O Cérebro das Cifras: Como o Irmão de Marcola Estruturou o Sistema Financeiro que Move Bilhões no Crime Organizado
A recente prisão da advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra chocou o país e dominou as manchetes dos principais portais de notícias. No entanto, por trás dos holofotes e do glamour das redes sociais que cercaram o caso, as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público trouxeram à tona um nome que opera nas sombras do crime organizado há décadas. Embora a figura de Marco Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, seja amplamente conhecida pela opinião pública como a liderança máxima do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi o nome de seu irmão mais novo que fez as autoridades e os analistas de segurança prestarem atenção redobrada: Alejandro Juvenal Herbas Camacho, conhecido no submundo como “Marcolinha” ou, intimamente por seu irmão, como “Júnior”.
Investigações apontam que Alejandro é um dos membros mais importantes no complexo sistema de lavagem de dinheiro da organização. O comércio internacional de substâncias ilícitas, por mais lucrativo que pareça, só se torna viável e sustentável se houver uma engenharia capaz de introduzir esses recursos na economia legal. É exatamente nesse ponto que a figura de Marcolinha se torna crucial. Ele é apontado pelas autoridades como o grande cérebro financeiro que possibilitou a expansão e a profissionalização da facção, transformando uma estrutura que antes operava de forma rudimentar em uma potência econômica.

O Elo com o Caso Recente e as Empresas de Fachada
O desdobramento das investigações que se cruzaram com o caso de Deolane Bezerra aponta para uma sofisticada rede de ocultação de bens. De acordo com a Polícia Civil, os filhos de Marcolinha — e sobrinhos de Marcola — atuavam diretamente como operadores desse sistema. O ponto de partida para essa ramificação foi uma empresa transportadora localizada em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
As autoridades identificaram que a transportadora seria utilizada para lavar o dinheiro proveniente das atividades ilícitas do Primeiro Comando da Capital. O detalhe que mais impressiona os investigadores é que o controle dessa empresa de logística era exercido de dentro do próprio sistema prisional. O dono de fato da operação seria Alejandro, demonstrando que o isolamento severo das penitenciárias de segurança máxima ainda enfrenta o desafio de conter a influência de lideranças históricas na gestão de seus negócios financeiros.
Dupla de Irmãos: A Formação do Núcleo Duro
Para compreender o papel de Alejandro na organização, é necessário voltar às origens e analisar a relação simbiótica com seu irmão mais velho. Alejandro nasceu em Osasco, em 1972, enquanto Marcola nasceu em 1968. Filhos de pai boliviano e mãe brasileira, os irmãos perderam a mãe muito cedo e tiveram pouco contato com o pai, crescendo na capital paulista. Diante da ausência parental, Marcola assumiu uma postura protetora e uma figura quase paterna em relação a Alejandro, guiando seus passos desde o início e ao longo de toda a caminhada no mundo do crime.
Nos anos 1980, ambos se destacaram em uma modalidade que, na época, era considerada o alto escalão da criminalidade: o assalto a bancos. Essa atividade exigia planejamento, frieza e gerava grandes somas de dinheiro de uma só vez. A cumplicidade entre os dois era tamanha que, em episódios em que Marcola conseguiu fugir do sistema prisional, as autoridades o localizaram escondido justamente ao lado do irmão mais novo.
Segundo o Ministério Público, Marcola confia em pouquíssimas pessoas devido à paranoia e às disputas internas pelo poder. Historicamente, seu círculo de confiança máxima restringia-se a Julinho Carambola (Júlio César Guedes) e ao seu irmão Alejandro, o Júnior. Juntos, esses homens atravessaram todas as fases de consolidação da facção, suportando as dificuldades internas e estruturando a organização para o nível em que se encontra atualmente. A fidelidade de Alejandro a Marcola é descrita como inabalável; ele chegou a ser denunciado por articular um plano milionário para tentar resgatar o irmão mais velho do presídio de Presidente Bernardes antes da transferência para o sistema federal.
A Evolução da Lavagem de Dinheiro: Dos R$ 500 Mil aos Bilhões
O papel de Alejandro como peça-chave na engenharia financeira começou a ser desenhado de forma clara há mais de duas décadas. Denúncias antigas do Ministério Público, cobrindo o período entre 2001 e 2006, revelam que Marcolinha utilizava identidades falsas para abrir contas bancárias e movimentar os recursos gerados pelas atividades da facção. Naquela época, os documentos apontavam a movimentação de aproximadamente R$ 500 mil ao longo daqueles anos.
Para os padrões atuais da organização, que movimenta bilhões de reais e opera com conexões globais, R$ 500 mil pode parecer uma quantia irrisória. Contudo, no início dos anos 2000, a facção ainda se financiava de forma rudimentar, dependendo essencialmente de sorteios, rifas e do pagamento de mensalidades por parte de seus integrantes. Portanto, meio milhão de reais representava uma fortuna para a estrutura de então.
Embora aquela denúncia específica sobre a movimentação de contas não tenha sido aceita pela Justiça na ocasião — gerando inclusive contestações públicas entre o Ministério Público e veículos de imprensa sobre a eficácia das investigações —, os elementos e os mecanismos ali descobertos serviram de base para desmantelar e processar diversos outros integrantes. Mais do que isso, aquela estrutura rudimentar baseada em CPFs falsos e laranjas continha o DNA da sistemática de lavagem de dinheiro que a facção viria a expandir em escala industrial nos anos seguintes.
