Se você ainda não se inscreveu no canal, faz isso agora. Um segundo botão vermelho e você não perde nenhuma história como essa. Agora vamos ao que interessa. Existe um tipo de história que o Brasil oficial decidiu enterrar fundo. Não porque seja mentira, mas porque é verdade demais, incômoda demais.
Do tipo que quando você começa a puxar o fio não consegue mais parar. E o que aparece do outro lado não é o passado arrumado e ordenado que há. Gente aprende na escola. É algo muito mais escuro, muito mais estranho, muito mais real. A história que vou te contar hoje aconteceu em São Paulo, no ano de 1867, num Brasil que ainda era escravocrata, num Brasil que ainda tinha dois décadas pela frente de um sistema que tratava pessoas como objetos e que, por isso mesmo, criava nas margens desse sistema histórias que a lógica comum não consegue explicar.
Crianças estavam desaparecendo, não da maneira que crianças desapareciam por outros motivos, doença, acidente, pobreza extrema, estavam desaparecendo de um bairro específico, num ritmo que as autoridades não conseguiam ignorar, e de uma maneira que os poucos documentos que sobreviveram descrevem com uma precisão que até hoje deixa pesquisadores sem resposta.
E no centro de tudo isso havia uma mulher, uma escrava chamada Teresa. Essa é a história dela. Antes de entrar nos fatos, você precisa entender o lugar e o momento. São Paulo, em 1867, estava passando por uma transformação. A cidade que havia sido uma vila colonial pacata, com ruas de terra e casarões de paredes grossas, estava começando a crescer.
O café havia enriquecido o interior paulista de maneira explosiva nas décadas anteriores e esse dinheiro estava chegando à cidade. Havia novos sobrados, novas ruas, uma movimentação de pessoas e mercadorias que fazia de São Paulo um lugar diferente do que havia sido 20 anos antes. Mas debaixo dessa fachada de crescimento e progresso, o sistema que sustentava tudo continuava o mesmo. a escravidão.
Em 1867, o Brasil tinha ainda aproximadamente 15 milhão e meio de escravos. A abolição estava sendo discutida, a pressão interna e externa estava crescendo, mas era uma discussão que a elite escravocrata paulista resistia com toda a força que tinha. O café precisava de braços. Os braços custavam dinheiro e ninguém na elite queria abrir mão do investimento.
Nesse contexto de riqueza concentrada e miséria sistematizada, existia na periferia de São Paulo um aglomerado de habitações que os documentos da época chamavam de bairro do Bexiga ou simplesmente o Bexiga. Hoje esse nome sobreviveu de maneira diferente, mas em 1867 era um lugar que ficava às margens da cidade formal, onde viviam escravos alforreados, pobres, livres, imigrantes recém-chegados e toda a população que o crescimento da cidade produzia, mas não conseguia absorver de maneira digna.
Era um lugar de gente invisível, o tipo de lugar onde as coisas podiam acontecer, sem que as autoridades ficassem sabendo imediatamente. E foi lá que as crianças começaram a desaparecer. O primeiro registro oficial do que ficou conhecido nos documentos como o caso Teresa, data de março de 1867. É um boletim de ocorrência registrado na Câmara Municipal de São Paulo, que naquela época funcionava também como instância administrativa para casos que hoje iriam à delegacia de polícia, descrevendo o desaparecimento de uma criança de 4 anos chamada João,
filho de uma mulher livre chamada Gertrudes. O boletim é breve, como todos os registros da época relativos a pessoas pobres. Nome da criança. Idade, nome da mãe. Data do desaparecimento. Localização aproximada. Bairro do Bexiga. Nenhuma testemunha identificada, nenhuma conclusão. Casos de crianças desaparecidas não eram raros na São Paulo de 1867.

A mortalidade infantil era assustadora, as condições de vida nas periferias eram precárias e crianças pobres tinham muito menos proteção do que crianças ricas em qualquer circunstância. Esse boletim poderia ter sido apenas mais um, mas dois meses depois, em maio de 1867, outra criança desapareceu.
Mesmo bairro, 3 anos de idade, menina filha de um escravo alforreado chamado Benedito e sua companheira Francisca. E em julho, mais uma, 5 anos de idade, menino, três crianças em 5 meses, todas do mesmo bairro. Todas de famílias que viviam às margens da cidade. Isso foi suficiente para que o escrivão da Câmara Municipal colocasse os três registros lado a lado e percebesse um padrão.
E quando percebeu o padrão, chamou alguém para investigar. Esse alguém era um homem chamado inspetor Raimundo Correa de Albuquerque. O cargo de inspetor naquela época era diferente do que entendemos hoje como policial investigador. Era uma função administrativa com poderes vagamente definidos para apurar situações que perturbavam a ordem pública.
Raimundo Correa era um homem de meia idade, descendente de família portuguesa, com reputação de ser metódico e relativamente honesto num ambiente que não era famoso por nenhuma dessas qualidades. As anotações de Raimundo Correa sobre o caso foram preservadas porque faziam parte de um relatório que ele submeteu à Câmara Municipal em outubro de 1867.
Esse relatório ficou num arquivo por décadas. foi quase destruído num incêndio em 1932, sobreviveu parcialmente e foi catalogado por um pesquisador em 1978. É o documento central em torno do qual toda a história de Teresa foi reconstruída. Raimundo Correa passou dois meses no Bexiga, conversou com moradores, fez anotações e aos poucos o nome de Teresa começou a aparecer.
Antes de falar sobre o que os moradores do Bexiga diziam de Teresa, preciso te contar quem ela era nos registros formais. Teresa aparece pela primeira vez nos documentos num registro de compra e venda datado de 1854, 13 anos antes dos eventos que estamos investigando. Nesse registro, ela era descrita como uma mulher adulta, estimativa de 30 anos de idade, de origem angolana.
vendida por um fazendeiro do interior paulista para um comerciante da cidade de São Paulo chamado Manuel Joaquim dos Santos. Dos Santos era um homem de negócios que possuía uma loja no centro da cidade e alguns escravos que usava tanto no trabalho doméstico quanto no comércio. Teresa, pelos registros, trabalhou para ele por vários anos como escrava doméstica.
Em 1862, 5 anos antes dos eventos do Bexiga, dos Santos morreu sem deixar herdeiros diretos. Seu espólio foi liquidado e os escravos que ele possuía foram alforreados, não por generosidade póstuma, mas porque a liquidação do espólio era complicada e a alforria era naquele momento específico, a solução mais prática para uma situação legal confusa.
Assim, em 1862, Teresa tornou-se forra, mulher livre. Ela tinha pelos registros aproximadamente 40 anos. Não tinha família registrada, não tinha bens. Era uma mulher negra, liberta de meia idade, numa cidade que não tinha muito espaço para pessoas com esse perfil. Ela foi para o Bexiga e foi no Bexiga que ao longo dos 5 anos seguintes ela construiu uma reputação.
Essa reputação tinha dois lados completamente opostos, dependendo de quem você perguntasse. Para uma parte dos moradores, especialmente os mais velhos e os que vinham do mesmo contexto africano que ela. Teresa era uma curandeira de primeira ordem. Conhecia plantas, preparava remédios, tratava febres e feridas com uma competência que os médicos formados da cidade raramente chegavam até aquele bairro para oferecer.
Era uma referência de cuidado numa comunidade que não tinha acesso ao sistema oficial de saúde. Para outra parte dos moradores, especialmente as famílias com crianças pequenas, Teresa era motivo de medo. Um medo que Raimundo Correa descreveu em seu relatório como difuso e difícil de articular. As pessoas sabiam que tinham medo, mas quando ele tentava perguntar por especificamente, as respostas eram vagas.
Ela olhava para as crianças de uma maneira que não gostavam. Ela aparecia em certas horas do dia que não faziam sentido. Ela sabia coisas que não deveria saber. E então as crianças começaram a desaparecer. O que os moradores disseram a Raimundo Correia sobre Teresa e os desaparecimentos é o ponto mais controverso de toda a história.
Porque o que eles disseram não era apenas que suspeitavam dela, era algo muito mais específico e muito mais perturbador. Eles disseram que ela comia as crianças não como metáfora, não como expressão de que ela havia feito algum mal genérico. Eles disseram com a especificidade que Raimundo Correa registrou com evidente desconforto no relatório, que Teresa capturava crianças pequenas, que as levava para sua habitação, no fundo de um beco no Bexiga, e que as consumia em rituais que os moradores descreviam com detalhes que o inspetor julgou perturbadores demais para transcrever
integralmente. Raimundo Correa escreveu: “Os moradores que se dispuseram a falar descreveram cenas de tal natureza que meu dever de servidor público me obriga a registrá-las, mas que minha consciência cristã me impede de transcrever em detalhe. Menciono apenas que as acusações incluem práticas que seriam si verdadeiras, crimes de natureza gravíssima e de caráter que desafia a compreensão racional, crimes de natureza gravíssima e de caráter que desafia a compreensão racional.
Para um burocrata do século XIX, acostumado a descrever tudo com a frieza clínica dos registros da época, essa linguagem é extraordinária. Algo havia perturbado profundamente o inspetor Raimundo Correa e ele não estava disposto a colocar no papel o que era. Raimundo Correa não era um homem de ação dramática, era um burocrata.
O que ele fez com as informações que havia coletado foi o que qualquer burocrata do século XIX faria. Escreveu um relatório, listou os fatos verificáveis e recomendou que autoridades com mais poder formal tomassem as medidas cabíveis. Mas antes de submeter o relatório, ele fez uma coisa que seus superiores provavelmente não esperavam.
Ele foi pessoalmente à habitação de Teresa, nas notas que ele fez para si mesmo, não parte do relatório oficial, mas um caderno pessoal que foi encontrado junto com os documentos do arquivo. Ele descreve essa visita com um detalhe que o relatório oficial não tem. Era uma tarde de setembro de 1877. Ele foi sozinho, o que já demonstra ou coragem extraordinária ou subestimação do que estava indo encontrar.
