Quatro anos. Não estamos falando do ciclo de uma Copa do Mundo ou de um mandato presidencial, mas sim do tempo cumulativo que Neymar Júnior, o eterno menino prodígio (agora não tão menino assim), passou frequentando o departamento médico ao invés dos gramados. São quatro anos de cirurgias, muletas, fisioterapia e a frustrante sensação de um talento colossal aprisionado em um corpo que teima em falhar. A estatística é de cair o queixo: 249 jogos perdidos. Desde 2014, o calendário do craque virou um mosaico de laudos médicos; não houve uma única temporada sequer sem que ele precisasse encostar a chuteira por conta de uma lesão. Do tornozelo à virilha, da costela ao joelho, o prontuário de Neymar é praticamente uma enciclopédia da ortopedia esportiva. Mas, afinal, por que o camisa 10 da Seleção Brasileira parece feito de cristal? Seria o estilo de jogo provocador? Falta de preparo físico? Ou apenas um azar cósmico? A Copa de 2026 bate à porta, e a grande questão não é mais “se” Neymar vai jogar, mas sim “quanto” ele vai aguentar.

O Efeito Dominó e o Preço da Ousadia
Para entender a raiz do problema, precisamos olhar para os números e para o estilo de jogo que consagrou e, simultaneamente, puniu Neymar. Desde sua ida para o Barcelona em 2013, as lesões começaram a se acumular. O ápice do drama ocorreu em outubro de 2023: ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) e do menisco do joelho esquerdo. O saldo? 369 dias de molho, o período mais longo de inatividade de sua carreira. E como a medicina esportiva nos ensina, a conta sempre chega. O famoso “efeito dominó” entrou em cena. Para reconstruir o LCA, os cirurgiões costumam utilizar um tendão da própria coxa do atleta (o semitendinoso). O joelho fica novo, mas a coxa, agora desfalcada, precisa trabalhar por dois. Resultado? Neymar voltou aos gramados em outubro de 2024 pelo Al-Hilal e, dois jogos depois, sofreu uma lesão no tendão da coxa.
E a via crucis continuou. De volta ao Santos em março de 2025, novas lesões musculares na coxa se sucederam, culminando em mais problemas no joelho em novembro do mesmo ano. É o corpo tentando compensar o que foi tirado, lutando contra a própria biomecânica. Além da fragilidade estrutural pós-cirúrgica, há o fator estilo de jogo. Neymar é um ímã de faltas. Seu jogo é baseado no drible, no contato, em atrair a marcação e romper linhas. É bonito, é eficiente, mas cobra um pedágio alto. Na Copa de 2018, em apenas cinco jogos, ele sofreu impressionantes 26 faltas (média de mais de cinco pancadas por partida). No Campeonato Brasileiro de 2025, pelo Santos, os números não mentem: 90 faltas sofridas em uma minutagem consideravelmente menor que a dos seus pares. Cada drible é um risco, cada arrancada é um teste de resistência para articulações que já foram costuradas mais vezes do que uma camisa de força.
A Pressão do Retorno e a Surpresa de Ancelotti
O diagnóstico das sucessivas quedas de Neymar não estaria completo sem mencionar a pressão excruciante do calendário e a expectativa de retorno. Sendo o maior artilheiro da história da Seleção e o jogador mais valioso do país, a cobrança para que ele volte “para ontem” é insana. O calendário europeu (especialmente em seus anos de PSG) e as competições de seleções não dão trégua. Voltar antes dos 100% é jogar roleta-russa com a própria saúde. A transferência para o Al-Hilal em 2023, que parecia ser um asilo de luxo para recuperar a forma física longe dos holofotes e da carnificina europeia, transformou-se em um pesadelo rápido com a grave lesão no joelho. O rompimento do contrato e a volta ao Santos em 2025 (onde disputou 14 jogos, marcando 6 gols e dando 6 assistências) foram a tentativa desesperada de um “reset” antes do Mundial.

E então chegamos à Copa de 2026 e à figura de Carlo Ancelotti. O técnico italiano, conhecido por sua pragmática, não convocou Neymar durante as eliminatórias, justificando, corretamente, a falta de ritmo e os dados fisiológicos abaixo do padrão de elite. No entanto, em um plot twist digno de novela, Ancelotti incluiu o craque na lista final. A justificativa do treinador foi cirúrgica, quase poética: “Escolhemos porque pensamos em suas qualidades. Que jogue 1 minuto, 5 minutos, 90 ou apenas bata pênaltis. Temos que focar na qualidade dos minutos”. Ancelotti planeja usar Neymar centralizado, poupando-o das corridas longas pelas pontas, buscando extrair a genialidade nos momentos decisivos.
A convocação é um risco calculado. Neymar na Copa de 2026 não é o protagonista absoluto que correrá 12 quilômetros por partida; ele é o coringa, o talento em doses homeopáticas. A combinação do seu estilo de jogo, do efeito cascata de lesões passadas e da pressão por resultados transformou o camisa 10 em uma incógnita ambulante. A genialidade ainda está lá, inegável e latente, capaz de decidir um jogo em um toque. Mas a pergunta que paira no ar, pesada e angustiante, não é sobre talento. É sobre física, biologia e sorte. Resta saber se o corpo do nosso maior craque vai permitir um último ato de glória no palco principal, ou se a cortina se fechará prematuramente em mais uma dolorosa lesão. A torcida brasileira prende a respiração. E reza.
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