Posted in

AÇÃO NO STF PEDE INVESTIGAÇÃO DE LULA E DO PAPA POR SUPOSTA CLONAGEM DE DNA: ENTRE O BIZARRO E O DEBATE PÚBLICO

O Supremo Tribunal Federal (STF) viu-se, recentemente, diante de uma daquelas petições que desafiam a lógica e a compreensão tradicional do direito. Uma ação movida por um advogado brasileiro solicita à Polícia Federal a abertura de uma investigação contra figuras proeminentes do cenário nacional e global, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Papa Leão XIV (um erro crasso, visto que o atual pontífice é Francisco), o ex-presidente Jair Bolsonaro, e personalidades como o ator Leonardo DiCaprio. A acusação? Suposta participação em um esquema internacional de clonagem de DNA. Este caso inusitado reacende debates não apenas sobre o limite do que é apresentado à mais alta corte do país, mas também sobre a proliferação de teorias da conspiração e a forma como o imaginário popular se apropria de mudanças na imagem de figuras públicas.

Tổng thống Brazil Lula da Silva tuyên bố tái tranh cử năm 2026

A Trama da Petição: Clones, Controle Mental e Organizações Secretas

A ação, de autoria do advogado Kelmo Martins Bandeira, apresenta um enredo que mais se assemelha a um roteiro de ficção científica distópica do que a uma peça jurídica. O documento alega a existência de uma organização criminosa que, operando sob os codinomes “666” e “Babilônia”, seria responsável por clonagem de DNA, controle mental, manipulação genética e até mesmo a substituição de pessoas por clones.

A lista de supostos envolvidos na organização e suas vítimas é extensa e eclesiética. Além dos já citados, o advogado inclui a Igreja Católica como instituição, Hunter Biden (filho do presidente dos EUA, Joe Biden), e um rol de artistas e esportistas brasileiros. Nomes como a cantora Cláudia Leitte, os ex-jogadores Ronaldo Fenômeno e Gabigol, o jogador Neymar, o jornalista William Bonner e o general Hamilton Mourão são citados como potenciais vítimas desse esquema.

As alegações chegam a extremos surreais. A petição sustenta que a “maioria dos artistas baianos”, a banda “Turma do Calcinha Preta”, e metade das populações das cidades de São Luís (Maranhão) e Fortaleza (Ceará) estariam afetadas ou envolvidas. O advogado descreve um cenário onde pessoas são “assediadas e violentamente têm sua genética clonada”, sendo posteriormente substituídas por cópias acompanhadas de robôs, assumindo suas identidades e vidas. Além disso, afirma-se que o crime, no Brasil, é majoritariamente praticado por “membros de facção”.

Exemplos ainda mais específicos e controversos são citados na denúncia. O documento relata, sem qualquer respaldo probatório, que o empresário Joesley Batista teria aparecido na cidade de Barreirinhas, no Maranhão, grávido e do sexo feminino. Mais além, a petição sugere que a cantora Marília Mendonça estaria viva, e que a vítima do trágico acidente aéreo de 2021 teria sido um clone. Todo esse “projeto”, segundo a ação, é denominado “Genoma” e baseia-se na decodificação do código genético humano. Até o momento desta reportagem, o caso aguarda a designação de um ministro relator no STF.

A Ausência de Provas e a Recepção da Ação

O ponto central e mais crítico desta ação é a sua absoluta falta de embasamento probatório ou científico. Como notado por diversos observadores, a matéria que noticiou o fato destaca que o advogado “não apresentou provas”. Em um ambiente jurídico sério, a formulação de acusações de tamanha gravidade exige evidências concretas. A admissão, ainda que preliminar, de um processo com essas características no STF levanta questionamentos sobre os filtros de entrada de ações na Corte.

Muitos críticos apontam que o STF, já sobrecarregado com questões constitucionais complexas e de relevância nacional, não deveria despender tempo com petições que beiram o delírio. A “porta aberta” do tribunal para todo tipo de ação é vista por alguns como uma distorção do seu papel original. A recepção de tal denúncia gera espanto e, inevitavelmente, ironia. Como comentado por analistas, em um tom de incredulidade, “o cara foi para o lugar certo, já que só tem louco aqui”. A percepção é de que a Corte acaba por dar palco, mesmo que involuntariamente, a narrativas infundadas.

A Imagem Presidencial e o Combustível para Conspirações

Embora a teoria de clonagem seja prontamente descartada como absurda por mentes racionais, o caso ganha tração na internet devido a um elemento visual explorado pelos teóricos da conspiração: a mudança na aparência física do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ação no STF serviu como estopim para que discussões sobre a fisionomia do presidente ressurgissem com força.

