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EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE MARIA EDUARDA EM 1996

Em fevereiro de 1996, estava a trabalhar num enterro de uma menina de 8 anos, quando uma senhora avançou na direção do pai e começou a gritar. O homem não disse nada, apenas baixou a cabeça. E nos dias seguintes ao enterro, começaram a acontecer coisas perto daquele túmulo que nenhum de nós conseguia explicar.

Mas quando a ordem de esumação chegou, eu finalmente percebi porque aquela menina ainda não tinha encontrado a paz. O meu nome é Roberto Carlos Quirino, tenho 72 anos e esta é a a minha história em minutos. Eu tinha 42 anos em Fevereiro de 96 e já trabalhava no cemitério municipal de Londrina há 8 anos.

Quando cheguei de manhã àquela terça-feira, o sol já batia forte nas lápides. Eu cumprimentei o porteiro, peguei na minha ficha no balcão, como fazia todos os dias, e fui ver o que estava marcado para aquele dia. Era um enterro às 10 da manhã. Maria Eduarda Castilho, 8 anos de idade. Eu já tinha enterrado crianças antes, mas não é algo que nos habitua-se com o tempo, só que faz parte do trabalho e aprende a lidar com aquilo da forma que consegue.

E naquele momento fiz o que sempre fiz nestas horas. Dobrei o papel, coloquei-o no bolso das calças e fui cuidar do que precisava ser feito. A família ia chegar a horas marcada e o serviço tinha de estar pronto. A cova já estava aberta. Eu fui até lá, verifiquei a profundidade, arranjei as tábuas nas laterais para segurar o terra e organizei as cordas que iam ser utilizadas para descer o caixão.

Tudo dentro do padrão que já conhecia. O sol batia com força na nuca enquanto eu trabalhava e o cemitério estava sossegado, como de costume àquela hora. Parecia um dia normal. Faltava pouco para as 10 horas quando o carro da agência funerária entrou pelo portão principal. O veículo parou, a tampa traseira foi aberta e quatro homens desceram carregando o caixão.

Era pequeno, branco. E quando vi aquele caixão sendo trazido na direção da sepultura, alguma coisa dentro de mim mudou naquele instante. Não era a tristeza de sempre, era outra coisa, como se o ar naquele pedaço do cemitério tivesse ficado diferente de uma hora para a outra, sem motivo nenhum que eu pudesse ver.

Era uma pressão que não vinha de nenhum lugar visível, mas sentia com uma clareza estranha. Em 8 anos ali dentro, nunca tinha sentido nada assim. Olhei em redor, tentando encontrar alguma explicação para aquilo que estava sentindo. O vento não tinha mudado, o solva igual [música] e não tinha qualquer razão visível para aquele desconforto que me apanhou naquele pedaço do cemitério.

Era como se a terra ali em baixo estivesse diferente das outras, como se aquele lugar soubesse alguma coisa que eu ainda não sabia. As as pessoas foram chegando aos poucos e se posicionando-se em redor da cova. Eram poucas. Contei umas 15 pessoas, talvez um pouco mais. O padre chegou alguns minutos depois e a cerimónia começou.

Eu Fiquei parado no meu lugar, à espera que o momento certo para fechar a cova depois que tudo terminasse. Mas à medida que ele ia falando, aquela sensação que eu tinha tido quando o caixão chegou foi regressando com mais força do que antes. Ela não tinha ido embora em momento algum, só ficou quieta durante algum tempo.

E ali [música] ela voltou crescendo lentamente, como uma pressão que aumenta sem dar aviso. Algo naquele lugar não estava certo. já tinha vivido coisas difíceis no cemitério, enterrado gente jovem, tinha estado presente em despedidas com muita dor e muita revolta por parte dos família.

Mas o que eu sentia naquele momento era diferente de tudo o que já tinha conhecido até ali. Não era só a emoção natural de um enterro pesado. Era uma coisa que parecia vir daquele pedaço de terra, daquele ar parado em redor daquela sepultura. Tentei mexer-me, dar um passo atrás, afastar-me um pouco daquele lugar, mas os pés não foram.