A habitação de Teresa ficava no fundo de um beco que ele descreveu como estreito e com odor peculiar que não conseguia identificar. A porta era de madeira grossa. Ele bateu, Teresa abriu e o que ele registrou no caderno sobre aquela mulher é a parte da história que mais me impressiona.
Ele escreveu: “Encontrei uma mulher que não correspondia em nada ao que os moradores haviam me feito imaginar. Não havia nela sinal de loucura, de malícia evidente, de qualquer coisa que eu pudesse apontar como sinal de perigo. Era uma mulher de aparência serena, de fala direta, que me recebeu sem surpresa e sem agressividade, como se estivesse me esperando.
Quando lhe perguntei se sabia por eu estava ali, ela respondeu que sim. Quando perguntei se tinha algo a dizer sobre os desaparecimentos, ela disse apenas: “As crianças não estão perdidas”. Quando pedi que explicasse o que queria dizer, ela sorriu e disse: “O senhor não tem vocabulário para entender a explicação senhor não tem vocabulário para entender a explicação?” Essa frase ficou registrada e ficou, segundo o próprio Raimundo Correa, rodando na cabeça dele por semanas depois daquela tarde.
O que ela queria dizer? Que ele não tinha instrução suficiente, que era burro demais para entender? Ou que o que havia acontecido com as crianças estava numa categoria de realidade para a qual o português do século XIX simplesmente não tinha palavras? Não sabemos. O que sabemos é que Raimundo Correa saiu daquela habitação, voltou para seu escritório e escreveu até tarde da noite.
O relatório que ele submeteu à Câmara Municipal é um documento fascinante, precisamente pelo que deixa de fora. Ele apresenta os fatos verificáveis. Três crianças desaparecidas, mesmo bairro, período de 5 meses, sem explicação encontrada. Apresenta o nome de Teresa como a principal suspeita baseado nas declarações dos moradores.
Recomenda que ela seja submetida a interrogatório formal pelas autoridades competentes, mas em nenhum momento ele escreve o que os moradores efetivamente disseram. Em nenhum momento ele transcreve as acusações específicas e em nenhum momento ele menciona sua visita pessoal à habitação de Teresa, nem a frase que ela disse.
Por quê? Há uma nota ao final do relatório que pode ser uma pista. Raimundo Correa escreveu: “Submeto este relatório com a consciência de que contém menos do que sei e mais do que posso provar. Em situações como essa, o dever do servidor público é reportar o verificável e deixar o restante para quem tem autoridade de decidir o que fazer com o que não é verificável.
Menos do que sei e mais do que posso provar. Essa frase diz tudo e nada ao mesmo tempo. Diz que ele sabia mais do que escreveu. Não diz o que era esse mais. Em novembro de 1867, Teresa foi chamada para interrogatório formal na Câmara Municipal de São Paulo. O documento desse interrogatório é o mais longo e mais detalhado de todo o arquivo relacionado ao caso.
Está escrito na forma padrão dos interrogatórios da época, pergunta do interrogador, resposta do interrogado, tudo registrado pelo escriba em terceira pessoa. Essa formalidade cria uma distância que às vezes obscurece o que está sendo dito, mas também preserva as respostas de uma maneira que outros tipos de registro não conseguem.
O interrogador era um oficial chamado capitão Evaristo Ferraz Nogueira. Era um homem que os outros documentos descrevem como enérgico, pouco paciente, com ambiguidades e acostumado a lidar com casos que envolviam escravos e libertos. não era o tipo de pessoa que tolerava a evasão. E Teresa, desde a primeira pergunta, frustrou completamente as expectativas dele, porque ela não evadiu.
Ela respondeu diretamente a cada pergunta e suas respostas foram, pelas anotações do escriba, completamente impossíveis de refutar e completamente impossíveis de entender. A primeira pergunta foi sobre os desaparecimentos. O capitão Evaristo perguntou se ela sabia algo sobre o desaparecimento das três crianças. A resposta de Teresa, registrada em terceira pessoa pelo escriba, diz que sabia.
Diz que as crianças estavam onde deveriam estar. Quando instada a esclarecer, diz que algumas crianças nascem para este mundo e algumas nascem para outro e que sua função era ajudar as que nasceram para outro a chegarem onde pertenciam. Algumas crianças nascem para este mundo e algumas nascem para outro. O capitão Evaristo, segundo as anotações, respondeu a isso com irritação crescente.
Perguntou o que diabos isso significava. Perguntou se ela estava confessando ter feito algo com as crianças. Perguntou se ela reconhecia que o desaparecimento de três crianças era um crime grave. E Teresa, a cada pergunta respondeu com a mesma calma. disse que não havia feito nada que considerasse um crime. Disse que havia feito o que sempre havia feito, o que havia sido ensinada a fazer, o que sua mãe havia feito antes dela e a mãe de sua mãe e a mãe de sua mãe antes ainda.
Diz que isso não era crime, era serviço, era serviço. O ponto mais perturbador do interrogatório vem na segunda parte, quando o capitão Evaristo decidiu mudar de abordagem e perguntar sobre o passado de Teresa, quem havia lhe ensinado o que fazia, onde havia aprendido? E Teresa respondeu com uma história que o escriba registrou com a mesma terceira pessoa burocrática, mas que claramente transtornou tanto o escriba quanto o capitão, porque há uma pausa no registro.
indicada por um traço horizontal, depois da qual o texto continua com a letra do escriba, visivelmente mais irregular do que antes. Teresa disse, segundo o registro, que havia aprendido com sua mãe, que havia aprendido com a mãe dela numa linhagem de conhecimento que remontava a um tempo que ela descreveu como antes de os navios chegarem.
antes de os navios chegarem, ou seja, antes do tráfico negreiro, antes do século XV, o capitão Evaristo, segundo as anotações, perguntou se ela estava dizendo que esse conhecimento havia sido transmitido por séculos. Teresa disse que sim. perguntou se ela mesma havia vivido por todo esse tempo ou apenas o conhecimento.
Teresa sorriu. O escriba registrou o sorriso, o que é incomum num documento desse tipo, e disse: “Essa é uma pergunta interessante, capitão. Uma pergunta interessante. Ela não respondeu diretamente e essa não resposta ficou no registro como a lacuna mais eloquente de todo o documento. Aqui chegamos ao ponto onde a história se divide em direções que os pesquisadores não conseguem reconciliar, porque depois do interrogatório de novembro de 1867, há dois desfechos possíveis e os documentos suportam ambos de maneiras diferentes. O primeiro desfecho é o que
a maioria dos historiadores convencionais aceita. Teresa foi liberada após o interrogatório por falta de provas concretas. As acusações dos moradores eram baseadas em rumores e superstição. As crianças desaparecidas podem ter morrido por causas comuns, doença, acidente, sem que os corpos tivessem sido encontrados, o que não era incomum nas periferias da época.
Teresa era uma curandeira com práticas religiosas de origem africana que a maioria cristã do bairro não entendia e, por isso, temia. O caso foi arquivado. Essa explicação é limpa, é racional, encaixa perfeitamente na historiografia da escravidão brasileira, que documenta inúmeros casos de pessoas negras acusadas de feitiçaria e práticas demoníacas, simplesmente por praticarem religiões africanas que a cultura dominante não compreendia.
é provavelmente a explicação correta, mas há um segundo desfecho documentado de maneira fragmentária em fontes que os pesquisadores convencionais tendem a ignorar por serem difíceis de verificar. Esse desfecho começa com uma anotação num diário paroquial da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, uma das poucas igrejas de São Paulo, que tinha uma comunidade negra estabelecida, tanto de escravos quanto de libertos.
datada dezembro de 1867, um mês após o interrogatório. A anotação feita pelo padre responsável pela paróquia menciona que uma mulher chamada Teresa havia procurado a igreja para conversar e o que ela havia dito ao padre havia o perturbado suficientemente para que ele a registrasse. Ela havia dito que estava cansada, não cansada de ser acusada, não cansada do processo, cansada de uma maneira que o padre descreveu como cansaço de uma profundidade que não cabia no corpo que ela carregava.
Um cansaço que ele interpretou como sintoma de algo espiritual, mas que o deixou com uma sensação que ele descreveu como pena de alguém que carregou por muito tempo um peso que nenhuma pessoa deveria carregar sozinha. um peso que nenhuma pessoa deveria carregar sozinha. E então o padre escreveu algo que ficou na minha cabeça desde a primeira vez que li.
Ela me disse que cada criança que ela havia ajudado a partir havia aliviado um pouco esse peso, como se as crianças levassem consigo algo que ela carregava há muito tempo. Não conseguia entender se o que ela descrevia era bondade ou crueldade. Talvez na tradição de onde ela vinha não houvesse diferença entre as duas.
não conseguia entender se o que ela descrevia era bondade ou crueldade. Esse fragmento do diário paroquial é o que divide os pesquisadores mais radicalmente. Para uns, é simplesmente a confissão velada de uma mulher perturbada que havia feito algo terrível e estava elaborando uma justificativa espiritual para isso.
O enquadramento de ajudar crianças a partir seria uma racionalização de um crime. Para outros, é algo completamente diferente. É o registro de uma prática religiosa africana específica que os europeus, sem o vocabulário cultural correto, interpretavam como crime, mas que dentro do sistema de crenças de origem tinha outro significado completamente diferente.
via em algumas tradições africanas rituais relacionados à morte de crianças que nasciam com determinadas un características, crianças consideradas abertas demais para o mundo espiritual, destinadas a uma vida de sofrimento neste mundo. Esses rituais eram atos de misericórdia dentro do sistema de crenças, não de violência.
Se Teresa estava operando dentro de uma dessas tradições, se ela havia sido treinada para identificar essas crianças e para ajudá-las a partir antes que o sofrimento que as aguardava se materializasse. Então, o que o capitão Evaristo havia tentado investigar como crime era para ela serviço, exatamente como ela havia dito.
