Posted in

O EXÉRCITO INVISÍVEL DE SASSÁ: COMO UM SÓ HOMEM COMANDEU 15 FAVELAS E ASSOMBROU O RIO DE JANEIRO!

O Império Invisível de Sassá: Como a Humilhação Forjou um dos Maiores Senhores do Crime do Rio de Janeiro

O Destino Escrito em um Esbarrão

No início da década de 1990, a Vila do João, uma das comunidades que integram o vasto Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, abrigava um morador cuja rotina em nada diferia daquela de milhares de trabalhadores cariocas. Edmilson Ferreira dos Santos levava uma vida comum, cumpria seus horários profissionais e mantinha uma ficha corrida completamente limpa, sem qualquer passagem pela polícia. Para quem o observava caminhar pelas ruelas da comunidade, ele era apenas mais um rosto na multidão, alheio às engrenagens do crime organizado que já operavam ao seu redor.

No entanto, o destino das grandes trajetórias criminosas muitas vezes se apoia em acasos aparentemente banais. Em um dia comum daquela década, Edmilson esbarrou, sem querer, no chefe do tráfico local da Vila do João. O que poderia ter sido resolvido com um simples pedido de desculpas transformou-se em um ato de extrema violência psicológica. O líder criminoso reagiu de forma desproporcional, humilhando Edmilson publicamente diante de toda a comunidade.

No contexto das favelas cariocas da época, sabendo que desavenças daquela natureza com o poder paralelo costumavam terminar em morte, o trabalhador foi tomado por um medo paralisante de ser executado a qualquer momento. Movido pelo instinto de sobrevivência e pela certeza de que sua vida estava em risco, Edmilson tomou uma decisão radical: cruzaria a linha da legalidade para buscar proteção na Vila do Pinheiro, uma favela vizinha controlada por uma quadrilha rival. Ali nascia uma nova identidade.

Contextualização: O Nascimento de Sassá sob a Sombra de Linho

Ao ser aceito no bando rival, o ex-morador comum deixou seu nome de batismo para trás e adotou o vulgo que, anos mais tarde, seria pronunciado com temor e respeito: Sassá. A favela que o acolhera tinha como chefe máximo Elinaldo Pinto de Medeiros, conhecido no submundo como “Linho”, um dos maiores barões de armas e drogas do Rio de Janeiro.

A inserção de Sassá no crime organizado começou do degrau mais baixo da estrutura piramidal do tráfico. Inicialmente, ele executava tarefas simples e operacionais, como a vigilância de pontos de venda de entorpecentes, as chamadas bocas de fumo. Contudo, o comportamento de Sassá logo começou a chamá-lo à atenção em meio aos demais soldados da organização.

Diferente da maioria dos jovens que ingressavam no crime, Sassá possuía características raras naquele ambiente: ele não consumia drogas e demonstrava uma disciplina rígida, combinada com uma facilidade notável para controlar a contabilidade do comércio ilegal. Essa capacidade de organização administrativa rapidamente ganhou a simpatia e a confiança de Linho. O chefe percebeu que tinha em mãos um homem que pensava estrategicamente, passando a delegar a ele missões de responsabilidade cada vez maior.

Para consolidar sua posição de liderança ascendente e afastar qualquer tipo de desconfiança por parte dos criminosos mais antigos, Sassá compreendeu que precisava demonstrar que também sabia ser implacável. Em agosto de 1996, ele liderou um grupo armado que invadiu a casa de Jorge Luiz da Silva, na Vila do Pinheiro. O objetivo da ação era realizar uma cobrança e prestação de contas sobre o desaparecimento de uma carga de entorpecentes. Como as explicações dadas pela vítima não convenceram o grupo, Sassá eliminou as dúvidas sobre sua determinação executando o homem a tiros dentro do próprio imóvel. O episódio carimbou seu passaporte para o topo, acelerando sua promoção a gerente geral das comunidades controladas por Linho.

Desenvolvimento: A Ascensão e a Fundação da ADA

Na virada para os anos 2000, o cenário do crime organizado fluminense passou por uma reorganização geopolítica radical. A quadrilha sediada na Vila do Pinheiro uniu-se a outros grupos criminosos de expressão na Zona Sul e na Zona Norte da capital, fundando uma nova facção: os Amigos dos Amigos (ADA). Nesse novo arranjo de poder, Linho alçou-se ao posto de principal chefe das ruas, enquanto Sassá firmou-se como seu braço direito indiscutível, assumindo o controle direto da distribuição de entorpecentes dentro do Complexo da Maré.

