Encontrei uma jovem da Polícia Rodoviária Federal, desesperada por ajuda na estrada. Mas o que eu não sabia era que esta mulher da PRF iria mudar completamente a minha vida. Eu não devia ter parado. Juro por Deus que não devia ter parado, mas quando vi aquele Fiat Argo Prata encostado à berma da BR 230, com o capot levantado a deitar fumo e uma mulher de farda azul da PRF de pé com a mão levantada, alguma coisa dentro de mim apertou e eu pisei o travão sem sequer pensar direito.
Talvez tenha sido a solidão destas estradas que me fez parar. Talvez tenha sido o facto de eu estar a completar dois meses de casado com a Betânia e ainda acordava todos os dias me perguntando se tinha feito a coisa certa. Talvez tenha sido o destino, preparando uma armadilha mesmo no meio do sertão de Pernambuco. Não sei.
Só sei que quando Encostei a carreta uns 20 m à frente e desci da cabine com as pernas bambas de quase 12 horas a conduzir, a minha vida inteira estava prestes a virar do avesso e eu nem desconfiava. Ela olhou para mim quando me aproximei e o que vi naqueles olhos deixou-me sem chão por um instante. Não era medo, não era só cansaço, era algo mais profundo que reconheci logo, porque era exatamente o que via no espelho toda a a manhã antes de subir para o camião e fingir que estava tudo bem.
Era desespero, misturado com dúvida. Era solidão vestida de farda e alguém que estava onde não queria estar, fazendo o que não tinha a certeza se queria fazer. “Boa tarde”, disse eu e a minha voz saiu mais rouca do que eu esperava, porque há horas que não falava com ninguém, a não ser comigo próprio. Ela deu um meio sorriso cansado e respondeu: “Boa noite de regresso.
” E foi aí que eu reparei bem nela. devia ter uns 30 e poucos anos. Cabelo loiro, rosto bonito, mas marcado por uma preocupação que parecia maior do que o problema do carro. A farda estava impecável, coturno, engrachado, mas tinha alguma coisa nela que não combinava com a rigidez do uniforme. Alguma coisa frágil. Problema no carro? perguntei.
E – suspirou fundo antes de responder. “Ferrou tudo”, disse ela e deu um palmada no capot do Fiat, como quem bate num cavalo cansado. Aqueceu do nada, começou a sair fumo. Tive de parar. E o pior é que o meu telemóvel descarregou. Eu preciso chegar ao posto da PRF em Salgueiro para iniciar o turno e já estou atrasada.
Olhei para o relógio no pulso e vi que eram quase 8 da noite. O sol já se tinha posto há tempo e a escuridão da BR era daquele tipo pesado que só quem circula por estas estradas conhece. Não tinha movimento quase nenhum. A gente estava ali no meio do nada entre João Pessoa, de onde tinha saído de manhã cedo, e Palmas no Tocantins, onde eu precisava de estar daqui a dois dias com uma carga de grãos que não podia atrasar.
Salgueiro, fica no o meu caminho. Eu disse, posso dar-te uma boleia até lá e se quiseres eu ligo para o reboque para vir buscar o seu carro. Ela olhou para mim com uma expressão que misturava alívio e desconfiança ao mesmo tempo. E percebi perfeitamente, porque afinal de contas ela era polícia e eu era um camionista desconhecido no meio da noite oferecendo boleia.
Mas ela olhou para o carro morto, depois paraa estrada vazia, depois outra vez para mim e alguma coisa nela cedeu. “Tem a certeza?”, perguntou ela. “Eu não quero atrapalhar a sua viagem.” “Atrapalhar o quê?”, eu respondi. “Vou passar por Salgueiro de qualquer maneira. E, além do mais, deixar uma agente policial da PRF largada na estrada não ia pegar bem paraa minha consciência.
” Ela deu uma curta gargalhada, sem alegria, e abanou a cabeça. Tá bom, então aceito. Obrigada mesmo. Não sabe o quanto isso me salva. Eu tirei o telemóvel do bolso e liguei para o Zé do Guincho, que tem por base Salgueiro, e que já me tinha salvo algumas vezes quando o meu camião deu problema por estas bandas. Expliquei a situação, passei a localização pelo GPS e o Zé disse que mandava um reboque em meia hora.
Enquanto isso, ela pegou numa mochila pequenina do banco de trás do Fiat, trancou o carro e seguiu-me até ao carreta. Quando subimos para a cabine e voltei a ligar o motor, senti um nó estranho no estômago. Não sei explicar direito o que era. Talvez fosse o facto de que há anos que não andava com uma mulher que não fosse a Betânia ao meu lado.
Talvez fosse a sensação estranha de estar a fazer alguma coisa que tecnicamente não tinha nada de errado, mas que mesmo assim parecia proibida de alguma forma torta. Talvez fosse só o cansaço da estrada a mexer com a minha cabeça. Engrenei a primeira marcha e voltei para a BR. E durante os primeiros 15 minutos não trocámos uma palavra.
Ela olhava pela janela para o escuro da noite e eu mantinha os olhos fixos na estrada iluminada apenas pelos faróis da carreta. O silêncio era pesado, mas não era desconfortável. Era aquele tipo de silêncio de quem tem muito para dizer, mas não sabe por onde começar. Foi ela quem quebrou o gelo primeiro.
Gilberto, não é? Ela disse: “E eu Levei um segundo para perceber como ela sabia o meu nome até se lembrar que estava escrito na lateral do camião.” “É isso mesmo. E tu és a Marina?”, respondeu ela. Marina Souza, um ano de PRF e já começando o turno com o carro avariado na estrada. Ótimo começo. Eu sorri de canto e disse que toda a gente tem dias ruins.
E ela encolheu os ombros e disse que os dela pareciam estar a virar semanas ruins. Havia alguma coisa no jeito que ela disse isso que me fez querer perguntar mais, mas contive-me porque, afinal de contas, nós éramos dois estranhos a partilhar uma cabine de camião e há coisas que não se pergunta para quem acabou de conhecer. Mas depois ela própria continuou a falar.
“Passei no concurso em 2021”, disse ela, ainda a olhar pela janela. “Fiquei 4 anos à espera da nomeação. 4 anos da toda a minha vida em compasso de espera, sabe? Não podia fazer planos, não podia aceitar emprego fixo, não não podia nada, só esperar.” E quando saiu finalmente a posse no ano passado, em 2025, pensei que tudo ia fazer sentido.
Pensei que ia encontrar o meu lugar no mundo. E não encontrou? Perguntei, porque era impossível não perguntar. Ela ficou em silêncio durante uns bons 30 segundos antes de responder e quando respondeu a voz dela saiu baixa, quase um sussurro. Não sei”, disse ela. Eu realmente não sei. Há dias que eu olho paraa farda no espelho e penso que estou a viver a vida de outra pessoa.
