O torcedor brasileiro tem a memória curta e a ansiedade longa. Quando a bola rola e o Brasil não dá espetáculo, como no recente empate contra o Marrocos, o tribunal das redes sociais e das mesas de bar já exige respostas imediatas. A bola da vez é Endrick. Por que o garoto-prodígio do Palmeiras, já vendido a peso de ouro para o Real Madrid, não entrou em campo quando o ataque brasileiro parecia um deserto de ideias? A resposta, meus amigos, não passa por perseguição, boicote ou falta de talento. A verdade que não te contaram é que o técnico Carlo Ancelotti, um velho lobo do futebol europeu, tem um plano muito bem traçado, e ele não inclui queimar etapas com a principal promessa do nosso futebol.
A paciência é uma virtude que o torcedor brasileiro perdeu há muito tempo, mas que o treinador da Seleção parece ter de sobra. A comparação com o passado é inevitável e didática. Lembram de 1994? Romário voava em campo, mas no banco estava um garoto de 17 anos chamado Ronaldo “Fenômeno”. Todo o Brasil pedia a entrada do moleque, mas Carlos Alberto Parreira foi irredutível. O jovem Ronaldo viu o tetra do banco, amadureceu e, anos depois, tornou-se o dono da camisa 9. A situação de Endrick hoje guarda suas semelhanças. É inegável que, contra o ferrolho defensivo montado por Marrocos, onde apenas Vinícius Júnior conseguia achar alguns espaços na base da individualidade e do drible, a força física e a explosão de Endrick poderiam ter feito a diferença. Poderia ser o jogo dele? Sim. Mas o dia a dia nos treinos, aquele que os holofotes não mostram, é o verdadeiro termômetro.

A realidade atual, fria e objetiva, é que Endrick não é a primeira nem a segunda opção do ataque canarinho neste exato momento. E isso não é demérito. O garoto está pronto, fato. Mas a concorrência é pesada e formada por jogadores que já rodam no futebol europeu em altíssimo nível. Temos Igor Thiago, que foi artilheiro na Inglaterra, e Matheus Cunha, brilhando no Manchester United. O banco de reservas não é um castigo para Endrick; é uma fila de espera natural em uma seleção que, apesar das críticas, ainda exporta talentos aos borbotões. O próprio desenrolar do jogo contra o Marrocos ditou as regras: Ancelotti, um mestre em leitura tática, buscava a vitória, mas a substituição forçada de Bruno Guimarães, que pediu para sair, alterou o panorama e possivelmente queimou a alteração que daria os sonhados minutos a Endrick.
E não pensem que o comandante italiano não sabe o que está fazendo ou que tem algum problema pessoal com o jogador. Pelo contrário. Ancelotti colocou em risco seu prestígio europeu ao assumir a Seleção Brasileira e sabe que a cobrança por uma Copa do Mundo é impiedosa. Ele não vai deixar o moleque no banco por birra. Vai ter a hora do Endrick, assim como vai ter a hora de ajustar o time inteiro. A renovação do contrato de Ancelotti para mais quatro anos antes mesmo do Mundial é a prova cabal de que a CBF, numa rara demonstração de lucidez, decidiu dar tempo e poder de decisão ao técnico. Nós passamos por um rodízio bizarro de cinco treinadores e diretores recentemente; agora, com um projeto de longo prazo garantido até 2030, a blindagem está feita. Se não der certo agora, Ancelotti terá o ciclo completo para moldar uma seleção com a sua cara, onde saberemos de cor os titulares e os reservas, como nos velhos tempos.
Por falar em velhos tempos e grandes nomes, a situação de Neymar também não foge à regra da paciência. Esqueçam o Neymar correndo 90 minutos como um ponta velocista. A realidade física dele hoje não permite isso. A conversa franca nos bastidores revela o novo papel do camisa 10: ele não precisa jogar o jogo inteiro, precisa apenas de 15 minutos em boas condições para resolver um problema. A ordem é não pular etapas na recuperação e não ceder à pressão alucinada da torcida. Se Neymar estiver fisicamente bem para entregar 15 minutos de magia, ele será o maior “reforço” que a Seleção poderia ter. Caso contrário, a responsabilidade cairá no colo da nova geração.
Apesar dos tropeços, o otimismo interno ainda impera. Analisando friamente, o Brasil tem plenas condições técnicas de chegar à final da Copa do Mundo. O que Ancelotti está fazendo nesses primeiros jogos difíceis, como o empate com Marrocos, é mapear a vulnerabilidade da equipe. O meio-campo parece começar a ganhar forma, mas o calcanhar de Aquiles ainda é o sistema defensivo. Acertar a linha de quatro lá atrás é o desafio número um. Quando isso acontecer, e com a promessa de um trabalho contínuo, a Seleção tende a engrenar. O favoritismo mundial segue restrito aos suspeitos de sempre: Brasil, França, Argentina e Portugal.
Falando nos nossos vizinhos e nos europeus, o cenário é de transição. A Argentina vai continuar jogando para Messi, mesmo que o craque jogue menos minutos, pois o toque de um gênio sempre faz a diferença. A ausência de Di María pesa, mas a experiência do título mundial compensa. Em Portugal, o foco é outro: Cristiano Ronaldo, o superatleta obcecado pelo milésimo gol. Portugal vai jogar por ele, não apenas pelos gols, mas porque ele exerce uma liderança positiva sobre os garotos portugueses. Se os jovens correrem por Cristiano, Portugal será uma dor de cabeça imensa. Enquanto isso, o Brasil precisa entender que a jornada para o hexa é uma maratona, e não uma corrida de 100 metros. Endrick terá o seu momento, Ancelotti terá o seu tempo, e nós, torcedores com mais de 30 anos que já vimos de tudo no futebol, precisamos apenas de um pouco de paciência e muita cerveja gelada.
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