O Silêncio Rompido Pela Justiça: O Eco de Duas Vidas de 14 Anos Ceifadas no Tribunal do Crime em Manaus e a Captura do Executor
AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE UMA INOCÊNCIA ROUBADA
“Eu pago essa grana, eu vou fazer os corre, velho. Eu vou fazer os corre. Eu não roubei essa grana.” Essas foram as últimas e desesperadas palavras pronunciadas por uma adolescente de apenas 14 anos, momentos antes de sua voz ser definitivamente calada pelo som brutal de disparos de arma de fogo. O cenário de terror ocorreu na madrugada do dia 6 de fevereiro de 2020, na cidade de Manaus, capital do Amazonas. Sigrid Libório Santana e sua amiga, Taísa Caroline da Silva Azevedo, ambas com a mesma idade cronológica e uma vida inteira pela frente, tornaram-se os rostos de uma tragédia que chocou o Brasil pela crueldade desmedida e pela frieza com que foi executada e registrada.
Mais do que um episódio isolado de violência urbana, o assassinato das duas jovens expôs as engrenagens impiedosas de um chamado “tribunal do crime”, promovido por facções criminosas que disputam o controle territorial e social das periferias. A dor da perda e a busca por respostas transformaram os dias que se seguiram em uma dolorosa jornada para as famílias, enquanto as imagens das execuções circulavam de forma clandestina nas redes sociais, gerando uma onda de comoção nacional e questionamentos profundos sobre a segurança e a proteção da juventude em áreas vulneráveis.

CONTEXTUALIZAÇÃO: A NOITE DO DESAPARECIMENTO E OS SINAIS DE ALERTA
As horas que antecederam o crime foram marcadas pela angústia e pelo pressentimento do perigo. Na madrugada daquela quinta-feira, 6 de fevereiro, Sigrid e Taísa estavam reunidas na residência de uma delas, localizada no bairro Colônia Oliveira Machado (também referenciado em investigações como Colônia Antônio Aleixo), situado na zona sul de Manaus. Sigrid havia procurado a amiga com um propósito específico e urgente: buscar abrigo. A jovem vinha sofrendo ameaças de morte explícitas por parte de indivíduos ligados a uma organização criminosa que operava na região.
Antes do desaparecimento, Taísa chegou a relatar a situação de perigo à mãe de sua amiga, explicitando que ambas estavam na mira dos criminosos. Contudo, por volta das 3 horas da manhã, o refúgio doméstico foi violado. Homens não identificados abordaram as adolescentes em frente à residência. Diante da investida dos criminosos, Sigrid tentou correr em uma tentativa desesperada de salvar a própria vida, mas foi contida de forma violenta. Ela foi puxada pelos cabelos, teve suas vestes superiores arrancadas do corpo e acabou sendo subjugada junto com Taísa. Ao tentar escapar do cerco, a segunda jovem foi atingida por um disparo na perna. Ambas foram sequestradas e levadas à força dali, desaparecendo na escuridão da madrugada.
DESENVOLVIMENTO: O TRIBUNAL DO CRIME E O REVELAR DA BRUTALIDADE
O destino final das adolescentes foi uma residência abandonada, local utilizado pelos algozes para a realização de um julgamento paralelo instituído pelo crime organizado. De acordo com as investigações policiais subsequentes, as duas jovens foram submetidas a sessões de tortura física e psicológica antes de receberem a sentença de morte. A motivação por trás do duplo homicídio, segundo a linha de investigação adotada pelas autoridades, estava ligada à suspeita de que as vítimas possuíam vínculos com uma facção rival à dos executores. O pretexto para a barbárie teria sido vídeos publicados nas redes sociais nos quais as adolescentes faziam gestos associados ao Comando Vermelho (CV).
A crueldade do ato atingiu o ápice quando os criminosos decidiram registrar as execuções em vídeo. As imagens que posteriormente vazaram e circularam amplamente na internet mostravam o sofrimento das meninas em seus momentos finais. Uma fotografia em particular, tirada instantes antes dos assassinatos, trazia a frase “Olhando a morte assusta”, sintetizando o pavor estampado nos rostos de Sigrid e Taísa. O corpo de Sigrid foi o primeiro a ser localizado, na tarde da mesma quinta-feira, boiando às margens de um igarapé no bairro Educandos, também na zona sul da cidade. O exame pericial constatou que ela apresentava aproximadamente sete perfurações por disparos de arma de fogo, inclusive na região da testa, evidenciando a execução à queima-roupa. Mesmo após a queda da jovem ao solo, os executores continuaram a atirar contra o seu rosto.
Cerca de seis horas mais tarde, já durante o período da noite, o corpo de Taísa Caroline foi encontrado por tripulantes de uma embarcação, boiando no mesmo perímetro do rio Igarapé. A jovem foi alvejada com cinco tiros no total, sendo um disparo na região da nuca e quatro na área do peito, além do ferimento prévio na perna. A identificação formal do corpo foi realizada por sua mãe, cujo olhar de profunda tristeza e desolação no Instituto Médico Legal (IML) marcou as autoridades presentes, simbolizando a dor incurável de uma família destruída.
