No dia 10 de agosto de 2019, às 11:14 da manhã, uma câmara de segurança do aeroporto de Cruzeiro do Sul, no Acre, registou a passagem de um homem de 31 anos a transportar uma mochila de 80 L e uma mala de mão. Atravessou o saguão sem falar com ninguém, saiu pela porta lateral e entrou num táxi que o levou ao porto fluvial.
Chamava-se Renato Augusto Figueira. Trabalhava como técnico em geoprocessamento em Manaus. Estava de férias e tinha um plano que não tinha contado a ninguém. 21 dias depois, a mãe dele ligou para o telemóvel e ouviu o caixa postal. ligou uma e outra vez e de novo. O Renato não respondeu. Não respondeu nesse dia, nem na semana seguinte, nem nos dois anos que vieram depois.
Esta é a história de um homem que entrou na floresta amazónica por conta própria, sem avisar a família, sem guia, sem protocolo de segurança, e que desapareceu num igarapé do Alto Juruá, onde a mata se fecha sobre a água como uma mão que se fecha sobre um inseto. Os bombeiros o procuraram, a polícia o procurou, a família procurou-o, ninguém o encontrou.
E depois, dois anos e dois meses depois, um camionista que trocava pneu na BR364 viu um homem descalço a caminhar no berma com a barba até ao peito e um boneco de madeira apertado contra o corpo com as duas mãos. O homem era Renato, estava vivo, estava consciente, mas não disse uma palavra. Não naquele dia, e não nos meses seguintes, não até hoje.
O rio Juruá nasce no Peru e entra no Brasil pelo Acre, serpenteando por mais de 3.000 km de floresta até desaguar nos Solimões. É um dos rios mais sinuosos do mundo. Os seus afluentes formam uma malha de ribeiros tão densa que, vistos de cima, parecem veias abertas num corpo verde sem fim. As comunidades ribeirinhas que vivem nestas margens conhecem os troços navegáveis, como quem conhece as divisões da sua própria casa e conhecem também os troços onde não se entra, não por superstição, por experiência.
São locais onde a floresta é tão fechada que o sol não toca na água, onde o GPS não funciona, onde quem se perde grita porque não há quem oiça. O Renato conhecia este tipo de terreno. Não era turista. Trabalhava com dados geográficos da Amazónia, sabia ler coordenadas, sabia interpretar imagens de satélite.
Nos fins de semana, entrava na mata sozinho, com frequência suficiente para que os colegas de trabalho considerassem que um hábito. Estranho, mas um hábito. Ninguém lhe perguntava para onde ia. Ninguém lhe perguntava o que procurava. E o Renato nunca ofereceu essa informação. Se esta história lhe faz sentido, se o tipo de silêncio que ela transporta lembra-se de algo que já viu ou já ouviu falar, considere acompanhar este canal.
Não é preciso mais do que isso. O que se sabe com certeza sobre o caso do Renato cabe em poucas linhas. Ele entrou na floresta, ele desapareceu, ele voltou. Não fala. transportava um boneco que ninguém reconhece. Mas entre estas linhas há dois anos inteiros de espera, de buscas vazias, de relatórios sem conclusão e de uma família que aprendeu a viver com a presença de alguém que regressou, mas que talvez não tenha regressado por completo.
O que aconteceu com Renato no interior daquele riacho? o que ele viu ou encontrou ou viveu durante 26 meses na floresta mais densa do continente. Por que voltou mudo? Por que razão voltou segurando um objeto que parece ter sido feito com ferramentas que não existem mais? E por o símbolo esculpido no peito do boneco é o mesmo que ele desenhava sozinho em mapas que guardava dentro do guarda-roupa do apartamento em Manaus.
Estamos em agosto de 2019. Manaus tem 34º e a humidade do ar passa de 80% antes das 9 horas da manhã. No bairro da Compensa, zona oeste da cidade, os autocarros já circulam lotados na Avenida Brasil e o cheiro a açaí batido se mistura com o do gasóleo dos barcos que atracam no porto. Um apartamento de um quarto no segundo andar de um prédio sem elevador, um homem de 31 anos acaba de fechar a mochila, confere o passaporte, olha pela janela uma última vez e sai sem trancar a porta com duas voltas de chave. Tranca com uma só, como se fosse
voltar em breve. Renato Augusto Figueira tinha 31 anos e trabalhava como técnico em geoprocessamento para uma empresa de consultoria ambiente com sede em Manaus. Não era o tipo de homem que chamava atenção numa sala. Falava pouco, cumprimentava com aceno de cabeça e passava os almoços sozinho, debruçado sobre imagens de satélite que ampliava no portátil até os pixels se tornarem borrões verdes.
Os colegas sabiam duas coisas sobre ele. que vivia sozinho num apartamento de um quarto no bairro da Compensa e que aos fins de semana desaparecia para dentro da mata com uma mochila que parecia pesar mais do que ele. O que ninguém sabia, nem os colegas, nem o irmão mais velho que vivia em Belém, nem a mãe que ligava todas as quartas-feiras às 7 da noite.
É que Renato mantinha numa pasta castanha dentro do guarda-roupa 17 mapas desenhados à mão de excertos da bacia do rio Juruá, que visitava por conta própria, sem vínculo com qualquer projeto da empresa, sem autorização de ninguém. Renato nasceu em Santarém, no Pará, em 1988. O pai, o senhor Osvaldo, era mecânico de motores fora de bordo e trabalhava num estaleiro nas margens do Tapajós.
A mãe dona Teresa, era professora do ensino fundamental numa escola estatal do centro. Marcos, o irmão mais velho, era 5 anos mais velho e seguiu para Belém aos 18 para estudar a gestão. O Renato ficou, ficou com a mãe, ficou com o rio, ficou com aquele hábito silencioso de observar as coisas de longe antes de se aproximar.
Na escola era o aluno que tirava notas altas sem que ninguém o visse estudar. Não participava num grupo, não jogava bola no intervalo, não ia às festas de São João do bairro, não era antipático, era apenas um menino que parecia sempre estar a olhar para um ponto que ficavam pouco além do que os outros conseguiam enxergar.
A professora de geografia do ensino médio, uma mulher chamada Lucimar, que depois daria uma entrevista ao jornal do Acre, disse que Renato era o único aluno que ela conheceu em 30 anos de magistério que corrigia os mapas do livro didático. Não por arrogância, por precisão. Apontava o dedo na página e dizia baixinho, que a curva do rio ali estava errada, que o afluente entrava pelo lado oposto, que a escala não batia certo e estava sempre certo.
Aos 22 anos, Renato se formou-se em tecnologia em geoprocessamento pela Universidade do Estado do Amazonas em Manaus. foi para lá com uma bolsa parcial e um emprego a tempo parcial num gabinete de topografia que atendia construtoras. Vivia numa pensão na cachoeirinha, partilhava quarto com um estudante de engenharia florestal chamado Thaago, que anos mais tarde descreveria Renato como o sujeito mais organizado e mais estranho que ele já conheceu.