Há dias em que acordo e não reconheço quem eu virei. Eu entendi aquilo tão fundo que doía no peito, porque era exatamente assim que me sentia toda vez que acordava ao lado da Betânia na cama que partilhávamos fazia dois meses. Não que ela fosse má, não que não gostava dela, mas tinha alguma coisa que não encaixava.
alguma coisa que me fazia acordar de madrugada e ficar a olhar para o teto, me perguntando se eu não tinha cometido o maior erro da a minha vida aos 47 anos de idade. “Eu sei como é”, disse eu, e a voz saiu mais embargada do que eu queria. Eu casei faz dois meses. Depois de anos sozinho na estrada, depois de pensar que ia morrer solteiro, conheci a Betânia e em 6 meses estávamos casados.
Ela tem 50, eu tenho 47. Já não somos criança para estar a inventar moda, mas acordo todos os dias e fico pensando, será que foi mesmo isso que eu quis? Será que não confundi solidão com amor? Marina virou a cabeça e olhou-me, e nos olhos dela vi o reflexo exato do que eu estava a sentir. Era como se a gente tivesse aberto uma porta secreta um pro outro e descoberto que por detrás das máscaras que usávamos todos os dias existia a mesma ferida aberta a sangrar em silêncio.
“Eu também me casei”, ela disse e a voz dela tremeu um pouco. “Faz três meses. O meu marido é advogado, homem bom, trabalhador, família tradicional. Toda a gente disse que eu tive sorte. Minha mãe chorou de felicidade no casamento. Mas eu eu olho para ele de noite e fico pensando se casámos por amor ou por medo de ficar sozinho.
Fico pensando se não disse que sim, porque já estava com 34 anos e a pensar que era a minha última oportunidade. A gente ficou em silêncio outra vez, mas desta vez era um silêncio diferente. Era um silêncio de clicidade, de reconhecimento, de duas pessoas que acabaram de descobrir que estavam carregando o mesmo peso às costas e que de repente já não estavam sozinhas com aquilo.
Eu acelerei a carreta e nós continuou a cortar a noite pelo sertão de Pernambuco. E alguma coisa no arreamente. Já não era só um camionista dando boleia para uma agente da polícia. Era alguma coisa maior, alguma coisa perigosa, alguma coisa que eu sabia que não deveria estar a sentir, mas que já estava a começar a crescer dentro do meu peito, feito uma planta daninha que lhe não consegue arrancar.
E foi aí, no exato momento, em que olhei de relance para ela e vi que também estava a olhar para mim, que eu percebi que esta viagem até Salgueiro não ia ser apenas uma boleia, ia ser o início de alguma coisa que nenhum de nós dois estava preparado para enfrentar, mas que também nenhum de nós dois ia conseguir evitar.
A estrada continuava a se desenrolando-se à frente, como uma cobra preta iluminada só pelos faróis da carreta. E quanto mais avançávamos pelo sertão, mais sentia que estava entrando num território desconhecido, que nada tinha a ver com geografia. Era um território emocional, perigoso, cheio de armadilhas, que eu não sabia identificar, mas que já conseguia sentir debaixo dos meus pés feito areia movediça.
Marina tinha voltado a olhar pela janela, mas eu sabia que ela não não estava a ver nada lá fora. Ela estava olhando para dentro de si mesma, para aquele buraco que tínhamos acabado de escancarar entre nós os dois com aquela conversa sobre o casamento e a dúvida e o medo de ter errado. E eu também estava olhando para dentro de mim, para aquele vazio que vinha tentando preencher com a Betânia, mas que lá continuava insistente, lembrando-me toda hora que alguma coisa não estava bem.
“Você disse que são 100 km até Palmas?”, ela perguntou de repente, partindo o silêncio que já durava há uns bons 10 minutos. Isso mesmo, respondi. Saí de João Pessoa hoje de manhã às 5: “Vou dormir no Salgueiro mesmo, num posto que tem estacionamento para reboque e amanhã cedo continuo. Se tudo correr bem, chego em Palmas depois de amanhã ao fim da tarde. Deve ser cansativo”, disse ela.
“Ficar tanto tempo sozinho na estrada”. “É, e não é?”, respondi e percebi que estava a ser mais honesto com ela do que tinha sido com a Betânia em dois meses de casamento. Há alturas em que a solidão pesa tanto que me apetece parar o camião e gritar só para ouvir uma voz humana, nem que seja a minha. Mas há outras horas que é a única coisa que mantém-me são.
Porque quando estás sozinho, não tem de fingir, não precisa de usar máscara. pode ser exatamente quem é, com todas as falhas e medos e dúvidas e ninguém está ali para julgar. Ela ficou em silêncio por um momento, processando o que eu tinha dito, e depois respondeu numa voz tão baixa que quase não ouvi por causa do roncar do motor.
“Eu entendo perfeitamente o que está a dizer”, disse ela. “Às vezes entro no carro da polícia para fazer ronda e fico aliviada, porque ali dentro não preciso ser a esposa perfeita, a nora perfeita, a mulher que todos esperam que eu seja. Posso ser apenas a Marina, a A Marina confusa, a Marina que não sabe o que está a fazer da vida.
Eu apertei o volante com mais força e senti um aperto no peito. Era demasiado perigoso aquilo que estava a acontecer. Perigoso demais este ligação que se estava a formar entre dois estranhos a meio da noite numa estrada deserta. Eu deveria ter mudado de assunto. Deveria ter ligado o rádio, deveria ter feito qualquer coisa para quebrar aquela intimidade que estava crescendo demasiado rápido.
Mas em vez disso, continuei a falar. “A Betânia é uma mulher boa”, disse eu, “ce que estava a tentar convencer-me mais do que convencer a Marina. Ela cozinha bem, cuida da casa, é carinhosa quando eu chego das viagens, mas há alguma coisa que não fecha, percebe? tem alguma coisa que falta. E eu fico a pensar se esse qualquer coisa que falta é culpa dela ou culpa minha, se o problema é eu escolhi a pessoa errada ou se o problema é que simplesmente já não sei o que é amor verdadeiro.
Marina virou-se completamente na direção do banco para olhar para mim e mesmo sem tirar os olhos da estrada, conseguia sentir o peso daquele olhar. “O meu marido é perfeito no papel”, disse ela. Rodrigo, licenciado em direito pela federal, família de classe média alta, toda a gente adorou quando a gente começou a namorar.
A minha família praticamente empurrou-me para o altar porque acharam que eu tinha tido sorte de arranjar um homem daqueles e eu eu me deixei levar. Casei porque parecia a coisa certa a fazer, porque eu estava cansada de viver sozinha, porque estava cansada de não ter ninguém para partilhar as contas e as decisões e o peso das acordar todos os dias e ter que ser forte.
Mas agora que estou casada, sinto-me mais sozinha do que nunca. A voz dela falhou no final da frase e percebi que ela estava a conter as lágrimas. O meu instinto foi estender a mão e tocar no ombro dela, oferecer algum tipo de consolo físico. Mas eu contive-me porque sabia que se lhe tocasse naquele momento, alguma linha ia ser ultrapassada e não ia haver volta a dar.