A engrenagem do poder sofreu um abalo sísmico no ano de 2003. Linho viajou para o estado de São Paulo com o objetivo de negociar a compra de grandes carregamentos de armamentos e desapareceu misteriosamente. Embora a polícia suspeitasse que o barão das armas tivesse sido assassinado por seus próprios parceiros de negócios, o corpo de Linho nunca foi localizado. Sendo o homem de total confiança do líder desaparecido, Sassá assumiu imediatamente o comando das favelas herdadas e o posto de principal chefe da facção ADA nas ruas.

No controle absoluto do território, Sassá revolucionou a estratégia de negócios da organização. Ele transformou o Complexo da Maré em um imenso polo atacadista e ponto de distribuição de drogas para o restante do estado. Sua principal inovação foi a eliminação de intermediários: Sassá passou a comprar os entorpecentes diretamente de grandes fornecedores localizados nos estados de São Paulo e Mato Grosso.

Com muita droga chegando de forma constante e a custos reduzidos, a quadrilha expandiu seus domínios em ritmo acelerado, passando a controlar o comércio ilegal em pelo menos 17 favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro. Entre as áreas sob seu comando estavam o Complexo do Caju, a Favela do Muquiço e os Morros do Juramento e da Pedreira. Para garantir a segurança desse verdadeiro consórcio criminoso, Sassá montou um exército estimado em 300 homens fortemente armados, sustentado por um arsenal composto por cerca de 150 fuzis de guerra.

Construção de Tensão: O Tabuleiro de Milhões e Blindagem Tecnológica

O fortalecimento financeiro decorrente do monopólio da Maré permitiu a Sassá traçar jogadas comerciais ainda mais ambiciosas. Ele firmou uma aliança estratégica com Erismar Rodrigues Moreira, o “Bem-Te-Vi”, chefe do tráfico na Favela da Rocinha, na Zona Sul da cidade. A Rocinha era um mercado consumidor gigantesco que gerava volumes expressivos de capital, mas enfrentava sérias dificuldades logísticas para receber os carregamentos de drogas diretamente dos fornecedores interestaduais.

Sassá preencheu essa lacuna tornando-se o fornecedor oficial de cocaína para a Zona Sul. Ele enviava remessas semanais que cruzavam a cidade de ponta a ponta, consolidando uma parceria que injetava milhões de reais na cúpula da facção. Para além do tráfico de drogas, a quadrilha diversificou suas fontes de renda, passando a atuar fortemente no roubo e desvio de cargas de caminhões que trafegavam pelas principais rodovias expressas localizadas nas proximidades do Complexo da Maré.

Esse crescimento financeiro astronômico transformou as comunidades controladas por Sassá em um porto seguro e refúgio para criminosos de outros setores de atuação. Foi assim que Pedro Machado Lomba Neto, o “Pedro Dom” — chefe de uma quadrilha especializada em assaltar edifícios residenciais de luxo —, passou a utilizar a Vila do Pinheiro como seu principal esconderijo. Em troca do abrigo seguro e da proteção armada concedida pelos soldados de Sassá, Pedro Dom pagava propinas semanais em dinheiro vivo, barras de ouro e joias valiosas. Esses recursos eram revertidos diretamente na compra de mais fuzis para aumentar o poder de fogo da ADA.

Para proteger toda essa estrutura bilionária contra as incursões do Estado, Sassá montou uma sofisticada rede de blindagem. O tráfico pagava propinas fixas de R$ 500 por semana a policiais militares para que a liderança recebesse avisos antecipados sobre qualquer operação planejada. Ciente também de que os setores de inteligência da polícia monitoravam as redes de telefonia celular convencional, o chefe do crime investiu na compra de aparelhos de telefone via satélite importados e rádios transmissores equipados com sistemas modernos de criptografia digital, permitindo que ele conversasse com seus gerentes sem o risco de interceptações telefônicas.