Estranho não no sentido de preocupante. Estranho no sentido de que Renato parecia viver numa camada diferente do mesmo local. Acordava às 5, saía para correr na marginal do rio negro antes do calor, regressava, tomava banho, sentava-se à mesa e desenhava. Mapas, sempre mapas. Thago perguntou uma vez o que eram aqueles mapas.
O Renato respondeu que eram locais que ele queria conhecer. O Thago perguntou porquê. O Renato não respondeu. Depois da formatura, o Renato foi contratado pela A Geovd Consultoria Ambiental, uma empresa de média dimensão que prestava serviços para projetos de infraestruturas na Amazónia, estradas, linhas de transmissão, gasodos. O seu trabalho era processar imagens de satélite, gerar modelos digitais de terreno e produzir relatórios técnicos sobre cobertura vegetal.
Era um trabalho de escritório, ecrã, rato, ar- condicionado, café de máquina. Renato fazia o trabalho com competência e sem queixa, mas quem olhasse para ele às 5 da tarde de uma sexta-feira via um homem que já não estava ali. O corpo ainda sentado na cadeira, as mãos ainda sobre o teclado, mas o olhar já noutro lugar.
Foi nesta altura que as saídas de fim de semana começaram. O Renato comprou equipamento de campanha, mochila de 80 L, tenda ligeira, rede de selva, cantil, fogareiro, botas de cano alto e passou a sair de Manaus sozinho quase todos os sábados de manhã, em direção a trechos de floresta acessíveis, por estrada ou por barco. Ia para reservas, para ramais de terra, para as comunidades ribeirinhas, onde ninguém o conhecia.
Regressava no domingo à noite, tomava banho, jantava arroz com ovo e sentava-se à mesa para desenhar. Sempre a mesma coisa. Mapas que ninguém pediu, de locais que ninguém indicou, com notas que ninguém leu. Um colega de trabalho chamado Peterson, que sentava-se na mesa ao lado da dele na Georverde, contou depois à polícia que uma vez durante o almoço viu o Renato ampliando no computador uma imagem de satélite de um troço do Alto Juruá que não fazia parte de nenhum projeto em andamento.
Peterson perguntou se era trabalho novo. Renato minimizou o ecrã sem pressas. olhou para Peterson com aquela cara neutra do costume e disse que era curiosidade pessoal. Peterson deu de ombros. Curiosidade pessoal num técnico de geoprocessamento não parecia nada fora do normal. O que Peterson não sabia é que Renato já tinha visitado aquele troço pessoalmente por conta própria, pelo menos três vezes.
A Dona Teresa, a mãe, continuou a ligar todas as quarta-feira. O Renato atendia sempre, falava pouco, dizia que estava bem, perguntava pela saúde dela, perguntava do cão. Nunca mencionou os mapas, nunca mencionou as viagens. Quando a dona Teresa perguntava o que ele fazia no fim de semana, o Renato respondia que ficava em casa a descansar.
A Dona Teresa acreditava, não tinha motivo para não acreditar. O filho era calado, sempre fora calado. E quietude numa família ribeirinha do Pará não é defeito, é o temperamento. Mas havia algo nos mapas que ia para além da curiosidade técnica. As anotações de Renato não eram apenas geográficas. No canto inferior esquerdo de sete dos 17 mapas, escreveu a mesma frase em letras tão pequenas que o delegado precisou de lupa para ler.
Está lá embaixo. Ninguém até hoje sabe ao que se referia. No dia 9 de agosto de 2019, uma sexta-feira de céu fechado em Manaus, Renato pediu férias de 15 dias. O pedido foi aprovado sem perguntas. Ele tinha 32 dias acumulados. O setor de recursos humanos da Geoverde processou o formulário como processava qualquer outro, com um carimbo e uma assinatura.
Ninguém perguntou para onde ia. Ninguém perguntou se voltava bronzeado ou descansado. A rotina do Renato na empresa era tão previsível, tão isento de atrito, que a ausência do mesmo gerava o mesmo efeito que a presença. Nenhum. Na manhã seguinte, Sábado 10 de agosto, Renato embarcou no voo das 9:20 da Azul Linhas aéreas de Manaus para Cruzeiro do Sul, com escala em Tabatinga.
Levava a mochila de 80 L na cave e a mala de mão na cabine. No chequin apresentou o BI. No raio X, a mochila passou sem irregularidades. Vestuário, rede de selva, cantil, fogareiro, comida liofilizada, lanterna, kit de primeiros socorros, dois cadernos em branco, três canetas Bic e uma fita métrica de 10 m.
Nenhuma arma, nenhum machete, nenhuma bússola. Isso foi registado depois, quando a polícia levantou os dados de embarque. A ausência de bússola chamou a atenção. Um homem que entra na floresta sem bússola ou confia demasiado em si mesmo, ou não pretende navegar por conta própria, ou sabe exatamente para para onde vai.
Cruzeiro do Sul é a segunda maior cidade do Acre, mas quem chega de avião vindo de Manaus sente que desceu num local onde o tempo corre mais devagar. O aeroporto é pequeno, funcional, com teto baixo e paredes pintadas de bege. Do lado de fora, o calor é diferente, mais pesado, mais colado à pele. O tipo de calor que faz a camisa colar-se às costas antes de se dar o primeiro passo.
A câmara de segurança do átrio captou Renato a sair às 11:14 de boné, calças cargo bege e camisa de manga comprida azul-marinho. Ele foi direto para o ponto de táxi. Não parou na cafetaria, não comprou água, não ligou para ninguém. O taxista que o levou até ao porto fluvial não foi identificado pela investigação.
Cruzeiro do Sul não tinha em 2019 sistema de registo de corridas ligado a câmaras, mas o barqueiro que o levou rio acima localizado semanas depois pela polícia civil. O seu nome era Herivaldo Nascimento, 57 anos. piloto de voadeira com motor de 15 HP que fazia fretes entre o porto de Cruzeiro do Sul e as comunidades ribeirinhas do médio e alto Juruá.
Erivaldo cobrou 180 reais pela viagem até São Salvador, um preço justo para 6 horas de Rio. Recebeu em dinheiro, não pediu documento, não anotou o nome. Erivaldo contou à polícia que Renato se sentou na proa da voadeira, apoiou a mochila entre as pernas e ficou olhando o rio o tempo inteiro. não meteu conversa, não perguntou nada sobre a região, não tirou foto, tirou do bolso um saco de plástico transparente com um papel dobrado no interior, um mapa, segundo Herivaldo, e consultou três ou quatro vezes durante a viagem, sempre conferindo alguma coisa na margem e
depois olhando novamente para o papel. Herivaldo, que conhecia o Juruá como conhecia a palma da mão, tentou puxar assunto perguntando se o Renato era investigador. O Renato disse que não. Erivaldo perguntou se era turista. Renato disse que também não. Erivaldo perguntou então o que é que ele ia fazer a São Salvador.