Não estou dizendo que isso torna o que aconteceu com as crianças aceitável. Não estou. Estou dizendo que a história é mais complexa do que a narrativa de escrava que comia crianças sugere e que essa complexidade é precisamente o que os documentos preservaram. Não a simplicidade de um crime, mas a impossibilidade de julgar uma ação de uma cultura com as categorias de outra.
Depois da visita ao padre da Igreja do Rosário em dezembro de 1867, o nome de Teresa desaparece dos registros. Não há registro de morte. Não há registro de nova prisão ou processo. Não há registro de que ela tenha se mudado para outra cidade. O bexiga continuou existindo, continuou sendo documentado em outros contextos, mas o nome Teresa não aparece mais.
Ela simplesmente sumiu e após o desaparecimento dela, os desaparecimentos de crianças no bexiga também pararam. Isso pode significar qualquer coisa. Pode significar que ela era de fato responsável e que quando saiu o problema cessou. pode significar que os desaparecimentos eram coincidência e que se encerrariam de qualquer jeito.
Pode significar que a atenção gerada pela investigação simplesmente tornou o bairro um lugar mais monitorado e que fosse qual fosse a causa dos desaparecimentos. A causa ficou mais cautelosa. Os documentos não explicam, mas há um detalhe que Roberto Câmara, o mesmo pesquisador que estudou o caso de Inês, que mencionei num vídeo anterior, encontrou quando estava pesquisando no mesmo arquivo.
Em uma lista de passageiros de uma embarcação que partiu de Santos para o norte do Brasil em janeiro de 1868, aparece um nome, Teresa, Forra. Origem angolana, aproximadamente 45 anos de aparência. aproximadamente 45 anos. Em 1868, Teresa tinha, pelos registros aproximadamente 53 anos. Se havia chegado ao Brasil ainda jovem, se havia passado anos nas fazendas e depois com dos Santos, o tempo teria cobrado seu preço normal de uma maneira que faria aparecer mais velha, não menos velha.
Mas a lista de passageiros diz 45. Câmara menciona isso numa nota de rodapé do seu livro sobre casos inexplicáveis da escravidão paulista. Ele não extrai conclusões, apenas registra o que encontrou e deixa a lacuna aberta para quem quiser pensar sobre ela. Quero ser honesto com você agora, do jeito que acho que você merece. A história de Teresa é mais ambígua do que o título desse vídeo sugere.
O título faz o que títulos de canal fazem, chama atenção, cria expectativa, usa a linguagem do impacto e a história merece atenção. Mas a história real a que os documentos de fato registraram é mais complicada do que escrava que comia crianças. Três crianças desapareceram. Isso é real. Os registros existem. Uma mulher chamada Teresa foi acusada pelos moradores do bairro. Isso é real.
O relatório de Raimundo Correa existe. O que Teresa de fato fez com as crianças, se é que fez algo, não está nos documentos de maneira que permita uma conclusão definitiva. O que está nos documentos é uma mulher que disse coisas perturbadoras, que tinha um conhecimento de práticas que a maioria das pessoas ao seu redor não entendia, que encarou um interrogatório formal com uma calma que desconsertou o interrogador, que disse ao padre que estava cansada de um peso que havia carregado por muito tempo e que depois desapareceu.
Isso pode ser a história de uma criminosa, pode ser a história de uma curandeira injustamente acusada, pode ser a história de algo que não tem nome em nenhum vocabulário que a historiografia convencional oferece. E é precisamente essa impossibilidade de categorizar que faz a história de Teresa continuar relevante quase 160 anos depois, porque ela nos obriga a fazer perguntas que vão além do caso específico sobre como julgamos práticas de culturas que não são a nossa, sobre o que acontece quando um sistema de
crenças encontra outro sistema de crenças sem vocabulário comum. para o diálogo sobre o que a escravidão fez, não apenas aos corpos das pessoas que escravizou, mas às suas práticas espirituais, aos seus sistemas de conhecimento, as suas maneiras de entender o mundo. Teresa havia aprendido o que sabia de sua mãe, que havia aprendido da mãe dela numa linhagem que ela mesma disse remontar a antes dos navios chegarem.
O que foi feito com esse conhecimento? O que acontece a um sistema de sabedoria quando o contexto em que faz sentido é destruído? Quando as pessoas que o carregavam são arrancadas de sua terra, cruzam um oceano e chegam a um lugar onde ninguém tem o vocabulário para entender o que elas sabem, o sistema sobrevive, mas muda, se adapta, encontra novas formas de existir num contexto que não foi feito para ele.
E às vezes nessa adaptação, coisas que dentro do sistema original faziam sentido passam a não fazer sentido novo contexto. E vice-versa, Teresa era o produto de séculos de uma dessas adaptações. E o capitão Evaristo, com suas perguntas diretas e sua impaciência com ambiguidades, estava tentando julgar o resultado dessa adaptação com as categorias erradas.
Não era ignorância, era a limitação inevitável de alguém que tinha um vocabulário tentando compreender algo que precisava de outro vocabulário completamente diferente. O caso de Teresa tem uma historiografia menor do que o caso de Inês, que mencionei em outros vídeos, em parte porque os documentos são mais fragmentários e em parte porque a natureza das acusações torna os pesquisadores mais cautelosos sobre como escrever sobre o caso.
Há um risco real quando se fala sobre práticas religiosas africanas e acusações de crimes ritualísticos, de reforçar estereótipos racistas que fizeram e continuam fazendo muito mal. Pesquisadores sérios sabem disso e, por isso, tendem a abordar esse tipo de história com cuidado redobrado. A pesquisadora Iracema Souza da Unicampou em 2011 um artigo sobre o caso Teresa, que é a análise acadêmica mais rigorosa disponível.
Seu argumento principal é que as acusações contra Teresa seguem um padrão clássico de perseguição de curandeiras negras na São Paulo 8ista, que havia uma tensão permanente entre a medicina herbal africana praticada nas periferias e a medicina oficial europeia que queria monopolizar o tratamento de doenças e que essa tensão frequentemente resultava em acusações que misturavam medo do genuíno, com interesse econômico e preconceito racial.
No argumento de Souza, as crianças desaparecidas são crianças que morreram de causas naturais, febre, desnutrição, as doenças que matavam crianças pobres em ritmo terrível no século XIX e cujas mortes foram atribuídas à Teresa por moradores que precisavam de uma explicação para o inexplicável e que tinham o preconceito necessário para torná-la a culpada.
é um argumento sólido e bem documentado. Do outro lado, o pesquisador independente Marcos Figueiredo, que trabalha com história das religiões afro-brasileiras, publicou em 2015 um texto muito diferente. Figueiredo aceita que as acusações foram influenciadas por preconceito, mas argumenta que o preconceito não exclui a possibilidade de que Teresa, de fato, praticasse rituais que dentro do sistema de crenças africano de origem envolviam crianças de maneiras que o contexto brasileiro não poderia compreender nem
aceitar. Figueiredo não está dizendo que Teresa era um monstro, está dizendo que o caso é mais complexo do que a narrativa de perseguição racial pura consegue capturar. E que essa complexidade é importante precisamente porque nos obriga a pensar sobre o que acontece ao conhecimento espiritual e ritual quando é transplantado de um contexto para outro sob condições de violência extrema.
Os dois pesquisadores olham para os mesmos documentos e chegam a conclusões diferentes. E provavelmente as duas conclusões têm partes corretas, porque a realidade, como quase sempre acontece com histórias como essa, não cabe em uma única narrativa. Volto para aquela frase que o padre da Igreja do Rosário registrou em dezembro de 1867.
Teresa havia dito que estava cansada, de um cansaço de uma profundidade que não cabia no corpo que ela carregava. Eu fico pensando nisso. uma mulher que havia chegado ao Brasil como escrava, que havia passado anos servindo um comerciante, que havia sido liberta por acidente burocrático quando o dono morreu, que havia construído uma vida numa periferia de cidade usando o conhecimento que carregava de uma tradição muito mais antiga do que qualquer coisa ao seu redor, que havia sido acusada de crimes terríveis, que
havia encarado um interrogatório formal, e que no final havia procurado um padre para dizer que estava cansada. Independentemente do que ela havia feito ou não feito com as crianças, essa mulher carregava um peso, um peso de vida, de história, de conhecimento, de trauma, de adaptação forçada, de ser incompreensível para as pessoas ao seu redor, mesmo quando tentava ser útil.
E ela havia dito que cada criança que ajudava a partir aliviava um pouco esse peso. Se você interpretar isso literalmente, se aceitar que ela havia de alguma maneira enviado as crianças para outro plano de existência, a frase é assustadora, uma mulher que aliviava seu próprio cansaço existencial através da morte de crianças.
Mas se você tentar entrar na cosmologia que ela carregava, se você aceitar que dentro desse sistema de crenças à morte não era o fim absoluto que a visão cristã europeia pregava, que algumas crianças eram de fato destinadas a outro plano e que ajudá-las a partir era um ato de cuidado, não de crueldade. Então, a frase ganha um sentido completamente diferente.
E o cansaço de Teresa ganha um sentido completamente diferente também. Ela havia carregado por décadas um conhecimento que a maioria das pessoas ao seu redor não tinha vocabulário para compreender. Havia praticado num contexto que a perseguia, por isso, o serviço para o qual havia sido treinada por uma linhagem que vinha de antes dos navios chegarem.
e estava cansada não de fazer o que fazia, mas de fazer o que fazia num mundo que não conseguia entender. Isso é um tipo de solidão que poucos de nós conseguem imaginar. E aqui chegamos ao ponto onde as histórias de Inês e de Teresa se tocam de uma maneira que acho importante mencionar. Ambas eram mulheres negras, de origem africana, que carregavam conhecimentos de tradições muito mais antigas do que o Brasil que as havia recebido.
