Flávio Bolsonaro tenta reagir, mas escândalo do Banco Master vira pesadelo político diante das câmeras
A crise envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, o Banco Master e o filme Dark Horse deixou de ser apenas uma denúncia incômoda. Virou um terremoto político com potencial de atingir diretamente a pré-campanha presidencial do senador. A cada nova fala, áudio, viagem suspeita ou pedido de investigação, cresce a sensação de que a direita perdeu o controle da narrativa.
O ponto mais explosivo agora é o pedido de apreensão de passaportes e bloqueio de bens envolvendo Flávio Bolsonaro e outros nomes ligados ao bolsonarismo. Parlamentares acionaram órgãos de investigação alegando risco de fuga, especialmente após a notícia de que Flávio planejava viajar aos Estados Unidos em meio à pressão sobre sua relação com Vorcaro. A Revista Fórum noticiou a representação, enquanto a Reuters informou que Flávio tentava articular uma ida a Washington durante a crise de sua campanha.

O senador nega irregularidades. Sua versão é que a relação com Vorcaro se limitava a um contrato privado para financiar o filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Mas essa explicação sofreu novo desgaste quando vieram à tona relatos de que Flávio se reuniu com Vorcaro após a prisão e soltura do banqueiro com tornozeleira eletrônica. A Reuters confirmou que Flávio admitiu o encontro, dizendo que teria ido encerrar tratativas comerciais.
A oposição, porém, enxerga outra coisa: intimidade política, possível blindagem e uma tentativa de transformar financiamento privado em rota de influência eleitoral. A AP noticiou que mensagens de voz publicadas pelo Intercept indicariam pedido de R$ 61 milhões para o filme e novas cobranças de recursos, enquanto Flávio sustenta que tudo foi privado e sem contrapartida.
O problema é que, politicamente, a defesa não fecha com a imagem construída pela própria família Bolsonaro. Durante anos, o bolsonarismo atacou artistas, leis de incentivo e financiamento cultural. Agora, aparece no centro de uma disputa envolvendo milhões destinados a um filme sobre o ex-presidente, financiado por um banqueiro investigado em um escândalo bilionário.
A crise também atingiu Mário Frias, deputado federal e produtor executivo de Dark Horse. O ministro Flávio Dino, do STF, deu 48 horas para a Câmara explicar a viagem internacional de Frias, que estava fora do país enquanto a Justiça tentava notificá-lo sobre emendas ligadas ao projeto. UOL, Veja e Agência Brasil registraram o despacho e a cobrança de explicações.

No Congresso, o clima é de guerra. Governistas cobram CPI ou CPMI para investigar o Banco Master, enquanto bolsonaristas tentam ampliar o foco para incluir nomes da esquerda. A estratégia é clara: transformar um caso que hoje pressiona Flávio em uma disputa generalizada, diluindo responsabilidades no velho discurso de que todos precisam ser investigados.
Mas a pressão sobre Flávio cresceu porque há contradições difíceis de explicar. Primeiro, ele minimizou ou negou vínculos. Depois, admitiu encontro. Primeiro, disse tratar-se apenas de dinheiro privado. Depois, surgiram questionamentos sobre emendas, produtora, articulações políticas e o uso eleitoral do filme. Primeiro, falou em transparência. Depois, foi cobrado ao vivo e evitou responder diretamente sobre frases atribuídas a conversas com Vorcaro.
A pré-candidatura sentiu o golpe. Segundo pesquisa Datafolha citada pela Reuters, Lula abriu vantagem sobre Flávio em um cenário de segundo turno após o avanço do escândalo Banco Master. A mudança no ambiente eleitoral mostrou que o caso não ficou restrito aos corredores de Brasília: ele chegou ao eleitorado.
O que antes era vendido como o grande projeto de reconstrução da imagem bolsonarista virou um cavalo de Troia. Dark Horse, pensado para emocionar apoiadores e relançar Jair Bolsonaro como mártir político, passou a ser citado como peça central de uma investigação sobre dinheiro, influência e campanha.
A cena política é simbólica: Flávio Bolsonaro tenta posar de vítima, mas é cercado por perguntas. A direita tenta cobrar CPI, mas precisa explicar por que só abraçou o tema com força depois que o caso chegou ao próprio núcleo bolsonarista. O discurso de moralidade, tão repetido em palanques, agora enfrenta o teste mais difícil: explicar relações financeiras com um banqueiro preso.
A pergunta que fica é devastadora: se tudo era regular, por que tanta fuga de respostas? E se era apenas um filme, por que virou um dos maiores incêndios políticos do ano?