O Renato olhou para ele com uma expressão neutra, quase amável, e disse que ia conhecer um lugar. Erivaldo não insistiu. No alto juruá, as pessoas respeitam o silêncio alheio. Nem toda a gente que sobe o rio quer companhia e nem toda a viagem precisa de explicação. Mas havia algo na forma como Renato segurava aquele mapa, com as duas mãos, como se de um documento frágil se tratasse, como se a água do rio o pudesse alcançar e apagar o que estava escrito, que fez Herivaldo guardar aquele rosto na memória. Não como uma ameaça, como uma
estranheza. O tipo de estranheza que se nota, se guarda e que só faz sentido quando alguém bate à porta meses depois. com uma foto na mão e uma pergunta que lhe não sabe responder. A viagem durou pouco mais de 6 horas. chegaram a São Salvador por volta das 17 horas, com o sol já baixo e os abutres descrevendo círculos lentos sobre a copa das árvores.
Renato desceu da voadeira, colocou a mochila nas costas e caminhou pela prancha de madeira que servia de ancoradouro sem olhar para trás. Herivaldo ficou parado no barco por um momento, olhando o homem subir o barranco de terra vermelha com passos firmes e depois arrancou no motor e virou a proa rio abaixo. Não pensou mais no assunto até que a polícia aparecer.
O que Erivaldo não sabia, o que ninguém sabia naquele momento, é que Renato já tinha feito aquela mesma viagem antes, pelo menos duas vezes. Os Os registos de passagem da voadeira eram informais, feitos em cadernos de capa dura que os barqueiros guardavam no fundo do barco e que a humidade destruía numa questão de meses.
Não havia como confirmar datas. Mas a dona Madalena, a mulher que alugava redes em São Salvador, disse à polícia que reconheceu Renato no instante em que apareceu no terreiro da sua casa. Disse que ele já lá tinha dormido duas vezes em meses diferentes, sempre sozinho, sempre calado, sempre com a mesma mochila. e que das duas vezes anteriores, ele tinha entrado na floresta de manhã e voltado ao fim do dia.
Desta vez, quando disse que ia ficar cinco dias, a dona Madalena sentiu algo que descreveu com uma palavra simples, aflição. Não sabia porquê. Não perguntou, apenas sentiu. São Salvador não aparece em muitos mapas. É um agrupamento de cerca de 40 casas de madeira erguidas sobre palafitas na margem esquerda do Juruá, a meio caminho entre o Cruzeiro do Sul e a fronteira peruana.
Quem chega de barco vê primeiro a igreja, uma construção simples de tábuas pintadas de azul com uma cruz branca no telhado e depois o restante. As casas alinhadas ao longo de um caminho de terra batida, os estendais com roupas estendidas, as canoas amarradas aos troncos, as crianças que correm descalças até à beira da água para ver quem está a chegar.
O som é o do rio. sempre o rio e por detrás do rio o som da floresta, um zumbido constante feito de insetos e pássaros e ramos que movem-se com o vento, que nunca pára de todo nem madrugada. Dona Madalena Sousa morava na terceira casa à direita do caminho principal. Tinha 63 anos. Era viúva desde 2011 e criava sozinha dois netos adolescentes.
A casa tinha três divisões, um fogão a lenha e uma varanda de tábuas, onde ela armava até quatro redes para os visitantes. O preço era de R$ 20 à noite, com pequeno-almoço incluído, café coado no pano, farinha de mandioca, peixe assado quando tinha banana frita quando não tinha. A Dona Madalena não anunciava o serviço em lado nenhum.
As pessoas simplesmente sabiam. Investigadores do INPA, funcionários do ICMBIO, ribeirinhos em trânsito, missionários evangélicos de vez em quando, e dois vezes antes daquela Renato Augusto Figueira. A Dona Madalena lembrava-se dele com nitidez. disse que o Renato chegou, cumprimentou-o com aceno de cabeça, perguntou se tinha rede disponível e pagou adiantado por duas noites.
Não pediu comida, tinha a própria. Armou a rede no canto da varanda mais próxima da parede, colocou a mochila de baixo e sentou-se ali, olhando o rio com um caderno no colo. Dona A Madalena ofereceu café. Ele aceitou, agradeceu com uma palavra, obrigado. E não disse mais nada. Ficou ali até escurecer. Quando a comunidade ligou o gerador às 18 horas, a luz amarelada da lâmpada da varanda iluminou o caderno dele.
E a dona Madalena, que passava por perto, viu que ele não estava escrevendo, estava a desenhar. Linhas finas, curvas com pequenos números ao lado, mapas. Na manhã seguinte, domingo, O Renato acordou antes do sol. Dona Madalena, que também acordava cedo para acender o fogão, viu-o a sair de varanda com a lanterna na mão, caminhando até ao beira do rio.
Ficou lá quase uma hora, olhando para a água, verificando o caderno, olhando de novo. Quando voltou, tomou o café em silêncio e passou o resto da manhã na varanda, organizando coisas dentro da mochila. A Dona Madalena notou que ele separou parte do equipamento, a tenda, o fogareiro, uma porção de comida e colocou-o num saco estanque mais pequeno, como se estivesse a montar um kit reduzido para levar e deixando o resto para trás.
Foi nesse dia que Renato procurou Raimundo Bessa. Raimundo era pescador, tinha 48 anos e era proprietário de duas canoas de alumínio que utilizava para descer os igarapés em busca de Pirarucu e Tambi. vivia com a mulher e os três filhos numa casa no fim e caminho, perto do campo de futebol de terra que os meninos da comunidade usavam nos fins de tarde.
O Renato chegou a casa dele por volta do meio-dia, apresentou-se pelo primeiro nome e perguntou se podia alugar uma canoa durante c dias. Raimundo perguntou para onde o Renato disse que queria subir um ribeiro que ficava a cerca de 3 horas a montante, um afluente da margem direita que chamou pelo nome Igarapé do Muriti. O Raimundo conhecia o Muriti.
Todo mundo em São Salvador conhecia. E era é precisamente por isso que Raimundo estranhou. O igarapé do Muriti era navegável por Carnoa apenas nos primeiros 2 km. Depois disso, o leito torna-se estreitava, a corrente aumentava com as pedras e a vegetação fechava de tal forma que nem uma pequena canoa passava.
Era um troço onde os pescadores não iam. O peixe era pouco, o acesso era difícil e o regresso era trabalhoso. Raimundo perguntou o que o Renato queria fazer ali dentro. O Renato disse que queria explorar. O Raimundo perguntou se ele tinha experiência com canoa em Igarapé. O Renato disse que sim.
Raimundo perguntou se queria um guia. O Renato disse que não. Raimundo hesitou. Não era homem de recusar dinheiro. Renato ofereceu 150 pelos cinco dias, pagos adiantados. Mas havia algo naquela conversa que não encaixava. Um homem de fora, sozinho, sem guia, querendo entrar num riacho que os próprios moradores evitavam.