Em vez disso, eu respirei fundo e disse a única coisa que conseguia pensar naquela hora. A as pessoas passam a vida inteira a pensar que casar vai resolver alguma coisa dentro da gente. disse eu, achando que ter alguém ao lado vai acabar com a solidão, com o vazio, com aquela sensação de que estamos perdidos no mundo.
Mas aí a as pessoas casam e descobrem que o vazio continua lá, que a solidão continua lá e que agora temos que carregar não só o próprio peso, mas também o peso dos outra pessoa que está à espera que você seja feliz, que seja completo, que você ser alguma coisa que não sabe se consegue ser. Exatamente, disse ela. E agora as lágrimas estavam a descer pelo seu rosto sem que ela fizesse nada para segurar. É exatamente isso.
E o pior é que me sinto culpada por sentir isso. Sinto-me uma pessoa horrível por estar casada há três meses e já estar a questionar-me se foi a decisão certa. O Rodrigo não fez nada de errado. Ele é bom para mim, mas eu olho para ele e não sinto não sinto aquela coisa que todo mundo fala que tem que sentir, aquele frio na barriga, aquela vontade de estar perto, aquela sensação de que encontrou a pessoa certa.
Eu engoli seco porque era exatamente o que eu sentia em relação à Betânia. Ela não tinha feito nada de errado, não tinha me traído, não tinha sido ruim, não tinha dado motivo concreto para eu querer terminar, mas também não tinha me dado motivo concreto para eu ter certeza de que queria continuar.
E essa incerteza estava me matando por dentro aos poucos, dia após dia, quilômetro após quilômetro dessas estradas sem fim. A placa na beira da BR anunciou que Salgueiro estava a 60 km, uma hora de viagem ainda, uma hora sozinho com aquela mulher que tinha acabado de abrir a alma para mim, do jeito que nem minha própria esposa tinha conseguido fazer em dois meses de casamento, uma hora para decidir se eu ia deixar aquilo crescer ou se eu ia fazer o que era certo e manter distância.
Mas aí ela limpou as lágrimas com as costas da mão e fez uma pergunta que mudou tudo. Você já se apaixonou de verdade alguma vez na vida, Gilberto? Eu fiquei em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade. Revivi mentalmente todos os relacionamentos que eu tinha tido nos meus 47 anos de vida. a namorada da juventude que terminou comigo porque eu escolhi a estrada em vez dela, a mulher com quem eu quase casei aos 30, mas que desistiu porque não aguentava me ver partir toda a semana.
As ficadas casuais nos postos de gasolina ao longo dos anos. E finalmente a Betânia, que apareceu na minha vida quando eu já tinha desistido de encontrar alguém e que me fez acreditar por alguns meses que ainda dava tempo de ser feliz. Achei que sim, eu respondi finalmente. Achei que tinha me apaixonado de verdade pela mulher que namorei quando tinha 30 anos. A Carla.
A gente ficou junto quase 3 anos. Eu planejava pedir ela em casamento, mas aí ela me deu um ultimatum. Disse que ou eu largava a estrada ou ela me largava. E eu não consegui largar porque a estrada era tudo que eu sabia fazer, era minha identidade, era quem eu era. E perder isso seria perder a mim mesmo.
E você se arrependeu? Marina perguntou. Todo dia. Eu disse, e senti um peso enorme sair do meu peito ao admitir aquilo em voz alta. Todo santo dia eu me arrependo, porque talvez se eu tivesse escolhido ela em vez da estrada, eu não estaria aqui agora aos 47 anos, casado com uma mulher que eu não sei se amo, rodando 100 km sozinho, tentando fugir de mim mesmo.
Marina ficou me olhando com uma intensidade que me deixou desconfortável e quando ela falou de novo, a voz dela estava diferente, mais firme, mais decidida. “Sabe o que eu acho?”, Ela disse: “Eu acho que a gente passa a vida inteira fugindo das escolhas que realmente importam. A gente escolhe o seguro em vez do certo.
Escolhe o confortável em vez do verdadeiro. E aí chega um momento que a gente olha no espelho e não reconhece mais quem tá olhando de volta. Ela tava certa e eu sabia disso. Eu tinha passado a vida inteira fazendo exatamente o que ela estava descrevendo, fugindo, escolhendo o caminho mais fácil, evitando conflito, evitando mudança.
E agora eu estava preso num casamento que não me preenchia, dirigindo uma carreta pelo Brasil afora, tentando desesperadamente encontrar algum sentido numa vida que parecia cada vez mais vazia. A gente passou por um trecho de serra e a estrada começou a subir numa curva acentuada. Reduzi a marcha e senti o peso da carga nos grãos lá atrás, puxando a carreta para trás.
Era uma metáfora perfeita pro que eu estava sentindo. O peso do passado, das escolhas erradas, dos arrependimentos, tudo puxando a gente para trás enquanto a gente tentava seguir em frente. “Posso te perguntar uma coisa?”, Eu disse e Marina acenou com a cabeça. Quando você olha pro seu marido, quando você tá do lado dele, você sente alguma coisa, alguma coisa de verdade? Ela demorou para responder e quando respondeu, foi com uma honestidade brutal que me partiu ao meio.
“Não”, ela disse, “eu não sinto nada. É como estar do lado de um estranho bem intencionado, alguém que eu respeito, que eu admiro até, mas que não mexe comigo, que não me tira o sono, que não me faz sentir viva. E como é que você sabe que deveria sentir diferente? Eu perguntei: “Como é que você sabe que não é assim para todo mundo?” “Porque eu já senti diferente?”, ela respondeu e a voz dela ficou ainda mais baixa.
Antes dele, eu namorei um cara por dois anos. Era complicado. Ele bebia demais. Não tinha estabilidade. Minha família odiava, mas quando eu estava com ele, eu sentia. Sentia tudo, o medo, a raiva, a paixão, a vontade de estar perto, mesmo sabendo que ia dar errado. E quando terminei com ele para ficar com o Rodrigo, eu achei que estava sendo madura.
Pensei que estava a escolher a razão em vez da emoção. Mas agora eu percebo que o que escolhi foi a morte em vida. As palavras dela ecoaram dentro da cabine do camião e ficaram colados na a minha pele feita suor, morte em vida. Era exatamente o que eu sentia com o Betânia. Não que ela fosse má, não que o relacionamento fosse um inferno.
Era pior que isso. Era a ausência total de qualquer coisa. Era acordar ao lado dela e sentir absolutamente nada. Nem amor, nem ódio, nem raiva, nem paixão, apenas um vazio imenso, oco, que me engolia inteiro. Não sei o que fazer, Marina disse de repente. E agora ela estava chorando de novo, mas de uma forma diferente, mais desesperado.
Eu não sei como sair dele. Não sei como olhar para o Rodrigo e dizer que cometi um erro. Não sei como desiludir todo mundo que acreditou em mim, na minha família, nos amigos dele, a igreja onde nós casou. Como é que eu faço isso? Eu não sei”, respondi e senti a minha própria voz falhar. Eu também não sei, porque eu Estou na mesma situação que tu.
