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FOI BATER DE FRENTE COM A CORE E ACABOU PARANDO NO CEMITÉRIO

A Ascensão e Queda de Ratomen: O Rastro de Sangue que Levou ao Fim da Linha no Bairro 13

No submundo do crime carioca, a fama costuma ser um convite para a brevidade da vida. Para Gabriel Gomes Faria, o “Ratomen”, a visibilidade não era apenas uma consequência, mas uma ferramenta de guerra. Líder influente do Comando Vermelho na Cidade de Deus, ele acreditava que o bairro 13 era uma fortaleza inexpugnável e que sua presença digital, ostentando o luxo de um “imperador do tráfico”, o tornava intocável. No entanto, o que começou como uma trajetória de ascensão meteórica nas fileiras da maior facção do Rio de Janeiro, terminou em um cerco tático silencioso, em uma noite de agosto que selou o destino de um dos homens mais procurados do estado.

A história de Ratomen não é apenas a narrativa de um criminoso comum; é o relato de como a audácia de desafiar as instituições de elite da segurança pública pode transformar um “gerente” em um alvo prioritário cuja captura — viva ou morta — torna-se uma questão de honra para o Estado.


Da Baixada ao Topo: A Construção de um “Puxador de Guerra”

Nascido em São Gonçalo, Gabriel Gomes Faria não encontrou seu “reinado” em sua terra natal. Foi na Cidade de Deus, especificamente no setor conhecido como Bairro 13, que ele moldou sua identidade criminal. No início, Gabriel era apenas mais uma peça na engrenagem complexa do tráfico de drogas local. Contudo, sua personalidade agressiva e sua disposição para a linha de frente nos confrontos armados chamaram a atenção da cúpula do Comando Vermelho.

Rapidamente, ele deixou de ser um soldado para se tornar o gerente da localidade. Sob seu comando, o Bairro 13 passou por uma transformação estratégica. Ratomen não se limitava a administrar a venda de entorpecentes; ele militarizou a região. Instalou barricadas pesadas, orquestrou turnos rigorosos de segurança e passou a exercer um controle ditatorial sobre a rotina dos moradores. Ali, o Estado era uma lembrança distante, e a palavra de Gabriel era a lei que regulava desde o comércio local até os serviços mais básicos, como a distribuição de internet e gás.

O Personagem Digital e a Ostentação do Poder

O que diferenciava Ratomen de outros gerentes era sua habilidade — e imprudência — com a tecnologia. Através do perfil “Ratomen CD D13”, ele construiu uma marca. Fotos com correntes de ouro maciço, motos de alta cilindrada e fuzis personalizados com adereços faziam parte de seu feed diário. Para ele, a imagem de poder era tão valiosa quanto o domínio territorial.

Essa exposição tinha um objetivo claro: recrutar jovens deslumbrados pela estética do crime e intimidar facções rivais. Ratomen chegou a postar vídeos realizando “rondas” pela comunidade, enviando recados diretos para as autoridades e debochando da justiça. Ele se tornou o que o crime chama de “puxador de guerra”, liderando invasões em territórios inimigos, como o Morro dos Macacos, na Zona Norte. Mal sabia ele que cada postagem, cada rádio transmissor exibido e cada malote de dinheiro filmado estava sendo minuciosamente catalogado pelo setor de inteligência da Polícia Civil.


O Erro Fatal: O Ataque à CORE e a Morte de um Agente

O ponto de inflexão na vida de Ratomen ocorreu em maio de 2025. Até então, ele era um alvo valioso, mas a prioridade mudou drasticamente após um evento sangrento. A Polícia Civil investigava um esquema inusitado e perigoso: a produção clandestina de gelo dentro da Cidade de Deus. Fábricas ilegais utilizavam água contaminada para abastecer quiosques na orla da Barra da Tijuca e do Recreio, e o grupo de Ratomen recebia “taxas” para garantir o monopólio e a segurança do negócio.

No dia 16 de maio, a Delegacia do Consumidor, com o apoio operacional da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), entrou na comunidade para cumprir mandados administrativos. O que deveria ser uma operação técnica transformou-se em uma zona de guerra. Encurralado em seus lucros, Ratomen organizou uma resistência feroz. Utilizando “ceteiras” — pequenas fendas estratégicas em muros de concreto —, os traficantes armaram uma emboscada.