Raimundo perguntou mais uma vez, desta vez olhando nos olhos de Renato, se ele tinha a certeza. Renato sustentou o olhar, assentiu lentamente e disse que conhecia o trecho. O Raimundo não perguntou como. Entregou a canoa, um remo de reserva e uma lata de alumínio para tirar água. e ficou parado no barranco a ver o Renato descer até à beira do rio, guardar o equipamento na canoa e remar para montante com braçadas longas e regulares, como quem já fez aquilo muitas vezes.
Dona A Madalena também viu, estava na varanda com os netos e observou Renato a desaparecer na curva do rio até a canoa se tornar um ponto prateado na linha de água e depois desaparecer. Ela contou à polícia que naquele momento sentiu vontade de gritar o seu nome, não para pedir que voltasse, para perguntar uma coisa que não tinha perguntado antes, nem das outras vezes.
Por que ali de todos os rios e de todos os ribeiros e de toda a aquela imensidão de floresta? Por que sempre aquele mesmo lugar? Dona Madalena não gritou? ficou na varanda, a olhar para o curva vazia do rio, disse à neta mais velha, com a voz de quem fala para si mesma, que aquele rapaz ia voltar diferente. Amanhã do dia 12 de agosto de 2019, um segunda-feira, Renato Augusto Figueira partiu de São Salvador numa canoa de alumínio de 3,5 m com um remo, um remo reserva, uma lata de alumínio para tirar água, o saco estanque com equipamento
reduzido e o caderno de mapas dentro do saco de plástico transparente. A mochila grande ficou na varanda de dona Madalena. A mala de mão ficou debaixo da rede. O Renato não se despediu. Partiu antes do amanhecer, quando o comunidade ainda dormia, e o único som era o borbulhar do rio contra as palafitas.
O combinado com Raimundo era que a canoa seria devolvida em c dias, no sábado, 17 de agosto. O Renato pagaria os R$ 150 e seguiria viagem de regresso ao Cruzeiro do Sul. Raimundo não esperava complicações. Canoas alugavam-se com frequência na comunidade e cinco dias era tempo razoável para quem quisesse acampar, pescar ou no caso dos investigadores, recolher amostras de solo e água.
O que Raimundo não sabia é que Renato não era investigador, não ia pescar e não pretendia acampar na margem. Renato ia entrar no igarapé do Muriti e seguir a pé para além do troço navegável até um ponto assinalado no mapa com o círculo e o traço vertical que ele vinha desenhando há pelo menos 2 anos.

O igarapé do Muriti nasce nas terras altas a sudoeste de São Salvador, num troço de floresta de terra firme que nunca foi inventariado por qualquer expedição oficial. é um afluente menor do Juruá, com cerca de 40 km de extensão, que corre quase inteiramente sob a cobertura da copa das árvores. Nos primeiros 2 km, a partir da boca, onde o igarapé se encontra com o juruá, a água é escura, mansa e funda o suficiente para passar uma canoa com folga.
A vegetação nas margens é densa, mas há espaço. A luz, há a sensação ainda de que se está num lugar controlável. Depois do segundo quilómetro, a coisa muda, o leito estreita, as árvores inclinam uma sobre as outras e formam uma abóbada que tapa o sol. A água torna-se mais raso, mais rápido e o fundo passa de lama para pedra irregular. A canoa começa a raspar.
O remo bate nas raízes que saem das margens como braços dobrados. O ar muda de cheiro, perde o frescura do rio aberto e ganha um odor a terra molhada, de matéria em decomposição, de vida que cresce e morre ao mesmo tempo. Os sons também mudam. O canto dos pássaros torna-se mais agudo, mais espaçado, como se as aves que ali vivem fossem de outra espécie.
ou pelo menos de outro temperamento. E o zumbido dos insetos, que no rio é fundo constante, transforma-se num silvo fino, quase metálico, que entra no ouvido e não sai. Raimundo conhecia tudo isto, por isso evitava o muriti. disse a polícia que não gostava de ali entrar, que o ribeiro dava um mau pressentimento, que era um local onde o rio parecia empurrar para fora quem tentava subir.
Não falou em maldição, não falou em lenda, falou em bom senso. Um igarapé que os peixes evitam não é lugar para a gente. Renato, porém, não era natural de São Salvador. não carregava às costas o peso de gerações de conhecimento ribeirinho. Transportava outra coisa, uma obsessão construída no silêncio, alimentada por mapas desenhados à mão e por viagens que ninguém sabia que ele fazia.
E foi com esta obsessão e não com bom senso, que ele remou para dentro do muriti naquela manhã de Agosto sozinho, sem avisar ninguém, sem deixar coordenadas. sem protocolo de resgate, sem qualquer rede de segurança entre ele e tudo o que podia correr mal. Cinco passaram dias, seis, 7. No dia 17, sábado, Raimundo esperou à beira do rio desde amanhã. A canoa não apareceu.
No dia 18, esperou de novo. Ao meio-dia, decidiu ir procurar. Pegou a segunda canoa e subiu o juruá até à boca do muriti, uma viagem de pouco mais de 3 horas. Encontrou a canoa alugada, amarrada a uma árvore caída na margem esquerda, a cerca de 200 m da entrada do igarapé. A canoa estava em bom estado. Dentro dela, a mochila de saco estanque do Renato aberta com o saco-cama enrolado, um pacote de comida liofilizada fechado, o cantil cheio de água e uma lanterna com as pilhas gastas. Não havia o caderno, não havia o
saco de plástico com o mapa. Raimundo chamou, chamou pelo nome, o primeiro nome que o Renato tinha dado. Chamou três vezes, cada vez mais alto, e a floresta devolveu o som como um eco molhado que morria entre as árvores. Ninguém respondeu. Raimundo olhou para o interior do ribeiro e viu o que sempre via.
A água escura a correr, a mata fechada, a luz que desaparecia depois da primeira curva, como se alguém tivesse apagado um interruptor. Não entrou. Amarrou a canoa de Renato à sua, rebocou as duas de regressa a São Salvador e foi falar com dona Madalena. A Dona Madalena ouviu, fez o sinal da cruz e disse que era preciso avisar alguém.
O problema era que avisar alguém em São Salvador significava esperar. Não havia telefone, não havia rádio de longo alcance. O único contacto com o mundo exterior era o barco de abastecimento que passava uma vez por semana, às terças-feiras, e que levava e trazia recados entre a comunidade e Cruzeiro do Sul.
O barco tinha passado no dia 13. O próximo passaria no dia 20. No dia 20 de agosto, oito dias depois de Renato ter entrado no Muriti, Raimundo entregou um bilhete ao piloto do barco de abastecimento, pedindo-lhe que avisasse a polícia em Cruzeiro do Sul que um homem de Manaus tinha desaparecido no Igarapé.
