A novela passou, mas a memória ficou
Quando “O Clone” estreou na TV Globo, em 1º de outubro de 2001, o Brasil parou diante de uma trama que misturava amor impossível, cultura árabe, clonagem humana, drama familiar e dependência química. A novela, escrita por Gloria Perez, ficou no ar até 14 de junho de 2002 e se transformou em um fenômeno popular, daqueles que atravessam gerações e continuam vivos nas reprises, nas redes sociais e na memória afetiva do público. O elenco oficial reunia nomes como Murilo Benício, Giovanna Antonelli, Juca de Oliveira, Stênio Garcia, Daniela Escobar, Vera Fischer, Reginaldo Faria, Adriana Lessa e muitos outros artistas que ajudaram a construir a força da obra.
Mais de duas décadas depois, rever “O Clone” é também reencontrar artistas que já não estão mais entre nós. Alguns tiveram papéis centrais, outros fizeram participações menores, mas todos deixaram marcas em uma novela que parece ter vencido o tempo. A lista emociona porque mostra algo que a televisão raramente admite: a ficção envelhece conosco, e cada rosto que desaparece da vida real torna a reprise um encontro entre saudade e gratidão.
Françoise Forton, Perry Salles e Mara Manzan: talentos que fizeram diferença
Françoise Forton viveu Simone, assistente do doutor Albieri, personagem ligada ao núcleo científico da história. Era um papel discreto, mas essencial para sustentar o universo da clonagem, justamente o eixo mais ousado da novela. A atriz morreu em janeiro de 2022, aos 64 anos, vítima de câncer, deixando uma carreira construída em diferentes emissoras e gerações de telespectadores.
Perry Salles interpretou Mustafá, personagem ligado ao núcleo árabe da trama. Dono de presença firme e trajetória respeitada, o ator morreu em junho de 2009, aos 70 anos, vítima de câncer de pulmão. Já Mara Manzan, inesquecível pela energia popular de suas personagens, viveu Odete, figura ligada ao universo suburbano e bem-humorado da novela. Ela faleceu em novembro de 2009, aos 57 anos, também em decorrência de câncer de pulmão.

Eduardo Galvão, Beatriz Segall e Sebastião Vasconcelos: três gerações de dramaturgia
Eduardo Galvão apareceu em “O Clone” como Alex, mas sua carreira foi muito além desse papel. Ele se tornou um rosto querido da televisão brasileira, lembrado pela simpatia, pelo talento e pela leveza com que atravessava personagens. O ator morreu em dezembro de 2020, aos 58 anos, por complicações da Covid-19.
Beatriz Segall interpretou Miss Penélope Brown. Para muitos brasileiros, porém, ela será eternamente Odete Roitman, de “Vale Tudo”. Sua participação em “O Clone” foi mais uma demonstração de sua elegância cênica. A atriz morreu em setembro de 2018, aos 92 anos. Sebastião Vasconcelos, que viveu Tio Abdul, representava o lado mais rígido e conservador das tradições familiares retratadas na novela. Ele faleceu em julho de 2013, aos 86 anos, após complicações de saúde.
Ruth de Souza e Léa Garcia: gigantes que abriram caminhos
Ruth de Souza interpretou Dona Mocinha, mãe de Deusa e avó de Léo. Mais do que uma atriz de “O Clone”, Ruth foi uma pioneira. Uma das maiores artistas negras da história do Brasil, ajudou a abrir portas em um país que tantas vezes fechou espaços para talentos como o dela. Ela morreu em julho de 2019, aos 98 anos, vítima de pneumonia.
Léa Garcia, que viveu Tia Lola, também ocupa lugar especial na dramaturgia nacional. Atriz de teatro, cinema e televisão, Léa foi homenageada no Festival de Gramado e morreu em agosto de 2023, aos 90 anos, após sofrer um infarto na cidade gaúcha. Sua presença em “O Clone” é parte de uma trajetória muito maior, marcada por resistência, talento e dignidade artística.
Guilherme Karan, João Carlos Barroso e Eloísa Mafalda: a força dos coadjuvantes inesquecíveis
Guilherme Karan deu vida ao divertido Raposão, dono de ferro-velho e figura típica da galeria de personagens populares da novela. Seu humor físico e expressão única faziam de qualquer cena um acontecimento. Ele morreu em 2016, aos 58 anos, em decorrência da doença de Machado-Joseph, condição rara que o afastou da televisão.