Perfil Oculto: A Calma e a “Palavra Só”
Diferente do estereótipo comum de criminosos expansivos ou violentos no trato diário, Alejandro é descrito por quem já o investigou ou o escoltou como um homem que dificilmente levanta a voz. Seguindo a escola de comportamento de seu irmão mais velho, ele adota o perfil do “bandido de palavra só”: pensa muito antes de falar, mantém a calmaria sob pressão e expressa suas decisões uma única vez.
Esse comportamento reflete-se na sua postura diante das forças de segurança. No jargão policial e prisional, Alejandro é reconhecido como um detento que “sabe quando perdeu”. Quando a polícia o cerca com provas concretas, ele não oferece resistência física nem cria tumultos; entrega-se e deixa o embate técnico para os seus advogados de defesa.
Essa postura pragmática resultou em episódios peculiares ao longo de seu histórico de prisões. Em abril de 2006, quando Alejandro tinha 34 anos, ele foi capturado por policiais civis do Denarc (Departamento de Narcóticos) ao deixar uma loja de materiais de construção no Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo. Na ocasião, ciente de sua posição e dos riscos que corria, ele fez um pedido direto aos policiais: que não fosse “escrachado”, ou seja, que não fosse apresentado de forma vexatória à imprensa, uma prática comum da época. O pedido foi acatado.
Durante o período em que permaneceu na sede do departamento, o tratamento dispensado a ele foi marcado por uma cordialidade estrita. Alejandro permaneceu em uma sala de investigadores equipada com televisão a cabo ligada e com acesso a refrigerantes e pizzas. Relatos de jornais da época citam a declaração de um dos policiais envolvidos na captura, que resume o pragmatismo das autoridades ao lidar com lideranças desse escalão: “Você vai se declarar inimigo de um cara desses? Não tem jeito. Eu tenho família. Por isso, nunca vou jogar para cima dele coisas que ele não fez”.
Conexões Internacionais e a Grande Fuga do Carandiru
Além da gestão interna das finanças, investigações conduzidas pelo falecido delegado Rui Ferraz Fontes — que acompanhou os passos da facção por décadas e chefiou o Denarc — apontaram que Marcolinha foi o elo fundamental entre a organização paulista e fornecedores de substâncias ilícitas de outros países, notadamente da Colômbia e da Bolívia. Ele também mantinha uma relação de proximidade e diálogo com Luiz Fernando da Costa, o “Fernandinho Beiramar”, principal liderança de uma das maiores facções do Rio de Janeiro. Essas conexões internacionais foram fundamentais para que a facção paulista deixasse de ser um grupo estritamente carcerário e se transformasse em uma holding do tráfico internacional.
A história de Alejandro também está registrada em um dos episódios mais emblemáticos do sistema prisional paulista: a megáfuga do Complexo do Carandiru, ocorrida no fim de novembro de 2001. O dinheiro arrecadado por ele e outros 14 detentos que cumpriam pena na extinta Penitenciária do Estado financiou a escavação de um túnel que ia de fora para dentro do presídio. Naquela ocasião, 108 detentos conseguiram escapar, incluindo Alejandro. Anos mais tarde, ao relembrar o episódio com humor para os policiais, ele mencionou que o túnel era tão estreito que, devido à falta de ar e ao seu porte físico na época, chegou a desmaiar e precisou ser puxado por um companheiro para não ficar preso no buraco.
O Cotidiano no Isolamento e o Estudo das Leis
Atualmente, Alejandro e Marcola encontram-se detidos na Penitenciária Federal de Brasília. Apesar de estarem no mesmo complexo, os dois irmãos não se veem e não têm contato físico ou visual. O Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) e a arquitetura das unidades federais os mantêm em alas completamente isoladas, uma medida adotada justamente para desarticular a cadeia de comando das organizações.
Para enfrentar o tempo ocioso e buscar a remissão de sua pena, Marcolinha tem se dedicado intensamente a atividades intelectuais e cursos de capacitação dentro do presídio. Informações de registros penais indicam que ele concluiu qualificações em áreas diversas como inglês, espanhol, informática (Windows e Office) e até formação de vendedor e educação ambiental.
No entanto, o que mais chama a atenção das autoridades é o seu foco em disciplinas técnicas. Alejandro realizou cursos de matemática financeira — ferramenta diretamente ligada à gestão de ativos — e mergulhou no estudo do Direito Penal e Processual Penal. Ele focou seus estudos principalmente em módulos que tratam de crimes contra o patrimônio, contra a fé pública, contra a paz pública e contra a administração pública. Para os analistas do Ministério Público, esse interesse não é mera distração: representa o esforço de uma mente analítica em compreender detalhadamente as engrenagens legais do Estado para encontrar brechas e proteger o patrimônio bilionário acumulado pela organização que ele ajudou a financiar.
Diante do enriquecimento acentuado de Alejandro nos últimos anos, apontado por promotores como Lincoln Gakiya, o nome de Marcolinha permanece como uma das peças mais valiosas e vigiadas pelas agências de inteligência do país. A trajetória dos irmãos Herbas Camacho levanta um debate profundo sobre as dinâmicas do crime organizado: até que ponto o isolamento total em presídios federais é capaz de frear mentes focadas na gestão econômica de impérios invisíveis? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe este conteúdo para ampliar a discussão.