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A SENTENÇA DO TRIBUNAL INVISÍVEL: QUANDO O ENVOLVIMENTO COM UM POLICIAL (E UM CELULAR ROUBADO) TERMINA NA CADEIRA DOS RÉUS DO TRÁFICO

O Brasil possui um sistema jurídico complexo, burocrático e, frequentemente, letárgico. Códigos, leis, recursos, instâncias, fóruns e varas. Uma engrenagem pesada que, aos olhos de muitos, falha em entregar a tão aclamada celeridade da justiça. Contudo, paralelamente à estrutura do Estado Democrático de Direito, opera uma outra corte, com jurisdição imposta pelo medo, códigos não escritos e sentenças sumárias executadas no mesmo dia do indiciamento. É o infame “Tribunal do Crime”. Um sistema de justiça marginal que não tolera recursos, não aceita habeas corpus e onde a palavra da acusação é, invariavelmente, a sentença final. Hoje, debruçamo-nos sobre dois casos emblemáticos que escancaram a brutalidade e a arbitrariedade dessa lei paralela. Em um cenário, uma noite de festa entre amigas em Salvador (BA) transformou-se em tragédia letal devido a uma suspeita de relacionamento com um policial militar. Em outro, no interior do Amazonas, a arrogância de uma falsa acusação de roubo de celular culminou na humilhação pública e no justiçamento de uma mulher que tentou fazer as vezes de juíza e executora. Duas histórias distintas, separadas por milhares de quilômetros, mas unidas pelo mesmo fio condutor: nas áreas onde o Estado não alcança — ou escolhe não alcançar —, quem dita as regras não veste toga, mas empunha armas de grosso calibre.

Salvador, 2020: O Último Sorriso no Banco de Trás

A geografia da violência no Brasil ensina que certas fronteiras invisíveis não devem ser cruzadas. Em bairros periféricos dominados por facções criminosas, a associação com forças de segurança pública — seja ela familiar, amorosa ou até mesmo casual — é o crime de lesa-pátria supremo. O relacionamento com um policial não é visto como uma escolha pessoal, mas como uma falha de segurança, uma espionagem infiltrada e uma traição imperdoável. Foi exatamente sob a nuvem negra dessa suspeita que cinco jovens soteropolitanas tiveram seus destinos selados em 2020.

A narrativa começa com um registro audiovisual perturbadoramente banal. Um vídeo gravado pelo celular de uma das jovens mostra cinco garotas no banco de trás de um carro de aplicativo. O clima é de pura descontração. Elas cantam, sorriem para a câmera, arrumam o cabelo e celebram a ida para uma festa no bairro de Pernambués. É a juventude pulsando, ignorante da tempestade que se formava no horizonte. O contraste entre aqueles sorrisos gravados e o horror que se desenrolaria minutos depois é o que torna o caso tão aterrador. Nada, absolutamente nada naquela gravação preliminar, indicava a emboscada meticulosamente orquestrada para a qual elas estavam se dirigindo.

A brutalidade do crime organizado reside também na sua capacidade de coerção. Segundo as investigações e relatos que se seguiram, a ida para a tal festa não foi um acaso. Duas das jovens que estavam no carro haviam sido previamente coagidas pelos traficantes da região, recebendo ordens expressas para atrair as outras três para uma área específica de Pernambués, um ponto de venda de drogas conhecido localmente como “boca”. O motivo da emboscada? A facção Bonde do Maluco (BDM), que exercia (e ainda exerce) forte controle territorial na área, havia recebido a informação de que uma das meninas do grupo mantinha um relacionamento amoroso com um soldado da Rondesp (Rondas Especiais), uma das tropas de elite e mais letais da Polícia Militar da Bahia.

Para o BDM, abrigar a namorada de um PM da Rondesp em seu território era assinar um atestado de vulnerabilidade. A ordem, portanto, não era para dialogar; era para “fazer o exemplo”.

O Inquérito do Asfalto: O Tribunal Entra em Sessão

Quando o carro de aplicativo chegou ao destino manipulado, a festa prometida deu lugar a um comitê de recepção armado. O segundo registro de vídeo que circula sobre o caso documenta a transição abrupta da alegria para o pânico absoluto. O “tribunal” já estava em andamento. As jovens foram forçadas a descer do veículo e colocadas contra a parede, cercadas por indivíduos armados. A gravação, feita pelos próprios algozes para comprovar a execução do “serviço” à cúpula da facção, é um festival de terror psicológico.