O bilhete era curto, escrito a lápis num pedaço de papel de caderno. Dizia o primeiro nome do Renato, a descrição física e a data em que saiu. Não tinha apelido, não tinha telefone de contacto, não tinha nada além do essencial. O bilhete chegou a Cruzeiro do Sul no dia 21. Ninguém leu nesse dia. O desaparecimento de Renato Augusto Figueira.
só se tornou oficial no dia 2 de setembro de 2019, 21 dias depois de ele ter saído de São Salvador e se tornou oficial não por causa do bilhete de Raimundo, que demorou nove dias a chegar à mesa de um delegado e mais três para ser associado a uma pessoa real. Mas por causa da dona Teresa Figueira, que de Santarém fez o que as mães fazem quando o silêncio do filho se prolonga, insistiu.
A Dona Teresa ligou para o telemóvel de Renato no dia 28 de agosto, quarta-feira, no horário habitual, 7 da noite. A chamada caiu diretamente na caixa postal. A voz gravada de Renato: “Não posso atender agora deste recado. Soou como sempre soava. Calma, breve, sem enfeite. A Dona Teresa não deixou o recado, desligou e ligou novamente. Caixa de correio.
Ligou na quinta-feira, caixa de correio. Na sexta-feira caixa postal. No sábado, a dona Teresa começou a sentir o que ela depois descreveria como uma dor no meio do peito, que não era do coração, era de outra coisa. Era como se o ar deixasse de entrar. No domingo ligou para o Geovd. Ninguém atendeu. Era fim de semana.
Na segunda-feira, 2 de setembro, às 8 da manhã, ligou de novo. A recepcionista confirmou que Renato estava de férias desde o dia 9 de agosto e que o regresso estava previsto para o dia 26. A Dona Teresa perguntou se alguém sabia para onde tinha ido. A recepcionista disse que não, que não era prática da empresa perguntar.
Dona Teresa agradeceu, desligou e ligou imediatamente a Marcos, o filho mais velho em Belém. Marcos Figueira tinha 36 anos. trabalhava como gerente administrativo numa empresa distribuidora de alimentar no distrito industrial de Coaraci e não falava com o irmão havia quase dois meses. A última conversa tinha sido rápida por WhatsApp sobre o aniversário da mãe em julho.
Renato enviou uma mensagem de parabéns e um Pix de R$ 200 para o Marcos comprar um presente. O Marcos comprou uma panela elétrica. O Renato mandou um joia. Fim da conversa. Era assim entre os dois. Não havia briga, não havia ressentimento. Havia apenas aquela distância de quem cresceu junto, mas seguiu caminhos que já não se cruzavam.
Quando a dona Teresa ligou nessa segunda-feira, Marcos sentiu a voz da mãe e soube que algo estava errado antes mesmo de ela falar. A Dona Teresa não era mulher de ligar para fora do horário, nem de falar depressa, nem de repetir a mesma frase duas vezes. Fez as três coisas. Marcos tentou o telemóvel de Renato, caixa de correio, tentou o WhatsApp.
A última visualização era do no dia 9 de agosto, às 10:33 da manhã, hora de Manaus. Tentou o e-mail pessoal? Nenhuma resposta. tentou o e-mail da empresa. Resposta automática de férias. Na terça-feira, 3 de Setembro, Marcos foi à esquadra de polícia civil do bairro da Sacramenta em Belém e registou um boletim de ocorrência por desaparecimento.
O atendedor anotou os dados, pediu uma foto recente, perguntou se o Renato tinha problemas psiquiátricos. Marcos disse que não se consumia drogas. O Marcos disse que não. Se tinha dívidas. O Marcos disse que não sabia. O atendente informou que o BO seria remetido à divisão de pessoas desaparecidas e que a família seria contactada caso houvesse novidade.
O Marcos perguntou quanto tempo isso levaria. O atendente olhou para ele com a expressão cansada de quem já respondeu a essa pergunta muitas vezes e disse que dependia. Dependia de o Marcos não ter perguntado. saiu da esquadra com uma cópia do BO e a sensação de que acabara de preencher um formulário sobre o irmão como se fosse um produto extraviado.
Ligou para a dona Teresa do estacionamento e disse que o boletim estava feito. Dona A Teresa perguntou se agora iam procurar. O Marcos disse que sim, que iam procurar. Não tinha a certeza. O bilhete de Raimundo Bessa, enquanto isso, seguia o seu percurso burocrático. O barco de abastecimento chegou a Cruzeiro do Sul no dia 21 de agosto.
O piloto entregou o bilhete a um funcionário da autarquia que trabalhava no porto junto com outros recados e encomendas. O funcionário leu o bilhete, não reconheceu o nome, colocou-o num envelope e remeteu a Secretaria de Segurança Pública Municipal. O envelope foi aberto no dia 26. O funcionário da secretaria tentou localizar o nome Renato nos registos locais.
Não encontrou porque o Renato não era de Cruzeiro do Sul. remeteu a informação à delegacia de polícia civil no dia 28. O delegado de serviço leu o bilhete, verificou se existia algum BO compatível no sistema estatal e não encontrou o BO de Marcos tinha sido registado em Belém, no Pará, e o sistema do Acre não estava integrado no do Pará em tempo real.
O cruzamento de dados só aconteceu no dia 5 de setembro, quando um agente da esquadra de Cruzeiro do Sul, por iniciativa própria, fez uma consulta no Sinalid e encontrou a correspondência. No dia 6 de setembro, 25 dias depois de Renato ter entrado no Igarapé do Muriti, a Polícia Civil do Acre ligou para Marcos Figueira em Belém e informou que havia um registo de desaparecimento compatível numa comunidade ribeirinha do Alto Juruá. Marcos pediu pormenores.
O delegado disse que um morador local relatou que um homem chamado Renato tinha alugado uma canoa, entrado num ribeiro e não voltado. A canoa foi encontrada com pertences no seu interior. Não havia sinal do homem. Marcos desligou, ligou à dona Teresa e contou. Dona Teresa ficou em silêncio durante 11 segundos.
O Marcos contou depois e disse uma única frase. Eu sabia que ele não estava em casa a descansar. Nos dias seguintes, Marcos tentou acelerar o processo, ligou para a Geverde e pediu acesso ao apartamento de Renato em Manaus. A empresa disse que não tinha chave, que o apartamento era privado, que não era a responsabilidade deles. Marcos ligou para o administrador do prédio na compensa.
O administrador disse que precisava de autorização judicial para abrir o apartamento. Marcos ligou para a Defensoria Pública do Amazonas. A Defensoria disse que o prazo para obter uma ordem de acesso era de 5 a 10 dias úteis. O Marcos ligou para o delegado em Cruzeiro do Sul. O delegado disse que a busca de campo seria acionada assim que houvesse equipa disponível.
