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É Assim a PRISÃO Que o Coronel Está: CASO GISELE

É Assim a Prisão que o Coronel Está Cumprindo: Entre Mordomias e Segredos do Romão Gomes

 

Quando o tenente coronel Geraldo Leite Rosa Neto entrou no presídio militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, não foi recebido como um detento comum. Abraços, tapinhas nas costas e saudações cordiais de colegas policiais marcaram sua chegada. Diferente do que a maioria imagina sobre o sistema prisional brasileiro – superlotação, violência e facções dominando corredores – o Romão Gomes apresenta uma realidade completamente distinta: um ambiente organizado, limpo, com academia, jardins, hortas e até produção de mel.

 

O coronel, acusado de feminicídio – a morte de sua própria esposa –, encontrou um espaço que mais se assemelha a um “hotel cinco estrelas” do que a uma penitenciária. Mas como funciona esse presídio que abriga apenas policiais militares? Qual é a rotina do coronel? E por que ele está sendo tratado de maneira tão diferenciada? A resposta passa por uma história que mistura tradição, disciplina militar e uma estrutura pensada para preservar a integridade dos detentos que, em outra circunstância, estariam em risco de vida.

 

Um Presídio Com Mais de 70 Anos de História

Tenente-coronel diz em interrogatório que não dormia no mesmo quarto da  esposa desde julho e cita tentativa de reconciliação na véspera da morte |  G1

O presídio militar Romão Gomes existe desde 1949. Inicialmente, eram dois galpões que serviam como depósito de ração para cavalos do Centro de Instrução Militar. Com o tempo, a unidade cresceu, recebeu melhorias e, em dezembro de 1975, ganhou oficialmente o nome do coronel Romão Gomes, militar que participou da Revolução Constitucionalista de 1932, formou-se em Direito pelo Largo São Francisco e tornou-se o primeiro oficial da Polícia Militar a assumir uma cadeira no Tribunal de Justiça Militar de São Paulo.

Hoje, o Romão Gomes abriga policiais que quebraram a lei que juraram proteger. Localizado dentro da própria área da corporação, próximo ao hospital da Polícia Militar, sua fachada externa não revela nada de extraordinário. Quem passa pela Avenida de Fora vê apenas o que parece um quartel comum. Só ao acessar os corredores internos, notar os uniformes amarelos dos detentos e a disciplina rígida do local é que se percebe o verdadeiro propósito do presídio.

 

Separação Necessária: Proteção e Disciplina

 

No Brasil, policiais militares presos não podem ser misturados à população carcerária comum. A decisão não é privilégio, mas medida de proteção. Em presídios dominados por facções criminosas, a sobrevivência de um policial seria extremamente vulnerável. No Romão Gomes, além da proteção, há a exigência de disciplina rigorosa. Direitos básicos são assegurados – tratamento digno, direito ao trabalho, educação – mas todos os internos seguem regras claras.

 

Ao chegar, o coronel não perde imediatamente sua patente, mas deixa de exercer autoridade hierárquica, tornando-se apenas mais um interno em processo de avaliação. A progressão na unidade ocorre em três estágios: primeiro, o detento permanece em cela coletiva por até seis meses, com duas horas de circulação e banho de sol diário; no segundo, o alojamento se abre, permitindo acesso a áreas comuns como refeitório e jardins; no terceiro, o interno trabalha, estudando ou participando de atividades produtivas, consolidando sua reintegração e diminuindo a pena.

 

Vida Dentro do Romão Gomes

 

O contraste com presídios comuns é evidente. Não há superlotação, conflitos de facções ou guerras por território. O ambiente é limpo, com proporção elevada de agentes de segurança. Todos os detentos usam uniforme: camiseta amarela com a sigla PMRG, calça bege, bota preta e crachá de identificação.

