Se tem uma coisa que a teledramaturgia brasileira sabe fazer com maestria é um bom e velho novelo de intrigas no século XIX. No capítulo desta sexta-feira (12/06) da edição especial de Além do Tempo, os corredores do casarão dos Castellini ferveram com uma mistura de assédio disfarçado de fofoca, sessões espíritas que dariam inveja a qualquer filme de comédia pastelão, e o peso de um passado que insiste em não ficar enterrado. O episódio de hoje provou que, enquanto os nobres tomam chá com o dedo mindinho levantado, nos bastidores a faca voa e as máscaras caem. Prepare-se, porque a análise do episódio de hoje vem carregada de ironia e de revelações que abalaram as estruturas de Campo Belo.

Roberto, o Don Juan de Taubaté, e o Falso Noivado de Lívia
O episódio já começa com o retrato clássico do mau-caratismo aristocrático. Roberto, nosso “Don Juan” com crise de identidade, vai relatar para a irmã, a peçonhenta Melissa, seus “avanços” com a ingênua Anita. Segundo ele, beijos foram roubados, mas informações úteis sobre o suposto caso de Anita com Felipe? Zero. Melissa, sempre com a empatia de uma porta, acha ótimo, pois conclui que pode confiar na “tonta” da Anita e avisa que tem outro plano em mente.
A conversa de cobras é interrompida pela chegada de Lívia, a noviça rebelde que agora é a criada mais disputada do casarão. Roberto, que não pode ver um rabo de saia sem tentar uma aproximação constrangedora, decide brincar de interrogatório. Ele expõe o passado de Lívia no convento na frente de Melissa, jogando aquele verde clássico de “quase virei padre por sua causa”. Melissa, fingindo demência, tenta despachar a criada, mas Roberto insiste. O foco dele agora é entender como a mocinha trocou o hábito religioso pelo suposto noivado com Pedro. O constrangimento é palpável, e Melissa, num raro momento de sensatez (ou apenas irritação por não ser o centro das atenções), enxota o irmão e manda Lívia sair.
Sozinhos, o nível da conversa entre os irmãos despenca. Roberto elogia Lívia e diz que mudou seu conceito sobre as mulheres locais. Melissa, com seu elitismo cravado na testa, pergunta se ele “baixou tanto o nível” a ponto de se interessar por criadas. A hipocrisia é o prato principal da casa.
E por falar em Lívia, a coitada não tem um minuto de paz. Exausta de limpar o casarão, ela é encurralada por Pedro. O criado, aproveitando-se da situação e da aproximação de Felipe, tasca um beijo forçado em Lívia. Felipe, o galã melancólico, vê a cena, sofre em silêncio e vai embora. Lívia, revoltada com o abuso, empurra Pedro. A justificativa do rapaz? Um show de machismo barato: ele diz que ouviu Roberto sendo indiscreto e quis “provar” que ela tem dono. Lívia não abaixa a cabeça, lembra que o noivado é uma farsa inventada por ele mesmo e deixa claro que sabe se defender sozinha. Um belo chega pra lá que a gente aplaude de pé.
Espiritismo de Taubaté e o Desespero das Solteironas
Se o drama romântico cansa, o núcleo cômico não decepciona. Na casa de Salomé, a caça por um marido nobre atinge níveis sobrenaturais. Salomé, Bianca e Rita decidem fazer uma invocação de espíritos utilizando o velho truque do copo. O objetivo? Uma questão de suma importância cosmológica: descobrir se Bianca vai se casar com Felipe ou com Roberto.
A tensão cresce, as mãos tremem no copo e, de repente, um barulho qualquer na casa as faz entrar em pânico absoluto, crentes de que Satanás em pessoa veio arrastá-las para as profundezas. É o puro suco do desespero matrimonial da época. A cena se repete mais tarde, com Bianca, nervosa, esbarrando na cadeira e quase matando Rita do coração. Salomé, agindo como a médium mais charlatã de Campo Belo, decreta que os espíritos estão na sala. Quando Rita pergunta o que significa se o copo não se mover, Salomé consulta o seu “manual espiritual” e decreta: significa um sonoro “não”. Bianca cai no choro, prevendo o seu futuro como a eterna titia, enquanto Rita, representando todo o público de casa, segura o riso.
A Farsa do Túmulo e o Jogo Sujo dos Irmãos
Enquanto as solteironas brincam de tabuleiro Ouija, a alta sociedade planeja seus golpes. Doroteia, a viúva que acha que a idade é só um número (e está certíssima nisso), procura Bento, o capataz que faz tudo. Doroteia, armada com sua falsidade habitual, elogia a lealdade de Bento à Condessa Vitória. O motivo da bajulação? Ela quer que Bento a leve até o túmulo de Bernardo (o filho supostamente morto da Condessa) para rezar. Ela alega ter planejado algo “tocante” como surpresa para Vitória.
