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NEYMAR ERA INFORMANTE DO DOCA DA PENHA, CAIU NO TRIBUNAL DO TCP NO AMARELINHO

O PREÇO DA TRAIÇÃO: Como a rota rotativa de alianças no crime do Rio levou Neymar do Amarelinho ao tribunal definitivo

A Queda de um “Chefinho” e a Desconfiança nas Linhas de Frente

O cenário do crime organizado no Rio de Janeiro é historicamente marcado por divisões territoriais bem definidas, mas, nos bastidores, uma dinâmica silenciosa e letal move as engrenagens das favelas: a troca constante de bandeiras. Recentemente, as redes sociais e os canais de monitoramento da segurança pública começaram a repercutir intensamente a execução de um homem conhecido no submundo como Neymar, ou “Chefinho”. Ele foi morto na comunidade do Amarelinho, localizada no bairro de Irajá, na Zona Norte da capital fluminense, uma região que atualmente se encontra sob o domínio da facção Terceiro Comando Puro (TCP).

Neymar ganhou notoriedade não pela liderança consolidada de um império, mas por sua extrema volatilidade de alianças. Ele era apontado como um dos homens que mais “pulou” de facção nos últimos tempos dentro do Rio de Janeiro. No jargão da criminalidade, mudar de lado tornou-se um recurso utilizado por criminosos que sentem que perderam espaço ou prestígio em suas áreas de origem, ou que divergem frontalmente da gestão imposta por seus antigos chefes. Contudo, essa dança das cadeiras geopolítica carrega consigo um risco de vida imediato, e para o “Chefinho”, o desfecho nas vielas de Irajá foi definitivo.

De Cria da Rocinha às Conexões na Maré e na Penha

A trajetória de Neymar no crime começou em solo historicamente disputado. Ele era cria da favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio. Embora os motivos exatos de sua saída daquela localidade permaneçam obscuros, informações de inteligência indicam que, mesmo distante, ele mantinha contatos estreitos com outros antigos moradores e comparsas da Rocinha que haviam se abrigado no Complexo da Maré, mais especificamente na Vila do João e na Vila dos Pinheiros — áreas onde se concentram remanescentes do chamado “Bonde do Nen”.

Vislumbrando uma nova oportunidade, Neymar migrou para o Complexo da Maré. Na ocasião, sua transição não foi pacífica: ele desertou levando consigo cargas de entorpecentes pertencentes à boca de fumo local e uma quantidade expressiva de dinheiro em espécie. No entanto, a permanência na Maré foi curta. De forma abrupta e surpreendente, o criminoso realizou um novo movimento e pulou para o Complexo da Penha, controlado pelo Comando Vermelho (CV). Para selar sua nova aliança com a “Tropa do Urso”, Neymar entregou uma pistola aos novos líderes.

A Passagem pelo TCP e a Exposição nas Redes Sociais

A aliança com o Comando Vermelho na Penha também não durou muito. Em um movimento que desafia a lógica de sobrevivência no crime organizado, Neymar abandonou a Penha e decidiu fechar com o Terceiro Comando Puro no Amarelinho, integrando a chamada “Tropa do Brian”. Demonstrando trânsito livre entre diferentes lideranças do TCP, ele passou a frequentar e atuar também na Cidade Alta, em Cordovil, e na Serrinha, em Madureira. Em uma das evidências que circulavam nos bastidores, o “Chefinho” chegou a ser fotografado ao lado de “Cocão da Serrinha”, considerado um dos braços mais importantes da gestão de “La Costa” na Zona Norte.

Diferente de criminosos que optam pelo anonimato para se proteger, Neymar exibia uma postura de ostentação e forte presença digital. Ele utilizava ativamente as redes sociais para postar fotos demonstrando poder e fazendo símbolos com as mãos que faziam alusão direta à facção do Terceiro Comando Puro. Essa superexposição, somada ao seu histórico de constantes trocas de lado, criou o cenário perfeito para uma crise de desconfiança generalizada entre as lideranças que o abrigavam.

Os Ataques do CV e o Tribunal do Crime no Amarelinho

O ponto de virada na história de Neymar ocorreu com a intensificação dos conflitos territoriais na Zona Norte. A comunidade do Amarelinho passou a sofrer investidas e incursões armadas violentas — conhecidas como “baques” — desferidas diretamente pela “Tropa do Galo”, uma ramificação do Comando Vermelho baseada na comunidade de Vila Norma, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Em um desses ataques recentes, a Tropa do Galo conseguiu invadir o Amarelinho e executou dois homens de relevância na hierarquia local: um criminoso de vulgo “JG” e outro conhecido como “Staloni”. Este último atuava como gerente-geral do Amarelinho e era tido como um dos principais homens de confiança de Brian, o chefe da comunidade. A precisão dos ataques e as perdas significativas acenderam o sinal de alerta entre a cúpula do TCP. Como não havia registros de homens crias do Amarelinho escondidos em Vila Norma que pudessem estar repassando informações geográficas e de rotina, os olhares se voltaram imediatamente para o histórico recente de Neymar.

