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TROCOU O SONHO DE SER ADVOGADA PELO CRIME ORGANIZADO E TEVE UM FIM BRUTAL

Do Sonho dos Tribunais ao Fim de Linha: A Trajetória de Eveline Passos Rodrigues no Crime Organizado

Da Faculdade de Direito às Ruas: O Início de uma Jornada Interrompida

Antes de se tornar uma figura conhecida nos bastidores do crime organizado, Eveline Passos Rodrigues alimentava uma meta de vida clara e legítima: ela sonhava em ser advogada. Natural de Tubarão, cidade localizada no sul do estado de Santa Catarina, a jovem levava uma vida simples e desdobrava-se em jornadas exaustivas para conseguir manter viva a esperança de conquistar o diploma de ensino superior.

Para custear as mensalidades e os materiais da faculdade de Direito, Eveline atuava no comércio informal. Ela vendia uma variedade de produtos que incluía doces, perfumes, maquiagens e trufas de chocolate. Mais do que uma fonte de renda, o sonho acadêmico era utilizado por ela como o principal argumento de divulgação em suas vendas diárias; ela frequentemente explicava aos clientes que cada produto adquirido representava um passo a mais em direção à sua formação profissional. No entanto, por trás do esforço público de uma estudante dedicada, a vida pessoal de Eveline já era cercada por dinâmicas complexas e perigosas que começavam a se desenhar em silêncio.

O Trauma e a Virada de Chave: A Violência Doméstica

A rotina de estudos e trabalho de Eveline coexistia com um ambiente doméstico hostil. Ela mantinha um relacionamento abusivo com um homem que já possuía um histórico de comportamento violento contra ela. Apesar de contar com o amparo legal de medidas protetivas emitidas pela Justiça, as barreiras legais não foram suficientes para afastar o ex-marido, que continuava a persegui-la e a forçar aproximações.

A escalada da violência conjugal atingiu o ápice durante uma discussão no interior da residência de Eveline. De forma repentina, o ex-marido a atacou pelas costas utilizando uma faca. O golpe desferido foi profundo e atingiu diretamente o pulmão da jovem, caracterizando uma tentativa clara de homicídio. Perder sangramento massivo e imediato colocou a vida de Eveline em risco iminente. A sobrevivência da jovem decorreu da intervenção rápida de familiares, incluindo sua mãe e sua sogra, além de pessoas próximas que testemunharam o cenário de desespero e providenciaram socorro imediato.

Conduzida às pressas para uma unidade hospitalar, Eveline passou por um procedimento cirúrgico de emergência e permaneceu internada em estado grave, utilizando um dreno no pulmão para restabelecer as funções respiratórias. Ainda no ambiente hospitalar, fragilizada pela gravidade dos ferimentos, mas consciente, ela gravou um vídeo que foi compartilhado publicamente. Na gravação, a jovem expôs o ocorrido, detalhou que havia sofrido uma tentativa de feminicídio por parte do ex-marido, mostrou o dreno hospitalar e apelou para que a população fizesse denúncias anônimas via telefone 190 para que o agressor fosse localizado, clamando por justiça.

A Transição para a Ilegalidade e as Primeiras Prisões

A expectativa de familiares e conhecidos era de que o episódio de quase morte servisse como um divisor de águas para que Eveline retomasse com ainda mais afinco o objetivo de se tornar advogada. No entanto, o rumo tomado foi oposto. Com o passar do tempo, ela começou a ingressar de forma discreta no mercado ilícito, inicialmente atuando no sistema de teleentrega de substâncias entorpecentes.

Essa nova atividade rapidamente atraiu a atenção das autoridades de segurança pública de Santa Catarina. A Polícia Civil passou a receber denúncias anônimas sobre o envolvimento de Eveline com o tráfico, monitorando inclusive publicações e capturas de tela extraídas de suas redes sociais, onde ela própria divulgava os produtos proibidos. A primeira ação policial contundente ocorreu após Eveline sofrer um acidente de trânsito na cidade de Tubarão. Durante o atendimento da ocorrência e a abordagem veicular, os policiais encontraram cocaína em sua posse. A investigação já havia mapeado o automóvel utilizado por ela para realizar a distribuição das drogas.

Apesar das evidências coletadas, a Justiça concedeu a Eveline o direito de responder ao processo em liberdade, mediante o cumprimento de medidas cautelares, entre as quais a instalação de uma tornozeleira eletrônica. Pouco tempo depois, contudo, a jovem rompeu o dispositivo de monitoramento e fugiu, tornando-se foragida pela primeira vez e cortando em definitivo os vínculos remanescentes com a antiga vida de estudante. Meses mais tarde, ela foi recapturada e presa em flagrante, desta vez por porte ilegal de arma de fogo, acompanhada por um comparsa. Novamente beneficiada com o direito à liberdade provisória sob monitoramento eletrônico, ela repetiu exatamente o comportamento anterior: violou o equipamento de rastreamento e desapareceu.