Cada ligação era uma porta que se abria para uma sala vazia. E em cada sala vazia a mesma resposta. Espera. Entretanto, em algum ponto do Igarapé do Muriti, dentro de uma floresta que não tem nome e que não aparece em nenhum mapa oficial, o tempo passava da mesma forma que passa para quem está do lado de fora, mas sem que ninguém soubesse se ainda havia ali alguém para o sentir passar.
A operação de busca começou no no dia 8 de setembro de 2019. 27 dias depois do desaparecimento. O atraso não foi por negligência deliberada, foi por logística. Deslocar uma equipa de resgate para uma comunidade ribeirinha do Alto Juruá, apenas acessível por barco, num estado com duas unidades do Corpo de Bombeiros, não é como despachar uma viatura.
É uma expedição em si mesma. É o frete de barco, combustível, equipamento, alimentação para 7 dias, coordenação com a polícia local e uma estimativa de risco que num ribeiro sem mapeamento baseia-se mais em intuição do que em dados. O corpo de bombeiros do Acre deslocaram uma equipa de seis homens de Rio Branco para Cruzeiro do Sul por via aérea.
De Cruzeiro do Sul seguiram de barco até São Salvador numa viagem de 7 horas, mais longa que a de Eriivaldo, porque o barco era maior e transportava mais peso. Levavam um bote insuflável, equipamento de mergulho raso, cordas, machados, rádios VHE, um aparelho de GPS de mão e um drone DJ e Phantom 4 que a unidade tinha recebido do governo estadual 8 meses antes e que nunca tinha sido testado em ambiente de floresta densa.
Juntamente com os bombeiros vieram dois agentes da Polícia Civil de Cruzeiro do Sul, um dos quais falava o básico de espanhol e tinha sido incluído na equipa para o caso de o desaparecido ter atravessado a fronteira peruana. Hipótese remota, mas que o protocolo exigia considerar. Quando a equipa chegou a São Salvador, Raimundo Bessa aguardava no atracadouro.
Mostrou a canoa do Renato, que continuava amarrada no mesmo sítio, e os pertences que tinha trazido de volta. O saco estanque recolhido como prova. O saco-cama, o cantil, a comida e o lanterna foram etiquetados e guardados em sacos de plástico. O sargento que liderava a equipa, um homem chamado Gilson, perguntou a Raimundo se podia levar os bombeiros até à boca do igarapé do Muriti.
O Raimundo disse que podia. Perguntou se Raimundo entrava junto. Raimundo olhou para o rio, olhou para os bombeiros e disse que ia à boca. Mais do que isso, não. Na manhã do dia 9 de setembro, a equipa partiu. Duas canoas, uma com Raimundo e dois bombeiros, outra com os restantes quatro e o bote insuflável desmontado.
Os agentes da Polícia Civil ficaram em São Salvador, montando uma base de comunicação com rádio VHF, que, em teoria, atingia até 15 km em linha reta, mas que, na prática, com a floresta no meio atingia menos de cinco. A chegada à foz do Muriti foi sem incidentes. Raimundo apontou para o tronco onde havia encontrou a canoa de Renato amarrada e indicou a direção do ribeiro.
Os bombeiros montaram o bote insuflável, dividiram-se em dois grupos de três e começaram a subir o ribeiro, utilizando remos curtos e puxando o bote pelas margens quando a vegetação não permitia remar. O drone foi acionado antes da entrada. subiu até aos 40 m, fez um voo circular de reconhecimento e capturou imagens da copa das árvores, tudo verde, uma superfície contínua, sem clareira, sem abertura, sem qualquer ponto visível de referência.
Passados 40 minutos, a humidade condensou nas hélices. O motor de sustentação falhou e o drone desceu em queda controlada. caiu sobre a copa de um castanheiro. Não foi recuperado. Os bombeiros avançaram a pé durante 3 km ao longo do ribeiro, marcando o trilho com fitas de polietileno laranja amarradas nos troncos a cada 50 m.
O terreno era o que Raimundo descrevera, estreito, escuro, húmido, com o chão coberto de raízes e folhas em decomposição que formavam uma camada esponjosa, onde os pés afundavam até ao tornozelo. O ar era pesado, o som era diferente, mais fechado, mais próximo, como se a floresta estivesse a ouvir de volta. Em alguns troços, a água do ribeiro não passava de um fio que corria entre pedras cobertas de musgo.
Noutros alargava de repente em poças fundas, escuras, onde não se via o fundo. Não encontraram nenhum vestígio humano recente, nenhuma pegada, nenhuma marca de machete, nenhum pedaço de tecido preso num ramo, nenhuma fogueira apagada. Sem resíduo de comida. Era como se Renato tivesse entrado no ribeiro e a floresta o tivesse absorvido, não com violência, mas com a mesma naturalidade com que absorve uma folha que cai na água.
No segundo dia, os bombeiros tentaram avançar mais 2 km. conseguiram 1,m400 m antes de o ribeiro desaparecer sob uma formação rochosa coberta de vegetação. O sargento Gilson registou no relatório que o leito do ribeiro parecia mergulhar sob as rochas e reaparecer do outro lado, mas que o acesso era impossível sem equipamento de escalada ou detonação.
A equipa não tinha nenhum dos dois. Gilson marcou o ponto no GPS, que naquele troço oscilava com uma margem de erro até 80 m e ordenou o retorno. No terceiro dia, tentaram uma rota alternativa. Contornaram a formação rochosa pela margem esquerda, abrindo picada na mata com um machete, avançando em fila indiana num ritmo de 100 m/h.
Ao fim de 4 horas tinham avançado 400 m e estavam exaustos, cortados por si pós, com as roupas encharcadas de suor e as botas com o dobro. A picada terminava num barranco íngreme que descia para uma depressão alagada sem visibilidade. Dilson consultou a equipa. A decisão foi unânime, voltar.
No relatório entregue à Polícia Civil, no dia 12 de setembro, o sargento Gilson escreveu que a operação não localizou o desaparecido, nem qualquer indício da sua presença no troço percorrido. Escreveu que as condições do terreno impossibilitaram o avanço para além do ponto marcado. escreveu que uma procura mais ampla exigiria recursos que a unidade não dispunha de: helicóptero, equipa alargado, apoio logístico permanente em campo e escreveu no último parágrafo uma frase que a dona Teresa leria meses depois e que transportaria consigo para o resto da
vida. Em ambientes de floresta densa com estas características, a probabilidade de localização de pessoa desaparecida, após 30 dias sem contacto, é estatisticamente inferior a 2%. Marcos Figueira recebeu uma cópia do relatório por e-mail no dia 15 de setembro. Leu ao telemóvel, sentado no banco de passageiro do carro da empresa no parque de estacionamento da distribuidora em Ikoaraci.
leu duas vezes, guardou o telemóvel no bolso, ficou ali parado, a olhar para o muro de betão do estacionamento por 19 minutos. Depois ligou o carro e foi trabalhar. Dona Teresa, em Santarém, recebeu a notícia por telefone do próprio Marcos. Ela ouviu em silêncio. Quando o Marcos terminou, ela perguntou se ainda iam continuar a procurar.