E aconteceu uma coisa estranha. Foi exatamente nesse momento que a senhora avançou. Uma senhora de cabelos brancos que estava do lado esquerdo do grupo avançou subitamente em direção a um homem muito perto do caixão. Ela foi rápida e com uma determinação que assustou todo o mundo em redor e começou a gritar: “Foi você? Eu sei que foste tu.

Era uma acusação. Ela estava a apontar o dedo para aquele homem ali à frente de todo o mundo. Duas pessoas foram ter com ela e a seguraram pelos braços. Ela resistiu por alguns segundos, ainda com a voz alta, com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas que não paravam de cair. O homem não recuou, não respondeu, não levantou a cabeça em momento algum para olhar para ela, ficou apenas com o olhar fixo no chão, imóvel, em total silêncio.

E aquilo, o silêncio dele no meio de tudo aquilo foi a coisa que mais ficou gravada na minha memória. A cerimónia foi encerrada à pressa logo depois disso. O padre apressou as últimas orações, as pessoas foram dispersando em silêncio e em menos de 10 minutos eu Vi-me completamente sozinho naquele pedaço do cemitério.

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Só eu, a pá e aquela cova aberta à espera de ser fechada. Comecei a trabalhar como sempre fazia, lançando a terra com cuidado sobre o caixão, mas a cabeça não parava. Eu não conseguia tirar de dentro de mim o que tinha visto. O cemitério estava demasiado quieto naquela tarde, mais do que estava habituado em todos aqueles anos de trabalho.

E, ao fim do dia, quando passei pelo portão para ir embora, senti com uma clareza que não dava para ignorar que aquele lugar ainda não tinha voltado ao normal. No dia seguinte, cheguei ao cemitério, como sempre, no horário habitual. Tinha serviço para fazer noutra parte do cemitério e eu sabia que mais cedo ou mais tarde ia passar perto daquela sepultura.

Quando isso aconteceu, eu Parei sem querer. Os pés travaram sozinhos. Aquela sensação do dia anterior ainda estava ali, naquele pedaço de terra, como se o enterro tivesse acabado, mas alguma coisa tivesse ficado. Eu tentei não pensar mais nisso. Tinha trabalho pela frente e não adiantava estar a pensar em cima de uma sensação que nem conseguia explicar direito.

Mas ao longo daquele dia, cada vez que passava por aquela ala do cemitério, aquilo voltava, como se aquele lugar me estivesse a puxar a atenção sem que eu pedisse. Foi no final dessa mesma tarde que um colega meu veio falar comigo. Ele chegou até onde eu estava, olhou-me por um segundo e disse que tinha ouvido alguma coisa estranha vindo junto ao túmulo da menina que tinha sido enterrada no dia anterior, que parecia um choro.

Eu perguntei-lhe se tinha ido lá ver o que era. Ele disse que sim, que olhou em volta e não viu nada. Ele disse que não era som de vento, que ele conhecia aquele cemitério e que aquele som era diferente de tudo o que ele já tinha ouvido ali dentro. Dois dias depois, foi a vez de outro funcionário. Este trabalhava na manutenção, cuidava da limpeza dos corredores e da conservação das áreas entre os túmulos.

Ele veio ter comigo a meio da manhã com uma cara que não gostei de ver. disse que estava a trabalhar bem perto da campa de Maria Eduarda, quando sentiu uma forte dor de cabeça, de repente, sem motivo nenhum. Logo depois veio uma tontura que quase o deitou abaixo, mas o que ele disse depois foi o que me deixou sem resposta.

Antes da dor de cabeça e da tontura, tinha escutado alguma coisa, uma voz fraca, distante, mas claramente uma voz de criança. Ele disse que durou poucos segundos. e sumiu. E foi logo a seguir que o O corpo dele começou a reagir daquele jeito. Houve também uma senhora que fazia a limpeza dos túmulos daquela ala. Ela contou-me que estava a limpar um dos túmulos próximos quando avistou uma menina pequena de cabelos escuros a andar sozinha naquela área.

