Durante quase 24 horas ininterruptas, um bairro residencial, outrora pacato, foi transformado em um autêntico cenário de guerra. O som ensurdecedor de rajadas de fuzil, o sobrevoo constante de helicópteros e o barulho de sirenes substituíram a rotina dos moradores, que se viram obrigados a trancar suas portas e buscar abrigo no chão de suas próprias casas. Paredes foram cravejadas de balas e uma tensão palpável tomou conta de toda a região. No epicentro desse caos estava Marcelo Johnny Viana Bastos, de 32 anos, nacionalmente e criminalmente conhecido como “Marcelo Picapau”, o foragido mais procurado e temido do Rio Grande do Norte. A caçada incansável das forças de segurança finalmente teve o seu desfecho em uma residência aparentemente comum, marcando o fim de uma era de terror imposta pelo criminoso.
O Perfil de um Criminoso Altamente Perigoso
O apelido “Marcelo Picapau” não ecoava nas ruas e nos noticiários policiais por acaso. Desde maio de 2025, seu nome ocupava o topo da lista de prioridades das forças de segurança pública do Rio Grande do Norte. Sua ficha criminal era extensa, complexa e de extrema gravidade. As investigações o apontavam como uma peça central em operações de assaltos a agências bancárias e ataques orquestrados a carros-fortes. Além dos crimes patrimoniais, Picapau acumulava acusações de crimes contra a vida e participações ativas em ações armadas violentas que se estendiam por diversas partes da região Nordeste.

Segundo os relatórios oficiais da polícia, Marcelo Picapau era alvo de investigações intensas por crimes de grande repercussão e impacto social. Um dos casos mais emblemáticos e recentes que pesavam contra ele foi o latrocínio (roubo seguido de morte) da nutricionista Maria Bruna Assunção, de apenas 27 anos. O crime brutal ocorreu no dia 6 de julho de 2025, quando a jovem foi executada em via pública, na cidade de Ceará-Mirim, durante uma tentativa de assalto. Na ocasião, o veículo em que a vítima estava foi interceptado por criminosos a bordo de uma caminhonete Hilux branca, cujas características coincidiram de forma exata com o veículo posteriormente localizado no esconderijo de Picapau.
Outro crime grave atribuído à sua conta ocorreu em agosto do ano anterior: um ataque audacioso a um carro-forte no estacionamento de um supermercado localizado na zona sul de Natal. A ação criminosa resultou na morte de um vigilante, demonstrando a frieza e a letalidade do grupo comandado por Marcelo. Durante meses, ele demonstrou uma habilidade ímpar para driblar as autoridades, alterando frequentemente de endereço, ocultando rastros e mantendo-se fora do radar policial. No entanto, sua fuga estava com os dias contados, culminando em um confronto explosivo e sem precedentes.
O Esconderijo e o Início do Cerco Policial
O refúgio de Marcelo Picapau e seus comparsas estava localizado na Rua Macapá, número 225, no bairro Portal do Sol, em Extremoz, na região metropolitana de Natal. Tratava-se de uma casa alugada, utilizada como base para proteção e planejamento de suas investidas criminosas. O imóvel havia sido locado há pouco mais de um ano por uma mulher de 50 anos, que alegava residir ali com seu companheiro.
O contrato de locação, segundo a proprietária, era informal, baseado apenas na palavra, e os pagamentos sofriam atrasos constantes. Para disfarçar a movimentação atípica e justificar as ausências, a locatária afirmava estar doente e passando longos períodos na casa de sua mãe. Essa fachada funcionou por um tempo, mascarando a verdadeira natureza do local.
A falsa tranquilidade ruiu na manhã de sábado, 26 de julho de 2025. Por volta das 10 horas, uma equipe da Divisão Especializada em Investigação e Combate ao Crime Organizado (DEICOR) dirigiu-se ao imóvel com o objetivo de cumprir mandados judiciais em aberto. A recepção, contudo, foi hostil e imediata. Mal os agentes se aproximaram, foram recebidos sob pesado fogo cruzado.
Uma mulher, cuja identidade ainda não foi oficialmente confirmada pelas autoridades, tentou barrar a entrada dos policiais utilizando uma pistola. Durante o confronto inicial, ela foi ferida. Surpreendentemente, mesmo alvejada, conseguiu evadir-se do local e buscou socorro em um hospital, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos e veio a óbito horas depois. A partir desse momento, o que fora planejado como uma operação de abordagem escalou rapidamente para uma operação de guerra urbana.