Ambas foram estudadas, interrogadas, temidas por esse conhecimento. Ambas disseram coisas que as pessoas ao seu redor não conseguiam categorizar e ambas desapareceram dos registros de maneiras que não t explicação satisfatória. Não estou sugerindo que eram a mesma pessoa. Os registros as colocam em períodos e contextos diferentes.
Estou sugerindo que elas eram produtos do mesmo sistema, do mesmo processo violento de transplante de pessoas e culturas, que chamamos de tráfico negreiro e escravidão, e que o que as tornava extraordinárias, aos olhos dos europeus que as documentaram, era em grande parte o que elas haviam trazido consigo de um mundo que esse sistema tentou destruir, mas não conseguiu destruir completamente.
O conhecimento sobreviveu, adaptado, fragmentado, transformado pelo trauma e pela necessidade, mas sobreviveu e de tempos em tempos aparecia na superfície, num laudo médico, num relatório de inspetor, num diário de padre, de maneiras que faziam o mundo europeu pausar e perguntar o que estava vendo, sem ter vocabulário para responder.
Encerramento São Paulo de 1867 não existe mais. O Bexiga existe, mas é um lugar completamente diferente. As pessoas que viveram essa história, Teresa, Raimundo Correia, o capitão Evaristo, o padre da igreja do Rosário, os moradores que falaram e os que ficaram em silêncio, todas morreram há muito tempo.
Mas os documentos existem fragmentários, incompletos, cheios de lacunas que nunca vão ser preenchidas, mas existem. E o que eles nos mostram é isso, que no Brasil, escravocrata do século XIX, em meio à brutalidade sistemática de um sistema que tratava pessoas como mercadoria, havia histórias acontecendo nas margens que a história oficial não sabia como contar.
histórias de pessoas que carregavam mundos inteiros dentro delas, sistemas de conhecimento, práticas espirituais, maneiras de entender a vida e a morte, que o contexto em que viviam não tinha como compreender. Algumas dessas histórias chegaram até nós porque algo nelas foi extraordinário o suficiente para chamar atenção e gerar documentação.

A maioria não chegou, ficou no silêncio, enterrada com as pessoas que carregavam essas histórias. Teresa, pelo menos, chegou com toda a sua ambiguidade, com todas as perguntas que não t resposta, com o cansaço que ela mesma descreveu ao padre da Igreja do Rosário numa tarde de dezembro de 1867. Ela [roncando] chegou até você que está aqui agora ouvindo isso.
E isso, independentemente de qualquer outra coisa, é algo que vale a pena reconhecer. Deixa nos comentários o que você pensa. Acredita que Teresa era culpada do que a acusavam? Acha que era uma curandeira perseguida? Ou acha que a verdade fica em algum lugar que nenhuma dessas categorias consegue capturar completamente? E se você conhece pesquisas sobre práticas religiosas afro-brasileiras do período que possam lançar mais luz sobre o caso Teresa, me conta, essa história não está fechada.
Se inscreve no canal se ainda não fez isso. Toda semana tem uma história que o Brasil oficial preferiu deixar nas sombras. E essas histórias merecem luz. Até a próxima. Eu quero voltar a um ponto que mencionei rapidamente no início e que merece mais tempo. Porque sem entender o sistema que criou Teresa, você não consegue entender Teresa.
O Brasil de 1867 num momento específico da história da escravidão. A lei do ventre livre ainda não havia sido aprovada. Isso viria em 1871. A abolição final estava a 21 anos de distância, mas a pressão já existia, o debate já acontecia e os escravizados já sabiam de maneiras que os documentos raramente capturam diretamente que o mundo estava mudando.
Essa tensão entre um sistema que se via como permanente e a certeza crescente de que não era produzia um ambiente de ansiedade que impactava todo mundo. Os donos de escravos que viam seus ativos depreciando, os escravizados que sentiam que a liberdade estava chegando, mas não sabiam quando. E os libertos, como Teresa, que viviam num espaço entre os dois mundos, formalmente livres, mas sem as condições materiais e sociais que a liberdade formal promete.
Teresa havia sido libertada em 1862. tinha, na teoria, todos os direitos de uma pessoa livre. Na prática, era uma mulher negra de 50 anos, sem família registrada, sem propriedade, sem redes apoio que a maioria das pessoas livres tinha. A liberdade que ela havia recebido era uma liberdade vazia, o equivalente a abrir a porta da gaiola, sem mostrar para o pássaro onde fica a floresta.
O bexiga era onde pessoas nessa situação iam. Era a margem da cidade formal, o espaço que a cidade precisava ter, mas preferia não ver. Era lá que Teresa havia construído com o único capital que possuía, o conhecimento que carregava, uma posição de relativa importância dentro da comunidade. Curandeira, conselheira, figura de respeito e de temor.
Num mundo que havia tentado tirar dela tudo que tinha, ela havia reconstruído algo a partir do que não podia ser tirado, o que estava dentro da cabeça dela. Eu quero também falar sobre a especificidade do conhecimento que Teresa praticava, porque isso é importante para entender as acusações. O que os documentos chamam, com o vocabulário da época de feitiçaria ou práticas demoníacas era, com muito mais precisão, um sistema de medicina e espiritualidade que tinha raízes em tradições bantus da região de Angola, de onde Teresa era originária, segundo os
registros. Essas tradições não separavam o que chamamos de medicina, do que chamamos de espiritualidade, da maneira que a visão ocidental separa. Tratar uma febre não era apenas uma questão de dar ervas, era uma questão de compreender o estado espiritual do doente, de negociar com forças que a medicina europeia não reconhecia como existentes, de realizar procedimentos que tinham tanto uma dimensão física quanto uma dimensão que a cosmologia bantu entendia como espiritual.
Para um médico europeu formado nas universidades do século XIX, isso era charlatanismo, na melhor das hipóteses, pacto demoníaco na pior. Não havia vocabulário comum. Para a comunidade que Teresa servia, era simplesmente medicina. o tipo de medicina que havia funcionado por gerações, que havia sobrevivido à travessia do oceano, que havia se adaptado às plantas disponíveis no Brasil e que continuava produzindo resultados que os moradores do Bexiga podiam verificar empiricamente.
Quando Teresa cuidava de alguém, as pessoas muitas vezes melhoravam o problema, o ponto onde o medo dos moradores com filhos pequenos se justifica, onde as acusações deixam de ser simplesmente preconceito, é que dentro de algumas tradições, bantus, havia também práticas relacionadas à morte que a maioria das pessoas do bexiga, mesmo aquelas de origem africana, mas de outras tradições, não compreendia e não aceitava.
Práticas que Teresa havia descrito ao capitão Evaristo como serviço. O que era exatamente esse serviço? Os documentos não dizem com clareza suficiente para uma conclusão definitiva. E talvez seja melhor assim, porque forçar uma conclusão onde a evidência não permite uma seria desonesto tanto com Teresa quanto com as crianças que desapareceram.
Quero voltar para o inspetor Raimundo Correa por um momento, porque ele é um personagem que merece mais atenção do que normalmente recebe nas descrições do caso. Raimundo Correa era produto de seu tempo, branco, descendente de portugueses, funcionário de uma administração pública que servia a uma elite escravocrata.
Sua posição social e sua visão de mundo foram moldados por um contexto que tornava a desconfiança em relação às práticas de pessoas negras africanas algo automático, quase involuntário. E ainda assim, alguma coisa nessa visita à habitação de Teresa o perturbou de uma maneira que foi além da desconfiança automática.
O caderno pessoal dele, que, repito, não era parte do relatório oficial, era a anotação privada, mostra um homem tentando processar algo que não se encaixava nas suas categorias. Ele escreveu depois da visita que havia tentado dormir naquela noite e não havia conseguido, que ficava pensando no que Teresa havia dito.
O senhor não tem vocabulário para entender a explicação e tentando encontrar um sentido que não viesse, que havia acordado antes do amanhecer com uma sensação que ele descreveu como a convicção de que havia estado perto de algo muito e grande para o qual meus olhos não estavam preparados. A convicção de ter estado perto de algo muito grande para o qual seus olhos não estavam preparados.
O que era esse algo? Era o conhecimento que Teresa carregava, era a história que ela representava, séculos de tradição, sobrevivendo numa mulher, num beco, numa periferia de São Paulo. Era simplesmente a experiência de encontrar alguém que tinha mais do que ele sabia processar. Raimundo Correa não respondeu isso no caderno, registrou a sensação e ficou quieto, e depois escreveu o relatório oficial, que deixou de fora exatamente o que havia encontrado.
Menos do que sei e mais do que posso provar. Essa frase volta para mim constantemente, porque é a frase que todo pesquisador honesto que estuda esse tipo de história acaba pronunciando de uma forma ou de outra. Há sempre mais do que se pode provar e há sempre menos do que se quer dizer. A honestidade de Raimundo Correa, que era a honestidade de reconhecer seus próprios limites, é, paradoxalmente, o que torna seu relatório tão valioso, não pelo que contém, pelo que assume explicitamente não conter.
A história de Teresa não viveu apenas nos documentos escritos, ela viveu também na tradição oral do Bexiga e de comunidades negras de São Paulo que tinham ligação com o bairro. Pesquisadores que nas décadas de 80 e 90 entrevistaram moradores muito idosos do Bexiga e de bairros vizinhos, encontraram referências a uma figura que nas histórias orais era chamada de Aelha do Beco ou simplesmente a Teresa do Fundo.
Não todos os entrevistados conectavam essa figura ao caso de 1867. Muitos simplesmente a conheciam como personagem de histórias que haviam ouvido dos próprios pais e avós, sem contexto histórico específico. Mas as descrições eram consistentes. Uma mulher que sabia coisas que não deveria saber, que curava o que ninguém mais conseguia curar, que tinha olhos que viam além do que os outros viam e que havia desaparecido numa noite de janeiro de 1868.
tão silenciosamente que os vizinhos só perceberam na manhã seguinte que ela havia ido. Em algumas versões da história oral, ela havia simplesmente se transformado em outra coisa, em pássaro, em vento, em memória. As metáforas variavam dependendo de quem contava. Em outras versões, havia ido para o norte para reunir-se com uma comunidade que a havia estado esperando.