Casado há dois meses com uma boa mulher que eu não amo de verdade, preso numa vida que eu escolhi, mas que não me faz feliz e sem coragem de admitir a ninguém, nem para mim próprio, que errei. A placa anunciou que faltavam 30 km para Salgueiro, meia hora de viagem, meia hora até ela descer do camião e desaparecer da minha vida para sempre.
meia hora até a gente voltar, cada um para a sua prisão disfarçada de casamento. Mas alguma coisa tinha mudado irreversivelmente naquela cabine. Alguma coisa se tinha ligado entre nós dois, que ia para além da empatia ou compreensão. Era uma atração, não só física. Embora não podia negar que ela era bonita e que estava a sentir coisas que não deveria estar a sentir por uma mulher que não era a minha mulher, era uma atração mais profunda de duas almas perdidas que se tinham encontrado no meio do deserto e reconhecido uma na
outra. Marina, comecei a dizer, mas ela interrompeu-me. Não, disse ela. Não diz nada agora, por favor, porque se tu dizeres o que eu estou a pensar que tu vai falar, tudo vai mudar. E não sei se estou pronta para isso mudar. Mas já mudou, disse eu. E finalmente tirei os olhos da estrada por um segundo para olhar para ela de verdade.

Já mudou no momento em que entrou nesse camião. A gente só tem medo de admitir. Ela olhou-me nos olhos e naquele momento, naquele único segundo de conexão absoluta, soube, com toda a a certeza do mundo, que aquela viagem não ia terminar em Salgueiro e que as nossas vidas nunca mais iam ser as mesmas.
Os últimos 30 km até Salgueiro passaram num silêncio carregado que parecia sugar todo o ar do interior da cabine. Marina tinha voltado a olhar pela janela, mas eu sabia que ela não não estava a ver nada da paisagem lá fora. Ela estava a processar, a pensar, sentindo a mesma coisa que estava sentindo e que nenhum de nós dois tinha coragem de nomear ainda, porque nomear seria tornar real.
E tornar real seria ter de fazer alguma coisa a esse respeito. Mantinha as mãos firmes no volante, mas por dentro estava em cacos, 47 anos de vida, e pensava que já tinha passado por tudo. Já tinha sentido solidão, desilusão, arrependimento, medo. Mas o que estava a sentir agora era diferente de tudo. Era como se alguém tivesse acendido uma luz dentro de mim, que estava apagada fazia tanto tempo que já nem me lembrava que ela existia.
E o pior é que essa luz estava sendo acesa por uma mulher que eu tinha conhecido há menos de 2 horas. Uma mulher que era casada, uma mulher que daqui a pouco ia descer deste camião e desaparecer da minha vida. ou não, esta possibilidade, este ou não, era o que estava a matar-me. Porque pela primeira vez em muito tempo, sentia que tinha uma escolha real à minha frente, não uma escolha entre o certo e o errado, porque as duas opções eram erradas de algum jeito.
Mas uma escolha entre continuar a morrer aos poucos numa vida que não me pertencia, ou arriscar tudo por alguma coisa que talvez nem existisse de verdade. As luzes de Salgueiro começaram a aparecer no horizonte. A cidade era pequena, um ponto de paragem obrigatório para quem atravessava aquele pedaço do sertão. Tinha alguns postos de abastecimento de combustível, restaurantes de beira de estrada, hotéis simples e o posto da Polícia Rodoviária Federal, onde Marina precisava de iniciar o turno.
Olhei para o relógio no painel e vi que eram quase 9 da noite. Ela já estava mais de meia hora atrasada. O posto da PRF fica à entrada da cidade”, Marina disse, quebrando finalmente o silêncio. Do lado esquerdo da BR existe uma placa grande, não vai errar. Eu confirmei com a cabeça e comecei a reduzir a velocidade.
O meu coração estava batendo mais rápido do que deveria. E eu sabia que não era por causa do cansaço da viagem, era por causa do que estava prestes a acontecer ou do que não ia acontecer. Eu ainda não sabia. Marina pegou na mochila que estava no chão entre as pernas dela e segurou com as duas mãos, apertando como se fosse um salvavidas.
Eu podia ver pelo canto do olho que estava tensa, o corpo inteiro rígido e tinha alguma coisa na respiração dela que me dizia que ela estava a travar uma guerra interna quanto à minha. Gilberto”, disse ela de repente, e a voz dela saiu tão baixa que quase se perdeu no roncar do motor. “Eu preciso dizer uma coisa antes de descer.” Não respondi.
Só esperei porque eu sabia que o que quer que ela fosse dizer ia definir o rumo de tudo que viesse depois. “Eu nunca fiz isso antes”, continuou ela. “Nunca senti que antes. Não assim, não tão rápido. E eu sei que é uma loucura. Eu sei que a gente conheceu-se há 2 horas. Eu sei que eu devia descer deste camião e te agradecer a boleia e seguir a minha vida e nunca mais pensar nisso.
Mas eu não consigo. Não consigo parar de pensar que se eu descer agora, vou passar o resto da vida a perguntar-me o que poderia ter acontecido se eu tivesse tido coragem. A minha garganta estava tão apertada que mal conseguia respirar. Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras estavam presas em algum lugar entre o peito e a boca e se recusavam a sair.
Eu estou a sentir a mesma coisa. Eu finalmente consegui dizer e a minha voz saiu rouca, carregada. Desde que entraste nesse camião, eu tô sentindo alguma coisa que não sentia fazia anos. Talvez nunca tenha sentido de verdade. E não sei o que fazer com isso, porque sou casado. Você é casada. Temos responsabilidades, há pessoas que dependem de nós, há vidas inteiras construídas que não dá para simplesmente deitar fora por causa de um sentimento que apareceu do nada no meio de uma estrada deserta.
“Mas e se não é apenas um sentimento?”, Marina perguntou. E agora ela tinha-se virado completamente para mim e estava a me olhando com uma intensidade que me deixava nu. E se for mais do que isso? E se para a vida tentando dar-te uma segunda hipótese, tentando mostrar-lhe o que você está a perder, ficando preso numa coisa que não te faz feliz? A placa do posto da PRF apareceu à frente e eu tive de tomar uma decisão em frações de segundo.
Eu podia encostar, deixá-la descer, agradecer a conversa e seguir viagem, voltar à minha vida segura e miserável com a Betânia, continuar fingindo que estava tudo bem, continuar morrendo um pouco todos os dias ou podia fazer alguma coisa completamente insana. Passei mesmo pelo posto. Marina prendeu a respiração e olhou-me com os olhos arregalados.
Gilberto, o que é que você está fazendo? Não sei respondi. E era a verdade mais honesta que eu tinha dito na vida inteira. Eu realmente não sei, mas eu sei que se te deixar descer agora, vou arrepender-me pelo resto da vida. E eu já me arrependi de escolhas demais. Já deixei pessoas demais irem embora. Já fingi há tempo demais que estava tudo bem quando estava.