Vídeo:
22 Horas de Guerra Urbana: O Desespero dos Moradores
A resistência armada exigiu uma resposta à altura por parte do Estado. Tropas do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), equipes táticas especializadas e o apoio aéreo do helicóptero da Secretaria de Segurança Pública foram mobilizados para a área. O bairro Portal do Sol tornou-se o palco de uma das ocorrências mais longas e tensas da história recente da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, estendendo-se por mais de 22 horas.
A cena descrita por testemunhas assemelhava-se a um filme de ação. Os estrondos de rajadas de fuzil rasgavam o silêncio, enquanto helicópteros realizavam voos rasantes e viaturas convergiam incessantemente para o perímetro isolado. O temor tomou conta dos moradores. Por questões de segurança, alguns foram evacuados de suas residências, enquanto outros optaram por se trancar, passando a noite deitados no chão, longe das janelas, temendo serem atingidos por balas perdidas. O isolamento policial precisou ser ampliado diversas vezes devido à intensidade da troca de tiros.
A agressividade de Marcelo Picapau era evidente. Entrincheirado no imóvel ao lado de pelo menos dois comparsas fortemente armados, ele resistiu bravamente. Em um ato de desafio extremo, um vídeo gravado por Picapau de dentro da casa e enviado a familiares circulou durante o confronto. Nas imagens, ele ostenta um fuzil de grosso calibre e exibe um botijão de gás, ameaçando causar uma explosão de grandes proporções. “O causador desse evento crítico era muito agressivo. Ele o tempo todo realizava disparos”, relatou uma autoridade policial envolvida na negociação.
O Desfecho Fatal e a Destruição do Esconderijo
O impasse só encontrou seu fim na manhã de domingo, por volta das 8 horas. Após esgotadas todas as possibilidades de negociação e rendição pacífica, o cerco terminou com a eliminação de Marcelo Picapau e dos outros dois criminosos que o acompanhavam. O saldo do confronto foi a morte de todos os suspeitos presentes no interior da residência.
Com o fim dos disparos, a extensão da destruição tornou-se visível e chocante. A casa que serviu de reduto final para os criminosos estava irreconhecível. A fachada, os muros e o interior apresentavam marcas profundas da intensa troca de tiros. O portão parecia uma peneira, as janelas de vidro estilhaçaram-se e as paredes foram perfuradas de ponta a ponta por projéteis de armas de grosso calibre. Cápsulas deflagradas cobriam o chão, misturando-se a móveis destruídos, alimentos espalhados e manchas de sangue.
No quintal da propriedade, a polícia localizou a Hilux branca, também crivada de balas, que ligava diretamente o grupo à morte da nutricionista Maria Bruna. No interior do imóvel, foi apreendido um arsenal considerável: dois fuzis, uma pistola, além de celulares e notebooks que serão periciados em busca de informações sobre a rede criminosa. O Instituto Técnico-Científico de Perícia (ITEP) recolheu mais de 1.000 cápsulas de munições de diferentes calibres, um indicativo claro do volume de fogo empregado durante as 22 horas.
O Impacto na Vizinhança e a Sensação de Alívio
A operação, apesar de bem-sucedida do ponto de vista tático e de eliminação da ameaça, deixou marcas na comunidade. Uma residência vizinha teve seu portão derrubado e danificado durante a movimentação tática dos policiais, e a proprietária anunciou que buscará reparação junto ao Estado. O choque foi generalizado. Muitos vizinhos relataram que jamais suspeitaram que a casa abrigava indivíduos de tão alta periculosidade, acreditando tratar-se de uma família comum até a divulgação do endereço nos noticiários.
Durante a longa operação, seis policiais sofreram ferimentos leves, mas, dada a gravidade do cenário, a ação foi classificada como um sucesso pelas autoridades. A eliminação de Marcelo Picapau e sua quadrilha representou a desarticulação de uma célula criminosa altamente letal e organizada.
Para os moradores do Portal do Sol e de todo o estado do Rio Grande do Norte, o desfecho trouxe uma profunda sensação de alívio. O terror imposto por Marcelo Picapau havia chegado ao fim. No entanto, o episódio serve como um duro lembrete e um alerta sobre as táticas do crime organizado. A capacidade de infiltração dessas redes, que alugam imóveis anonimamente, criam fachadas de normalidade e se escondem em bairros tranquilos enquanto orquestram ações violentas, demonstra que a ameaça pode estar muito mais próxima do que se imagina. A polícia, por sua vez, provou que não há perdão ou trégua para aqueles que decidem impor o terror à sociedade.
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