As vozes masculinas por trás da câmera destilam ódio e certeza. Não há presunção de inocência. “Qual foi aí? Essas […] aí que tá fazendo o jogo da Rondesp, oh, tinha chegado em mim. […] Quem é que tá fazendo o jogo?”, indaga um dos criminosos, apontando o celular como se fosse o cano de uma arma. O desespero das vítimas é palpável. Elas negam, choram, imploram por suas vidas. “Eu não tô não. Pelo amor de Deus. Não tô, velho. Eu nem ando no meio dessas meninas. Me trouxe laranjada (armadilha)”, suplica uma delas, tentando em vão desvencilhar-se da colega acusada. A crueldade chega ao ápice quando o “promotor” do tráfico responde ao choro das meninas classificando as lágrimas como “lágrima de crocodilo” e proferindo a sentença final: “Vou enterrar, viu? Vou enterrar, viu, parceiro. Vou enterrar.”

A condenação no tribunal do crime raramente resulta apenas em medo. Após a sessão de interrogatório, as cinco jovens foram submetidas a uma violenta e covarde sessão de espancamento. Utilizando pedaços pesados de madeira, os membros da facção desferiram golpes generalizados, focando na cabeça e no tronco das vítimas. O objetivo era castigar, marcar e, se possível, silenciar. O grupo criminoso, acreditando ter cumprido seu papel pedagógico, liberou as vítimas, gravemente feridas, na própria comunidade.

A jovem Lucidalva Alves de Lima, de apenas 16 anos, foi a que sofreu as lesões mais severas. Espancada até quase perder a consciência, ela foi socorrida por populares e encaminhada às pressas para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pernambués. Contudo, os traumas cranianos e internos foram fatais. Lucidalva não resistiu aos ferimentos e faleceu poucas horas após dar entrada na unidade hospitalar. O sorriso brilhante gravado no carro de aplicativo foi apagado a pauladas em um beco sujo. As outras jovens sobreviveram, carregando não apenas cicatrizes físicas, mas o trauma indelével de terem sobrevivido ao corredor da morte do BDM.

Quatro anos se passaram desde aquele trágico 2020. Como é praxe em casos envolvendo milícias ou facções em comunidades fechadas pelo código do silêncio, a elucidação completa por parte do Estado é rara. Nomes não são confirmados, testemunhas desaparecem e inquéritos mofam nas gavetas das delegacias de homicídios. O caso de Lucidalva permanece como um alerta sombrio: o flerte com o perigo — ou o simples fato de conhecer alguém que flerta — pode ser o passaporte direto para o necrotério.

Parintins, Amazonas: A Cidadã “De Bem” Encontra o Código Penal da Facção

Se o caso da Bahia ilustra a paranóia territorial das facções, o episódio ocorrido em Parintins, no interior do Amazonas, serve como uma crônica de ironia amarga sobre a justiça com as próprias mãos. A história de como uma mulher tentou ser o sistema de justiça e acabou sentada no banco dos réus do crime organizado é um estudo de caso sobre arrogância e desconhecimento da geografia do poder.

O enredo começa com o sumiço de um smartphone da marca iPhone. A proprietária do aparelho, movida por aquela fúria cega que muitas vezes acomete pessoas que se sentem lesadas, decidiu que não precisava da Polícia Civil. Ela já tinha sua suspeita, já tinha sua sentença e, munida do que acreditava ser sua razão inabalável, partiu para a execução da pena. O alvo? Uma adolescente moradora da cidade. Sem provas materiais, sem flagrante, munida apenas da “certeza” dos corredores de fofoca, a mulher localizou a menor de idade e partiu para a agressão.

O vídeo da agressão é repugnante pela covardia. A mulher adulta encurrala a adolescente, puxa seus cabelos e desfere socos e tapas, enquanto exige a devolução do suposto celular furtado. A adolescente, em pânico, chora e repete insistentemente: “Ai, me ajuda. Não peguei. Vai [procurar] contrato.” A agressora, sentindo-se a própria encarnação da justiça, permitiu que a cena fosse gravada e divulgada, talvez acreditando que sairia como heroína em um grupo de WhatsApp.

