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ROMANTIZOU O PERIGO: Ela Exigiu a Ficha Criminal Mais Cruel Para Namorar e Acabou Vivendo o Seu Pior PESADELO

As Duas Faces de uma Escolha: Como a Ilusão do Controle no Submundo Cobrou o Preço Mais Alto de Paola Corrêa


O Áudio que Antecipou o Destino

“Para me pegar tem que ter no mínimo três passagens. E se quiser namorar comigo, namorar sério, tem que ter pelo menos um homicídio, um 33 de tráfico, entendeu? Tem que andar todo dia de bico mesmo…”

As palavras, gravadas em tom de desabafo informal por uma jovem de apenas 18 anos, guardavam uma ironia trágica que o tempo se encarregaria de revelar da forma mais cruel possível. O áudio, que circulou entre amigas e redes sociais, desenhava o perfil de homem que Paola Avale Corrêa considerava atraente para um relacionamento sério. Para ela, as marcas do crime — as passagens pela polícia, o envolvimento com o tráfico de drogas, o porte de armamento pesado — funcionavam como um passaporte de status, uma espécie de blindagem e poder em uma das realidades mais complexas da periferia urbana.

No entanto, o que a jovem porto-alegrense tratava com a aparente leveza da juventude escondia uma engrenagem violenta que não aceita transgressões, dissidências ou rupturas. O submundo que Paola romantizou em suas declarações e postagens não operava pelas regras do afeto, mas sim pelas leis estritas da propriedade e da submissão. Menos de um ano após firmar suas escolhas, a mesma voz que ditava os “requisitos” para os pretendentes seria calada em um matagal isolado, após uma sequência de eventos que transformou uma ilusão romântica em uma das crônicas policiais mais impactantes da história recente do Rio Grande do Sul.


Contextualização: Porto Alegre e o Cenário das Facções

Para compreender a trajetória de Paola Corrêa, é necessário analisar o tabuleiro geográfico e social em que sua vida se desenvolveu. Durante a última década, a capital gaúcha, Porto Alegre, enfrentou transformações profundas em sua segurança pública, chegando a figurar em rankings internacionais como uma das 50 cidades mais violentas do mundo. Esse aumento expressivo nos índices de criminalidade e homicídios não ocorreu de forma desordenada; foi impulsionado por uma guerra territorial intensa e sangrenta entre facções criminosas que disputavam pontos de tráfico de drogas em bairros periféricos.

Um dos epicentros dessa dinâmica era o bairro Bom Jesus, uma região marcada pela forte presença do crime organizado. Paralelamente, o sistema prisional do estado refletia essa crise: o Presídio Central de Porto Alegre, oficialmente classificado por órgãos de direitos humanos como uma das piores casas de detenção do Brasil, funcionava não apenas como local de reclusão, mas como o verdadeiro quartel-general das facções. De dentro de suas celas superlotadas, lideranças criminosas mantinham o controle absoluto das galerias e continuavam a gerenciar o tráfico, a ditar sentenças e a articular operações complexas nas ruas da cidade, utilizando telefones celulares contrabandeados como ferramentas de comando à distância.


A Aproximação e a Perda da Autonomia

Nascida e criada em Porto Alegre, Paola Corrêa cresceu no seio de uma família estruturada e trabalhadora, sem qualquer histórico de envolvimento com atividades ilícitas. Contudo, em 2017, aos 17 anos de idade, a jovem começou a mudar de comportamento, aproximando-se de círculos sociais que sua mãe e familiares identificaram rapidamente como perigosos. Alertas foram feitos e conselhos foram dados repetidas vezes pela mãe, que tentava demonstrar o risco daquelas novas companhias. Paola, no entanto, ignorou as advertências familiares.

Foi nesse período que, por meio de interações na internet, ela conheceu Nathan Cirangelo. Homem de destaque na hierarquia do tráfico de drogas do bairro Bom Jesus, Nathan já possuía uma extensa ficha criminal e encontrava-se preso preventivamente desde o ano de 2016. Mesmo ciente de que o homem com quem conversava operava diretamente de dentro do Presídio Central, Paola decidiu manter o relacionamento. Ao completar a maioridade, aos 18 anos, ela formalizou sua situação cadastrando-se para visitá-lo oficialmente na cadeia pública.

A partir desse momento, a rotina de Paola passou por um processo de desestruturação gradual e profundo. Ela abandonou os estudos na escola regular, pediu demissão do emprego e rompeu os laços cotidianos com os parentes, saindo da casa da família. Sem renda própria, a jovem tornou-se inteiramente dependente dos recursos financeiros fornecidos pela organização criminosa liderada por Nathan. Paola passou a residir em imóveis mantidos pela facção e a submeter-se a regras rígidas de conduta, horários e deslocamentos impostos por aquele ambiente. Nathan, mesmo trancado em uma cela, monitorava cada aspecto de sua vida: com quem ela conversava, onde dormia e como se comportava nas ruas, utilizando redes de informantes e a pressão psicológica constante como ferramentas de controle absoluto.