Ela ficou em silêncio durante um longo momento e pensei que ela me ia pedir para voltar, ia chamar-me nomes, ia abrir a porta e saltar do camião em movimento. Mas, em vez disso, ela soltou uma gargalhada. Uma gargalhada curta, nervosa, incrédula, mas genuína. “Você tá louco?”, Ela disse: “Estamos loucos completamente concordei, mas pela primeira vez em muito tempo estou a me sentindo-se vivo de verdade.
” Continuei a circular pela BR e saí de Salgueiro, deixando as luzes da cidade para trás. Não tinha qualquer plano, não sabia o que ia acontecer dali a uma hora, dali a um dia. Só sabia que alguma coisa se tinha partido dentro de mim e que não tinha mais como voltar atrás. A Marina pegou no telemóvel dela da mochila e olhou para tela. Ainda está descarregado? Ela disse.
preciso ligar para o posto e avisar que não vou conseguir chegar ao turno. Preciso de inventar alguma desculpa. Usa o meu telemóvel”, disse eu, entregando o aparelho para ela. Ela pegou, ficou olhando paraa tela por uns bons 30 segundos e depois dis com um número. Eu ouvi a voz do outro lado atender e Marina explicou que o carro tinha partido, que ela tinha conseguido um guincho, mas que não ia dar tempo para chegar ao turno, que precisava remarcar.
A pessoa do outro lado não pareceu muito feliz, mas aceitou. Marina agradeceu e desligou. Pronto, disse ela, “Acabei de queimar o meu turno. Vou ter que dar explicações amanhã. Vão-me perguntar onde estava, o que fiz e não faço a mínima ideia do que vou responder. A verdade, sugeri. Ela me olhou com uma expressão entre o deboche e o desespero.
A verdade, que verdade, que dei boleia com um camionista casado que acabei de conhecer e que, em vez de descer no posto, decidi continuar no camião porque estou a sentir qualquer coisa que nem sei explicar. Essa verdade. Quando se fala assim, parece pior do que é. Eu disse, mas sabia que ela tinha razão. Era exatamente assim que qualquer pessoa ia interpretar.
E talvez tivessem razão em interpretar assim. Talvez a gente realmente estivesse a fazer uma loucura imperdoável. Rodámos mais uns 20 minutos em silêncio, até que vi a placa de um posto de abastecimento de combustível com estacionamento para camiões. Era o lugar onde eu planeava dormir antes de continuar viagem de manhã.
Entrei, estacionei a reboque numa vaga afastada das outras e Desliguei o motor. O silêncio que se instalou dentro da cabine era ensurdecedor. A Marina estava sentada do meu lado. A respiração dela visível no frio do ar condicionado, que ainda estava ligado, e eu podia sentir a tensão irradiando do corpo dela em ondas quase palpáveis.
“E agora?”, ela perguntou. “Agora precisamos conversar a sério?”, respondi: “Sem medo, sem fingo, porque se a gente vai fazer alguma loucura, pelo menos que seja uma loucura consciente”. Ela concordou com a cabeça e nós ficámos ali, dois estranhos sentados numa cabine de camião num posto de abastecimento de combustível perdido no sertão de Pernambuco, prestes a ter a conversa mais importante e mais perigosa das nossas vidas.
Marina começou. “Eu não amo o meu marido”, ela disse, sem rodeios, sem tentar suavizar. Eu gosto dele, respeito-o, mas eu não amo. E ficar casada com alguém que eu não amo está a matar-me aos pouco. Todo dia acordo e visto a farda e vou trabalhar e volto para casa e fingjo que está tudo bem, mas não está.
E não sei quanto tempo mais consigo manter esta farsa. Eu também não amo a minha mulher, admiti. E foi libertador dizer que em voz alta pela primeira vez. A Betia é uma boa pessoa. Ela não merece o que eu estou a fazer. Mas também não mereço passar o resto da vida a fingir que se sente alguma coisa que não sinto.
A gente casou porque os dois estavam com medo de morrer sozinhos. Não por amor. E agora estou preso. E o que quer fazer? – perguntou a Marina, olhando-me diretamente nos olhos. Eu quero-te conhecer de verdade, respondi sem hesitar. Quero passar tempo contigo. Quero descobrir se isto que nós estamos sentindo é real ou se é apenas desespero de duas pessoas infelizes que se agarraram uma na outra.
Mas para o fazer, a gente vai ter de enfrentar consequências, vai ter de magoar gente, vai ter de destruir o que a gente construiu. Marina fechou os olhos e respirou fundo. “Eu sei”, disse ela, “E eu estou apavorada, mas também estou cansada de ter medo, cansada de viver uma vida que não é a minha, cansada de acordar todos os dias e sentir esse vazio.
Então, nós fazemos o seguinte”, eu disse: “E senti que estava prestes a saltar de um penhasco sem saber se tinha água por baixo ou pedras afiadas. Eu tenho que entregar essa carga em palmas depois de amanhã. Vem comigo, fica comigo estes dois dias.” A gente usa esse tempo para conhecer-se verdadeiramente, para conversar, para perceber o que é isto que tá acontecendo.
E no final, quando nós chegar a Palmas, a gente decide. Se for real, a gente enfrenta, termina os casamentos, assume as consequências. Se não for, cada um volta à sua vida e à pessoas tentam esquecer que isso aconteceu. A Marina olhou para mim durante muito tempo e eu vi passar-lhe pelos olhos medo, esperança, desespero, excitação, tudo ao mesmo tempo.
E depois, lentamente ela concordou com a cabeça. Está bom, ela disse. Vou contigo. E foi nesse momento, nesta simples concordância, que as nossas vidas mudaram para sempre. A gente dormiu no camião nessa noite, cada um no seu canto da cabine, respeitando uma distância física que parecia ridícula perto da intimidade emocional que já tínhamos partilhado.
Eu fiquei no lugar do condutor reclinado e Marina acomodou-se no pequeno beliche que tinha na parte de trás da cabine, onde normalmente descansava nas viagens longas. Nenhum de nós dormiu direito. Eu ficava a ouvir a respiração dela, irregular, nervosa, e sabia que ela estava tão acordada como eu, a olhar para o teto daquela cabine apertada e perguntando-se que loucura era aquela que tínhamos acabado de combinar.
Quando o sol nasceu às 5h30 da manhã, já estava acordado fazia horas. Desci do camião, tomei um café aguado no restaurante do posto, comprei pão com manteiga e trouxe para a Marina, que estava sentada na cabine, com o rosto amassado de quem não pregou olho a noite inteira. A gente comeu em silêncio, ainda a processar o que tinha acontecido nas últimas 12 horas.