Além da disciplina, há oportunidades produtivas. Internos cultivam hortas livres de agrotóxicos, com verduras vendidas à vizinhança; cuidam de galinhas, coelhos, porcos e abelhas; produzem mel e ovos; e participam de panificadora e serralheria. Há também empresas de componentes elétricos para automóveis dentro dos muros, oferecendo salário mínimo e parte destinada à família do preso para o futuro. Um exemplo é Alfredo, condenado por homicídio, que cumpre pena com trabalho e produção de mel, gerando cerca de 8 kg por semana.

 

A educação é incentivada: quem frequenta a escola reduz dias de pena; quem lê livros, também. Tudo isso dentro de um sistema de progressão que permite diminuir penas longas de forma significativa, desde que o comportamento seja exemplar.

 

Casos Icônicos: Da Tradição à Controvérsia

 

O presídio já abrigou casos emblemáticos da Polícia Militar Paulista. Misael Bispo de Souza, condenado a 22 anos e 8 meses por assassinato da ex-namorada e ex-sócia de escritório, cumpriu apenas 11 anos graças à progressão, trabalho e educação. O cabo Bruno, chefe de um esquadrão da morte, passou quase três décadas no Romão Gomes. Hoje, Geraldo Leite Rosa Neto se junta a essa lista de detentos que, apesar da gravidade dos crimes, encontram no presídio militar condições muito acima do que a população carcerária comum experimenta.

O coronel, em relatos à imprensa, mencionou o choque emocional com a morte da esposa, o acompanhamento das investigações e a experiência de entrar no presídio. Ele enfatizou que todas as armas foram recolhidas e que seu acesso é limitado ao essencial para saúde e disciplina.

 

A Rotina do Coronel

 

No Romão Gomes, a rotina é estruturada e intensa. Exercícios físicos, trabalho produtivo, educação formal e cursos práticos fazem parte do dia a dia. Cada três dias de trabalho abatem um dia de pena; participação escolar e leitura de livros também geram remissão de pena. O ambiente exige responsabilidade e disciplina, mantendo um equilíbrio entre direitos, deveres e segurança.

Apesar das regalias comparadas a presídios comuns, a unidade mantém rigor. Desrespeito às regras, como portar celular, resulta em procedimentos administrativos. As atividades festivas são limitadas para garantir disciplina e segurança.

 

Comparação com Presídios Comuns

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Mesmo em algumas penitenciárias comuns, há registros de regalias. Em Porto Alegre, por exemplo, detentos organizaram churrascos com familiares durante datas comemorativas. Apesar da diferença de contexto, essas situações reforçam a discussão sobre desigualdade no tratamento de detentos.

No Romão Gomes, contudo, a diferença vai além: trata-se de preservação da vida e reintegração social de policiais, mantendo a ordem e a disciplina militar.

 

Quanto Tempo o Coronel Pode Ficar Preso?

 

A duração da pena depende do julgamento e dos recursos. O feminicídio, crime cometido pelo coronel, possui pena base de 12 a 30 anos. No sistema do Romão Gomes, a progressão, o trabalho, a educação e a leitura podem reduzir significativamente o tempo de prisão. Casos anteriores demonstram que penas longas podem ser encurtadas com comportamento exemplar e aproveitamento das oportunidades oferecidas.

Enquanto isso, dependendo da situação administrativa, o coronel pode continuar recebendo parte dos vencimentos e manter a patente até que uma condenação definitiva determine o contrário.

 

Reflexão Final

 

O caso do tenente coronel Geraldo Leite Rosa Neto e sua experiência no Romão Gomes provocam debates sobre justiça, privilégios e segurança. De um lado, há a necessidade de proteger policiais militares em situação de risco; de outro, a comparação com a realidade do sistema prisional comum gera indignação. O contraste entre regalias e disciplina, trabalho e educação, segurança e punição, revela uma faceta pouco conhecida da justiça militar no Brasil.

No fim das contas, o Romão Gomes funciona como um reflexo das complexidades do sistema judicial e penitenciário brasileiro: proteção, disciplina e oportunidades coexistem com crimes graves e controvérsias, formando uma narrativa chocante, instigante e, acima de tudo, humana.