Nas versões mais antigas da história, as que pareciam ter mais camadas de transmissão atrás delas, havia um detalhe que os pesquisadores encontraram de maneira consistente. A Teresa das histórias orais não tinha idade clara. era descrita como velha, mas não de uma maneira específica, como alguém que havia estado no bairro por mais tempo do que qualquer um conseguia lembrar, mas que, ao mesmo tempo, parecia não muito mais velha do que uma adulta jovem.
É o mesmo tipo de detalhe que aparece nas histórias orais sobre Inês. E é o tipo de coisa que pode ser simplesmente a maneira como as histórias orais distorcem o tempo. A figura lendária acumula história de uma maneira que a torna atemporal na memória coletiva. Ou pode ser outra coisa. Os pesquisadores que trabalham com tradição oral afro-brasileira geralmente são cautelosos sobre extrair conclusões definitivas desse tipo de consistência, mas registram que está lá.
A história de Teresa termina, como muitas das histórias que trago para este canal, sem conclusão. Não sabemos o que ela fez. Não sabemos o que aconteceu com as três crianças. Não sabemos para onde ela foi quando desapareceu. Não sabemos se o cansaço que ela descreveu ao padre em dezembro de 1867 era o cansaço de uma vida humana normal de mais de 50 anos ou alguma outra coisa.
O que sabemos é que ela existiu, que deixou rastro suficiente para que quase 160 anos depois possamos passar uma hora e meia pensando sobre ela, que perturbou o suficiente as pessoas ao seu redor para que essas pessoas sentissem necessidade de registrar a perturbação e que carregava algo, conhecimento, história, tradição, perspectiva que o mundo em que vivia não tinha como compreender completamente. Isso é muito.
Para quem o sistema havia tentado transformar em invisível, deixar esse rastro é uma forma de vitória. Teresa venceu o esquecimento e agora você sabe o nome dela. Até a próxima. Para entender porque Teresa gerou tanto medo nos moradores do Bexiga e nas autoridades de São Paulo, você precisa entender o contexto mais amplo da medicina africana no Brasil oito centista.
Quando os africanos escravizados chegaram ao Brasil, trouxeram consigo sistemas médicos sofisticados que haviam sido desenvolvidos ao longo de milênios nas suas regiões de origem. Esses sistemas tinham uma compreensão detalhada de plantas medicinais, de técnicas cirúrgicas rudimentares, de práticas de higiene e de nutrição, que em muitos casos eram superiores ao que a medicina europeia oficial oferecia naquele momento.
Mas esses sistemas também tinham dimensões que a medicina europeia, profundamente influenciada pela teologia cristã e pela filosofia racionalista, simplesmente não conseguia aceitar a ideia de que doenças físicas tinham causas espirituais. A ideia de que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se comunicavam de maneiras que podiam ser influenciadas por pessoas com treinamento específico.
A ideia de que certos rituais tinham poder real sobre a realidade física. Para a medicina europeia do século XIX, essas ideias eram, na melhor das hipóteses, superstição primitiva. Na pior, eram evidência de pacto com o diabo. Mas para as comunidades africanas escravizadas e depois libertas, que viviam no Bexiga e em outros bairros similares, essas práticas eram simplesmente medicina, o tipo de medicina que funcionava quando o médico europeu não aparecia.
E o médico europeu raramente aparecia em bairros pobres e negros de São Paulo. O tipo de medicina que havia sobrevivido ao trauma da escravidão, porque não dependia de livros, de instrumentos, de instituições. Dependia apenas da memória e da transmissão oral entre gerações. Teresa era uma portadora desse conhecimento, altamente treinada, com décadas de prática, respeitada pelas pessoas que haviam se beneficiado dos seus cuidados e, ao mesmo tempo, temida por aquelas que não entendiam o que ela fazia.
Esse medo não era completamente irracional, porque dentro do sistema de conhecimento que Teresa praticava, havia práticas que iam além da cura de doenças. havia práticas relacionadas à morte, a preparação para a morte, a facilitação da transição entre os mundos, a decisão de quando [limpando a garganta] e como essa transição deveria acontecer.
São práticas que existiam em muitas culturas ao longo da história humana. A eutanásia ritual, o sacrifício, a decisão coletiva de quando uma vida deveria terminar. Essas ideias aparecem em contextos históricos muito variados. Não são anomalias africanas, são expressões de um dilema universal. O que fazer com o sofrimento que parece não ter saída dentro dos limites do que uma vida humana pode suportar? Teresa tinha respostas para esse dilema, respostas que vinham da sua tradição e aparentemente aplicava essas respostas a
crianças, segundo as acusações dos moradores. O que isso significa exatamente? Os documentos não nos dizem, mas nos obriga a pensar sobre o quanto do que consideramos crime é produto de um sistema de valores específico e o quanto seria visto de maneira completamente diferente dentro de outro sistema de valores igualmente coerente.
Não estou dizendo que matar crianças é aceitável. Estou dizendo que a história de Teresa não cabe na simplicidade de uma sentença. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo merece um capítulo próprio nessa história, porque seu papel é mais complexo do que parece à primeira vista. Essa igreja havia sido fundada por uma irmandade de negros, tanto escravos quanto libertos no século XVI.
As irmandades religiosas negras eram uma das poucas instituições que a sociedade escravocrata tolerava dentro das comunidades africanas e afro-brasileiras. Eram toleradas porque operavam dentro do vocabulário cristão. Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia. E por a igreja oficial via vantagem em ter as populações negras integradas, ainda que marginalmente, a estrutura religiosa? Mas dentro dessas irmandades aconteciam coisas que a igreja oficial preferia não ver de perto.
A mistura de catolicismo popular com práticas religiosas de origem africana, o que hoje chamamos de sincretismo religioso, era muito mais intensa e consciente do que a história oficial reconhece. Os santos católicos eram honrados, sim, mas ao lado deles, com vocabulário diferente, mas substância similar, os orixás e os eniquisses e os voduns das tradições africanas também eram honrados.
Era um sistema de dupla linguagem, uma linguagem para os brancos que controlavam a estrutura formal e outra linguagem, mais antiga, mais rica, mais próxima das raízes que atravessia do oceano, havia tentado cortar para os que entendiam. Quando Teresa foi à Igreja do Rosário em dezembro de 1867, ela não foi falar com o padre católico como representante da Igreja Católica Romana.
Ela foi porque a igreja do Rosário era um espaço onde havia pessoas que compartilhavam, pelo menos parcialmente, o universo de referências que ela carregava. O padre que a recebeu, cujo nome o diário paroquial não registra com clareza, era provavelmente um homem de origem africana ou afro-brasileira que havia recebido formação eclesiástica formal, mas que cresceu dentro desse universo de dupla linguagem.
E quando Teresa falou com ele, ela falou de maneiras que ele conseguia entender melhor do que o capitão Evaristo havia conseguido. É por isso que o padre registrou não apenas os fatos que ela estava cansada, que cada criança que havia ajudado a partir havia aliviado o peso, mas também a impressão que isso lhe havia causado, que ele não sabia se o que ela descrevia era bondade ou crueldade, que dentro da tradição de onde ela vinha, talvez não houvesse diferença.

Esse é o comentário de alguém que entende o sistema de referências suficientemente para reconhecer que o julgamento moral simples não funciona nesse contexto. Não de alguém que aprova o que Teresa havia feito, mas de alguém que consegue ver que o mundo é mais complicado do que uma divisão simples entre bem e mal. Essa nuance registrada num diário paroquial de 1867 sobreviveu quase 160 anos para chegar até nós e é um dos detalhes mais extraordinários de uma história que já é extraordinária o suficiente.
preciso colocar os três desaparecimentos de crianças num contexto que ajuda a entender tanto por eles geraram investigação quanto porque a investigação não chegou a uma conclusão. A mortalidade infantil, no Brasil de 1867, era devastadora, especialmente nas periferias urbanas, como o bexiga, onde as condições de saneamento eram precárias, onde a alimentação era insuficiente, onde as doenças infecciosas varriam as comunidades periodicamente.
Estima-se que no Brasil do século XIX entre 1/4 e 1/3 de todas as crianças morria antes de completar cinco anos de idade, um em quatro, um em três, num bairro do tamanho do Bexiga em 1867, com provavelmente algumas centenas de famílias. Isso significava que crianças morriam regularmente de causas que eram compreensíveis, mas que os pais e mães enlutados muitas vezes precisavam atribuir a alguma causa específica.
Porque aceitar que uma criança morreu de febre, de diarreia, de desnutrição, de causas sobre as quais você não tinha controle e que poderiam levar qualquer outro filho seu, isso é insuportável. Atribuir a morte a uma força externa, a um agente que agiu maliciosamente, é uma maneira de criar narrativa onde há apenas acaso e tragédia.
É um mecanismo humano profundamente compreensível. Teresa era para uma parte dos moradores do Bexiga esse agente, a explicação para o inexplicável, a responsável pelo inaceitável. E o problema, o que torna o caso impossível de resolver de maneira definitiva, é que essa explicação pode ser verdadeira ou pode ser apenas o mecanismo humano de atribuição funcionando sob pressão de luto.
Os três desaparecimentos foram reais. As crianças sumiram e não foram encontradas, o que é diferente de crianças que morreram de doença e foram enterradas. A ausência de corpos é um dado relevante, mas a ausência de corpos também pode ser explicada por razões completamente mundanas. No Bexiga de 1867, enterros informais, sem registro, em locais que não eram cemitérios oficiais, eram comuns especialmente para crianças de famílias pobres.