E depois liguei o motor e voltamos para estrada. Os primeiros 100 km foram estranhos, tensos. A gente não sabia direito como agir um com o outro à luz do dia, com a crua realidade da decisão que tínhamos tomado pesando sobre nós. Marina mexia no telemóvel que tinha carregado durante a noite no camião e via pelo canto do olho que ela tinha várias mensagens não lidas, provavelmente do marido, provavelmente do posto da PRF, provavelmente da família, mas ela não abriu nenhuma, apenas ficou a olhar para o ecrã com uma expressão
que misturava culpa. e determinação. “Não vai responder?”, perguntei finalmente, quebrando o silêncio. “Não, agora”, disse ela. “Se eu responder agora, vou ter de mentir. E eu estou cansada de mentir. Prefiro ficar em silêncio por enquanto e lidar com as consequências depois.” Eu entendi perfeitamente porque era exatamente o que eu estava a fazer.
O meu celular também tinha mensagens da Betânia. “Bom dia, amor. Está tudo bem? Conduzir com cuidado. Telefona-me quando parares”. Mensagens normais, carinhosas, de uma esposa preocupada com o marido na estrada. Mensagens que me faziam sentir o pior ser humano do planeta. Porque enquanto ela estava em casa à minha espera com comida pronta e roupa lavada, eu estava aqui com outra mulher dentro do camião, pensando em terminar um casamento de dois meses.
A gente cruzou a fronteira de Pernambuco e entrou no Piauí por volta das 9 horas da manhã. A paisagem alterou-se subtilmente, o sertão dando lugar a uma vegetação um pouco mais densa, e o calor começou a apertar, mesmo com o ar condicionado ligado. A Marina tinha tirado a farda da PRF durante a noite e vestido uma t-shirt simples e umas calças de ganga que ela tinha na mochila.
Sem o uniforme, parecia mais nova, mais vulnerável, mais humana e também mais bonita, o que não ajudava em nada o turbilhão de sentimentos que eu estava tentando organizar dentro da minha cabeça. “Conta-me mais sobre ti”, ela disse de repente. “Você disse que tem 47 anos, que é camionista há algum tempo, que casou com a Betânia há dois meses.
Mas e antes, como chegou até aqui?” Respirei fundo porque não era uma história feliz, mas era a minha história. E se íamos tentar construir alguma coisa juntos, nem que fosse só por dois dias, tinha de ser baseado em verdade. Eu comecei a conduzir camião aos 22 anos, disse eu, o meu pai era camionista, morreu num acidente na estrada quando tinha 19 anos.
A minha mãe não aguentou a dor e foi atrás dele dois anos depois do coração. Fiquei sozinho, sem família, sem nada. A única coisa que sabia fazer era conduzir, porque tinha passado a infância inteira a acompanhar meu pai nas viagens. Então, arranjei um emprego numa transportadora, arranjei um camião velho emprestado e nunca mais parei.
Fiz desta estrada a minha casa, o meu refúgio, a minha prisão. A Marina ouvia-me com atenção, sem interromper, e eu continuei. Tive alguns relacionamentos ao longo dos anos, mas nenhum resultou, porque nunca consegui escolher entre a mulher e a estrada, e a estrada sempre vencia. Até que conheci a Carla, aquela de que te falei ontem. Ela era diferente.
Ela fez-me querer mudar, mas quando chegou a altura de escolher de verdade, não tive coragem. Deixei-a ir embora. E arrependo-me disso todo dia, porque depois dela passei quase 15 anos sozinho. Sozinho de verdade, sem ninguém. Até que apareceu a Betânia. E como a conheceu? Marina perguntou. Num velório? Eu respondi. E a ironia daquilo não passou despercebida nem por mim.
velório do pai de um amigo meu. Era a prima do falecido. A pessoas conversaram, trocou o telefone, começou a falar e em seis meses estávamos casados. Tudo muito rápido, demasiado rápido. como se os dois tivessem medo que se parassem para pensar, iam perceber que não fazia sentido. Marina ficou em silêncio por um momento, processando e depois partilhou a própria história.
“Eu vim de uma família pobre do interior da Bahia”, ela disse: “O meu pai era pedreiro, a minha mãe doméstica. Eu fui a primeira da família a ir para a faculdade. Estudei Direito numa federal, formei-me, mas o mercado estava difícil e não conseguia emprego na área. Foi quando saiu o concurso da PRF em 2020. Estudei que nem uma louca durante um ano.
Passei, pensei que tinha vencido na vida, mas depois veio a espera, 4 anos à espera da nomeação. 4 anos que podia ter usado para construir carreira noutra coisa, mas que desperdicei à espera de uma chamada que parecia que nunca mais ia chegar. Ela fez uma pausa, olhou pela janela e continuou com a voz mais baixa.
Foi durante esta espera que conheci o Rodrigo. Ele era tudo o que a minha família queria para mim. Advogado bem-sucedido, família estruturada, estabilidade, segurança. E eu estava tão cansada de esperar, tão cansada de incerteza, que quando pediu a minha mão em casamento, disse que sim, sem pensar muito. Achei que era amor, ou pelo menos achei que podia tornar-se amor com o tempo, mas não virou.
E agora estou presa num casamento que mais parece um contrato de negócio do que uma união de duas pessoas que se amam. A gente tinha isso em comum. Casamentos feitos por medo da solidão e não por amor. Vidas construídas em cima de fundações fracas que estavam a rachar mesmo antes de terminarem de secar. E ora aqui estávamos nós, dois estranhos que se tinham conhecido por acaso numa estrada deserta, partilhando verdades que nem com os nossos próprios cônjuges conseguíamos partilhar.
Você tem medo do que vem depois? Eu perguntei se a gente decidir seguir com isso, terminar os casamentos, tentar alguma coisa juntos, têm medo muito. Ela respondeu sem hesitar. Eu tenho medo de desiludir a minha família, medo de ser julgada, medo de que isto que nós estamos sentindo seja apenas uma ilusão e que daqui a alguns meses percebemos que cometeu um erro ainda maior.
Mas sabe o que tenho ainda mais medo? de não tentar, de voltar à minha vida segura e infeliz e passar os próximos 50 anos perguntando-me como teria sido se eu tivesse tido coragem. Eu também, eu admiti, também tenho medo de tudo isso, mas tenho mais medo de continuar a viver do jeito que eu tava vivendo, acordando todos os dias com aquele aperto no peito, aquela sensação de que estou a perder tempo, de que a vida está a passar e eu só estou existindo, não vivendo de verdade.
A estrada continuava desenrolando-se à nossa frente, quilómetro após quilómetro. E quanto mais a gente conversava, mais eu tinha certeza de que aquilo não era coincidência, não era um acaso, era alguma coisa maior, destino talvez, ou simplesmente duas pessoas que se encontravam no lugar certo, à hora certa, prontas para se encontrar e se reconhecer.
Paramos para almoçar num restaurante de beira de estrada em Floriano, no sul do Piauí. Comemos arroz, feijão, carne de sol e macaeira enquanto conversávamos sobre coisas mais leves. Filmes que gostávamos, músicas que nos marcaram, lugares que sonhávamos conhecer. E quanto mais conhecia a Marina, mais apaixonava-me, não só pela beleza dela, que era innegável, mas pela pessoa que ela era, pela inteligência, pela sensibilidade, pela coragem de estar ali arriscando tudo, sem saber bem onde ia dar. Depois do almoço, regressámos aa
estrada e percebi que alguma coisa tinha mudado entre nós. A tensão tinha diminuído, a conversa fluía mais facilmente, ríamos mais e em algum momento, sem que nenhum de nós planeasse, a mão dela encontrou a minha no câmbio e os nossos dedos se entrelaçaram. Foi um gesto pequeno, simples, mas carregado de significado, porque era a primeira vez que nos tocávamos de verdade.