No centro do tiroteio, ao lado de seus comparsas de confiança, Matuê e Mangabinha, Ratomen ordenou o fogo intenso. Foi nesse confronto que o inspetor José Antônio Lourenço Júnior, um experiente agente da CORE, foi atingido. Lourenço não resistiu aos ferimentos. Naquele momento, a sorte de Gabriel Gomes Faria estava lançada. Matar um policial da unidade de elite do Rio de Janeiro significava que a polícia não pararia até que os responsáveis pagassem o preço.


A Caçada Humana e o Monitoramento de Inteligência

A partir de 3 de junho de 2025, com um mandado de prisão temporária por homicídio expedido, Ratomen tornou-se um fantasma acuado. A polícia montou uma força-tarefa sem precedentes. O monitoramento digital foi intensificado, mas a verdadeira brecha veio de uma vulnerabilidade física: Ratomen havia sofrido um acidente de moto e carregava sequelas graves. As dores constantes e a dificuldade de locomoção limitavam seus esconderijos, forçando-o a permanecer em um perímetro restrito dentro do Bairro 13.

Os agentes da inteligência passaram a rastrear não apenas seus perfis, mas as conexões de pessoas próximas. A rede de apoio estava fechando. A cada movimento, a sombra da CORE estava mais próxima. A investigação descobriu que ele alternava entre três ou quatro residências específicas, contando com o medo dos moradores para se manter oculto.


O Confronto Final: O Silêncio Interrompido

A noite de 18 de agosto de 2025 foi a data escolhida para o desfecho. Com a confirmação de que Ratomen estaria em um imóvel específico, equipes da CORE e da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) avançaram. O planejamento foi cirúrgico: um cerco tático total para impedir que o criminoso utilizasse sua tática favorita de fuga pelos telhados.

Os policiais entraram na Cidade de Deus em silêncio absoluto. Sem sirenes, sem luzes. O objetivo era a surpresa. Ao perceber a invasão do imóvel, Gabriel, fiel ao seu histórico de violência, não considerou a rendição. Com uma pistola em punho, ele tentou confrontar os agentes no corredor estreito da casa. O tiroteio foi curto, mas letal. Atingido, o homem que se dizia dono do Bairro 13 caiu no mesmo território que tentou transformar em seu império particular. Ele foi socorrido, mas morreu ao dar entrada na unidade de saúde.

A saída das viaturas foi conturbada. Grupos de moradores, inflamados pela perda de uma figura que, embora violenta, exercia controle social, tentaram bloquear o caminho. Foi necessário o uso de bombas de efeito moral e disparos de advertência para que a perícia e os agentes pudessem deixar o local com as provas colhidas.


O Efeito Dominó: O Fim da Linha para Matuê e Mangabinha

A morte de Ratomen foi o início do fim para a estrutura de poder do Bairro 13. Com ele, a polícia apreendeu um telefone celular que continha o “mapa” da facção: listas de nomes, vídeos de bastidores e planos para novos ataques contra bases da Polícia Militar e comunidades rivais.

O conteúdo do aparelho selou o destino de seus aliados. Matuê, que também estava na linha de frente no dia da morte do policial Lourenço, foi localizado pouco tempo depois. Assim como seu líder, escolheu o confronto e acabou morto em combate. Restava Mangabinha, o apontado como autor do disparo fatal contra o agente da CORE.

Mangabinha tentou se esconder em outras favelas, mas o isolamento e a pressão policial o trouxeram de volta à Cidade de Deus em uma tentativa desesperada de retomar o controle das bocas de fumo deixadas por Ratomen. Em uma nova incursão da Polícia Civil, ele também reagiu à abordagem e foi neutralizado. Com sua morte, o ciclo de vingança e justiça pelo inspetor Lourenço foi encerrado.


Reflexão: A Efemeridade do Poder Paralelo

O caso de Gabriel “Ratomen” Gomes Faria serve como um lembrete sombrio sobre a realidade do crime organizado no Rio de Janeiro. A ostentação nas redes sociais e o domínio territorial oferecem uma ilusão de onipotência que raramente sobrevive ao peso da lei quando esta decide agir com força total.

A queda de Ratomen e de toda a sua gerência não apenas desarticulou uma célula violenta do Comando Vermelho, mas também devolveu, ainda que momentaneamente, uma sensação de resposta à sociedade e à instituição policial. Fica a pergunta: até quando o deslumbramento pelo poder efêmero do tráfico continuará seduzindo jovens a trocar uma vida inteira por alguns meses de fama digital e um fim trágico em um saco preto? O debate sobre a violência nas comunidades e a eficácia das operações policiais permanece vivo, mas para o Bairro 13, uma era de terror e ostentação chegou ao fim.