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ASCENSÃO E QUEDA EM GOIÂNIA: DE “MENDIGATA” DAS REDES SOCIAIS AOS SUBMUNDOS DO TRÁFICO E DA TENTATIVA DE HOMICÍDIO

A Ilusão da Superação e a Vitrine das Redes Sociais

Vivemos na era onde a hiperconexão frequentemente turva a linha entre a realidade crua e a narrativa digital ensaiada. O caso de Iris Sales Duarte, de 34 anos, nacionalmente conhecida pelas alcunhas de “Mendigata de Goiás” ou “Mendigata de Goiânia”, é o retrato perfeito dessa dicotomia moderna. Sua trajetória inicial parecia o roteiro ideal para um conto de superação no século XXI: uma mulher que conheceu o fundo do poço ao viver em situação de rua nas ríspidas calçadas da capital goiana e que, através do carisma e da autoprodução, encontrou redenção na internet. Com vídeos de dublagens e esquetes humorísticas que retratavam, de forma leve e satírica, a dureza da vida nas ruas, Iris conquistou a simpatia de uma audiência massiva, acumulando mais de 400 mil seguidores em suas plataformas digitais.

Aos olhos de seu público, ela era a prova viva de que a internet poderia ser uma ferramenta de mobilidade social. Ela exibia sua nova vida: uma casa própria, viagens ao litoral e a conquista de bens materiais, como a direção de um carro. Ao responder perguntas de seus fãs, Iris justificava sua ida para as ruas como uma fuga de um ambiente familiar altamente conturbado, encontrando acolhimento e uma “verdadeira família” entre aqueles que compartilhavam o asfalto frio. Contudo, as investigações policiais revelariam que o luxo exibido em suas redes sociais era, na verdade, sustentado por uma engrenagem obscura e letal. A influenciadora digital da superação era, segundo as autoridades, uma peça-chave no tabuleiro do narcotráfico goiano.

Mendigata de Goiás' é presa suspeita de mandar matar homem | G1

A Máscara Cai: As Múltiplas Prisões e a 44 como Ponto de Distribuição

O verniz de influenciadora redimida começou a craquelar de forma irreversível em outubro de 2024. A Polícia Militar do Estado de Goiás, conhecida por sua tolerância zero sob a atual gestão estadual, interceptou Iris Sales em uma ação que escancarou a sua verdadeira fonte de renda. O tenente Cleber Martins, da PMGO, foi categórico ao afirmar que Iris não era uma mera espectadora do crime, mas sim um dos principais elos de fornecimento de entorpecentes no centro de Goiânia. “Ela representava boa parte da questão de fornecer drogas para o tráfico e uso na Praça do Trabalhador”, sentenciou o oficial. A ironia macabra não passou despercebida: a mesma rede social que a projetava como uma “pessoa boa que influencia os demais” servia como biombo para esconder o fomento ao vício na mesma praça que outrora fora seu dormitório.

A prisão ocorreu de forma cinematográfica. Duas viaturas da PM que patrulhavam a região avistaram um veículo avançando freneticamente diversos semáforos vermelhos. A perseguição resultou na abordagem e na constatação do ilícito: Iris estava no carro com outros dois homens, acompanhada de 50 porções prontas para a venda da droga mais devastadora das ruas: o crack. Além disso, foram apreendidas quatro facas com resquícios da substância e um aparelho celular que, segundo os militares, era a central de operações para a negociação da droga. Informalmente, o trio teria confessado que abastecia a movimentada região da Avenida 44 e a Praça do Trabalhador.

A defesa da “Mendigata”, operando no limite da ginástica jurídica, argumentou que a influenciadora era apenas uma usuária e que as assustadoras 50 pedras de crack destinavam-se ao “uso pessoal”. A Justiça goiana, embora tenha concedido a soltura inicial, determinou o monitoramento da acusada através de tornozeleira eletrônica. O crime, contudo, tem a peculiar característica de atrair seus adeptos de volta ao abismo. E Iris, ao que tudo indica, não conseguiu se manter longe da beirada. Já colecionando ao menos três prisões por tráfico, ela foi flagrada novamente nesta semana, saindo de um motel no Jardim Novo Mundo, acompanhada de dois indivíduos e portando dezenas de porções de crack e cocaína.

