Posted in

Câmeras de segurança foram decisivas para desvendar o caso Carlinha, em Santos, e levar à condenação de Renato Mariano

Um domingo que terminou em tragédia

Na tarde de 29 de janeiro de 2017, Carla Roberta Barbosa, conhecida como Carlinha, saiu para brincar perto de casa, no Centro de Santos, litoral de São Paulo. Tinha apenas 9 anos. Avisou a mãe que iria até o prédio de uma amiga, na mesma rua, a poucos metros de onde morava. Era uma cena comum em áreas populares: crianças na calçada, bicicletas, vizinhos se conhecendo, a rotina simples de uma infância que deveria ser protegida.

Horas depois, a menina desapareceu. A família começou as buscas por conta própria, andando pelas ruas próximas, perguntando a moradores e tentando reconstruir os últimos passos da criança. No início da noite, veio a notícia que nenhuma mãe deveria receber: o corpo de uma menina havia sido encontrado na Rua da Constituição. A confirmação posterior destruiu qualquer esperança. Era Carlinha.

O caso chocou Santos pela brutalidade e pela idade da vítima. Mais tarde, Renato Mariano seria apontado como autor do crime, denunciado pelo Ministério Público e condenado pelo Tribunal do Júri.

Acusado de estuprar e matar menina de 9 anos é condenado a 52 anos de  prisão em SP | G1

O primeiro relato e as dúvidas da investigação

No começo, a polícia ouviu uma amiga de Carla, também criança, que relatou uma possível abordagem por pessoas em um carro preto. O depoimento causou impacto imediato, mas os investigadores encontraram inconsistências. A hipótese de sequestro por desconhecidos em veículo passou a ser tratada com cautela.

Esse detalhe mostra um ponto essencial em investigações delicadas: emoção não pode comandar o inquérito. A dor da família exigia resposta rápida, mas a resposta precisava vir de prova, não de suposição. E foi justamente aí que as câmeras de segurança começaram a desmontar uma versão e revelar outra.

As imagens que mudaram o rumo do caso

A Polícia Civil analisou imagens de 45 câmeras de monitoramento, entre equipamentos de empresas privadas e da prefeitura. Segundo reportagem do Costa Norte, 12 cenas foram consideradas fundamentais para a identificação do autor. As gravações mostraram Carlinha andando de bicicleta e permitiram reconstituir seu trajeto no Centro de Santos.

O detalhe mais marcante foi a presença de um cachorro chamado Pirata. O animal, que vivia no mesmo cortiço que Carla, apareceu acompanhando a menina até o imóvel onde Renato Mariano morava. Minutos depois, o cão surgiu retornando sozinho. Parece detalhe pequeno, quase banal. Mas investigação séria muitas vezes nasce disso: uma sombra, um trajeto, um animal voltando sem a criança que acompanhava.

As câmeras também registraram o deslocamento de um carrinho usado depois no transporte do corpo. A partir dessas imagens, os investigadores conseguiram ligar o trajeto da vítima ao local onde Renato vivia e ao ponto em que o corpo foi abandonado. O que antes era uma rua cheia de versões passou a ter uma sequência visual.

Acusado confessa que estuprou e matou garota em SP com 'requintes de  crueldade'; defesa abandona o caso | G1

O cortiço, o luminol e a prova biológica

Com o avanço da apuração, a polícia chegou ao cômodo de Renato Mariano, ex-presidiário e dependente químico, que vivia em um cortiço na Rua Amador Bueno, a cerca de 120 metros da casa de Carla. Segundo a investigação divulgada à época, o crime ocorreu nesse local.

Após ser ouvido, Renato teria retirado pertences do quarto e limpado o ambiente. Mas a tentativa de apagar vestígios esbarrou na ciência. O teste de luminol apontou presença de sangue no colchão e em pontos do cômodo. Materiais recolhidos foram encaminhados para análise pericial. Posteriormente, o material genético encontrado no corpo da vítima foi considerado compatível com o perfil de Renato, enquanto suspeitas contra outros homens foram descartadas.

É aqui que o caso deixa de ser apenas uma narrativa policial e vira uma aula dura sobre investigação moderna: testemunhos ajudam, mas imagem, perícia e DNA sustentam a verdade quando a mentira tenta se esconder.

A fuga e a prisão meses depois

Renato Mariano fugiu quando percebeu que estava prestes a ser identificado. A Justiça decretou sua prisão temporária em março de 2017 e, depois, a preventiva. O governo paulista chegou a oferecer recompensa de R$ 50 mil por informações sobre seu paradeiro, valor máximo previsto pelo programa estadual de recompensa, segundo a cobertura do caso.

Ele foi preso quase sete meses depois, em 21 de agosto de 2017, em Campinas, em uma instituição de reabilitação para dependentes químicos. Inicialmente, tentou se passar por outra pessoa, mas acabou reconhecido. No primeiro momento, admitiu parte dos fatos, mas tentou atribuir a morte a um terceiro. A versão não convenceu diante do conjunto de provas.

O julgamento e a condenação

O caso chegou ao Tribunal do Júri de Santos em 31 de julho de 2019. A imprensa local registrou que Renato Mariano foi acusado pela morte de Carla Roberta Barbosa, de 9 anos, crime ocorrido em 2017.

Após cerca de oito horas de julgamento, ele foi condenado a 52 anos e 6 meses de prisão, em regime inicial fechado. A sentença reconheceu crimes como homicídio qualificado, estupro de vulnerável e ocultação de cadáver. A pena foi noticiada por veículos como A Tribuna e Vade News, que acompanharam o desfecho do júri.

No plenário, Renato confessou os crimes, embora tenha declarado arrependimento. Para a acusação, porém, o conjunto de provas demonstrava plena consciência dos atos e extrema crueldade. A defesa tentou argumentar que ele apresentava transtornos mentais e dependência química, mas laudo psiquiátrico apontou que ele tinha capacidade de compreender o caráter ilícito da conduta.

A dor que não termina com a sentença

Do lado de fora do fórum, familiares de Carla acompanharam o julgamento com emoção. Para a família, a condenação trouxe uma resposta judicial, mas não devolveu a menina. Nenhuma pena devolve uma infância interrompida. Nenhuma sentença repara o quarto vazio, a bicicleta sem dona, a mãe que precisou abandonar a casa tomada por lembranças.

O caso Carlinha permanece como uma ferida na memória de Santos. Também permanece como alerta: áreas vulneráveis precisam de proteção real, crianças precisam de rede de cuidado, e investigações precisam de estrutura, tecnologia e persistência.

No fim, foram as imagens de segurança — frias, silenciosas, sem emoção — que ajudaram a contar a verdade que o assassino tentou esconder. Elas mostraram o caminho de Carlinha, desmontaram falsas pistas, revelaram o papel decisivo do trajeto até o cortiço e permitiram que a Justiça alcançasse Renato Mariano. A câmera não chorou, não gritou e não pediu justiça. Apenas registrou. E, naquele caso, registrar foi o primeiro passo para condenar.