Marcos disse que não sabia. A Dona Teresa disse que então ela ia. O Marcos disse: “Mãe, a senhora não pode ir para o meio do Juruá.” A Dona Teresa disse que não ia para o Juruá, ia para Manaus. e a abrir o apartamento do filho e a procurar ali aquilo que ninguém tinha procurado. Dona Teresa Figueira chegou a Manaus no dia 22 de setembro de 2019 num voo da MAP Linhas Aéreas que partiu de Santarém às 6 da manhã e aterrou no Eduardo Gomes às 7:40.
Era a terceira vez na vida que a dona A Teresa andava de avião. As duas primeiras tinham sido para visitar Renato, uma no Natal de 2016, outra no aniversário dele em 2018. Nas duas vezes, Renato tinha buscado no aeroporto, calado como sempre mais presente. Desta vez, quem procurou foi um sobrinho de segundo grau chamado Gilberto, que residia no bairro do Parque 10 e que a dona Teresa não via desde a infância do rapaz.
Gilberto levou a dona Teresa até ao prédio do Renato na compensa. O síndico já havia sido informado pela Defensoria Pública e aguardava com a chave mestra. O apartamento do Renato era como ele, pequeno, organizado, sem excessos, um quarto, uma sala com cozinha americana, uma casa de banho. O ar estava parado.
Ninguém abria as janelas desde o dia 10 de agosto. O cheiro era de ambiente fechado, de roupa guardada, de poeira assente sobre superfícies lisas. A Dona Teresa entrou devagar, como se estivesse a entrar num lugar sagrado ou perigoso, e ficou de pé na sala durante um longo momento, olhando em redor, tentando reconhecer o filho naquelas paredes brancas, naquelas prateleiras alinhados, naquela mesa com o monitor coberto de uma fina camada de pó.
A frigorífico tinha um pote de margarina pela metade, dois ovos e uma garrafa de água mineral. O fogão estava limpo, o lava-loiça vazio, o lixo levado. O Renato tinha tirado o lixo antes de sair, como se estivesse apenas sair para o trabalho. Na estante da sala, livros técnicos de geoprocessamento, deteção remota, cartografia digital, um exemplar surrado de sertões de Euclides da Cunha, com marcas de lápis nas margens.
Um atlas do Brasil de 2007, com as páginas do Acre e do Amazonas, visivelmente mais gastas que as outras. Na casa de banho, escova de dentes, pasta, sabonete, toalha dobrada, tudo no sítio. Tudo como se ele fosse voltar a qualquer momento. O Marcos chegou a Manaus dois dias depois, vindo de Belém.
Juntos, mãe e filho começaram a examinar o apartamento com mais atenção, agora orientados por uma lista que o delegado de Cruzeiro do Sul havia enviado por e-mail, artigos que poderiam ajudar a compreender o destino e as intenções de Renato. Procuraram diários, agendas, bilhetes, passagens, recibos, qualquer coisa que indicasse planeamento de viagem.
encontraram pouco. Um recibo de compra de alimentos liofilizada numa loja de campismo da Avenida de Jalma Batista, datado de 3 de agosto. Uma fatura de pilhas recarregáveis, um extrato bancário que mostrava um levantamento de R$ 800 em dinheiro no dia 8 de agosto, véspera da viagem. Foi o Marcos quem abriu o guarda-roupa.
As roupas estavam dobradas por cores. Camisas de um lado, calças do outro, bermudas na prateleira de cima. Na parte de baixo, sapatos alinhados. Atrás dos sapatos, encostada à parede do fundo, uma pasta castanha de cartão com elástico. Marcos puxou a pasta, sentou-se na cama e abriu.
No interior estavam 17 folhas de papel vegetal. Cada folha continha um mapa desenhado à mão com caneta nanquin preta e anotações a lápis nas margens. Os mapas mostravam troços de rios e garapés, curvas, confluências, formações rochosas, zonas de vegetação densa, com um nível de detalhe que surpreendeu até Marcos, que não percebia nada de cartografia.
As linhas eram firmes, as proporções pareciam precisas. As anotações incluíam coordenadas geográficas, estimativas de profundidade, tipos de solo e, em vários pontos, setas indicando direções de corrente. Sete dos mapas tinham no canto inferior esquerdo a mesma frase em letras minúsculas. está lá em baixo.
O Marcos chamou a dona Teresa. Ela olhou para os mapas um a um em silêncio. não compreendeu o conteúdo técnico, mas percebeu outra coisa, que o filho vinha preparando aquela viagem há muito tempo, que não era um impulso, que não era um acidente de percurso, que Renato sabia exatamente para onde ia e que tinha escondido tudo isto dela, do irmão, dos colegas, de toda a gente.
Dona Teresa segurou a última folha, a que tinha o desenho mais detalhado, com o círculo e o traço vertical marcados a vermelho, o único toque de cor em todos os 17 mapas, e ficou a olhar para aquele símbolo como se ele pudesse falar. Disse ao Marcos, sem levantar os olhos, estava à procura de alguma coisa.
Marcos disse: “Eu sei, mãe”. A Dona Teresa sacudiu a cabeça devagar e disse: “Não, ele encontrou e foi buscar. Os mapas foram entregues à Polícia Civil do Acre no dia 30 de setembro, juntamente com o portátil de Renato que a perícia acedeu com autorização judicial. No disco rígido encontraram pastas com centenas de imagens de satélite do auto juruá baixadas ao longo de 18 meses, além de ficheiros de um software de cartografia com camadas sobrepostas que marcavam o mesmo ponto em todas elas.
Um troço do igarapé do Muriti, aproximadamente 6 km acima da boca, onde o leito desaparecia sob a formação rochosa que os bombeiros não conseguiram transpor. O delegado responsável António Carvalho registou no inquérito que os os mapas e os ficheiros digitais indicavam que o desaparecido tinha planeado a expedição com antecedência e que o destino era um ponto específico no interior da floresta.
A natureza do interesse do desaparecido por este ponto, escreveu o delegado, permanece indeterminada. indeterminada. Era a palavra que o inquérito utilizava quando não tinha outra. E era a palavra que a dona Teresa, dali em diante ouviria com frequência suficiente para aprender a detestá-la sem nunca o dizer em voz alta. Dois anos e meses passaram.
A vida não parou para esperar pelo Renato Augusto Figueira, embora houvesse quem tentasse pará-la, a dona Teresa voltou para Santarém depois de três semanas em Manaus, levando consigo uma cópia dos mapas do filho e uma foto ampliada do símbolo do círculo com o traço vertical que ela pregou com fita-cola na porta do roupeiro do quarto, que fora de Renato Na infância, Marcos regressou a Belém e retomou a rotina na distribuidora, mas passou a ligar para com a esquadra do Cruzeiro do Sul uma vez por mês, sempre na
primeira segunda-feira, sempre com a mesma questão. Tem novidade? E sempre com a mesma resposta. Estamos a acompanhar, Senr. Figueira. O inquérito foi arquivado por falta de elementos em março de 2020. A pandemia de Covid-19 chegou ao Acre em abril e ocupou toda a estrutura do Estado. Hospitais, polícia, bombeiros, tudo.