Ela disse que achou estranho. A menina andava lentamente com a cabeça um pouco baixa, como se estivesse perdida. Ela disse que chamou a menina duas vezes, mas a menina não respondeu. Então ela deixou o material no chão e foi na direção dela. E quando chegou onde estava a menina, não tinha mais ninguém. O corredor estava vazio e foi nessa mesma semana que me aconteceu.

Eu estava trabalhando numa área próxima do túmulo de Maria Eduarda, a cavar uma cova nova para um enterro marcado para o dia seguinte. Era perto do meio da tarde, o sol ainda estava alto e então ouvi. Primeiro foi o choro, fino, curto, vindo de perto, mas sem direção certa. Eu parei de escavar e fiquei a escutar. Depois do choro veio um sussurro baixo demais para eu perceber o que dizia, mas eu ouvi.

Era uma voz de menina, que eu tenho a certeza, que durou talvez uns três ou 4 segundos e foi desaparecendo até desaparecer completamente. Eu larguei o que estava a fazer e fui até à sepultura de Maria Eduarda e fiquei parado na frente dela. Eu fiquei a olhar para aquele lugar, tentando perceber o que estava ali a acontecer.

Foi aí que eu decidi. [pigarreia] Tinha que falar com o administrador. Eu não era uma pessoa de acreditar em qualquer coisa sem fundamento. Em 8 anos de cemitério, tinha visto muita gente supersticiosa, muita gente que ouvia o vento e achava que era outra coisa. Eu não era assim, mas o que me tinha acontecido naquela tarde era real.

No final do expediente, bati à porta da sala do administrador. Ele estava a terminar o trabalho do dia com papéis em cima da mesa e me olhou com aquela expressão de quem espera ouvir algum problema. Eu entrei, fechei a porta e sentei-me na cadeira da frente e fui contando tudo o que me tinha sentido no dia do enterro, o que o o meu colega tinha ouvido, o que o funcionário da manutenção tinha passado, aquilo que a senhora da limpeza tinha visto.

Contei por ordem. Ele ouviu-me do começo ao fim, sem me interromper uma única vez. não fez cara de deboche, não me ficou olhando como se eu tivesse a inventar história. Quando terminei, ele ficou quieto durante alguns segundos, [ressonando] olhando para a mesa. Então, [a música] fez-me disse que não ia descartar o que eu estava a falar e contou-me o motivo.

Um dos seguranças que fazia a ronda noturna já tinha relatado a mesma coisa dois dias antes. Tinha ouvido um choro vindo daquela ala durante a madrugada. Eu saí da sala do administrador, sabendo que aquilo não era coincidência, que aquilo não tinha chegado ao fim e estava crescendo. Fazia pouco mais de duas semanas desde o enterro, quando o oficial de justiça apareceu no cemitério. Era uma manhã de semana.

Eu estava a trabalhar numa área próxima da entrada quando vi o homem entrar pelo portão com uma pasta na mão. Do lado dele estava uma senhora. Eu olhei para uma vez, voltei a olhar e parei o que estava fazendo. Era ela, a mesma mulher de cabelos brancos do dia do enterro de Maria Eduarda.

Era a mesma mulher que tinha avançado na direcção do pai daquela menina no meio da cerimónia. Ali, naquele momento, compreendi o que ela era. Era avó de Maria Eduarda. Tinha que ser. O oficial foi direto até ao administração. Eu fiquei de longe observando, sem me aproximar. Minutos depois, o administrador chamou todos os para explicar o que estava a acontecer.

A ordem era de um delegado. Determinava que o corpo de Maria Eduarda Castilho fosse esumado e encaminhado para a perícia. não explicava o motivo por escrito, mas todos nós já conhecíamos o suficiente. Ninguém ali se tinha esquecido o que aconteceu no dia do funeral daquela menina de 8 anos. Eu fui escalado para fazer o procedimento.

