interesse econômico do proprietário como proteção mínima contra o aband total.

O historiador brasileiro Sydney Chalou documentou o que aconteceu com muitos ex-escravizados idosos nos anos seguintes à abolição. Permaneceram trabalhando nas mesmas fazendas, pros mesmos proprietários, em condições de dependência econômica, que eram difíceis de distinguir da situação anterior. Não porque fossem forçados, eram agora formalmente livres, mas porque não tinham para onde ir.

Não tinham recursos para se sustentar de outra forma, não tinham família fora da fazenda, não tinham experiência de vida fora do sistema que havia definido toda a sua existência. A liberdade chegou, mas chegou tarde demais e vazia demais para aqueles que haviam dado décadas de vida a um sistema que nunca havia previsto nenhuma compensação por isso.

A questão que abre este documentário, o que acontecia com os escravizados, que ficavam velhos demais para trabalhar, não tem uma resposta única. tem um espectro de respostas que vai do cuidado genuíno ao abandono deliberado, com todas as variações de negligência, exploração continuada, descarte econômico e dependência fragilizada entre esses extremos.

Mas o que o espectro, completo de respostas revela quando olhado como um todo, é a natureza do sistema. Um sistema que havia prometido nada, que havia garantido nada, que havia criado seres humanos em condição de vulnerabilidade absoluta e que enfrentava a velice desses seres humanos sem nenhuma estrutura de suporte, porque nenhuma estrutura de suporte havia sido prevista.

O que cada proprietário fazia com um escravizado velho dependia inteiramente do caráter individual do proprietário, dos laços pessoais que haviam se formado ao longo de décadas, do custo econômico de manter versus descartar e da presença ou ausência de qualquer norma social ou legal que criasse obrigação. É a ausência de estrutura que define o sistema.

A escravidão criou seres humanos cujo envelhecimento dependia da arbitrariedade de outro ser humano que os possuía. Não há como concluir isso de maneira que não seja perturbadora. E talvez seja essa perturbação, essa recusa a deixar a questão ser apenas histórica, apenas passada, apenas encerrada. O que a história desses homens e mulheres ainda exige de quem se dispõe a ouvi-la?