E aquele toque confirmava tudo o que a gente vinha sentindo desde a noite anterior. Não era imaginação, não era desespero, era real, tangível, verdadeiro. Marina apertou-me a mão e eu apertei-a de volta. E continuamos assim durante quilómetros, sem dizer nada, só sentindo aquela ligação que parecia impossível, mas que estava a acontecer mesmo ali, naquela cabine de camião a atravessar o Brasil.
Quando o sol começou a pôr-se e o céu ganhou aquele tom alaranjado, lindo que só o sertão tem, eu percebi que nós estava a entrar no Tocantins. Faltava pouco mais de 500 km até Palmas. Se eu conduzisse a noite inteira, dava para chegar de madrugada. Mas eu não queria chegar de madrugada. Não queria que aquilo terminasse depressa.
Queria esticar cada segundo, cada minuto, cada hora que tinha com ela. Vamos parar em Guaraí? Eu sugeri. É uma cidade pequena no caminho. Tem um hotel simples, mas limpo. A gente descansa, janta, dorme direito e amanhã cedo seguimos para Palmas. A Marina olhou para mim e nos olhos dela vi a mesma coisa que estava sentindo, a mesma vontade de não deixar aquilo acabar, a mesma necessidade de têm mais tempo juntos antes que a realidade batesse à porta e nós tivesse de tomar decisões definitivas.
Está bem, disse ela, vamos parar em Guaraí. E foi aí, naquela decisão de parar num hotel em vez de continuar viagem, que atravessámos a última linha, que ainda separava a fantasia da realidade, porque os dois sabíamos exatamente o que ia acontecer quando o gente chegasse àquele hotel. E nenhum de nós tinha mais força ou vontade de lutar contra isso.
Chegámos a Guaraí, quando o céu já estava completamente escuro e as estrelas começavam a aparecer uma naquela imensidão que só quem conhece o interior do Brasil entende de verdade. A cidade era pequena. Daquelas que tem uma rua principal, alguns comércios, uma praça no centro e pouca movimentação. Depois das 8 da noite, estacionei o camião num posto à entrada da cidade e a gente caminhou três quarteirões até ao hotel que conhecia de outras viagens.
Um edifício de dois andares com fachada simples e uma placa de néon a piscar o nome hotel cerrado. O rapaz da recepção mal olhou para nós quando lhe pedi um quarto, pegou nos meus documentos, passou o cartão, entregou a chave do quarto 203 no segundo andar e voltou a assistir o jogo de futebol na televisão pequena atrás do balcão.
Marina estava do meu lado, quieta e eu podia sentir a tensão irradiando do corpo dela, igual a calor de uma fogueira. Subimos à escada de madeira que rangia a cada passo e quando chegamos na porta do quarto, eu parei com a chave na mão, olhei para ela e fiz a pergunta que precisava ser feita. “Você tem certeza?”, eu disse.
E minha voz saiu rouca, porque eu sabia que o que acontecesse dali paraa frente não tinha volta. Se a gente cruzasse aquela porta juntos, se a gente passasse aquela noite juntos, não ia ter como fingir que não aconteceu, não ia ter como voltar atrás e dizer que foi só uma conversa, só uma carona, só duas pessoas solitárias desabafando.
Ia ser uma traição concreta, real, innegável. Marina me olhou nos olhos e eu vi neles uma determinação que não tinha visto antes. Não era impulsividade, não era desespero, era uma decisão consciente tomada por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo e quais seriam as consequências. “Eu tenho certeza”, ela disse, e estendeu a mão para pegar a chave da minha.
“Pela primeira vez na minha vida, eu tenho certeza de alguma coisa.” Abri a porta e entramos no quarto pequeno com uma cama de casal, um guarda-roupa velho, uma televisão pequena em cima de uma cômoda e uma janela que dava pra rua principal da cidade. Fechei a porta atrás de nós e por um momento a gente ficou ali parado, um de frente pro outro, e o peso do que estava prestes a acontecer caiu sobre nós como uma avalanche.
Marina largou a mochila no chão, deu dois passos na minha direção e me beijou. Não foi um beijo hesitante, não foi um beijo de teste, foi um beijo de fome, de necessidade, de duas pessoas que tinham passado tempo demais reprimindo o que sentiam e que finalmente tinham permissão para se entregar. Eu a puxei para perto e senti o corpo dela contra o meu, quente, real, vivo.
E tudo que eu tinha reprimido nas últimas 24 horas explodiu de uma vez. A gente se amou naquela noite com uma intensidade que eu nunca tinha experimentado antes. Não era só sexo, era conexão, era reconhecimento, era duas almas se encontrando depois de passar a vida inteira procurando. E quando finalmente terminamos exaustos, suados, entrelaçados naquela cama barata de hotel no meio do nada, eu soube com absoluta certeza que não tinha volta, que eu tinha me apaixonado por aquela mulher, que o que eu sentia por ela era mais real do que qualquer coisa que eu
tinha sentido na vida inteira. Marina estava deitada no meu peito, a respiração dela começando a se acalmar e eu passava os dedos pelo cabelo dela, sentindo uma paz que eu não conhecia fazia décadas. Talvez nunca tivesse conhecido de verdade. A gente ferrou com tudo”, ela disse de repente. Mas não tinha arrependimento na voz dela.
Tinha alívio, tinha libertação. É, eu concordei. A gente ferrou mesmo. Mas sabe de uma coisa? Eu não me arrependo nem um pouco. Ela levantou a cabeça para me olhar e nos olhos dela eu vi lágrimas. Não de tristeza, de alguma coisa mais complexa, de medo misturado com felicidade, de culpa misturada com esperança. Eu também não. Ela disse.
Isso é o que mais me assusta. Eu deveria estar me sentindo culpada, deveria estar me odiando, mas tudo que eu sinto é que pela primeira vez em muito tempo, eu tô viva de verdade. A gente ficou ali abraçado por um tempo que parecia suspenso, fora da realidade. E então Marina pegou o celular dela que estava em cima do criado mudo.
Tinha 17 mensagens não lidas. Ela abriu e começou a ler em silêncio, e vi o rosto dela ir mudando conforme ela passava de uma mensagem para outra. “Rodrigo tá desesperado”, ela disse. Ligou pro posto da PRF, descobriu que eu não fui trabalhar, tá tentando me localizar. Minha mãe também tá mandando mensagem perguntando se tá tudo bem.