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O que ela não calculou foi que a internet é rápida, mas o crime organizado nas pequenas cidades é ainda mais rápido.

Video:

O Pedido de Desculpas Tardia e a Máquina de Tosa

O vídeo da agressão à adolescente gerou uma onda de revolta imediata na comunidade de Parintins. Mas a revolta que importava, aquela que dita as regras do asfalto, veio das lideranças do Comando Vermelho (CV) local, que exercem forte influência na região amazônica. A facção não tolera justiçamento independente em seu território sem sua expressa autorização. Além disso, a agressão injustificada contra uma moradora — especialmente uma adolescente — cria um clima de desordem que afeta a popularidade e os negócios do tráfico. A ordem para capturar a agressora foi expedida imediatamente.

Percebendo que a corda havia apertado o pescoço e que a polícia não seria sua maior preocupação, a mulher tentou usar a mesma ferramenta que causou sua ruína: a câmera do celular. Em um segundo vídeo, completamente diferente do tom arrogante do primeiro, ela aparece com a voz embargada, os olhos arregalados de pavor, gravando um pedido de desculpas público. “Eu queria pedir desculpa da da Amanda, que não foi ela que roubou meu celular, foi outra pessoa. Não passou de mal entendido. Já paguei pelo que eu fiz para eu bater nela e tô muito arrependida”, diz ela, num monólogo que cheira a desespero.

Mas a retratação online não tem valor jurídico no tribunal do tráfico. A facção já havia localizado a mulher. O pedido de desculpas, na verdade, foi gravado sob forte coação. E o “já paguei pelo que fiz” que ela pronuncia no vídeo ganha contornos dramáticos no registro seguinte. Os criminosos não a mataram, mas aplicaram a pena padrão estipulada para mulheres que cometem “falhas” nas comunidades: a humilhação estética e pública.

Nas imagens divulgadas pelos próprios algozes, a mulher que horas antes espancava uma adolescente aparece submissa, sentada enquanto uma máquina de cortar cabelo é passada em sua cabeça. O ato de raspar o cabelo de uma mulher, historicamente utilizado como castigo em guerras e regimes totalitários, é adotado pelas facções brasileiras como uma marca perpétua de humilhação. Careca, despojada de sua dignidade e chorando copiosamente, ela foi forçada a repetir o pedido de desculpas à câmera e à família da vítima, confirmando que o celular nunca esteve com a adolescente.

O caso de Parintins serve como uma fábula moderna, sombria e irônica. A mulher que buscou fazer justiça com as próprias mãos encontrou uma justiça muito mais rápida, muito mais feroz e muito menos interessada em atenuantes do que o sistema legal que ela decidiu ignorar.

A Reflexão Necessária: O Estado e o Vácuo do Poder

Os episódios de Salvador e Parintins não são anomalias no tecido social brasileiro; são a regra em locais onde a ausência crônica do Estado cria vácuos de poder. A natureza abomina o vácuo, e a sociedade também. Onde não há polícia investigativa eficiente, juízes céleres e defensores públicos atuantes, o crime organizado assume o monopólio da força e da jurisdição.

Para a jovem Lucidalva e suas amigas, a sentença foi a morte a pauladas simplesmente por suspeitas de quebrarem a regra de isolamento imposta pelo tráfico contra a polícia. Para a mulher do Amazonas, a pena foi a tosa humilhante por tentar se sobrepor à autoridade local do crime. Nos dois casos, a lição deixada pelas facções é a mesma: no tribunal do crime, o Estado de Direito é apenas uma utopia discutida em salas de aula de Direito. Na vida real das periferias, o martelo do juiz foi trocado pelo cano da pistola, e a Constituição foi substituída pela lei da bala e do silêncio. E enquanto o país continuar fingindo que não vê essa dupla jurisdição, as covas rasas e as cabeças raspadas continuarão a se multiplicar, como notas de rodapé macabras de um Estado que falhou miseravelmente em proteger seus próprios filhos.

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