João Carlos Barroso viveu Severino, amigo de Edvaldo. Também dublador e ator de humor, ele faleceu em agosto de 2019, aos 69 anos, após enfrentar um câncer. Eloísa Mafalda, por sua vez, apareceu como Dona Neusa, em uma participação mais discreta, mas carregava consigo uma história gigante na TV, especialmente por papéis em “A Grande Família”, “Roque Santeiro” e “Pedra sobre Pedra”. Ela morreu em maio de 2018, aos 93 anos.
Sérgio Mamberti, Jandira Martini e Mário Lago: quando uma participação vira memória
Sérgio Mamberti interpretou o doutor Vilela, integrante do Conselho de Medicina. Para milhões de brasileiros, ele também será sempre o Tio Victor de “Castelo Rá-Tim-Bum”. O ator morreu em setembro de 2021, aos 82 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos.
Jandira Martini marcou “O Clone” como Zoraide, uma das personagens mais queridas da trama. Confidente de Jade e presença forte na casa de Ali, Zoraide virou sinônimo de afeto, lealdade e sabedoria popular. Jandira morreu em janeiro de 2024, aos 78 anos, após enfrentar câncer de pulmão.
Mário Lago fez participação especial como doutor Molina, cientista que discutia a clonagem humana. Ele morreu em maio de 2002, ainda durante a exibição original da novela, aos 90 anos, vítima de enfisema pulmonar. Foi um daqueles casos em que a vida real atravessou a ficção sem pedir licença.

Caio Junqueira, Elizângela e Fábio Junqueira: partidas que chocaram o público
Caio Junqueira viveu Pedrinho, filho de Lobato. Sua morte, em janeiro de 2019, aos 42 anos, após um grave acidente de carro, causou forte comoção. Ele ainda tinha muito a entregar ao cinema, ao teatro e à televisão.
Elizângela interpretou Noêmia, massagista que circulava pelo núcleo popular da trama. A atriz morreu em novembro de 2023, aos 68 anos, após uma parada cardiorrespiratória. Sua carreira inclui trabalhos marcantes como “Roque Santeiro”, “Pedra sobre Pedra”, “Por Amor”, “O Clone” e “Senhora do Destino”.
Fábio Junqueira viveu Chuvas, personagem simples e espontâneo. O ator morreu em novembro de 2008, aos 52 anos, vítima de câncer no cérebro, deixando uma carreira interrompida cedo demais.
Francisco Cuoco, Juca de Oliveira e Jardel Mello: nomes que completam a saudade
Francisco Cuoco interpretou Padre Matiolli e foi um dos maiores galãs da história da televisão brasileira. Morreu em junho de 2025, aos 91 anos, em São Paulo. A causa registrada foi falência múltipla dos órgãos.
Juca de Oliveira, o inesquecível doutor Albieri, tornou-se uma das almas de “O Clone”. Seu personagem era o homem que, movido por ambição científica e afeto distorcido, desafiava os limites éticos da vida. Juca morreu em março de 2026, aos 91 anos, após pneumonia associada a complicações cardíacas.
Jardel Mello, que participou da trama como médico, também faz parte dessa memória. Ator e diretor, morreu em fevereiro de 2008, aos 70 anos, após infarto durante uma cirurgia.
O adeus que a reprise transforma em homenagem
Rever “O Clone” hoje é mais do que acompanhar Jade, Lucas, Léo, Albieri, Deusa, Mel, Said e Dona Jura. É assistir a um álbum vivo da teledramaturgia brasileira. Cada cena traz rostos que já partiram, mas que continuam ali, preservados pela arte. A morte levou os artistas, mas não levou suas vozes, seus gestos, suas expressões e a emoção que deixaram gravada.
No fim, talvez seja esse o verdadeiro poder da televisão. Ela não impede o tempo de passar, mas consegue guardar um pedaço dele. E “O Clone”, com todos esses nomes que já se foram, permanece como uma prova comovente de que grandes atores nunca desaparecem por completo. Eles apenas mudam de lugar: saem da rotina do presente e entram definitivamente na memória do Brasil.