No submundo do crime, a ilusão de controle é frequentemente o primeiro passo para a cova. Adriana Miranda Paz, que o interior do Pará conheceu pelo sugestivo e fatídico apelido de “Drica do Pó”, descobriu essa máxima da pior maneira possível. Aos 21 anos, a jovem mãe que tentou navegar as águas turvas do Comando Vermelho (CV) em Igarapé-Miri — a “Capital Mundial do Açaí” que se tornou refém do tráfico — foi julgada, condenada e executada por um sistema judicial paralelo que não admite recursos: o Tribunal do Crime. A sua morte, filmada com a frieza de quem abate gado e distribuída pelo WhatsApp como um troféu macabro, não é apenas o fim de uma trajetória trágica, mas um raio-x contundente da falência do Estado nas regiões mais profundas do Brasil.

A Engrenagem da Ilusão: De “Favores” ao Tráfico Direto
A história de Adriana é assustadoramente banal dentro do contexto da criminalidade brasileira. Ela não era uma “baronesa do pó”, não ostentava fuzis em bailes funk e não comandava rotas de distribuição. Por trás das fotos sorridentes com a filha pequena nas redes sociais, escondia-se uma mulher que, segundo os relatos, começou fazendo “pequenos favores” para conhecidos. No dicionário do crime, favores são o eufemismo para a cooptação. Levar um recado aqui, entregar um pacote suspeito acolá. Quando Adriana percebeu, os pacotes já não eram favores, mas sim cocaína pura.
A sua simpatia e a aparente inocência eram seus maiores ativos. Em uma cidade onde o olhar da polícia, por mais escasso que seja, tenta identificar o estereótipo do traficante, a jovem comunicativa circulava sem levantar suspeitas. Tornou-se uma “mula” eficiente, uma peça útil na engrenagem. O apelido “Drica do Pó” não foi uma coroa que ela exigiu, mas um rótulo que o crime lhe colou e que se espalhou pelas ruas poeirentas de Igarapé-Miri. No entanto, no jogo das facções, a utilidade é efêmera. Quando você aceita ser peça do tabuleiro, deve estar ciente de que o jogador pode sacrificá-lo a qualquer momento. Adriana acreditou que sua posição periférica a protegeria. Ela pensou que estava apenas “fazendo um corre”, sem entender que a assinatura do contrato com o tráfico é feita com o próprio sangue.
O Desaparecimento e o Silêncio Ensucedor de Igarapé-Miri
A ilusão de segurança de Adriana desmoronou no dia 20 de março de 2021. Vista pela última vez por volta das 13 horas, acompanhada de uma amiga, ela simplesmente evaporou do mapa. O pai, desesperado, recorreu à Polícia Civil para registrar o desaparecimento, mas em Igarapé-Miri, a lei do silêncio operava com a precisão de um relógio suíço. A cidade, que exporta toneladas de açaí para o mundo, também importa e convive com um medo paralisante.
Com um efetivo policial irrisório na época — cerca de sete agentes para proteger mais de 60 mil habitantes —, a população sabia que falar com a polícia era assinar a própria sentença de morte. Quando alguém desaparece sob os domínios do Comando Vermelho, a vizinhança sabe que não se trata de um sequestro comum, mas de uma convocação ao Tribunal do Crime. O sumiço de “Drica do Pó” era o prelúdio de um espetáculo de horrores que logo seria transmitido em rede estadual, nos grupos de mensagens da cidade.
O Tribunal do Crime: A Defesa Desesperada Diante da Lente Macabra
O horror ganhou forma, som e cor poucos dias depois. Os vídeos que começaram a vazar nos grupos de WhatsApp mostram a realidade nua e crua do poder paralelo. Nas imagens, Adriana é o retrato do pânico. Cercada por homens fortemente armados, ela é submetida a um interrogatório que não buscava a verdade, mas apenas a confissão que justificasse a execução já decidida.
O pano de fundo da condenação de Drica não era apenas a venda de drogas, mas o pecado capital do crime organizado: a suspeita de traição. Os algozes queriam o paradeiro de Dion Rodriguez, vulgo “Didi”, um ex-integrante do Comando Vermelho que havia rasgado a camisa da facção, formado uma milícia própria e passado a ser caçado implacavelmente. Adriana foi acusada de duplo delito: ter “sumido” com parte de uma carga de entorpecentes da facção e de manter contato com o dissidente Didi.
No vídeo, a voz embargada e a fala atropelada de Adriana são a trilha sonora de seu próprio desespero. Ela tenta explicar seu modus operandi, sua função minúscula no esquema, como se a irrelevância fosse um salvo-conduto. “A primeira vez que eu fui deixar a massa [droga], só deixei a massa, dobrei a moto e vim embora. Ele tava lá na frente com uma bicuda [fuzil]… uma arma muito grande… Já falaram que era pra mim deixar a droga aqui no ramal, que eu não quis ir… Eu tenho morro de medo disso [sic].”