O Rompimento e a Construção da Tensão

Com o passar dos meses, o relacionamento começou a se deteriorar de forma acentuada. O isolamento e a vigilância excessiva transformaram a rotina de Paola em um cenário de tensão constante, onde as discussões ocorriam mesmo com as grades do parlatório e das galerias entre o casal. Em uma das visitas programadas ao Presídio Central, os ciúmes de Nathan culminaram em uma agressão física severa contra a jovem dentro das dependências da prisão, sendo necessária a intervenção imediata dos agentes penitenciários para retirá-la do local e conter a violência do detento.

Após esse episódio de violência física e desgastada pelas cobranças, Paola tomou uma decisão no dia 9 de maio de 2018, logo após mais um encontro conturbado na prisão: ela declarou o fim definitivo do relacionamento com Nathan. Para a jovem, tratava-se do encerramento de um ciclo abusivo; para a lógica do crime organizado, contudo, a decisão foi recebida como uma afronta intolerável. No código de conduta imposto pelas facções, ser rejeitado publicamente por uma companheira representa uma perda grave de autoridade e uma humilhação diante dos subordinados.

A situação agravou-se rapidamente quando começaram a circular boatos, alimentados em grupos de mensagens por integrantes da própria facção, de que Paola estaria mantendo conversas e contatos com indivíduos vinculados a uma organização criminosa rival. No contexto da guerra de facções em Porto Alegre, esse tipo de rumor, independentemente de possuir comprovação factual, é tratado como alta traição. Percebendo a gravidade da armadilha em que se encontrava, Paola utilizou suas redes sociais para desabafar, publicando mensagens que misturavam arrependimento, ironia e medo. Em uma das postagens, ela ironizou que estava “fazendo faculdade no crime”. Em outra publicação, enfrentou as provocações que Nathan fazia ao divulgar fotos suas nos grupos da facção conhecida como “os leão”:

“Meu ex botando foto minha no grupo dos leão, risos, otário… Que ex é esse, né? Que bota foto tua só porque tu não quis mais ele porque apanhava, passava horrores na mão dele, né? Vai, otário, bota mesmo. Manda eles botar tudo no face. Gosto de causar impacto, acha que me abalo.”

Apesar da postura pública de enfrentamento nas redes sociais, os bastidores revelavam um pânico crescente. De dentro da prisão, Nathan já havia acionado sua rede de contatos na rua para planejar a execução da ex-namorada. O encarregado de coordenar a operação logística foi Bruno Cardoso Oliveira, que distribuiu as tarefas específicas entre os membros da célula criminosa: quem monitoraria os passos de Paola, quem conduziria o veículo para o transporte, quem cederia o imóvel de apoio e quem faria o registro visual do ato.


A Emboscada no Dia das Mães

O plano foi desenhado para ser executado no domingo, 13 de maio de 2018, data em que se celebrava o Dia das Mães. Paola havia combinado previamente com sua irmã que participaria de um almoço festivo para encontrar a mãe. No entanto, a madrugada daquele domingo transformou-se em um pesadelo de ameaças contínuas enviadas para o seu aparelho celular. Tomada pelo desespero e percebendo que a sua segurança estava severamente comprometida, Paola discou duas vezes para o telefone de emergência da polícia (190) solicitando socorro urgente. Conforme registrado no inquérito policial posterior, as chamadas de emergência não chegaram a ser atendidas.

Às 4 horas da manhã, sem apoio e encurralada, ela realizou sua última postagem em perfil social exposto, detalhando o teor das ameaças que sofria. Poucas horas depois, às 8 horas da manhã, cumprindo uma ordem direta enviada por Nathan sob pretexto de resolver as pendências e cessar as ameaças, Paola compareceu ao ponto de encontro determinado, em frente a uma escola pública da comunidade. Ali, foi recolhida por dois homens em um veículo de passeio.

A jovem foi transportada até uma residência localizada na Vila Tamanca, no bairro Lomba do Pinheiro, imóvel utilizado temporariamente como cativeiro pelo bando. No local, Paola foi imobilizada e amarrada. Os criminosos estabeleceram uma ligação telefônica direta com Nathan, que acompanhava tudo da cela do presídio. Durante o telefonema, que funcionou como uma espécie de “tribunal do crime”, Paola foi submetida a interrogatório e pressões psicológicas para que confessasse as supostas traições e contatos com a facção rival. Diante da recusa da jovem em ceder às acusações, Nathan emitiu a ordem final para a execução.