A cúpula do TCP concluiu que Neymar operava, na verdade, como um informante infiltrado. Suspeitava-se que ele realizava uma triangulação de informações, monitorando os passos dos traficantes do Amarelinho e repassando os dados táticos para a Tropa do Galo e para a Tropa do Urso, do Comando Vermelho. Para os chefes locais, o “Chefinho” havia pulado para o TCP com o único propósito de mapear a favela e entregar seus comparsas. Diante da suspeita de traição, a Tropa do Brian decretou a execução de Neymar. O veredito do tribunal do crime foi cruel: o homem foi morto com cerca de 50 disparos de fuzil G3 no rosto. Logo após a execução, fotos do corpo de Neymar foram divulgadas nas redes sociais por integrantes da própria facção, acompanhadas de mensagens que o classificavam como traidor e ironizavam sua queda.

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O Histórico de “Puladores” no Crime Fluminense

O caso de Neymar não é isolado e expõe um padrão de comportamento que se repete há anos nas favelas do Rio. A história registra outros personagens que trilharam caminhos semelhantes e encontraram fins parecidos. Um dos casos lembrados no submundo é o de “Cinquentinha”, cria da comunidade da Palmeirinha, em Honório Gurgel, área sob o domínio do Comando Vermelho. Cinquentinha pulou para a comunidade do Muquiço, em Guadalupe, que era controlada pela tropa do “Coronel”, do TCP. Após ganhar a confiança das novas lideranças e desferir ataques contra a sua própria comunidade de origem, ele mudou de lado novamente, migrando para a Milícia e levando armas e dinheiro. Pouco tempo depois, retornou ao Muquiço trazendo armamento roubado dos milicianos. Por fim, repetiu o gesto e pulou para o Complexo da Penha, entregando fuzis para “Doca da Penha”. A rota de traições terminou quando o próprio Doca, desconfiado da lealdade do criminoso, ordenou sua execução.

Outro nome célebre nessa dinâmica foi Josiel Gomes de Souza, o “Tulon”. Ele foi uma das lideranças do Morro do Para-Pedro, em Colégio. Após disputas internas e a perda do controle da área, Tulon migrou para a facção Amigos dos Amigos (ADA), transitando pelos morros da Pedreira, Quitanda, Lagartixa e Juramento. Seu objetivo principal era reunir forças para retomar o Para-Pedro. Ao perceber que não alcançaria seu intento com a ADA, realizou um novo movimento e pulou para o Comando Vermelho no Complexo da Penha, desferindo diversos ataques contra seus antigos territórios. A trajetória de Tulon foi interrompida no início de 2014, quando foi baleado e morto pela polícia durante uma perseguição na Estrada do Quitungo, em Brás de Pina.

O Cenário Atual na Zona Oeste: A Disputa entre Milícia e Tráfico

Atualmente, a prática de pular de facção ou de grupo paramilitar continua redesenhando o mapa da violência, especialmente na Zona Oeste do Rio. O foco das atenções está voltado para a figura de “RD do Barbante”. No passado, RD atuava na comunidade da Quitanda, em Costa Barros, sob a bandeira da ADA. Posteriormente, ele retornou ao seu local de origem, a favela do Barbante, onde se aliou à milícia então chefiada por “Zinho”. Insatisfeito com as diretrizes e a gestão da milícia, RD rompeu a aliança e pulou para a Tropa do Urso, retornando ao Comando Vermelho.

Hoje, RD do Barbante consolidou-se como uma das lideranças mais ativas no combate aos grupos milicianos na Zona Oeste, angariando forte prestígio junto a Doca da Penha. Informações indicam que a cúpula da Penha patrocina planos de expansão territorial para expulsar a milícia liderada por figuras conhecidas como “PL” e “Jorjão”. Áudios e mensagens que circulam em redes criminosas apontam para um clima de forte tensão, onde comparsas de RD pressionam os milicianos locais a abandonarem suas posições ou mudarem de lado enquanto há tempo, sob a ameaça de ofensivas armadas iminentes.

Esse cenário de transições contínuas deixa uma questão central para aqueles que vivem ou observam a dinâmica das comunidades cariocas: até que ponto mudar de bandeira representa uma estratégia de sobrevivência ou apenas a antecipação de uma sentença de morte programada pelo próprio sistema criminal?