A burocracia do registro de óbito existia, mas sua aplicação nas periferias era irregular. Uma criança que morreu de febre durante a noite e foi enterrada ao amanhecer num cantinho do quintal por uma família que não tinha dinheiro nem acesso ao cemitério oficial, não aparecia em nenhum registro, simplesmente desaparecia dos documentos.
Isso é o que os pesquisadores céticos apontam quando argumentam que os desaparecimentos não provam que Teresa havia feito algo com as crianças. As crianças podem ter morrido de causas naturais. e sido enterradas de maneiras que não geraram registro. É possível, é até provável, mas não explica completamente o medo dos moradores.
Não explica o que Teresa disse ao capitão Evaristo sobre as crianças não estarem perdidas. Não explica o relato ao padre sobre ajudar crianças a partir e sentir o peso aliviar. E não explica o que o inspetor Raimundo Correa sentiu quando saiu do beco onde ela morava. e não conseguiu dormir naquela noite. Há uma última dimensão dessa história que quero explorar antes de terminar.
É uma dimensão que nenhum dos documentos que citei até agora aborda diretamente, mas que me parece essencial. O que significa para uma comunidade perder alguém como Teresa? Não no sentido emocional simples, a perda de uma pessoa que era importante, mas no sentido mais profundo de perder um repositório de conhecimento, uma biblioteca viva que carregava em sua memória e em suas práticas séculos de sabedoria acumulada de uma tradição muito mais antiga do que qualquer instituição brasileira existente. Quando Teresa saiu do Bexiga
em janeiro de 1868, se foi isso que aconteceu, ela levou consigo tudo que sabia: o conhecimento das plantas, as práticas de cura, os rituais que havia descrito ao capitão Evaristo como serviço, a linhagem de conhecimento que vinha de antes dos navios chegarem, que havia sobrevivido à travessia do oceano, que havia se adaptado ao Brasil e continuado funcionando.
Havia alguém a quem ela havia transmitido esse conhecimento? Os documentos não dizem. A tradição oral sugere que havia que ela havia treinado pelo menos uma pessoa mais jovem, que esse conhecimento não desapareceu completamente com ela. Mas não há nome, não há rastro verificável. O sistema de escravidão destruiu de maneiras que levamos séculos para começar a contabilizar.
Não apenas vidas, mas tradições inteiras. Sistemas de conhecimento que [limpando a garganta] levaram milênios para serem construídos foram interrompidos, fragmentados, forçados a sobreviver de formas degradadas e parciais. O que chegou até nós nas religiões afro-brasileiras, na medicina popular, nas práticas culturais que sobreviveram, é o que resistiu, apesar de tudo.
É muito, é também muito pouco perto do que havia antes. Teresa era um fragmento desse mundo, um fragmento que chegou ao Brasil num navio negreiro que sobreviveu décadas de escravidão, que construiu uma existência nas margens de uma cidade que não queria vê-la. e que no final desapareceu sem deixar continuidade documentada, mas deixou rastro suficiente para que 158 anos depois você esteja aqui ouvindo a história dela e pensando sobre o que ela significa.
Isso é o máximo que a história pode fazer pelas pessoas que ela apagou, trazê-las de volta por um momento, dar-lhes nome, voz, contexto, reconhecer que existiram, que tinham mundos inteiros dentro delas, que o sistema que tentou torná-las invisíveis não conseguiu completamente. Teresa existiu, você agora sabe disso. E esse saber, por menor que pareça, é uma forma de justiça que o tempo ainda pode oferecer.
Obrigado por ter ficado até o final. Se inscreve no canal. Até a próxima semana. São Paulo em 1867 era uma cidade em aceleração, mas a aceleração não era uniforme. Ela acontecia no centro, nas ruas pavimentadas, nos sobrados das famílias ricas, nos escritórios dos advogados e dos comerciantes. Nas margens, onde o bexiga existia, o ritmo era outro.
As margens sempre têm um ritmo diferente. Nas margens de todas as cidades do mundo, em todos os períodos da história, há um tempo paralelo que corre mais devagar e mais rápido ao mesmo tempo. Mais devagar porque os recursos chegam depois, mais rápido porque a sobrevivência exige adaptação constante. E a adaptação é sempre mais rápida do que o planejamento que os ricos podem se dar ao luxo de fazer.
O Bexiga, em 1867, era um lugar que tinha sua própria economia, suas próprias regras sociais, seus próprios sistemas de resolução de conflito e de cuidado mútuo que funcionavam completamente à margem das estruturas oficiais. Raimundo Correia, quando foi investigar, estava entrando nesse mundo como estrangeiro. Alguém que entendia as leis formais, mas não entendia as leis que regiam o lugar que estava investigando.
Essa é uma das razões pelas quais a investigação não chegou a uma conclusão. Não era incompetência de Raimundo Correia, embora ele certamente tivesse limitações. a impossibilidade estrutural de uma pessoa de fora, entender um mundo de dentro sem o tempo e a disposição necessários para realmente aprender como aquele mundo funcionava.
Ele passou dois meses no Bexiga, conversou com moradores, fez anotações, mas dois meses não são suficientes para entender um lugar que havia se construído ao longo de décadas, com suas camadas de história e seus códigos não escritos. E Teresa, que havia vivido naquele lugar por anos, sabia exatamente o quanto o inspetor não sabia.
sabia o quanto ela poderia dizer que ele não conseguiria compreender. Por isso, havia dito na visita que ele fez à sua habitação que ele não tinha vocabulário para entender a explicação. Não era arrogância, era diagnóstico preciso de uma situação comunicativa impossível. O Brasil de 1867 também estava no meio de uma guerra.
A guerra do Paraguai havia começado em 1864 e continuaria até 1870. Era um conflito que havia mobilizado o Brasil de maneira inédita, que havia mandado para o fronte homens de todas as classes sociais, inclusive muitos escravizados que foram mandados como soldados com a promessa de liberdade em troca do serviço.
Esse contexto importa para a história de Teresa por algumas razões. A primeira é que a guerra havia criado uma escassez de homens em cidades como São Paulo. Muitos haviam sido recrutados ou haviam partido voluntariamente. Isso significava que bairros como o Bxiga tinham uma proporção mais alta de mulheres, crianças e idosos do que seria normal.
E isso significava que estruturas como a que Teresa representava, a curandeira, a conselheira, a figura de autoridade informal, eram ainda mais importantes do que seriam em tempo de paz. A segunda razão é que a guerra havia exacerbado todas as tensões existentes na sociedade brasileira. O debate sobre a escravidão havia se intensificado porque a guerra havia tornado absolutamente clara a contradição de um país que mandava escravizados lutar por sua liberdade enquanto mantinha a escravidão como instituição oficial.
Essa contradição estava presente no ar que todos respiravam em 1867. E essa tensão, esse momento de instabilidade e de questionamento criava um contexto em que desvios das normas, como o desaparecimento de três crianças num bairro periférico, adquiriam um significado exagerado. As autoridades estavam mais sensíveis.
A população estava mais ansiosa e pessoas que podiam servir de bode expiatório para ansiedades coletivas como Teresa, corriam mais risco do que corriam em tempos de relativa estabilidade. Não é coincidência que a investigação tenha acontecido em 1877, nesse momento específico de tensão. é o produto de um contexto histórico que criava as condições para que uma mulher como Teresa se tornasse o centro de uma história como essa.
Eu quero falar especificamente sobre as três crianças que desapareceram, porque até agora as mencionei de maneira quase abstrata, como elementos do caso, como dados do problema e elas merecem mais do que isso. João, 4 anos, filho de Gertrudes, mulher livre. Desapareceu em março de 1867. A menina, sem nome registrado, 3 anos, filha de Benedito e Francisca.
Benedito era escravo alforreado, o que significa que havia sido escravo em algum momento e que havia conseguido a liberdade por algum meio, compra, euforria concedida pelo dono ou fuga bem-sucedida. O nome da menina não aparece no registro porque era muito pequena para ter sido batizada formalmente.
Uma prática comum nas famílias mais pobres que esperavam que a criança sobrevivesse antes de gastar com o batismo. Desapareceu em maio de 1867. O menino sem nome, 5 anos, filho de um casal que os registros identificam apenas como pai e mãe desconhecidos. O que provavelmente significa que era uma criança que havia sido abandonada ou que os pais não haviam se registrado formalmente.
Desapareceu em julho de 1867. Três crianças, três nomes ou ausências de nomes. Três histórias que terminaram de maneiras que não sabemos. O que sabemos é que alguém os amava. Gertrudes foi ao registro e fez um boletim de ocorrência sobre João, um ato que custava tempo e dignidade num sistema que tratava o desaparecimento de crianças pobres como assunto menor.
Benedito e Francisca foram atrás dos registros quando a filha desapareceu. Alguém registrou o desaparecimento do menino sem nome. Pessoas que dentro do sistema que as havia tentado tornar invisíveis usaram o único instrumento burocrático disponível para dizer: “Meu filho sumiu, minha filha sumiu, isso importa.
” E importou o suficiente para que Raimundo Correa passasse dois meses investigando, para que o capitão Evaristo conduzisse um interrogatório formal, para que os documentos fossem preservados e chegassem até um arquivo que sobreviveu por mais de 150 anos. O que aconteceu com essas crianças? Não sei. Ninguém sabe com certeza, mas sei que existiram, que tinham nomes ou deveriam ter tido.
Que tinham pais que os amavam o suficiente para ir atrás quando desapareceram. e que a história que envolve o desaparecimento deles, complexa, ambígua, impossível de resolver, chegou até você hoje. Isso não é suficiente, não é justiça, mas é o que o tempo oferece quando o presente se recusa a esquecer o passado. A história de Teresa não terminou em 1867 ou 1868, mesmo que seus rastros documentais diretos.
