O embate dos extremos: Pollon usa “escudo humano” no Conselho de Ética e recebe resposta avassaladora de Maria do Rosário

O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados foi palco, nesta semana, de um dos confrontos mais dramáticos e ideológicos da atual legislatura. De um lado, o deputado Marcos Pollon (PL-MS) apostou em um discurso carregado de sentimentalismo e vitimização para tentar reverter um processo disciplinar. De outro, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) desferiu uma crítica técnica e histórica, acusando a oposição de usar crianças como escudo para esconder atos autoritários.
A sessão, que deveria analisar a conduta de parlamentares envolvidos na polêmica ocupação da mesa diretora e na obstrução física de sessões, transformou-se em um julgamento sobre o próprio decoro parlamentar e a herança do 8 de janeiro. Entre pedidos de desculpas a filhas de presos e citações a ditadores militares, o clima no plenário mostrou que a ferida da polarização brasileira está longe de cicatrizar.
A estratégia da lágrima: Pollon e a formatura que não terá o pai
Marcos Pollon iniciou sua defesa com um tom fúnebre. Em vez de focar nos argumentos regimentais sobre a invasão da mesa diretora, o deputado decidiu personificar o sofrimento das famílias dos condenados pelos atos antidemocráticos. Ele citou nominalmente Luía, filha de um dos detidos, afirmando que o constrangimento de cinco minutos sofrido pelo presidente da Casa, Hugo Motta, não se comparava à dor de uma jovem que não terá o pai em sua formatura ou casamento.
O parlamentar chegou a pedir desculpas públicas à menina, afirmando ter feito pouco pelas famílias que, segundo ele, estão nas masmorras do Supremo Tribunal Federal ou exiladas. Pollon tentou emplacar a narrativa de que a oposição é perseguida justamente por sua promessa de restaurar o Brasil caso chegue ao Senado, finalizando com um grito de anistia já. Para observadores políticos, a manobra foi uma tentativa clara de comover a opinião pública e transformar um erro administrativo e disciplinar em uma causa humanitária de perseguição política.
A reação de Maria do Rosário: Solidariedade às vítimas de verdade
A resposta de Maria do Rosário não demorou e veio com a força de quem conhece os trâmites dos Direitos Humanos na Casa. A deputada abriu sua fala desconstruindo a narrativa de Pollon, afirmando que as verdadeiras vítimas são aquelas que estão sendo utilizadas como escudo em discursos falsos. Rosário, autora da lei que tipificou o estupro de vulneráveis, criticou duramente o fato de homens adultos e grandes colocarem crianças na frente para se esconderem de responsabilidades judiciais.
É lamentável que homens adultos, hoje sendo julgados, não consigam sequer ouvir quando as mulheres falam a verdade, disparou a deputada. Ela apontou que a tentativa de impor o silêncio através da força física e do grito é um reflexo de uma mentalidade que não respeita as instituições. Para Rosário, o uso da imagem de órfãos de pais vivos para justificar ataques à democracia é uma das táticas mais abjetas da política nacional contemporânea.
O peso da história: 200 anos de Câmara e 18 fechamentos

Contextualizando o debate, Maria do Rosário relembrou que a Câmara dos Deputados completa 200 anos de existência, mas que, nesse período, a Casa foi fechada 18 vezes por atos autoritários. Ela citou o General Geisel e o Pacote de Abril de 1977, quando 173 deputados foram cassados e impedidos de exercer seus mandatos pela ditadura militar.
A comparação foi direta: os atos de Pollon, Van Hattem e Zé Trovão ao ocuparem a mesa diretora e impedirem fisicamente o presidente Hugo Motta de sentar-se em sua cadeira não foram instrumentos regimentais de obstrução, mas sim o uso da força bruta. A deputada enfatizou que a oposição política deve ser preservada, mas que a obstrução física é uma atitude autoritária que se filia à mesma posição dos torturadores e ditadores do passado.
Relator generoso e medida pedagógica: Os dois meses de suspensão
O relatório apresentado pelo deputado Mozes, que sugere dois meses de suspensão para os envolvidos, foi classificado por Maria do Rosário como generoso e tímido. Para ela, a gravidade de tentar impedir o terceiro homem na linha sucessória da Presidência da República de exercer suas funções justificaria a perda de mandato, conforme prevê o Código de Ética e o Artigo 55 da Constituição Federal.
Rosário argumentou que os parlamentares não estão sendo julgados por suas opiniões, mas por atos concretos de desrespeito à instituição. Ela reforçou que impedir o Congresso Nacional de trabalhar é um crime contra o Estado Democrático de Direito e que os parlamentares deveriam pedir desculpas não às filhas dos presos, mas a todos os brasileiros que foram enganados e levados a atacar as sedes dos Três Poderes sob falsas premissas.
O veredito das urnas e a condenação pelos próprios atos
Ao concluir sua fala, Maria do Rosário afirmou que não são os deputados da base governista que estão condenando a oposição, mas sim os próprios atos e discursos dos réus. Ela utilizou o termo réus propositalmente para marcar a responsabilidade jurídica e ética dos envolvidos. Segundo ela, as contradições nos depoimentos e os impropérios lançados contra a presidência da Câmara comprovam a falta de decoro.
A deputada previu que, embora a punição no Conselho de Ética possa ser vista como leve, o verdadeiro julgamento virá nas urnas. Para Rosário, figuras que idolatram torturadores como Brilhante Ustra e atacam a dignidade da representação parlamentar são seres abjetos que não merecem respeito por não serem marcados pela palavra empenhada.
O desfecho desta sessão no Conselho de Ética deixa uma mensagem clara: a tentativa de vitimização da ala bolsonarista encontrou uma barreira de fatos históricos e regimentais. Enquanto Pollon tentava transformar o plenário em um teatro de emoções, Maria do Rosário lembrou que a democracia exige o cumprimento das regras do jogo, e que a força física nunca poderá substituir o debate de ideias em uma Casa que carrega dois séculos de história legislativa.