O Declínio: O Cerco Eletrônico e o Esconderijo de Arroz

A resposta do Estado veio por meio de uma mudança de abordagem da Polícia Civil. Diante da barreira tecnológica imposta pelos rádios criptografados, os investigadores passaram a utilizar o rastreamento técnico baseado no cruzamento de dados de antenas de transmissão (ERBs), conseguindo mapear o ponto exato de onde partiam os sinais dos aparelhos satelitais. O cerco começou a se fechar de forma definitiva no final de outubro de 2005, quando Bem-Te-Vi, o principal aliado comercial de Sassá na Zona Sul, foi morto em um confronto com as forças policiais.

Sem a proteção de seu maior parceiro comercial e com suas coordenadas geográficas precisamente mapeadas pelos setores de inteligência, Sassá virou o alvo principal. No dia 4 de novembro de 2005, a polícia deflagrou uma grande operação na localidade conhecida como Salsa e Merengue, na Maré. Os agentes cercaram o depósito de um supermercado que vinha sendo utilizado como ponto de apoio e esconderijo pela liderança da facção.

Ao inspecionarem minuciosamente o imóvel, os policiais localizaram um fundo falso disfarçado sob uma densa pilha de sacos de arroz. Ao perceber que o esconderijo subterrâneo havia sido descoberto e vendo fuzis apontados em sua direção, Sassá optou por não reagir, saindo do abrigo com as mãos para cima. No interior do bunker, os agentes apreenderam duas pistolas, uma granada, quatro bombas caseiras, cinco rojões de fabricação argentina e um lança-rojão. No momento da abordagem, em uma última tentativa de manter a liberdade, Sassá ofereceu a quantia de R$ 1 milhão em dinheiro aos policiais em troca de sua liberação, mas a proposta de suborno foi recusada. Junto com ele, no mesmo depósito, foi detido Cristiano Santos Guedes, o “Mickey” ou “Puma”, outro integrante da cúpula da ADA.

Sassá foi conduzido sob um forte esquema de segurança para o presídio de segurança máxima de Bangu 1. A resposta das ruas foi imediata: a quadrilha nomeou Marcélio de Souza Andrade como o novo responsável pelo comando do Complexo da Maré. No entanto, a liderança de Marcélio durou pouco mais de um mês, terminando também com sua prisão.

Em uma demonstração de audácia, no dia 27 de dezembro de 2005, um grupo armado com fuzis atacou um furgão da Polinter na porta do fórum da Ilha do Governador, no momento em que o veículo chegava para desembarcar detentos. O plano de resgate, arquitetado por Marcélio de dentro da própria cadeia por meio de um telefone celular, visava devolvê-lo ao controle das ruas. A ação resultou em um intenso tiroteio que culminou na morte de dois policiais civis da escolta. Os criminosos conseguiram retirar Marcélio do furgão, mas a perseguição policial imediata localizou o comboio de fuga poucas horas depois em uma área de mata dentro de um terreno da Aeronáutica. Marcélio e um cúmplice foram baleados e morreram no confronto. O ataque escancarou a fragilidade das carceragens estaduais e fez com que as autoridades determinassem a transferência definitiva de Sassá para o Sistema Penitenciário Federal de Segurança Máxima.

A Queda do Castelo de Cartas e o Fim de uma Era

Isolado nas penitenciárias federais, Sassá viu seu império desmoronar ao longo dos anos devido a traições e rearranjos de mercado. Em 2009, um racha interno fez com que um grupo de criminosos da Maré mudasse de lado, aderindo à facção Terceiro Comando Puro (TCP). O golpe armado expulsou todos os homens leais a Sassá das bocas de fumo da Vila do Pinheiro e da Vila do João. A única área de relevância que permaneceu fiel às suas ordens foi o Complexo da Pedreira, em Costa Barros.

A partir de 2010, Celso Pinheiro Pimenta, o “Playboy” — que havia sido apadrinhado por Sassá no início de sua trajetória no crime —, assumiu a liderança direta das ruas na Pedreira. Playboy manteve uma conduta de estrita fidelidade ao chefe preso, gerenciando os pontos de venda e enviando parcelas fixas dos lucros para o sustento da família de Sassá, além de arcar com os custos de seus advogados. Playboy transformou a Pedreira no principal centro de roubo de cargas do estado, mantendo o grupo financeiramente forte até agosto de 2015, quando foi morto em uma operação policial.