Eles vão chamar a polícia se eu não responder logo. Você precisa responder, eu disse, mesmo sabendo que quando ela respondesse a bolha em que a gente estava vivendo ia estourar e a realidade ia entrar pela porta como uma tempestade. Eu sei ela disse. Mas o que eu vou falar? Que eu tô bem, mas que tô com outro homem, que eu decidi jogar meu casamento no lixo depois de três meses porque encontrei um caminhoneiro numa estrada e me apaixonei em dois dias? Você não precisa contar tudo agora”, eu disse.
Só precisa dizer que tá bem, que tá segura, que vai dar explicações quando voltar. Marina respirou fundo, digitou uma mensagem curta, dizendo que estava bem, que tinha surgido uma situação inesperada, que voltaria em alguns dias e explicaria tudo pessoalmente e enviou. Alguns segundos depois, o telefone começou a tocar. Era Rodrigo.
Ela olhou pra tela, olhou para mim e deixou tocar até cair na caixa de correio. Eu não consigo falar com ele agora”, disse ela. “Não consigo ouvir a voz dele e continuar a mentir. Prefiro enfrentar pessoalmente quando eu voltar”. Peguei no meu próprio telemóvel e vi que tinha oito mensagens da Betânia. Também enviei uma mensagem parecida dizendo que estava tudo bem, que tinha tido alguns imprevistos na viagem, que chegaria a Palmas no dia seguinte e depois voltaria para casa.
Ela respondeu quase imediatamente, dizendo que estava preocupada, que tinha estranhado eu não ligar, que me amava. E quando li aquele amo-te vindo dela, senti uma facada no peito, porque sabia que era verdade. Ela amava-me e eu ia partir o coração dela. A gente não dormiu muito naquela noite. Conversamos até de madrugada sobre tudo, sobre os nossos medos, sobre o que faríamos quando voltássemos para as nossas vidas, sobre como enfrentaríamos os nossos cônjuges, sobre se tínhamos coragem para realmente terminar os casamentos e tentar
construir alguma coisa em conjunto, ou se aquilo tinha sido apenas um parêntesis, uma loucura passageira que deixaríamos para trás quando a viagem terminasse. Eu não quero que isto seja só uma loucura passageira”, disse Marina a certa altura, com a cabeça ainda apoiada no o meu peito. “Quero tentar de verdade.
Quero acabar com o Rodrigo. Quero te conhecer direito. Quero ver se é isso que a gente está a sentir sobrevive fora dessa bolha da estrada. Eu também quero”, eu disse. E era verdade. “mas a gente precisa de estar preparado para o que vem, para julgamento, para as críticas, para o caos que vai ser quando contarmos a todo o mundo que largou casamentos de poucos meses por alguém que conheceu numa estrada.
” Marina apoiou-se no cotovelo e olhou-me sério. “A gente vai ser sempre julgado, Gilberto, sempre. Não importa o que façamos, se continuarmos nos casamentos infelizes, dirão que somos cobardes. Se terminarmos, vão dizer que somos irresponsáveis. Não tem como ganhar. Então, eu prefiro ser julgada a fazer o que me faz feliz do que ser julgada morrendo aos poucos por dentro.
Ela tinha razão e eu sabia disso. A gente nunca ia conseguir agradar a toda a gente, nunca ia conseguir fazer a escolha certa aos olhos da sociedade, mas podíamos fazer a escolha verdadeira, a escolha honesta e lidar com as consequências como adultos. Amanheceu e tomámos o pequeno-almoço num tasco na esquina do hotel. Pão na chapa, café com leite, tapioca com queijo com alho.
Comida simples, mas que sabia a liberdade. A gente estava exausto, mas feliz de uma forma estranha, como se tivesse acabado de cometer um crime, mas não se arrependesse nem um pouco. Voltámos pro caminhão e continuamos viagem. eram apenas 300 km até Palmas, cerca de 4 horas de estrada, as últimas 4 horas que teríamos juntos antes de ter de encarar a realidade e tomar decisões que mudariam as nossas vidas para sempre.
A paisagem do Tocantins era diferente, mais plano, mais aberto, e o sol batia forte no asfalto, criando aquelas miragens de água que desaparecem quando se aproxima. A Marina estava quieta ao meu lado, olhando pela janela, e eu sabia que ela estava a pensar a mesma coisa que eu, que a bolha estava prestes a rebentar, que em poucas horas íamos ter que nos despedir e voltar cada um paraa sua própria guerra.
“Quando te deixar em palmas”, eu disse, quebrando o silêncio, “o que é que vai fazer? Vou apanhar um autocarro de volta para Pernambuco?” Ela respondeu: “Vou até casa do Rodrigo. Vou sentar-me com ele e contar a verdade, que conheci alguém, que me apaixonei, que não quero mais continuar casada com ele.
Vai ser a conversa mais difícil da minha vida, mas precisa de ser feita”. E depois? Eu perguntei depois. Eu não sei. Ela disse honestamente. Vou precisar de lidar com a reação da minha família, com as consequências no trabalho, se este vazar, com o julgamento de todos. Mas quero voltar a ver-te, Gilbert. Quero que tenhamos uma chance de verdade, longe da estrada, na vida real.
Eu também, já disse, vou fazer a mesma coisa. Vou voltar para casa. Vou conversar com a Betânia. Vou terminar do forma mais digna que eu conseguir e depois a gente encontra-se e tenta construir alguma coisa em conjunto. Marina pegou no meu telemóvel, colocou o número dela nos contactos e devolveu.
A gente agora tinha um fio que nos ligava para além daquela viagem, um fio fino, mas real, que íamos ter que decidir se queríamos fortalecer ou cortar. Entramos em palmas a meio da tarde. A cidade era grande, moderna, planeada, completamente diferente das pequenas cidades do interior por onde tínhamos passado. Levei a reboque até ao depósito onde tinha que entregar a carga.
Descarreguei os grãos com a ajuda dos funcionários de lá. Peguei no comprovativo de entrega e voltei para o camião onde a Marina estava a me esperando. Chegou a hora ela disse e a a voz dela estava trémula. A gente se abraçou ali dentro da cabine por um muito tempo, sem dizer nada, só sentindo o corpo um do outro pela última vez antes de se despedir.
E depois Marina pegou na mochila, desceu do camião e antes de fechar a porta, ela olhou para mim uma última vez. “Não desaparece”, disse ela. “Por favor, precisamos tentar.” “Eu não vou desaparecer.” Eu prometi, vamos tentar de verdade. Ela fechou a porta e eu vi-a afastar-se caminhando pela rua até dobrar a esquina e desaparecer da minha vista.
E ali, sozinho de novo naquela cabine que tinha sido nossa casa durante dois dias, senti o peso de tudo o que tinha acontecido cair sobre mim. Eu tinha-me apaixonado por uma mulher que não era minha esposa. Tinha traído Betânia de todas as formas possíveis. tinha feito promessas que ia ter de cumprir, mesmo que isso destruísse tudo o que tinha construído.
E pela primeira vez na minha vida, de 47 anos, não sabia se tinha feito a coisa certa ou se tinha cometido o maior erro da minha existência. Mas uma coisa sabia com certeza absoluta. Eu não conseguiria mais viver fingindo.