O caso de um homem desaparecido no Igarapé do Juruá, sem corpo, sem suspeita de crime, sem indícios de violência, desceu na pilha de prioridades até um ponto em que já não era prioridade de ninguém. Dona Teresa continuou a ligar para o telemóvel do filho todas as quartas-feiras às 7 da noite. A linha foi cancelada pela operadora em junho de 2020 por falta de pagamento.
A Dona Teresa continuou a marcar o número mesmo assim. Ouvia o sinal de número inexistente. Desligava e ficava sentada na cadeira da cozinha. Olhando para a parede durante 10 ou 15 minutos antes de se levantar e ir fazer o jantar, Marcos tentou, por conta própria, organizar uma segunda pesquisa. Contactou uma ONG de Manaus, que trabalhava com comunidades ribeirinhas, um piloto de barco freelancer e um ex-bombeiro que fazia operações particulares de resgate.
O custo estimado era de 22.000 para uma expedição de 10 dias. Marcos não tinha esse dinheiro. Dona Teresa vendeu um terreno que o marido falecido tinha deixado nas traseiras da casa em Santarém. Um lote de 15 por 30 num bairro sem asfalto por R$ 16.000. A expedição particular nunca chegou a acontecer. O ex-bombeiro desistiu em janeiro de 2021, alegando que as condições do terreno não justificavam o risco sem apoio aéreo.
O Marcos devolveu o dinheiro para a mãe. A Dona Teresa guardou as notas numa lata de leite em pó na prateleira da cozinha e não tocou mais no assunto. Em São Salvador, a dona Madalena rezava. Rezava pelo moço calado, que tinha dormido na varanda dela três vezes e que da terceira não voltou. Rezava sem alarido, sem promessa, sem vela.
Rezava como quem conversa baixinho com alguém que talvez esteja a ouvir, talvez não. Raimundo Bessa devolveu a canoa de Renato ao quintal da sua própria casa e cobriu com uma lona azul. Por vezes, quando descia ao rio para pescar, olhava na direção do ribeiro do Muriti e ficava parado por momentos, como quem tenta ouvir um som que já parou.
No dia 14 de outubro de 2021, Valdeci Pinheiro, camionista de 52 anos, trocava um pneu furado na BR364, quando viu um homem a caminhar pelo acostamento. Estava descalço com a barba até ao peito, vestindo restos de roupa rasgada. Transportava um boneco de madeira apertado contra o peito com as duas mãos. Valdeci chamou.
O homem parou e virou o corpo inteiro na direção dele. O olhar, descreveria Valdeci mais tarde, era de quem acordou de um sono que durou tempo demais. Perguntou se precisava de ajuda. O homem não respondeu. Depois de quase um minuto, assentiu com a cabeça, uma vez sem falar. Durante as 2 horas e meia de viagem até Cruzeiro do Sul, Renato não disse uma palavra.
Valdeci parou diretamente em frente do hospital regional do Juruá. O Renato foi admitido às 19:42. A identificação formal só aconteceu três dias depois, por comparação de impressões digitais. pesava 53 kg, menos 21 que em 2016. Os pés tinham feridas profundas de quem andou descalço durante meses. O corpo apresentava marcas de picadas de insetos em diferentes fases de cicatrização e cicatrizes de cortes antigos.
A a tomografia craniana não revelou lesão. As cordas vocais estavam íntegras. O Renato podia falar, mas não falava. O diagnóstico foi mutismo funcional, resposta do sistema nervoso ao trauma psicológico extremo. O Marcos chegou no dia 19 de outubro. A Dona Teresa chegou ao dia 20.
Quando entrou no quarto e viu o filho com o boneco ao colo porque o Renato se recusava a soltá-lo, a dona Teresa não chorou. Caminhou até à cama, puxou uma cadeira, sentou-se e segurou-lhe a mão por quase 20 minutos em silêncio. A equipe médica tentou estimular a comunicação. Ofereceram papel e caneta. O Renato não escreveu.
Oferecer um tablet, não digitou. Usaram cartões de sim e não para pergunta simples. Você está com fome? Verde. Sabe onde está? Verde? Sabe quanto tempo ficou fora? Nenhum cartão. Quando perguntaram sobre a floresta sobre o ribeiro, Renato baixou os olhos, apertou o boneco e ficou imóvel. Uma porta que se fechava por dentro. O boneco de madeira media de altura.
era entalhado numa peça única de madeira escura, identificada provisoriamente como IP roxo. Representava uma figura humana estilizada, sem traços faciais. No centro do peito, entalhado com 2 mm de profundidade, existia um símbolo, um círculo com um traço vertical, o mesmo símbolo que Renato desenhava nos mapas guardados no guarda-roupa.
Dois antropólogos da UFAC examinaram o boneco. O estilo não correspondia a nenhuma tradição artesanal dos povos indígenas da bacia do Juruá. As marcas de ferramenta sugeriam lâmina de pedra ou osso. A resina aplicada na superfície não foi identificada entre as resinas vegetais conhecidas.
A Dona Teresa, quando viu o boneco, olhou para o símbolo e disse: “Foi isso que foi buscar?” O Renato não respondeu, mas desviou o olhar para o janela, para algum ponto que só ele conseguia ver. Renato teve alta em novembro de 2021. A Dona Teresa levou o filho para Santarém. Em Santarém instalou-se no antigo quarto da infância.
colocou o boneco na mesinha de cabeceira e ficou a olhar para o teto. A Dona Teresa fechou a porta e, pela primeira vez, em do anos e dois meses, chorou em silêncio. O caso permanece oficialmente aberto. O Renato está vivo. Está em Santarém. Come, dorme, passeia pelo quintal, olha o rio Tapajós. Não fala, não escreve. segura o boneco quando dorme.
Ele voltou e o diferente é, por vezes, o mais pesado que se pode carregar. Antes de encerrar, há um outro caso que merece atenção. Em março de 2017, um jovem de 24 anos subiu ao pico da bandeira na serra do Caparaó. Foi com dois amigos. Os dois voltaram, ele não. 4 anos depois apareceu caminhando por uma estrada a 30 km do parque.
O que ele contou sobre de onde esteve não fecha com qualquer explicação. Descreveu uma gruta com pormenores geologicamente plausíveis, mas nunca foi encontrada. A última foto na sua câmara mostra uma silhueta no interior de uma fenda rochosa que ninguém conseguiu identificar. A história está no vídeo que aparece na a sua tela.
Algumas portas da serra nunca foram abertas por dentro. M.