O que Doroteia não sabe (ou finge não saber) é que ela está lidando com cobras criadas. Bento corre para avisar a Condessa sobre a investida. Vitória, com seu veneno matinal, chama Doroteia de “estrupício” e “hipócrita”. Bento avisa que o túmulo cenográfico está apresentável e que a viúva não desconfiará de nada. A Condessa, brilhante em sua maldade, autoriza o passeio, comentando que os “delírios” de Doroteia ajudarão a manter a mentira sobre a morte de Bernardo mais crível para o resto da cidade.
Longe dali, os filhos de Doroteia mostram que a maçã não cai longe da árvore. Roberto tenta arrancar da irmã os motivos de seu mau humor. O diálogo escala rapidamente de uma provocação boba sobre ciúmes para uma lavagem de roupa suja pesadíssima. Roberto acusa Melissa de ter inveja de Lívia, dizendo que Felipe pode se interessar pela criada. Melissa rebate, chamando Lívia de “tosca e sem sal”.
O clima esquenta quando Roberto revela que provocou Felipe durante a esgrima, mencionando os ciúmes que ele sentia da falecida esposa, Berenice. Melissa entra em pânico. O medo dela? Que Felipe descubra que Roberto, o irmão da atual, assediava a falecida Berenice. “Ele jamais se casaria com a irmã de um mau-caráter”, grita ela. Roberto não deixa por menos e esfrega na cara de Melissa que o que ele fez não é nada perto da atitude dela: aproximar-se de Berenice apenas para destruir o casamento da “amiga”. Melissa tenta agredir o irmão, mas ele a empurra e decreta que sente pena de Felipe por estar com uma mulher tão má. O nível de toxidade familiar atingiu níveis nucleares.
Emília, o Mestre e as Lições do Passado
Longe da confusão do casarão, Emília, a verdadeira mãe de Bernardo e vítima das atrocidades da Condessa, vive seu próprio drama. Ela some de casa e vai se refugiar na antiga casinha onde viveu os poucos momentos felizes com o amado. Entre varrer o chão e tocar bandolim, ela é surpreendida por uma figura enigmática: o Mestre (Ariel disfarçado ou apenas uma entidade de luz, dependendo da sua interpretação).
A conversa entre eles é o momento filosófico do capítulo. Emília confessa que espera o retorno do marido há anos e conta que foram separados por uma mulher cruel (nossa adorável Condessa). O Mestre lamenta o destino da pessoa que causou tanto mal e joga a semente da reflexão: a pior dívida é a do passado. Ele aconselha Emília a exercitar o perdão caso a pessoa responsável peça desculpas um dia. “Ou então, os dois continuarão se encontrando por muitas vidas”, avisa ele. A mensagem toca Emília profundamente, e ressoa em todo o tema central da novela: o karma, a reencarnação e as contas que precisam ser pagas.
A ausência de Emília, no entanto, causa pânico em Lívia. Gema, sempre a mensageira do caos, avisa a noviça que sua mãe desapareceu. Lívia entra em desespero, acreditando que a mãe sumiu para castigá-la por estar trabalhando no casarão dos inimigos. Ela decide largar tudo, mas é impedida por Ariel, que promete encontrar Emília e trazer notícias.
A Invasão Inesperada e o Flagrante da Condessa
O episódio se encaminha para o seu clímax com uma mistura de tensão e ingenuidade. Anita, a eterna romântica iludida, confessa para Melissa que está perdidamente apaixonada, mas se recusa a dar o nome do felizardo (para a sorte de Roberto). Melissa, pouco interessada na vida amorosa da criada, quer saber de Felipe. Ao descobrir que ele saiu a cavalo com Roberto, a vilã decide agir. Ignorando solenemente o fato de que o enteado, Alex, está de castigo por ordens de Severa, Melissa pega o menino e sai para cavalgar, mostrando que regras não se aplicam a ela quando o assunto é cercar o noivo.
Mas a cena que vai deixar o espectador sem unhas para o próximo capítulo acontece nas entranhas do casarão. Lívia, que a essa altura já assumiu o papel de Nancy Drew do século XIX, decide aproveitar a aparente calmaria para investigar os segredos da família Castellini. Ela entra furtivamente no quarto da temida Condessa Vitória e começa a vasculhar tudo: abre gavetas, procura debaixo da cama, em busca de qualquer pista que ajude a entender o passado de sua mãe e o paradeiro de seu pai.
A tensão musical sobe. E, claro, a pior coisa que poderia acontecer, acontece. A porta se abre. A Condessa Vitória, com sua postura imperial e olhar de quem condena à forca sem julgamento, flagra Lívia revirando seus pertences. A cena congela com a matriarca perplexa e furiosa, exigindo saber quem deu ordens para a criada estar ali e quem diabos ela pensa que é.
O capítulo 40 de Além do Tempo entregou a farsa social em sua melhor forma. Mostrou que, por trás das rendas e dos discursos nobres, habitam chantagistas, invejosos e vítimas em busca de justiça. Agora, resta a Lívia a difícil tarefa de explicar o inexplicável para a mulher mais perigosa de Campo Belo. E nós? Nós ficamos aqui, aguardando ansiosamente o desenrolar desse flagrante na próxima segunda-feira. Afinal, a dívida do passado está cada vez mais perto de ser cobrada.
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