Mulher teria mandado matar o próprio marido e esqueceu detalhe que mudou tudo: as câmeras estavam gravando
O que começou como uma suposta invasão terminou como uma das histórias mais chocantes do interior da Bahia. Uma mulher chorando, dois filhos pequenos dentro de casa, um marido morto e uma versão apresentada à polícia que, em poucas horas, começou a desmoronar diante de imagens consideradas devastadoras pela investigação.
O caso aconteceu em Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, e teve como vítima José Vicente de Cerqueira Sena, de 40 anos. Conhecido por trabalhar com venda de carros reformados e por manter uma loja de confecções com a esposa, ele levava, para muitos vizinhos e familiares, a imagem de um homem esforçado, presente na vida dos filhos e dedicado à família. Mas, por trás daquela rotina aparentemente comum, existia um casamento cercado por conflitos, suspeitas, acusações e uma tensão que terminaria em tragédia.

A principal suspeita é a própria esposa da vítima, Angélica da Silva Goldin, de 30 anos. Segundo a investigação, ela teria contratado pistoleiros para matar o marido dentro da própria casa. O detalhe que mudou completamente o rumo do caso foi que as câmeras de segurança continuaram funcionando e registraram cenas que, para os investigadores, desmontaram a primeira versão apresentada por ela.
De acordo com o material analisado, Angélica teria dito ao marido que sairia para comprar pão. Enquanto ela retirava o carro da garagem, um homem desceu de um veículo branco, com o rosto coberto por uma camiseta vermelha, e entrou na residência. As imagens mostram a mulher abrindo caminho para o criminoso e o conduzindo até a área onde José Vicente estava tomando banho.
A vítima foi surpreendida dentro do banheiro. O atirador abriu a porta e disparou várias vezes. Mesmo ferido e em pânico, José Vicente conseguiu sair correndo, usando apenas uma toalha, numa tentativa desesperada de escapar. Ele correu pela rua, tentou se salvar, mas havia outro homem do lado de fora, dentro do carro, aguardando a ação. A perseguição continuou até um terreno próximo à casa, onde a vítima acabou perdendo a vida.
A frieza da cena causou comoção. Para a polícia, as imagens indicam que o crime não foi uma invasão aleatória, nem um assalto que saiu do controle, como Angélica teria dito inicialmente. Segundo familiares, depois da morte do marido, ela ligou chorando, dizendo que não sabia o que seria de sua vida, afirmando que amava José Vicente e que estava arrasada. A família, ainda sem saber das suspeitas, chegou a acreditar que ela também era vítima daquela violência.
Horas depois, veio o choque.
A mulher que parecia destruída pela morte do marido passou a ser apontada como peça central do crime.
Segundo a investigação, Angélica teria tentado cortar os fios das câmeras de segurança para apagar qualquer registro da ação. O plano, porém, falhou. Os equipamentos teriam bateria interna e continuaram gravando. As imagens foram preservadas em alta definição, revelando detalhes importantes da entrada do criminoso, da movimentação dentro da casa e da condução até o local onde José Vicente estava.
A acusação sustenta que o crime teria sido motivado por dinheiro, vaidade e uma crise financeira dentro do casamento. Um dos pontos centrais seria uma caminhonete Hilux herdada por Angélica após a morte do pai. José Vicente teria negociado a venda do veículo e recebido um adiantamento de R$ 30 mil. O problema é que, segundo o relato apresentado no caso, o dinheiro teria sido gasto antes que a venda pudesse ser concluída legalmente.
A caminhonete estaria bloqueada judicialmente por fazer parte de uma partilha familiar. Quando o comprador tentou transferir o veículo, descobriu o impedimento. O dinheiro, porém, já não estaria mais disponível. A partir daí, as cobranças e discussões dentro da casa teriam aumentado.
Familiares da vítima afirmam que Angélica gostava de manter uma vida de aparência nas redes sociais, frequentando restaurantes, festas, viagens e lugares que transmitissem uma imagem de sucesso. Fotos, legendas motivacionais e uma rotina aparentemente perfeita faziam parte da imagem exibida ao público. Mas, dentro de casa, a pressão financeira teria se transformado em conflito constante.
A investigação também aponta uma suposta contratação de matadores de aluguel. Angélica teria procurado uma mulher conhecida como Micaele, com quem teria mantido contato desde uma época em que ambas se encontravam em visitas a presídios. Segundo a acusação, essa mulher teria feito a ponte entre Angélica e os executores.
O valor combinado pela morte de José Vicente teria sido de R$ 18 mil, pagos em parcelas. Um dos elementos mais fortes apontados pela investigação é uma transferência via Pix de R$ 3 mil feita dois dias antes do crime para Wesley Santos da Paixão Pereira, identificado como um dos executores. Para os investigadores, essa movimentação financeira ajuda a sustentar a tese de premeditação.
Mas a defesa de Angélica apresenta outra versão.