A morte de Playboy representou o fim da última liderança que ainda respeitava a autoridade de Sassá. Os gerentes que assumiram o controle das comunidades locais da Pedreira, conhecidos como “Raro” e “Arafat”, romperam os laços de fidelidade e passaram a reter integralmente os lucros do comércio ilegal. O isolamento de Sassá aprofundou-se em setembro de 2017, quando uma guerra civil pelo controle da Rocinha entre Antônio Francisco Bonfim Lopes, o “Nem”, e Rogério Avelino da Silva, o “Rogério 157”, terminou com a migração deste último para a facção Comando Vermelho (CV).

A perda definitiva da Rocinha eliminou a principal fonte de receita da ADA, provocando a falência financeira da facção em todo o estado do Rio de Janeiro. Temendo o avanço dos rivais e sem suporte financeiro, os gerentes da Pedreira decidiram mudar de bandeira. Entre o final de 2017 e o início de 2018, Raro e Arafat negociaram uma aliança com o Terceiro Comando Puro, entregando o controle do Complexo da Pedreira e do Complexo do Caju para o TCP.

Com essa transição, Sassá perdeu qualquer resquício de autoridade sobre os territórios que outrora governara. Para consolidar o novo domínio, os novos chefes da Pedreira instituíram o chamado “Tribunal do Roberto Carlos” — uma gíria local utilizada para sentenciar à execução no “micro-ondas” qualquer aliado que ainda fosse suspeito de repassar informações ou fundos para Sassá no presídio. Os soldados sobreviventes que ainda mantinham lealdade ao antigo chefe foram forçados a buscar refúgio no vizinho Complexo do Chapadão, controlado pelo Comando Vermelho.

Ao tomar conhecimento na prisão sobre a execução de seus homens e a perda total de seus territórios, Sassá rompeu definitivamente com a ADA. De dentro de sua cela no sistema federal, ele negociou sua entrada no Comando Vermelho. Em troca de homens e armas para tentar uma retomada, Sassá ofereceu o mapeamento detalhado de todos os acessos estratégicos do Complexo da Pedreira. Em outubro de 2019, o plano foi executado: invasores do Comando Vermelho, partindo do Chapadão e do Complexo do Alemão, iniciaram um pesado ataque contra a Pedreira. O conflito armado estendeu-se por vários dias, espalhando o pânico na região metropolitana, mas terminou em fracasso total para o grupo de Sassá, que não conseguiu desalojar o TCP.

A tentativa frustrada selou de vez o destino político de Edmilson Ferreira dos Santos no submundo. Por conta de seu extenso histórico de liderança e pelo papel central que desempenhou nas guerras de facções, ele permaneceu por quase duas décadas sob o rigor do sistema penitenciário federal. Atualmente, Sassá cumpre sua pena em uma unidade prisional no estado do Rio de Janeiro, totalmente destituído de poder, armas ou controle sobre qualquer palmo de território nas ruas que um dia dominou.

Conclusão: A Engrenagem que Consome seus Próprios Reis

A trajetória de Edmilson Ferreira dos Santos, o Sassá, oferece um panorama detalhado sobre a volatilidade e as ilusões de poder que moldam o crime organizado. O homem que ingressou no universo do tráfico movido pelo medo e pela busca por sobrevivência acabou por se tornar o arquiteto de um consórcio bilionário, redesenhando a logística de distribuição de entorpecentes no Rio de Janeiro por meio de conexões interestaduais e blindagem tecnológica.

No entanto, a mesma estrutura que o alçou ao topo da pirâmide criminal encarregou-se de sua queda. O isolamento imposto pelas muralhas federais revelou que, no xadrez das favelas cariocas, a fidelidade é um artigo perecível, que costuma durar apenas enquanto os lucros e as armas estão presentes. Ao fim da linha, as alianças comerciais foram desfeitas, os apadrinhados mudaram de lado e os antigos territórios transformaram-se em solo inimigo, restando ao ex-chefe apenas o cumprimento de uma longa pena sem qualquer influência nas ruas.

Diante de uma estrutura que consome seus próprios líderes e transforma impérios em cinzas em questão de poucos anos, fica a reflexão: até que ponto o controle temporário de territórios e armas compensa o preço de uma vida inteira de isolamento e o esquecimento final por parte daqueles que um dia juraram lealdade?