O administrador chamou-me à parte e disse que ia ser nesse mesmo dia assim que os trâmites com o oficial fossem concluídos. Então fui buscar o equipamento e preparar-me. Já tinha feito esumações antes, sabia como o procedimento funcionava, mas enquanto eu separava as ferramentas, alguma coisa dentro de mim tornou-se diferente.

Não era o nervosismo do trabalho, era outra coisa que ainda não sabia nomear. Quando eu cheguei ao túmulo, a senhora já estava lá. Ela tinha pedido para acompanhar o procedimento e ninguém teve coragem de dizer não. Estávamos em 1996, num cemitério municipal do interior do Paraná. E aquela mulher tinha uma dor nos olhos que não se podia barrar com burocracia.

Ela ficou de pé a cerca de 2 m da cova, com as mãos juntas à frente do corpo, olhando para o túmulo onde a neta estava enterrada, quieta, devastada. Eu comecei a trabalhar com cuidado, tentando fazer tudo da forma certa, como sempre fazia. O silêncio ali era diferente do silêncio comum de cemitério.

Era carregado daquele tipo que se sente na pele antes de conseguir pensar nele. Eu trabalhava e ouvia apenas o barulho da pá cortando a terra e o respirar fundo daquela senhora parada a observar-me. Foi passados ​​alguns minutos que ela começou a falar devagar no início, como quem está a reunir forças para abrir a boca.

Ela disse acreditar que o marido da sua filha tinha morto Maria Eduarda, que ele sempre maltratou a menina dentro de casa, que a sua própria filha fingia não ver o que acontecia. Ela falava com a voz baixa e firme ao mesmo tempo, à maneira de quem já chorou demais e agora só restam palavras dentro do peito. Ela não parou de falar, foi contando o que sabia, o que tinha visto quando visitava a neta, o que a menina deixava por vezes escapar nas poucas vezes em que as duas ficavam a sós.

Ouvia tudo enquanto trabalhava, sem levantar a cabeça, sem dizer nada. E ouvi cada palavra daquela mulher enquanto a pai ia abrindo a terra. E cada palavra dela pesava mais do que a terra que eu estava a remover. Conforme a paia a descer, fui sentindo uma coisa que não sei descrever de outra forma. Era como se uma presença fosse chegando juntamente com as palavras da avó e com a terra que ia sendo removida.

Eu senti com uma clareza que aquela criança ainda estava ali, que ela não tinha ido, que estava à espera que alguém chegasse até ela. A voz da avó e aquela presença foram crescendo juntas ao longo da esumação. Ela falava e algo naquele lugar respondia de uma forma que eu não sei colocar em palavras exatas.

Eu nunca fui de misturar o trabalho com aquilo que eu sentia, mas naquele momento não conseguia separar as duas coisas de jeito nenhum. O que estava a fazer e o que estava a sentir no corpo estavam ligados por aquela terra e por aquela história que ela ia contando. O ar naquele pedaço do cemitério foi ficando diferente à medida que o caixão foi sendo exposto.

Era um peso que não vinha de fora, vinha de dentro daquele lugar, como se a terra lá em baixo estivesse a guardar uma coisa que não deveria estar guardada, como se aquele pedaço do cemitério soubesse que o que estava ali enterrado não estava em paz. Quando o caixão ficou totalmente exposto, eu parei.

Fiquei parado à beira da cova, olhando para a tampa. A voz estava do meu lado, a menos de 2 m. Eu não precisei dizer nada. Ela olhou para baixo, viu o caixão da neta ali à frente dela e os joelhos cederam. Ela ficou ajoelhada na terra do cemitério, de mãos abertas apoiadas sobre a madeira, sem conseguir falar.