O Cenário Fluminense e as Alianças no Crime Organizado

Buscando escapar do cerco policial em Santa Catarina, Eveline migrou para o estado do Rio de Janeiro, inserindo-se em um contexto de criminalidade substancialmente mais violento. Inicialmente, suas conexões em solo fluminense deram-se com grupos de milicianos. Essa aproximação representou o primeiro contato direto de Eveline com estruturas criminosas de grande porte.

A aliança com as milícias, contudo, foi breve. Eveline mudou de posicionamento e ingressou nas fileiras do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções voltadas ao tráfico de drogas no país. Foi nesse período que ela passou a ser identificada pela alcunha de “Aba Loira”. Dentro das comunidades controladas pela organização, ela galgou posições, ganhando notoriedade e espaço na linha de frente das atividades.

Nas plataformas digitais, Eveline exibia uma postura destemida e de confronto. Ela compartilhava rotineiramente imagens portando armas de fogo, exibia o cotidiano dentro das favelas, proferia desafios abertos às forças de segurança pública e utilizava seus perfis para promover plataformas digitais de jogos de azar. A construção dessa imagem de liderança e respeito no ambiente criminoso acabou sendo interrompida por uma nova e arriscada decisão: “Aba Loira” decidiu romper os laços com o Comando Vermelho e migrar para a facção rival direta, o Terceiro Comando Puro (TCP).

No código de conduta das organizações criminosas, a mudança de pavilhão é sumariamente classificada como traição de alta gravidade. Questionada por um internauta em uma rede social sobre os motivos que a levaram a mudar de facção, Eveline gravou um depoimento em vídeo justificando a decisão. Ela alegou ter sido vítima de agressões e o que chamou de “covardias” por parte de lideranças da Penha e do Batan, mencionando desentendimentos com indivíduos conhecidos como “HN” e “Lázaro da Penha”, a quem acusou de imputar a ela falsas responsabilidades por ocorrências internas e de inventar falsos envolvimentos pessoais. Segundo o relato de Eveline na época, a mudança para o TCP visava encontrar estabilidade e fugir dessas retaliações.

A Escalada de Violência e as Consequências Familiares

As dinâmicas do crime organizado não toleraram a dissidência de Eveline. Como reflexo imediato de sua migração para o TCP, ela se tornou o principal alvo de caça de seus antigos aliados do Comando Vermelho. A retaliação mais severa, no entanto, não a atingiu diretamente em um primeiro momento, mas sim a sua estrutura familiar em Santa Catarina.

A mãe de Eveline, uma mulher que não possuía qualquer histórico de envolvimento com atividades ilícitas e que residia distante, foi assassinada em território catarinense. As investigações apontaram que o homicídio foi perpetrado como uma clara medida de represália e punição psicológica direcionada à conduta de Eveline no Rio de Janeiro. Em resposta à morte da mãe, “Aba Loira” publicou um novo pronunciamento em vídeo. Visivelmente desestabilizada e revoltada, ela classificou a execução como um ato de extrema covardia, ressaltando que sua mãe não mantinha contato frequente com ela e era totalmente alheia à guerra de facções. No vídeo, Eveline afirmou que já havia se vingado das ofensas anteriores, que não buscaria um confronto físico imediato e que deixaria a punição dos responsáveis nas mãos da justiça divina, manifestando o desejo de permanecer distante e em paz na nova facção.

O Desfecho no Terceiro Comando Puro

A suposta trégua ou isolamento pretendido por Eveline não se concretizou. Dias após o sepultamento de sua mãe, a jovem foi executada. O corpo de Eveline Passos Rodrigues foi encontrado em uma área de fácil acesso, apresentando múltiplas marcas de disparos de arma de fogo de grosso calibre, incluindo perfurações por tiros de fuzil concentradas na região da cabeça, configurando uma execução sumária e sem chances de defesa. O abandono do corpo em um local de visibilidade e escoamento rápido foi interpretado pelas autoridades como uma tática para viabilizar a fuga rápida dos executores e evitar embates imediatos com a polícia.

Embora a principal linha de investigação inicial apontasse para uma ação punitiva do Comando Vermelho devido à traição, os desdobramentos das investigações começaram a revelar um panorama de conflitos internos dentro da própria facção que a abrigava, o TCP. Informações de inteligência apontaram que a ordem para a execução de Eveline pode ter partido de lideranças do próprio Terceiro Comando Puro, sendo nominalmente citado o envolvimento de TH da Penha, conhecido no submundo como “Menor Quente”, um dos quadros de forte influência na chefia da facção.

As apurações policiais indicaram que, além do estigma de ter pertencido à facção rival, Eveline passou a enfrentar severos desentendimentos internos, desconfianças e conflitos de ordem pessoal com integrantes do TCP após sua chegada. No universo das facções criminosas, a transição de lado impõe uma vulnerabilidade permanente, e a integridade do indivíduo raramente é garantida, mesmo após a aceitação inicial no novo grupo. O desfecho de Eveline Passos Rodrigues ilustra como a busca por caminhos rápidos fora da legalidade frequentemente resulta na perda completa do controle sobre o próprio destino, culminando em perdas familiares e no encerramento abrupto da própria vida.