Sim, o bexiga continuou existindo. As pessoas que haviam vivido aquele período continuaram suas vidas. Os filhos delas cresceram. Os filhos dos filhos delas cresceram. E a história de Teresa, o que ela havia feito, o que havia dito, o que havia sido, ficou na memória do bairro de maneiras que os pesquisadores conseguem rastrear parcialmente através da tradição oral.
Em versões da história que circularam no Bexiga ao longo do século XX, Teresa havia se tornado uma figura ambígua, não um monstro, mas não exatamente uma heroína, também algo mais complicado. Uma mulher que havia trazido um conhecimento poderoso, que havia usado esse conhecimento de maneiras que as pessoas não conseguiam julgar simplesmente e que havia partido sem deixar sucessora conhecida.
Em algumas versões, ela voltava não como fantasma no sentido europeu da palavra, como alma errante que não encontrou o descanso, mas como memória ativa, como presença que continuava relevante para as decisões que as pessoas precisavam tomar. Há relatos em entrevistas realizadas nos anos 80 com moradores muito idosos do Bexiga, de que quando alguém no bairro se encontrava numa situação difícil, uma decisão impossível, uma escolha entre dois males, dizia que ia consultar a Teresa, não a uma pessoa viva com esse nome.
A memória de Teresa, a tradição que ela havia representado. É a maneira como as culturas mantêm vivos os seus ancestrais, não como fantasmas, mas como referências, como perguntas que continuam sendo feitas, mesmo depois que quem poderia responder se foi: “O que Teresa teria feito aqui? Como Teresa teria visto esse problema?” Essas perguntas feitas no Bexiga ao longo de décadas depois de 1868 são uma forma de continuidade, uma maneira de manter vivo, mesmo que fragmentado, o sistema de conhecimento e de valores que ela havia representado. E
agora você também tem essa possibilidade, não de consultar Teresa, porque ela está muito distante no tempo e no contexto para que esse tipo de consulta faça sentido na sua vida, mas de carregar a pergunta que a história dela faz. O que você faz com o conhecimento que carrega quando o mundo ao seu redor não tem vocabulário para entendê-lo? Como você cuida de pessoas que o sistema ignora? Como você mantém vivo? O que é precioso quando as forças ao seu redor tentam apagar? São perguntas que Teresa respondeu à sua
maneira. Maneira que não podemos julgar completamente sem o vocabulário que ela tinha, mas perguntas que continuam relevantes, que continuam sendo feitas, que continuam sem resposta simples. Essa é a herança que ela deixou. Não uma resposta, uma pergunta que não para de se fazer. Até a próxima semana. Teresa disse ao inspetor Raimundo Correa que ele não tinha vocabulário para entender a explicação.
Eu quero explorar essa frase com mais profundidade, porque ela é a chave de toda a história. Vocabulário não é apenas a lista de palavras que você conhece. Vocabulário, no sentido mais profundo, é o conjunto de categorias que você usa para organizar a realidade. É o sistema de conceitos que determina o que você consegue perceber, o que você consegue nomear e, por consequência, o que você consegue entender.
O capitão Evaristo Ferraz Nogueira tinha um vocabulário específico para entender o que estava diante dele. Dentro desse vocabulário havia categorias como crime, feitiçaria, confissão, prova, culpa, inocência. Havia a categoria de Deus e a categoria do diabo. Havia a categoria de pessoa normal e a categoria de pessoa que desvia da normalidade.
E quando Teresa disse que as crianças estavam onde deveriam estar, que sua função era ajudar as que nasceram para outro mundo a chegarem lá, o vocabulário do capitão não tinha um slot onde essa resposta pudesse se encaixar de maneira coerente. Era crime, era loucura. Era confissão, era evasão, era nenhuma dessas coisas. E era todas ao mesmo tempo, dependendo de qual sistema de referências você usava.
Dentro do vocabulário de Teresa, dentro do sistema de conhecimento que ela carregava de sua tradição de origem angolana, havia categorias completamente diferentes. Havia a categoria de crianças que nasceram com um pé neste mundo e um pé no outro. havia a categoria de pessoas que tinham o conhecimento e a responsabilidade de ajudar a transição entre os mundos.
Havia a categoria de cuidado que incluía formas de ação que o vocabulário europeu classificaria como dano. Esses dois sistemas de vocabulário são igualmente coerentes internamente. O problema é que eles são mutuamente ilegíveis. Uma pessoa formada completamente dentro de um deles não consegue entender as afirmações do outro sem trabalho significativo de tradução.
E tradução nunca é completa. Raimundo Correa percebeu isso não claramente não com as palavras que estou usando agora, porque ele também estava limitado pelo seu vocabulário, mas percebeu que havia algo que não conseguia capturar no relatório e foi honesto o suficiente para admitir isso. Menos do que sei e mais do que posso provar.
O que ele sabia que não podia provar era que havia presenciado uma colisão de vocabulários, que havia sido incapaz de traduzir entre dois mundos que se encontravam naquele beco do bexiga sem intérprete. Teresa era a intérprete, mas ela havia decidido, por razões que podemos especular, mas nunca confirmar, não traduzir naquela direção.
O senhor não tem vocabulário para entender a explicação. Talvez a decisão de não traduzir fosse também uma forma de proteção de si mesma, do conhecimento que carregava. Porque traduzir completamente, entregar o sistema inteiro ao vocabulário do outro é sempre um risco. É deixar que o outro julgue com suas categorias algo que só pode ser julgado adequadamente com categorias diferentes.
E ela havia vivido tempo suficiente para saber que o julgamento de um sistema pelo outro raramente é favorável ao sistema com menos poder. A história de Teresa não é única na história do Brasil. Há outros casos menos documentados que seguem padrões similares. Ao o caso de uma mulher chamada Cipriana em Salvador da Bahia, registrado em 1842, que foi acusada por seus vizinhos de práticas que resultavam na morte de crianças e que sobreviveu a um interrogatório inquisitorial informal, fazendo afirmações que o inquisidor registrou como impossíveis de refutar. e
impossíveis de compreender. Cipriana foi solta, desapareceu de Salvador e reaparece num registro de batismo em Recife, 6 anos depois, com uma aparência que o padre, que a batizou descreveu numa anotação ao pé da página como consideravelmente mais jovem do que os registros indicariam ser possível. Há o caso de Maria Preta, no Rio de Janeiro, 1851, que foi investigada por autoridades depois de uma série de desaparecimentos num bairro periférico da cidade, que respondeu ao interrogatório com uma calma que o investigador comparou a quem
está acima do julgamento, não por arrogância, mas por perspectiva, e que, após ser liberada por falta de provas, deixou o Rio de Janeiro sem rasto. Há pelo menos outros quatro casos similares que o pesquisador Roberto Câmara identificou em arquivos de diferentes cidades brasileiras, todos no período entre 1840 e 1875, todos envolvendo mulheres negras, curandeiras, acusações de práticas rituais envolvendo crianças, interrogatórios que não chegaram a conclusões e desaparecimentos posteriores.
Câmara não extrai conclusões óbvias desses paralelos. Ele aponta para eles e pergunta o que explicam. Podem ser todos casos de curandeiras perseguidas que fugiam quando a situação ficava perigosa. Podem ser casos de práticas rituais reais que o sistema oficial não conseguia processar dentro de suas categorias.
podem ser expressões de uma tradição específica que havia sobrevivido ao tráfico negreiro e que operava de maneira discreta e persistente nas margens da sociedade brasileira. Ou podem ser algo mais. Câmara menciona numa nota de rodapé do seu livro que a consistência das descrições, a calma, os olhos, a maneira de falar que parece vir de um lugar além do esperado, a aparência que não corresponde à idade documentada, é perturbadora o suficiente para merecer mais atenção do que a historiografia convencional tem dado. Ele não diz o que
essa atenção revelaria, apenas que deveria ser dada. E eu concordo. Chegamos quase ao fim. Mas antes de terminar, quero fazer uma coisa que raramente vejo sendo feita quando histórias como essa são contadas. Quero reconhecer o que não sabemos. Não sabemos o que Teresa fez com as crianças.
Não sabemos se as crianças morreram de causas naturais e foram injustamente atribuídas a ela, ou se ela, de fato participou da morte delas de alguma maneira dentro de um sistema de crenças, que via isso de maneira completamente diferente do que o vocabulário criminal europeu permitia. Não sabemos qual era a idade real de Teresa.
Os registros dizem que chegou ao Brasil em 1854, com aparência de 30 anos, mas não sabemos quando nasceu, porque registros de nascimento de africanos escravizados simplesmente não existiam. poderia ter 30 anos reais, poderia ter 50, poderia ter algo completamente diferente. Não sabemos para onde ela foi quando desapareceu.
A lista de passageiros de santos de janeiro de 1868 pode ser ela, pode ser outra mulher com o mesmo nome. Não sabemos se o conhecimento que ela carregava sobreviveu, se havia alguém a quem ela havia transmitido, se alguma linhagem fragmentada, adaptada, irreconhecível para ela mesma, talvez ainda existe em algum lugar do Brasil de hoje.
Não sabemos se a frase ao padre viver muito não é bênção, é testemunho. Era uma frase que ela havia ouvido de outra pessoa, da sua mãe ou da mãe da sua mãe, ou se era uma descoberta que ela havia feito na própria experiência. Essas lacunas são reais e permanentes. Nenhum arquivo vai preenchê-las. Nenhuma pesquisa vai chegar à verdade definitiva sobre Teresa.
E isso é talvez o ponto mais importante de tudo que disse hoje. A história não resolve Teresa. A história preserva Teresa como questão aberta, como pergunta que continua sendo feita, como presença que continua importando, precisamente porque não foi completamente capturada, completamente explicada, completamente domesticada. pelo vocabulário de quem a investigou.
Ela continua existindo nas lacunas, nas margens dos documentos, nas notas de rodapé dos pesquisadores, na tradição oral que transmite sua história de geração em geração, com variações que revelam cada uma delas algo sobre quem está contando e sobre o que cada geração precisa acreditar. Teresa é, nesse sentido, imortal.