A defesa dela era a de uma funcionária de baixo escalão tentando explicar aos diretores da empresa que não tinha acesso às contas bancárias. Mas para o Tribunal do Crime, a dúvida é suficiente para a condenação. A acusação de ligação com Didi, comprovada ou não (a polícia concluiu depois que não havia provas de nenhuma das duas acusações contra ela), foi o martelo batido. O crime organizado não opera com o princípio do “in dubio pro reo” (na dúvida, a favor do réu). No tribunal do tráfico, a dúvida mata.
Os Últimos Segundos: A Execução e o Cinismo do Abate
Os segundos finais da gravação de “Drica do Pó” são um monumento à banalidade do mal, que deve ser analisado não pelo sensacionalismo, mas para entender a psicologia de seus executores. Encurralada, ciente do seu fim iminente, ela implora: “Por favor, deixa eu falar… Eu tô com muito medo… Tá lá no ramal, se vocês quiserem eu levo…”.
A resposta de um dos executores, interrompendo as súplicas, é de uma frieza burocrática: “Vai morrer agora. Fala, fala”. Segue-se um disparo na cabeça. A vida de Adriana é apagada. Um segundo tiro é ouvido, mas é rapidamente repreendido por um dos comparsas, não por misericórdia, mas por uma questão tática: “Para não fazer barulho”. A execução não foi um ato de fúria descontrolada, foi uma operação de limpeza de rotina, executada com a precisão letal e a despreocupação de quem sabe que o Estado não está ali para intervir. O corpo foi descartado em uma área de mata, no mesmo bairro onde ela desapareceu, como lixo reciclável do tráfico.
Foi através deste vídeo repulsivo que o pai de Adriana descobriu o destino da filha. Não houve um policial batendo à sua porta, não houve um legista para preparar a família. Houve a notificação de um aplicativo de mensagens e a tela de um celular exibindo o fim de sua linhagem.
As Consequências: O Fim de ‘Didi’ e a Herança do Medo
A repercussão nacional do caso forçou as engrenagens enferrujadas da segurança pública a se moverem. A Polícia Civil, mesmo operando em condições de penúria estrutural, abriu o inquérito e confirmou o que as ruas já sabiam: “Drica do Pó” foi executada por ordem do Comando Vermelho. O relatório final apontou que as suspeitas que a levaram à morte (roubo de carga e ligação com a facção rival) jamais foram materializadas em provas concretas. Ela morreu por uma paranóia do sistema que ajudou a alimentar.
O desfecho do enredo paralelo que causou a morte de Adriana ocorreu meses depois. Didi, o líder dissidente que era o alvo principal da facção, encontrou seu próprio fim, mas pelas mãos do Estado. Ele foi morto durante uma operação policial em Igarapé-Miri, ação esta que resultou na prisão de dois suspeitos, a morte de outros dois em confronto e a apreensão de um arsenal que incluía fuzis — a tal “bicuda” que Drica relatou em seu interrogatório —, confirmando o forte armamento que circulava livremente na pacata cidade do interior.
Contudo, a eliminação de um líder dissidente e a apreensão de algumas armas não devolveram a paz a Igarapé-Miri. A filha de Adriana, agora órfã, foi entregue aos cuidados de uma tia professora, uma mulher que agora tenta criar a menina longe das sombras que engoliram a mãe. O último registro oficial de Adriana, uma foto em dezembro de 2020, abraçada à filha, contrasta de forma brutal com a última imagem que o mundo terá dela: encurralada em uma área de mata, aguardando o tiro fatal.
A Morbidez Pedagógica do Terror
Hoje, a morte de “Drica do Pó” é usada pela própria facção como uma ferramenta pedagógica do terror. Moradores relatam que o vídeo da execução ainda é armazenado em celulares e compartilhado para lembrar aos desavisados sobre o preço da desobediência, da traição ou da simples suspeita.
Adriana Miranda Paz pensou que sua simpatia e sua utilidade periférica eram um escudo contra a barbárie. Ela acreditou na fábula de que é possível entrar na piscina do crime sem se molhar de sangue. Pagou com a vida por essa arrogância juvenil. Sua história não deve ser romantizada, mas exposta com clareza clínica. Ela é o reflexo de um Brasil que terceirizou o monopólio da força para traficantes e de uma geração que, iludida pelo dinheiro fácil e pela falsa sensação de pertencimento, aceita as regras de um tribunal onde o juiz é o executor e a pena é sempre capital. Em Igarapé-Miri, como em tantas outras cidades pelo país, a execução de Drica do Pó provou, mais uma vez, que quem tenta enganar a facção, cedo ou tarde, acaba virando estatística e vídeo viral nas mãos do próprio algoz.