Alcolumbre some, bolsonarismo murcha e Nunes Marques enterra narrativa contra as urnas em posse que virou banho de realidade
Brasília viveu uma daquelas semanas em que a política parece correr em duas velocidades ao mesmo tempo: de um lado, a tentativa desesperada de transformar um gesto protocolar em vitória simbólica; de outro, a realidade batendo à porta com força suficiente para desmontar discursos, apagar euforia nas redes e deixar aliados poderosos em silêncio absoluto. A posse de Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, que alguns bolsonaristas tentaram vender como uma espécie de reviravolta favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro, acabou produzindo exatamente o efeito contrário. O ministro assumiu o comando da Corte defendendo as urnas eletrônicas, a segurança do processo eleitoral e a integridade das eleições, justamente no ponto mais sensível da narrativa que a extrema direita insiste em manter viva desde a derrota de 2022.

O primeiro movimento da semana foi a tentativa de inflar o convite feito a Bolsonaro para a cerimônia. A notícia circulou como se fosse uma ousadia política de Nunes Marques, quase um aceno direto ao bolsonarismo. Mas a informação, quando colocada em seu devido lugar, perde o brilho artificial: o convite fazia parte do protocolo. Todos os ex-presidentes vivos foram chamados, incluindo Jair Bolsonaro e Fernando Collor, ambos em prisão domiciliar. O comparecimento, no entanto, dependeria de autorização judicial, e Bolsonaro nem sequer pediu autorização ao STF para ir à posse.
Mesmo assim, o bolsonarismo tentou transformar o gesto obrigatório em combustível para a militância digital. Parlamentares, influenciadores e perfis alinhados ao ex-presidente passaram a tratar o convite como se fosse uma espécie de sinal secreto de que o TSE mudaria de rumo. A base, sempre alimentada por símbolos, começou a reagir como se a nomeação de Nunes Marques representasse uma revanche contra Alexandre de Moraes e contra a Justiça Eleitoral. Só que a fantasia durou pouco. Bastou o novo presidente do TSE abrir a boca e defender as urnas para o castelo de cartas começar a cair.
A fala de Nunes Marques foi um golpe direto no coração da narrativa bolsonarista. Durante anos, aliados de Bolsonaro repetiram suspeitas, ataques e insinuações contra o sistema eletrônico de votação. Quando não diziam abertamente que houve fraude, sugeriam que o processo teria sido desequilibrado, manipulado ou conduzido de forma parcial. Essa retórica alimentou desconfiança, radicalizou a base e serviu como justificativa política para manter vivo o ressentimento eleitoral. Mas o novo presidente do TSE, indicado por Bolsonaro ao STF, não abraçou esse discurso. Ao contrário: apresentou as urnas como patrimônio institucional e sinalizou defesa do sistema que a extrema direita tanto tentou desmoralizar.
Foi aí que a euforia virou constrangimento. O mesmo ministro que setores bolsonaristas tentavam apresentar como esperança passou a defender publicamente o mecanismo que eles atacam. A posse que deveria ser explorada como vitória virou uma vitrine incômoda. O bolsonarismo queria um símbolo de enfrentamento; recebeu uma mensagem de estabilidade institucional. Queria um presidente do TSE disposto a abrir guerra contra o passado recente da Corte; encontrou um magistrado com perfil mais discreto, apaziguador e cauteloso, mas não disposto a dinamitar a credibilidade do processo eleitoral no momento em que o país se aproxima de uma eleição presidencial.
Essa diferença é fundamental. Nunes Marques pode ter estilo diferente de Alexandre de Moraes. Pode preferir menos espetáculo, menos exposição e menos confronto público. Mas uma coisa é mudar o tom; outra, completamente diferente, é entregar a Justiça Eleitoral à lógica das redes bolsonaristas. O erro da extrema direita foi confundir temperamento institucional com alinhamento automático. Confundiu discrição com submissão. Confundiu protocolo com apoio político. E, mais uma vez, criou uma expectativa que não se sustentou diante dos fatos.
Enquanto isso, outra frente de tensão explodia nos bastidores de Brasília: o sumiço político de Davi Alcolumbre. O presidente do Senado passou a ser observado com lupa depois da operação da Polícia Federal que atingiu Ciro Nogueira no contexto da Operação Compliance Zero, ligada às investigações sobre o Banco Master. Segundo a imprensa, Alcolumbre foi avisado pelo diretor-geral da PF sobre a operação contra Ciro. A partir daí, seu silêncio e a ausência em eventos passaram a alimentar especulações sobre o tamanho do desgaste político nos bastidores.
O nome de Alcolumbre também apareceu no noticiário relacionado à delação de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master. Reportagens indicaram que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, teria ficado insatisfeito com os termos da colaboração e cobrado mais esclarecimentos sobre relações políticas envolvendo Vorcaro, incluindo pontos ligados ao presidente do Senado. A Folha informou que Mendonça não homologaria a delação nos termos apresentados, por considerar que ela estaria omissa em relação a agentes políticos.
É nesse ponto que a temperatura política sobe. Alcolumbre não é um personagem periférico. Ele comanda o Senado, tem influência sobre pautas estratégicas, dialoga com o governo Lula, com o centrão e com setores conservadores. Quando um nome desse porte entra no radar de reportagens sobre delação, operação policial e articulação de bastidor, Brasília entende o recado: algo se move debaixo da superfície. Não significa condenação, não significa culpa, não significa prisão iminente. Mas significa desgaste, pressão e risco político real.