A internet e as redes sociais têm sido férteis em analisar, detalhadamente, imagens do presidente, comparando fotos antigas com atuais. Uma foto específica, mostrando Lula de perfil, tem sido amplamente divulgada para apontar supostas diferenças. Detalhes como a estrutura do nariz, a região dos olhos, a orelha, e até mesmo a “papada” são minuciosamente examinados por internautas em busca de anomalias que justifiquem a tese do sósia ou do clone.

Advertisements

Alguns especialistas em anomalias craniofaciais, embora não endossem a teoria da clonagem, observam que as diferenças na estrutura da face, de fato, existem nas fotografias comparadas. No entanto, é imperativo compreender que o envelhecimento, tratamentos médicos, perda ou ganho de peso, intervenções estéticas e procedimentos como harmonização facial podem alterar significativamente a fisionomia de uma pessoa ao longo dos anos. Lula, um homem de 78 anos, já passou por um tratamento rigoroso contra um câncer de laringe, o que naturalmente deixa marcas e afeta a voz e o semblante.

A busca por jovialidade e a transmissão de uma imagem de saúde e vigor são comuns entre figuras públicas e líderes políticos. É fato que a equipe do presidente busca projetar essa imagem de vitalidade, como demonstrado em vídeos recentes de Lula correndo em uma esteira após uma cirurgia no fêmur. A recuperação aparentemente rápida e a disposição física demonstrada chamaram a atenção, gerando tanto admiração quanto ceticismo. A discrepância entre a imagem física projetada e, por vezes, a fadiga ou lapsos em discursos públicos, alimenta a suspeita daqueles que já possuem uma visão crítica ou conspiratória sobre o presidente. Como argumentam alguns observadores, o presidente busca transmitir uma plenitude que, em certas ocasiões, suas falas e a realidade de sua idade e histórico médico podem não corroborar integralmente.

Estratégias Políticas e a Ridicularização do Adversário

Para além do absurdo da ação judicial, há um debate mais profundo sobre como essas narrativas são utilizadas no xadrez político. Alguns analistas sugerem que a divulgação de histórias bizarras, como a da clonagem de líderes e artistas, pode ter um propósito estratégico. Inspirados nas táticas de ativistas políticos que pregam a ridicularização do oponente, há quem veja na disseminação dessas teorias uma forma de descredibilizar grupos opositores.

A ideia é simples: ao associar a oposição a crenças lunáticas (como Terra plana, reptilianos ou clones presidenciais), cria-se um estigma. Essa associação tática visa marginalizar os críticos, retratando-os como fanáticos irracionais, dificultando o debate político sério e focado em propostas e ações de governo. A petição ao STF, portanto, mesmo sendo um delírio, pode servir aos interesses daqueles que buscam rotular qualquer questionamento à figura presidencial como fruto de insanidade.

A Origem do Mito do Sósia e a Liberdade de Crença

A ideia de um sósia substituindo uma figura de poder não é nova e encontra raízes na mitologia e na literatura. A palavra “sósia”, que usamos corriqueiramente para definir alguém idêntico a outro, tem origem na mitologia grega, mais especificamente na comédia de Plauto, “Anfitrião”. Nela, o deus Júpiter, desejando seduzir a esposa de Anfitrião, assume a forma do marido, enquanto o deus Mercúrio assume a forma do escravo Sósia, criando confusão e hilaridade.

Em tempos modernos, a literatura também explora o desejo de juventude eterna e as aparências ilusórias, como no clássico “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, onde o personagem não envelhece fisicamente, enquanto sua alma e um retrato secreto absorvem as marcas do tempo e do pecado. Essas referências culturais demonstram como a fascinação por duplos e pela preservação da imagem permeia o imaginário humano.

5 Things You Didn't Know About Olivia Wilde | Vogue

No caso atual da política brasileira, a crença em clones ou sósias, por mais absurda que seja do ponto de vista científico, encontra eco em uma parcela da população que está disposta a acreditar no extraordinário. Como apontam comentaristas, se há pessoas que acreditam em viagens no tempo ou em visitantes extraterrestres, haverá quem acredite na teoria da clonagem no STF. As pessoas, em última análise, escolhem em que acreditar, muitas vezes filtrando a realidade através de suas próprias convicções e preconceitos políticos.

Advogado aciona STF com tese de "clonagem humana" envolvendo Lula,  Bolsonaro e o Papa

Ações como a movida no Supremo Tribunal Federal evidenciam os tempos peculiares em que vivemos, onde a fronteira entre o real e o conspiratório é frequentemente borrada nas redes sociais. Enquanto o judiciário lida com o trâmite processual, cabe à sociedade e à imprensa manter o rigor da análise, separando o debate legítimo sobre a saúde e a transparência das figuras públicas das fantasias distópicas que buscam confundir e desinformar. O desafio reside em discutir as ações e a aptidão dos líderes com base na realidade dos fatos, sem sucumbir à espetacularização e às narrativas infundadas.

Se você quiser ver mais casos semelhantes no futuro, siga e ative as notificações da nossa página para não perder nenhuma notícia importante.