Paola foi então escoltada a pé até uma área de matagal densa e isolada, situada nas proximidades do cativeiro. Ali, uma cova rasa já estava sendo aberta pelos criminosos. Mantida sob a mira de armas de fogo e completamente impossibilitada de esboçar qualquer reação de fuga, a jovem foi forçada a permanecer sentada na borda do terreno, assistindo por aproximadamente duas horas a escavação do buraco onde seu próprio corpo seria depositado. Por volta das 17h30, o grupo decidiu encerrar o procedimento. O executor dos disparos, Vinícius Mateus da Silva, posicionou-se enquanto Thaí Cristina dos Santos acionava a câmera de um celular para documentar a cena. Foram gravados 11 segundos de vídeo, capturando o momento exato da execução. O arquivo digital foi enviado imediatamente para o celular de Nathan no Presídio Central, servindo como relatório e comprovante do cumprimento da ordem, e logo em seguida passou a circular em aplicativos de mensagens associados ao submundo do crime.


Investigação, Desfecho e o Julgamento

A ausência de Paola no almoço de Dia das Mães gerou alerta imediato na família, que passou o domingo e a segunda-feira tentando contatos telefônicos sem sucesso. A confirmação do pior cenário ocorreu na terça-feira, quando o vídeo da execução vazou publicamente na internet e chegou ao conhecimento da Polícia Civil. Agentes da Delegacia de Homicídios reconheceram as características físicas da jovem e contataram os familiares, que confirmaram a identidade da vítima com base nas roupas que ela utilizava no domingo. Quatro dias após o desaparecimento, o corpo de Paola foi localizado e exumado pelas autoridades no mesmo matagal da Vila Tamanca.

A resposta da Polícia Civil de Porto Alegre foi ágil. Em um período de dez dias, os investigadores conseguiram traçar a linha de comunicações, identificar o cativeiro e mapear a participação individual de cada componente do grupo. Um adolescente que participou da ação foi apreendido e processado na esfera do Estatuto da Criança e do Adolescente, recebendo medida socioeducativa de internação em regime fechado, sem possibilidade de atividades externas. Em agosto de 2018, o Ministério Público ofereceu denúncia formal contra os seis adultos envolvidos, tipificando o crime como homicídio triplamente qualificado, cárcere privado, ocultação de cadáver e organização criminosa, tramitando o caso na Quarta Vara do Júri de Porto Alegre, especializada em feminicídios.

Quase cinco anos após o crime, em março de 2023, o caso chegou ao seu desfecho judicial em um julgamento que durou dois dias de intensos debates no Tribunal do Júri. O Conselho de Sentença acolheu integralmente as teses da acusação, resultando na condenação de todos os réus adultos a penas severas em regime fechado:

Réu Denunciado Função Atribuída no Crime Pena Aplicada pelo Júri
Nathan Cirangelo Mandante intelectual, ordenou o crime de dentro da cela do Presídio Central. 36 anos de reclusão
Bruno Cardoso Oliveira Coordenador operacional, responsável pelo planejamento e convocação do grupo na rua. 31 anos de reclusão
Vinícius Mateus da Silva Executor material, responsável pelos disparos contra a vítima no matagal. 28 anos de reclusão
Carlos Cleomir Rodrigues da Silva Participante direto no rapto, contenção e transporte da vítima até o cativeiro. 16 anos e 2 meses de reclusão
Thaí Cristina dos Santos Cedeu o imóvel de apoio, indicou o local do matagal e realizou a filmagem da execução. 9 anos de reclusão
Paulo Henrique Silveira Merlo Operador logístico secundário, encarregado de cavar a cova rasa no matagal. 8 anos e 10 meses de reclusão

Reflexão: O Custo Invisível do Fascínio Pelo Perigo

A história de Paola Avale Corrêa encerra-se com sentenças judiciais expressivas, mas o impacto de sua trajetória transcende os anos fixados em regime fechado para os seus algozes. O desfecho trágico da jovem de 18 anos acende um debate profundo sobre as dinâmicas de poder, sedução e vulnerabilidade que cercam a juventude nas periferias das grandes cidades brasileiras. O fascínio inicial pelas figuras de destaque no crime organizado — muitas vezes associado a uma percepção distorcida de segurança, recursos financeiros rápidos e autoridade social — frequentemente funciona como uma porta de entrada para um caminho sem retorno.

Como destacado de forma pública pela irmã de Paola logo após o encerramento do julgamento em Porto Alegre, o custo de se envolver com o universo das facções é rotineiramente subestimado pelos jovens. A ilusão de que se pode manter o controle da situação, entrar e sair de tais círculos sociais por livre arbítrio ou ditar as próprias regras de convivência desfaz-se diante da primeira demonstração de autonomia que fira o orgulho ou os interesses dos líderes do tráfico. No ecossistema do crime, o afeto é rapidamente substituído pelo sentimento de posse, e qualquer tentativa de ruptura é tratada como uma violação passível de punição máxima. A história de Paola permanece como um memorial doloroso e um alerta explícito sobre as consequências reais de escolhas que misturam romance, submissão e criminalidade.