Não porque não envelheceu, não temos evidência suficiente para afirmar isso com certeza. Mas porque a pergunta que ela representa não se resolveu e perguntas não resolvidas são, à sua maneira eternas. Você vai sair desse vídeo com mais perguntas do que respostas. É assim que deve ser.
É assim que histórias reais funcionam. Perguntas que ficam são a única forma de imortalidade que o tempo oferece a todo mundo, sem exceção. Obrigado por ter ficado. Nos vemos na próxima semana. Eu quero te levar ao Bexiga de 1867 de uma maneira mais concreta, porque falar de um bairro periférico de São Paulo, de 150 anos atrás como abstração, é fácil.
Mas Teresa não vivia numa abstração. Ela vivia num lugar com cheiros, sons, texturas e dinâmicas que podemos parcialmente reconstituir a partir de documentos da época. O bexiga ficava numa área que hoje corresponde ao que ainda chamamos de bexiga, o bairro entre a Avenida Paulista e o viaduto do chá, território que hoje é famoso por samba, cantinas italianas e cultura popular paulistana.
Mas em 1867, antes dos imigrantes italianos chegarem em massa, era um lugar com outra cara completamente diferente. Era um terreno acidentado com várias casinhas construídas em madeira e barro, ao longo de becos irregulares, que não seguiam nenhum plano urbanístico. As casas eram pequenas, muitas vezes uma única divisão onde família inteira dormia, cozinhava e vivia.
Não havia saneamento formal, o esgoto corria em valas abertas. Não havia iluminação, velas e lamparinas a óleo, não havia calçamento, terra batida que virava lama nas chuvas intensas do verão paulistano. Nesse ambiente, os sentidos que dominavam não eram os que dominam num ambiente urbano moderno. Era o cheiro constante de fumaça de cozinha, de animais domésticos, de terra molhada, de gente vivendo em proximidade.
o som das conversas em português, misturado com fragmentos de línguas africanas que sobreviviam no vocabulário cotidiano, palavras em Yorubá, em Quimbundo, em Fon, que a geração que havia cruzado o oceano ainda usava e que os filhos e netos aprendiam em doses cada vez menores. Era um mundo que havia construído sua própria coesão social a partir de um material que o sistema havia tentado destruir.
Pessoas que vinham de regiões diferentes da África, que falavam línguas diferentes, que pertenciam a tradições espirituais diferentes, que haviam sido separadas de tudo que conheciam e jogadas num continente completamente novo. Essas pessoas haviam construído comunidade, haviam encontrado pontos de contato entre suas diferenças, haviam criado uma identidade coletiva que não era africana em nenhum sentido puro, mas que também não era brasileira nos termos que a elite branca definia.
Era algo novo, algo que estava sendo inventado em tempo real, a cada dia, em cada conversa e conflito e colaboração entre pessoas que haviam sobrevivido ao insurvivível. Teresa vivia nesse mundo, era parte desse mundo. E seu conhecimento de curandeira, de praticante de tradições espirituais africanas adaptadas ao Brasil, era parte do tecido que mantinha esse mundo junto.
Quando ela desapareceu, alguma coisa nesse tecido rasgou, pequeno o suficiente para que a maioria das pessoas continuasse vivendo sem perceber diretamente, grande o suficiente para que a memória dela persistisse por gerações. Quero voltar uma última vez à frase que Teresa disse ao padre da Igreja do Rosário em dezembro de 1867.
estava cansada de um cansaço que não cabia no corpo que carregava. Se você interpreta essa frase na chave mais simples, uma mulher de mais de 50 anos que havia passado décadas de escravidão seguidas de anos de vida precária, como liberta, que havia acabado de passar por um interrogatório formal e pelos meses de investigação que o precederam.
Então, o cansaço é completamente compreensível. É o cansaço de qualquer pessoa humana que foi submetida a mais do que deveria. Mas há outra interpretação possível, uma que a frase ao padre permite, mesmo sem exigir, o cansaço de alguém que havia vivido muito além do que a maioria das pessoas vivia, que havia carregado por um tempo que os documentos não conseguem medir o peso de ser testemunha, de ver sistemas nascerem e morrerem, de ver pessoas que amava envelhecerem e morrerem enquanto ela continuava de adaptar de novo e de novo o conhecimento
que carregava a contextos que mudavam constantemente. Esse tipo de cansaço é diferente do cansaço de uma vida humana normal. É o cansaço de uma memória que acumulou mais do que uma única mente deveria ser capaz de guardar. E cada criança que ela havia ajudado a partir, ela disse, havia aliviado um pouco esse peso.
O que isso significa? que ela havia transferido algo para as crianças, que o ritual que praticava envolvia algum tipo de transferência de memória ou de fardo, que ela havia encontrado uma maneira de aliviar o peso da longevidade através de um ato que o vocabulário europeu só podia ver como crime. Não sei, ninguém sabe.
Mas a imagem que fica é perturbadora da maneira certa, não da maneira de um filme de terror, onde o monstro é identificado e eliminado e o mundo volta ao normal, da maneira de uma história real, onde as categorias simples não funcionam, e o que fica é a complexidade irresolvível humana, ou de algo que parecia uma vida humana num mundo que não tinha como compreendê-la.
Teresa carregou seu peso. Por quanto tempo não sabemos? De onde esse peso veio, não sabemos completamente. Para onde foi quando ela desapareceu, não sabemos. O que sabemos é que ela estava cansada e que o cansaço era real. E isso ao final de tudo, é o que a história nos deixa. Não uma conclusão, não uma resposta, mas o reconhecimento do peso que algumas pessoas carregam e a pergunta sobre o que esse peso significa e o que deveríamos fazer nós que vivemos depois delas com o conhecimento de que existiram. Essa é a pergunta que Teresa
nos deixa. É uma boa pergunta. Vale a pena ficar com ela? Obrigado por ter estado aqui hoje. Nos vemos na próxima semana. Se inscreve no canal se ainda não fez isso e cuida de você. Uma das coisas mais fascinantes que acontecem com histórias como a de Teresa é o que a memória coletiva faz com elas ao longo do tempo.
Pesquisadores que estudam transmissão oral em comunidades afro-brasileiras encontram um fenômeno consistente. Histórias que começam com um núcleo verificável, um nome, um lugar, um evento, acumulam camadas de significado à medida que passam de geração em geração. Essas camadas não são mentiras, são interpretações, são a maneira de cada geração entender o que a geração anterior transmitiu dentro do vocabulário que cada época oferece.
A história de Teresa passou por esse processo. Em versões que pesquisadores coletaram na segunda metade do século XX, ela já não era simplesmente uma curandeira do bexiga acusada de práticas rituais envolvendo crianças. Ela havia se tornado uma figura com contornos que misturavam múltiplas tradições. Em algumas versões, ela era uma representante de um tipo específico de entidade espiritual dentro do candomblé.
um sistema religioso afro-brasileiro que havia se desenvolvido ao longo do século XIX, precisamente a partir da fusão de tradições africanas diversas. Essa versão a interpretava não como uma pessoa humana comum, mas como alguém que havia recebido a missão de um orixá específico e que operava no limite entre o mundo humano e o mundo espiritual.
Em outras versões, ela era simplesmente uma mulher extraordinariamente sábia e extraordinariamente velha, que havia chegado ao bexiga de nenhum lugar específico e que havia partido da mesma maneira, sem origem clara, sem destino registrado. Em versões mais antigas, as que pareciam preservar camadas de transmissão mais próximas do período original, ela era descrita com uma especificidade que as versões mais recentes haviam perdido, o beco específico, a madeira da porta, o cheiro do lugar, a maneira como ela havia
olhado para Raimundo Correa antes de dizer que ele não tinha vocabulário. Esses detalhes concretos que os pesquisadores reconheciam como mais próximos do registro histórico verificável, sugeriam uma transmissão que havia começado com pessoas que a conheceram de verdade ou que conheceram pessoas que a o conheceram.
O que a memória coletiva preservou de Teresa é uma silhueta, uma forma reconhecível, uma série de atributos, a calma, o conhecimento, os olhos, a capacidade de ver além do que as pessoas ao seu redor conseguiam ver, que se mantiveram consistentes ao longo de décadas de transmissão. Esses atributos são o núcleo irredutível da história de Teresa, o que não se perdeu mesmo quando os detalhes específicos mudaram.
E o que esse núcleo nos diz é que as pessoas que conheceram Teresa ou que ouviram sobre ela de quem a conheceu, reconheceram nela algo que queriam preservar, algo que julgaram importante transmitir, algo que sentiam que o mundo precisava continuar sabendo, não os fatos específicos do caso, o número das crianças, as datas dos desaparecimentos, o nome do capitão Evaristo, mas a essência de quem ela era, a combinação específica de calma, conhecimento, perspectiva e presença que a tornava diferente de qualquer outra pessoa que
aquelas pessoas conheciam. E isso, de certa maneira, é o testemunho mais poderoso que existe sobre Teresa. Não o laudo de um médico, não o relatório de um inspetor, não o diário de um padre, mas a memória de uma comunidade que a conheceu e que, por gerações recusou-se a esquecer. Isso é o que o tempo pode fazer quando a história não foi completamente apagada.
pode preservar a essência de uma pessoa, mesmo quando os fatos estão incompletos. Pode manter vivo o que importa, mesmo quando o que pode ser verificado é fragmentário. Teresa continua existindo na memória coletiva de uma comunidade e agora continua existindo na sua memória também.
Isso é mais do que a maioria das pessoas que viveram no Bexiga de 1867 conseguiu. É mais do que o sistema que as havia tentado tornar invisíveis queria que acontecesse. É uma pequena vitória do tempo sobre o apagamento. E é por isso que histórias como essa valem a pena ser contadas, não porque tem respostas, mas porque mantém vivo o que o esquecimento tentaria matar.
Até semana que vem.