E foi nesse preciso momento, quando as mãos dela tocaram naquela madeira, que senti aquela presença mudar. O peso que tinha chegado lentamente durante todo o procedimento foi-se embora de uma vez, como se alguma coisa que estava à espera de aquele momento tivesse finalmente encontrado o que necessitava. O ar ficou diferente, o silêncio tornou-se diferente.

Fiquei parado sem entender. Eu terminei o procedimento, selei o caixão e reencaminhei-o conforme a ordem determinava. A avó não disse mais nada depois de se levantou. só olhou uma última vez para o buraco aberto na terra e foi-se embora com passos lentos. Eu fiquei ali sozinho, olhando paraa cova vazia e pela primeira vez, desde o dia do funeral de Maria Eduarda, aquele pedaço do cemitério estava quieto de verdade.

Eu fui-me embora nesse dia, sem conseguir tirar da cabeça o que a avó tinha dito e o que tinha sentido no cemitério. Quando cheguei a casa, sentei-me na cadeira da cozinha e fiquei a olhar para o nada por um tempo. A minha esposa perguntou o que tinha acontecido, mas não soube responder. Semanas depois, o corpo de Maria Eduarda voltou ao cemitério.

Um segundo enterro foi feito. Eu não fui escalado para aquele serviço. Fiquei sabendo pelo administrador no final do dia. Nos dias que se seguiram, fui percebendo que alguma coisa tinha mudado naquela ala do cemitério. O colega que tinha ouvido o choro fino não relatou mais nada. A senhora da limpeza não viu mais nenhuma menina a andar sozinha por ali.

O funcionário da manutenção voltou a trabalhar naquela área sem qualquer incómodo. E eu próprio, quando passava perto daquela sepultura, já não sentia o peso que me tinha acompanhado desde o dia do primeiro funeral. Estava diferente, estava quieto. O silêncio que existia naquela ala desde o dia do enterro de fevereiro era um silêncio cheio, pesado.

O tipo que aperta o peito sem que perceba porquê. O que senti agora era outro. Era um silêncio vazio no bom sentido da palavra. Como quando um barulho que nem se notava que estava lá de repente desaparece e o local fica mais leve. Eu passei por ali uma tarde e reparei nisso e fui embora sem dizer nada para ninguém.

Meses depois, estava passando perto daquela sepultura durante o expediente. E quando cheguei perto, eu parei. Estava ali uma pessoa, uma senhora de costas para mim, ajoelhada à frente do túmulo, com um pano na mão, limpando a lápide com cuidado. Eu reconhecia-a mesmo antes dela virar. Era a avó da Maria Eduarda.

Ela sentiu a minha presença e virou-se devagar. Olhou-me por um segundo sem dizer nada. E vi que o olhar dela estava diferente. Não era mais aquele olhar de dor que eu tinha visto no dia da exumação. Ele continuava carregado, isso sim. Uma mulher que perdeu uma neta daquela maneira não vai ter um olhar leve nunca mais. Mas havia algo diferente, uma calma que não estava antes, como se ela tivesse encontrado um lugar para guardar aquilo.

Eu fiquei parado a olhar para ela e um pensamento veio-me com uma clareza que eu não esperava. E eu disse-lhe: “A Maria A Eduarda estava agora em paz. Não sei de onde veio essa certeza. Não foi algo que decidi pensar. chegou como uma coisa que sabe sem ter aprendido. Talvez fosse o silêncio daquele lugar que tinha mudado. Talvez fosse o olhar da avó.

Talvez fossem as duas coisas juntas. Mas pensei isso e senti que era verdade. Aquela criança tinha finalmente encontrado descanso. A senhora se levantou-se lentamente, limpou as mãos no pano e foi na minha direção. Eu não me mexi. Ela chegou perto, olhou-me nos olhos por um instante e depois abraçou-me.

Foi o abraço de uma pessoa que carregou uma coisa pesada durante muito tempo e que naquele momento precisava de alguém para segurar junto. E ela começou a chorar, um choro quieto, fundo, do tipo que vem de muito longe dentro de nós. Quando ela conseguiu falar, contou-me o que tinha acontecido.