Da Venda à Violência: A Tentativa de Execução e o Ciclo da Criminalidade

Como frequentemente ocorre no ecossistema do tráfico, a violência letal caminha de mãos dadas com a venda de narcóticos. Em novembro de 2025, a gravidade das acusações contra Iris Sales Duarte escalou drasticamente. A influenciadora digital e seu companheiro foram presos novamente, desta vez, sob a pesada suspeita de tentativa de homicídio. O enredo é sombrio e cruelmente irônico: a mulher que fez fama romantizando sua sobrevivência nas ruas teria encomendado a morte de um homem que atualmente vivia na mesma situação de extrema vulnerabilidade social que ela um dia ocupou.

O crime ocorreu na Avenida Paranaíba, no coração de Goiânia. A motivação, segundo as diligências da Polícia Militar e da Polícia Civil, seria o acerto de contas provocado por um desentendimento comercial ligado à disputa por território e venda de entorpecentes. Iris teria ordenado que seu parceiro “cuidasse do problema”. A vítima, que por muito pouco não engrossou as estatísticas de homicídio da capital, sobreviveu ao ataque. Foi de seu leito no hospital que ele prestou o depoimento crucial que permitiu às autoridades identificarem formalmente Iris e seu companheiro como os mandantes e executores da barbárie. O casal agora soma ao currículo, além do tráfico e da associação criminosa, passagens por roubo, receptação e tentativa de homicídio. A máscara da influenciadora caiu definitivamente, revelando o rosto de uma operadora do crime organizado.

O Contexto Goiano e a Conexão com o Comando Vermelho

A audácia de Iris Sales chama atenção, principalmente quando analisada sob a ótica da segurança pública do Estado de Goiás. É sabido nacionalmente que a política de segurança do estado, sob o rigor das forças policiais como o Comando de Operações de Divisas (COD) e a Patrulha Rural, tem asfixiado sistematicamente a criminalidade. As taxas de homicídios desabaram, os roubos a banco no estilo “novo cangaço” foram praticamente erradicados e o latrocínio sofreu uma queda vertiginosa de quase 95%. No entanto, o narcotráfico e a lavagem de dinheiro, muitas vezes operados de forma silenciosa e “lavados” através de empresas de fachada ou de influenciadores digitais, continuam sendo um desafio hercúleo.

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O caso da “Mendigata” não é um fato isolado no uso das redes sociais como cortina de fumaça para a lavagem de dinheiro das facções em Goiás. A história de Paola Bastos Neiva, de 28 anos, é o perfeito espelho desse fenômeno. Também goianiense, Paola ostentava tutoriais de beleza e uma vida de alto luxo na internet. Contudo, seu envolvimento com o indivíduo conhecido como Walter, vulgo “Quebra Caixote”, um operador financeiro e logístico do Comando Vermelho (CV) no estado, revelou uma estrutura criminosa muito mais sofisticada.

Em apenas três meses, as contas bancárias da “influenciadora de beleza” movimentaram a assombrosa quantia de três milhões de reais, recursos oriundos do tráfico de drogas que necessitavam ser esquentados. A Justiça, ciente da magnitude do esquema, bloqueou mais de 15 milhões e meio de reais em bens do casal e da mãe de Walter, que também atuava na engrenagem de lavagem. Além dos crimes financeiros, Paola e Walter são foragidos da Justiça, com mandados de prisão expedidos por suspeita de envolvimento em execuções no estado do Mato Grosso, fruto da sanguinária guerra de facções. Segundo a inteligência policial, o casal estaria atualmente refugiado na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, de onde continuariam a comandar as finanças do CV em Goiás.

Os casos de Iris, a “Mendigata”, e Paola, a esteticista do tráfico, são sintomas de uma nova era criminal. O crime organizado percebeu que a melhor forma de esconder dinheiro sujo é colocá-lo sob os holofotes, mascarado como sucesso repentino e influência digital. Resta agora às autoridades não apenas prender, mas descapitalizar essas organizações, provando que a internet pode até garantir fama efêmera, mas não é capaz de imunizar ninguém contra a mão pesada da lei.

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