A INVESTIGAÇÃO E AS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇA CRIMINOSO
A Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) assumiu a responsabilidade de identificar e capturar os envolvidos no duplo homicídio qualificado. Rapidamente, as investigações apontaram para a atuação de integrantes da facção Família do Norte (FDN), que disputava o domínio daquela região de Manaus. Entre os primeiros suspeitos identificados e detidos pelas forças de segurança estavam Thiago Oliveira Nunes, de 22 anos, conhecido pela alcunha de “Feijão”, e José de Souza, apelidado de “Necão”.
Outro indivíduo, identificado apenas como João, que já cumpria pena em regime monitorado por tornozeleira eletrônica devido ao crime de porte ilegal de arma de fogo, foi detido em sua residência no bairro Educandos. Na ocasião, a defesa apresentada por sua companheira apontava que ele havia se refugiado no imóvel logo após a ampla divulgação das imagens da execução nas redes sociais, temendo represálias ou a ação da polícia por ter sua imagem associada ao crime. Contudo, o principal mentor e executor apontado pelas investigações foi Ericson de Lira Reis, conhecido no submundo do crime pelo apelido de “Chico Lio”, um indivíduo com extenso histórico criminal, incluindo condenações anteriores por comércio de entorpecentes e investigações por furto qualificado.
CONSTRUÇÃO DE TENSÃO NARRATIVA: O JULGAMENTO E A CAÇADA AO FORAGIDO
Quatro anos de apurações minuciosas, colheita de depoimentos e análises de provas técnicas se passaram até que o caso finalmente chegasse ao banco dos réus. No dia 26 de novembro de 2024, o Tribunal do Júri se reuniu para julgar os atos de Ericson de Lira Reis. O Promotor de Justiça, Flávio Mota Morais Silveira, conduziu a acusação sustentando a presença de qualificadoras de extrema gravidade: motivo torpe, emprego de tortura e utilização de recurso que dificultou e impossibilitou a defesa das duas vítimas de 14 anos.
Apesar da gravidade das acusações e do andamento do processo, Ericson de Lira Reis gozava do benefício da liberdade provisória e optou por não comparecer à sessão de seu próprio julgamento, tornando-se oficialmente um foragido da Justiça no momento em que o veredito era lido. O conselho de sentença acatou integralmente a tese da promotoria, condenando “Chico Lio” a uma pena de 17 anos de reclusão por cada uma das execuções, resultando em um total de 34 anos de prisão em regime inicialmente fechado. A decisão, no entanto, não aplacou o desejo de total justiça por parte do Ministério Público, que anunciou a intenção de recorrer da sentença visando ao aumento da pena privativa de liberdade, sob o argumento de que o montante estipulado não considerou adequadamente todas as peculiaridades e a extrema atrocidade do caso, em especial o fato de as vítimas serem menores de idade.
A fuga do condenado iniciou uma nova corrida contra o tempo para as autoridades policiais do Amazonas. Durante semanas, o paradeiro de Ericson permaneceu incerto, alimentando o sentimento de impunidade. A caçada humana chegou ao fim no dia 10 de janeiro de 2025, quando uma operação da Polícia Civil do Amazonas localizou e capturou o criminoso em uma via pública na zona sul de Manaus, reconduzindo-o ao sistema penitenciário para o cumprimento da sanção imposta pelo Poder Judiciário.
CONCLUSÃO: O LEGADO DE DOR E A REFLEXÃO NECESSÁRIA
O encerramento do ciclo judicial e a prisão do executor trazem um alento legal, mas estão longe de apagar as marcas deixadas na sociedade e na memória dos familiares. Durante as cerimônias fúnebres de Sigrid Libório, realizadas no bairro Colônia Oliveira Machado, a mãe da jovem, Eliana Libório, de 36 anos, manifestou publicamente sua dor e negou de forma veemente qualquer envolvimento de sua filha com organizações criminosas, reiterando a inocência da adolescente que teve a vida interrompida precocemente.
O duplo homicídio de Sigrid e Taísa insere-se em um panorama alarmante e persistente de violência que atinge crianças e adolescentes na capital amazonense e em diversas outras regiões periféricas do Brasil. A disputa sangrenta entre facções rivais cria zonas de risco constante, onde jovens em situação de vulnerabilidade social tornam-se alvos fáceis de demonstrações de poder e crueldade. Diante deste cenário de perdas irreparáveis, fica o questionamento para governantes, instituições de segurança e toda a sociedade civil: quais mecanismos de proteção social e inteligência policial precisam ser efetivamente implementados para evitar que novos tribunais paralelos continuem decidindo sobre a vida e a morte de nossos jovens nas periferias do país?