A ausência de Alcolumbre em eventos, portanto, ganhou leitura política. Em Brasília, silêncio raramente é apenas silêncio. Às vezes é cálculo. Às vezes é proteção. Às vezes é tentativa de evitar microfones, câmeras e perguntas inconvenientes. O problema é que, quanto mais um líder poderoso desaparece em meio a uma crise, mais o desaparecimento vira notícia. A imagem que fica é a de um presidente do Senado acuado por uma tempestade que ainda não revelou todos os seus trovões.

No centro dessa tempestade está a disputa pelo controle das narrativas. O bolsonarismo, percebendo derrotas sucessivas no campo jurídico e político, tenta deslocar o debate público para temas laterais. Foi assim com a polêmica dos produtos da marca Ypê, após a Anvisa determinar a suspensão da fabricação e o recolhimento de determinados lotes por risco de contaminação microbiológica. O caso era sanitário, técnico e grave. Mas, nas redes, virou munição política, meme, provocação e cortina de fumaça.
Essa estratégia não é nova. Quando um assunto ameaça atingir o núcleo político da extrema direita, surge outro tema barulhento, emocional, de fácil compartilhamento e alto potencial de confusão. O objetivo não é esclarecer. É ocupar. É fazer o público discutir detergente enquanto delações, operações, articulações no Congresso e derrotas judiciais avançam nos bastidores. A cortina de fumaça funciona porque entrega indignação rápida, piada pronta e guerra cultural instantânea. Mas também revela medo: quem controla a pauta tenta esconder aquilo que não consegue explicar.
A semana, portanto, expôs três movimentos simultâneos. Primeiro, a tentativa fracassada de transformar um convite protocolar a Bolsonaro em sinal de força política. Segundo, a posse de Nunes Marques como presidente do TSE com defesa clara das urnas, frustrando a ala que esperava uma guinada radical. Terceiro, o silêncio incômodo de Alcolumbre em meio ao avanço de reportagens sobre operação da PF, Banco Master, Ciro Nogueira e as cobranças de André Mendonça em torno da delação de Vorcaro.
O resultado é uma sensação de cerco político. Não necessariamente um cerco formal, judicial ou definitivo, mas um cerco narrativo. O bolsonarismo tenta comemorar e é interrompido pela realidade. Tenta vender vitória e recebe discurso em defesa das urnas. Tenta desviar o foco e vê novas reportagens reacendendo suspeitas sobre seus aliados. Tenta transformar aliados institucionais em soldados da causa, mas descobre que nem todos estão dispostos a carregar o peso de uma guerra sem fim contra o sistema eleitoral.
Nunes Marques, nesse cenário, ocupa uma posição delicada. Por ter sido indicado por Bolsonaro, será observado pela direita com expectativa e pela esquerda com desconfiança. Por comandar o TSE em ano eleitoral, terá cada decisão analisada como sinal político. Mas sua posse mostrou que ele sabe o tamanho da cadeira que ocupa. A presidência do Tribunal Superior Eleitoral não é palanque de rede social. É uma função de Estado. E, nesse papel, a defesa das urnas não é favor a um lado: é proteção mínima da democracia eleitoral.
Já Alcolumbre enfrenta outro tipo de teste. Seu poder sempre esteve ligado à capacidade de articulação silenciosa, de costurar acordos, controlar agendas e negociar interesses. Mas quando o silêncio deixa de ser instrumento e passa a ser interpretado como fuga, o cálculo muda. A política brasileira perdoa muita coisa, mas raramente perdoa a imagem de fragilidade. E, no momento, a imagem que se espalha é a de um líder tentando reduzir exposição enquanto o noticiário se aproxima de seu entorno.
A grande ironia é que a semana começou com bolsonaristas tentando criar um clima de vitória. O convite a Bolsonaro foi tratado como símbolo. A posse de Nunes Marques foi vendida como virada. A militância digital tentou inflar a ideia de que uma nova fase começava no TSE. Mas a sequência dos fatos empurrou a narrativa para outro lugar. O convite era protocolo. Bolsonaro não foi. Nunes Marques defendeu as urnas. Alcolumbre sumiu do palco. A PF avançou sobre aliados. A delação de Vorcaro continuou produzindo tensão.
No fim, o que parecia ofensiva virou defensiva. A extrema direita passou a semana reagindo, explicando, desviando, ironizando e tentando transformar crise em espetáculo. Mas há momentos em que o espetáculo não basta. Quando a Justiça Eleitoral reafirma a confiança nas urnas, quando investigações batem à porta de figuras poderosas e quando líderes desaparecem da cena pública, o barulho das redes perde força diante do peso das instituições.
Brasília entendeu o recado. A eleição se aproxima, o TSE estará sob vigilância máxima, o bolsonarismo continuará tentando incendiar sua base, e os personagens do centrão seguirão calculando cada passo. Mas a semana deixou uma imagem difícil de apagar: enquanto uns tentavam transformar protocolo em vitória, a realidade entrou pela porta principal, tomou o microfone e desmontou a encenação.