Em interrogatório, ela afirmou que vivia um relacionamento marcado por agressões físicas, verbais e ameaças constantes. Segundo sua versão, José Vicente não seria o homem tranquilo que muitos viam de fora. Ela disse que era ameaçada de morte, que o marido mantinha arma em casa e que chegou a apontá-la contra ela em várias ocasiões.
Angélica também alegou que o marido já havia sido preso por assalto à mão armada e que, após deixar a cadeia, teria se tornado ainda mais agressivo. Ela afirmou que não procurava a polícia por medo de retaliação, dizendo acreditar que, se registrasse ocorrência, ele voltaria para casa e poderia fazer algo ainda pior.

A defesa tenta construir a imagem de uma mulher acuada, vivendo sob medo e sem saída. No entanto, segundo o próprio conteúdo relatado no caso, não haveria registros policiais anteriores que comprovassem formalmente as agressões. Para a acusação, essa narrativa pode ser uma tentativa de justificar ou amenizar a gravidade do que aconteceu.
Outro ponto contestado é a suposta desistência do crime. Angélica afirmou que, na noite anterior, teria ligado para os pistoleiros tentando cancelar tudo. Segundo ela, os homens teriam recusado a desistência, dizendo que não fariam viagem perdida. Ainda conforme sua versão, eles teriam ameaçado invadir a casa e matar todos, caso ela não cooperasse.
A investigação, porém, não encontrou elementos que confirmem essa coação. Nas imagens, segundo os investigadores, Angélica aparece abrindo o portão e conduzindo o criminoso até o banheiro sem sinais visíveis de estar sendo forçada. Essa é uma das partes mais delicadas do caso: enquanto a defesa fala em medo e ameaça, a acusação fala em participação consciente e planejamento frio.
O mais doloroso é que os filhos pequenos do casal estavam dentro da casa no momento dos tiros. As crianças, de apenas 3 e 4 anos, estavam a poucos metros do banheiro onde o pai foi atacado. Segundo familiares, elas ouviram os disparos e ficaram profundamente abaladas. Um dos meninos teria descrito o barulho como se fossem bombas.
Para a família de José Vicente, esse detalhe torna tudo ainda mais cruel. A avó paterna relatou que as crianças perguntavam pelo pai, e ela tentava responder de forma a protegê-las da dor. Para os parentes, o crime não tirou apenas a vida de José Vicente; destruiu a infância dos filhos e deixou marcas que dificilmente desaparecerão.
Após a morte, Angélica teria acionado a polícia chorando. A primeira versão apresentada foi a de que criminosos tinham invadido a casa, feito ela e os filhos reféns e assassinado o marido durante um assalto. Mas, com a recuperação das imagens e a análise dos detalhes da cena, a história começou a mudar.
Familiares que viajaram para o velório chegaram acreditando que Angélica era uma viúva desesperada. Uma irmã da vítima contou que, ao saber que ela estava detida, chegou a pedir que colocassem um advogado para ajudá-la. Só depois veio a informação de que a esposa era suspeita de ter encomendado a morte.
O sentimento de traição foi devastador. A família dizia considerar Angélica como parte de sua própria casa, alguém acolhida e tratada como filha. Descobrir que ela poderia estar por trás da morte de José Vicente tornou o luto ainda mais pesado.
Os executores foram presos dias depois e teriam confessado participação. Micaele também foi detida, embora negue envolvimento consciente no crime. Ela afirma que apenas teria repassado dinheiro, sem saber exatamente do que se tratava. Já Angélica teve a prisão convertida em preventiva e, conforme o material apresentado, segue respondendo ao processo.
O caso ainda carrega uma pergunta que deve pesar no tribunal: as câmeras mostram o suficiente para definir toda a verdade?
Para a acusação, as imagens são claras. Mostram uma mulher que abriu o portão, permitiu a entrada do criminoso, indicou onde o marido estava e depois tentou sustentar uma versão falsa de assalto. Para a defesa, há uma história anterior que as câmeras não registraram: anos de suposta violência doméstica, medo, ameaças e uma tentativa frustrada de desistir do plano.
Essa será a disputa central diante do júri.
De um lado, a tese de um crime encomendado, planejado com antecedência, ligado a dinheiro, conflitos conjugais e aparência social. Do outro, a versão de uma mulher que afirma ter vivido sob terror dentro da própria casa e que teria sido pressionada por criminosos a seguir com algo do qual já teria se arrependido.
Mas uma coisa é incontestável: José Vicente entrou no banheiro vivo, dentro de sua própria casa, e saiu dali correndo pela vida. Em poucos minutos, uma família inteira foi destruída.
As câmeras não gravaram o passado do casal, nem as conversas que aconteciam longe dos olhos de todos. Mas gravaram o momento decisivo. E foi justamente esse detalhe, que alguém tentou apagar, que transformou uma suposta invasão em uma acusação chocante contra a própria esposa da vítima.
Agora, cabe à Justiça decidir se Angélica foi uma mulher coagida pelo medo ou se foi a mentora fria de um crime brutal. Enquanto isso, os filhos crescem sem o pai, a família busca respostas e uma cidade inteira ainda tenta entender como uma casa comum se transformou no cenário de uma tragédia tão perturbadora.