O marido da sua filha tinha sido preso. A perícia tinha confirmado o que ela sempre soube. Ele tinha sido o responsável pela morte de Maria Eduarda. [música] Ela disse que com a voz ainda entrecortada, sem me olhar, com o rosto voltado para o túmulo da neta. Não era alívio o que ela sentia. Eu Percebi isso claramente. Era uma confirmação dolorosa a diferença entre suspeitar de algo horrível e ter a prova de que era verdade.

Ela disse que não entendia como é que uma coisa destas podia acontecer a uma criança de 8 anos. Como é que alguém podia fazer aquilo dentro da própria casa? Como é que a sua filha podia ter ficado quieta enquanto aquilo acontecia? Ela falou sem raiva no tom de voz. Era uma pergunta real, daquelas que a gente faz quando já não tem energia para ser zangado e só quer compreender.

Eu não tinha resposta. Ninguém tem. Mas eu Fiquei ali a escutar enquanto ela precisou de falar. Ela disse que a dor ainda era demasiado grande, que provavelmente ia ser sempre assim, que há coisas que a justiça resolve numa parte e não resolve em nada noutra. O homem tinha sido preso, mas a menina não ia voltar e a sua filha ainda lá estava do outro lado de tudo aquilo.

E aquela relação tinha um rombo que ela não sabia se algum dia se ia fechar. A gente ficou ali por alguns minutos. Ela olhava para o túmulo e eu ficava ao lado, sem pressa, sem ter de estar em outro lugar naquele momento. O trabalho podia esperar. Há alturas que a gente entende isso sem ter de pensar. Ela foi se acalmando aos poucos.

A respiração foi ficando mais normal. Ela dobrou o pano que tinha na mão, guardou-o no bolso e ficou de pé, olhando para a lápide por mais um tempo. Eu não disse nada. Ela também não precisou de dizer. Depois desse dia, enquanto eu trabalhava naquele cemitério, todas as sextas-feiras eu acendia uma vela em frente da sepultura de Maria Eduarda.

Era uma coisa simples, uma vela pequena, daquelas vulgares que eu comprava perto de casa. Eu chegava antes do expediente começar, acendia a vela, ficava parado uns minutos em frente daquela lápide e pedia, da maneira que eu Sei pedir, que a alma daquela menina estivesse em paz, que ela estivesse em algum lugar bom, longe de tudo o que ela tinha vivido.

Eu nunca contei a ninguém sobre aquelas velas. Não era algo que precisava de explicar. Era entre mim e aquele lugar, entre mim e aquela história que eu tinha acompanhado de um lado que ninguém escolhe, mas que por vezes cabe ao coveiro de um cemitério municipal do interior segurar. Eu fiz isto durante anos, todas as sextas-feiras, até o dia em que me reformei.

E no dia em que saí daquele cemitério pela última vez, acendi mais uma vela por despedida. Hoje tenho 72 anos e nunca tinha contado esta história fora do cemitério. Não porque duvidasse do que vivi, mas porque há coisas que a gente guarda por respeito, não por medo. A história de Maria Eduarda Castilho merecia ser lembrada da forma certa, com o peso que ela tem.

Espero que quem ouviu entenda. Não sei o que existe depois da morte. Não sei dizer com certeza o que era aquilo que eu e os outros sentimos naquele cemitério naquelas semanas. Mas eu sei o que eu senti quando a avó dela tocou naquele caixão e o local ficou quieto. E isso é suficiente para mim. Eu acredito que Maria Eduarda Castilho encontrou o descanso que ela merecia.

E eu acredito que nenhuma alma inocente fica sem resposta para sempre. Se também acredita nisso, escreve aqui em baixo: “Acredito que Deus proteja a sua família e a de todos os que estão assistindo. Que o fim de semana de vós seja cheio de paz, de saúde e de coisas boas. E até ao próximo relato.