A reunião que contrariou os profetas do desastre
O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington, nasceu cercado por expectativa, desconfiança e torcida organizada contra. De um lado, adversários do governo apostavam em constrangimento, submissão e derrota diplomática. Do outro, o Planalto tentava vender prudência, diálogo e pragmatismo. No fim, quem acabou surpreendendo foi Miriam Leitão, voz tradicional da análise econômica na Globo, ao afirmar que a reunião superou expectativas e levou o diálogo entre Brasil e Estados Unidos a outro patamar. A própria comentarista resumiu a leitura em suas redes: o encontro foi melhor do que se previa.
A frase tem peso justamente porque não veio de militante, assessor ou marqueteiro palaciano. Veio de Miriam Leitão, jornalista que já fez críticas duras a Lula, ao PT e a governos de diferentes matizes. Quando uma analista desse perfil reconhece avanço, a narrativa do “fiasco completo” perde força. E perde não por paixão partidária, mas por um dado básico: a conversa durou mais de três horas, teve temas estratégicos e abriu frentes de negociação.

Três horas de conversa e um grupo de trabalho sobre tarifas
A reunião entre Lula e Trump ocorreu em 7 de maio de 2026, na Casa Branca, e tratou de comércio, tarifas, segurança, minerais críticos e crime organizado. A Reuters informou que o encontro durou cerca de três horas e que, ao final, Lula relatou progresso na reconstrução das relações entre Brasil e Estados Unidos, abaladas por tarifas e disputas políticas ligadas ao caso Bolsonaro.
O ponto mais concreto foi a criação de um grupo de trabalho para resolver a disputa tarifária em até 30 dias. A Agência Brasil registrou que Lula e Trump orientaram ministros dos dois países a tratar das tarifas dentro desse prazo. A reunião, que incluiu almoço oferecido por Trump, durou mais de três horas, embora a expectativa inicial fosse de uma agenda mais curta.
Em diplomacia, isso importa. Líderes não estendem uma conversa por horas quando a reunião desanda completamente. Podem sair sem acordo final, podem manter divergências, podem evitar coletiva conjunta. Mas três horas de conversa entre dois presidentes ideologicamente opostos não são exatamente o retrato de portas batidas e pratos quebrados.
A tarifa que virou teste de soberania
A questão tarifária era o grande elefante na sala. Trump havia imposto tarifas duras contra produtos brasileiros em meio a tensões políticas envolvendo Jair Bolsonaro e o Judiciário brasileiro. A Associated Press informou que o encontro tinha como pano de fundo justamente a tentativa de discutir tarifas, crime organizado e temas econômicos, depois de um período de atrito entre os dois países.
Lula levou à mesa um argumento simples: se os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil, não faz sentido aplicar ao país a lógica de retaliação usada contra nações com as quais Washington tem déficit. Essa foi uma das divergências técnicas discutidas. Segundo a narrativa apresentada por Miriam Leitão e outros analistas, quando os números não bateram, Lula não transformou a diferença em duelo de vaidades. Propôs cálculo, grupo de trabalho e prazo. Em outras palavras: saiu da briga retórica e entrou na negociação.
É aí que a crítica bolsonarista sofre um tropeço. Para quem esperava Lula acuado, a imagem de um presidente brasileiro defendendo números, soberania e indústria nacional é difícil de encaixar no roteiro da humilhação.
Terras raras, minerais críticos e a nova disputa global
Outro tema central foi o dos minerais críticos, incluindo terras raras, essenciais para tecnologias avançadas, defesa, energia limpa, eletrônicos, radares e equipamentos estratégicos. Antes do encontro, a Câmara aprovou texto-base de uma política nacional para minerais críticos e estratégicos, com criação de fundo garantidor e mecanismos de incentivo ao setor. A proposta prevê fundo com aporte inicial de R$ 2 bilhões, podendo chegar a R$ 5 bilhões, além de conselho para definir prioridades.
A CNN Brasil informou que Lula acenou aos Estados Unidos em terras raras, mas insistiu na soberania brasileira. Ou seja, o recado foi: o Brasil aceita investimento, tecnologia e parceria, mas não quer repetir o velho papel colonial de exportar riqueza bruta e comprar de volta produto sofisticado a preço de ouro.
Esse ponto é crucial. O Brasil não quer apenas abrir buraco, retirar mineral e enviar navio embora. Quer refino, indústria, emprego, fábrica, transferência tecnológica e agregação de valor. Para um país que passou décadas discutindo desindustrialização, essa é uma pauta de Estado, não apenas de governo.
A oposição tentou vender derrota; os fatos ficaram mais teimosos
Bolsonaristas tentaram enquadrar o encontro como fracasso. Disseram que Lula teria se curvado, que Trump o teria desprezado, que nada sairia dali. Mas a realidade foi menos conveniente: houve reunião longa, pauta ampla, grupo de trabalho, discussão sobre tarifas e abertura para investimentos em minerais críticos.
A ausência de coletiva conjunta no Salão Oval alimentou críticas. A Reuters registrou que os presidentes estavam previstos para falar com jornalistas juntos, mas isso não ocorreu; Lula depois explicou que pediu para falar com a imprensa após a reunião, e não antes.
Dá para criticar a escolha? Sim. Comunicação política também importa. Mas transformar esse ponto em prova de fracasso total exige ignorar o restante da agenda. É como olhar para um jantar inteiro e dizer que tudo deu errado porque a sobremesa atrasou.
Miriam Leitão e o incômodo na bolha anti-Lula
A fala de Miriam Leitão incomodou porque furou a bolha. A comentarista não disse que Lula voltou com um tratado histórico assinado, nem que todas as tensões desapareceram. Disse algo mais simples e mais devastador para a oposição: a reunião foi melhor do que se esperava.
E foi mesmo. O encontro começou sob expectativa de choque e terminou com os dois governos trabalhando em canais técnicos. Trump, segundo a Reuters, chamou a reunião de “muito boa” e indicou novas conversas.
Para quem passou dias apostando na queda de Lula em Washington, a avaliação positiva da Globo virou uma espécie de traição narrativa. A ironia é saborosa: quando a análise da emissora é ruim para Lula, vira “prova técnica”; quando reconhece avanço, vira “bloqueio furado”.

Vitória diplomática não é espetáculo, é resultado
A grande vitória de Lula não foi teatral. Não foi um abraço cinematográfico, nem uma foto para santinho eleitoral. Foi mais discreta: impedir que a pauta brasileira fosse engolida pela agenda de Trump. Lula levou tarifas, minerais críticos, soberania industrial, crime organizado e relações comerciais para a mesa. Saiu com prazos, grupos de trabalho e um canal reaberto.
Isso não resolve tudo. As tarifas ainda dependem de negociação. A disputa por terras raras exigirá cuidado ambiental, social e estratégico. A relação com Trump continuará imprevisível. Mas diplomacia não é conto de fadas. É xadrez.
No fim, Miriam Leitão apenas verbalizou o que os fatos começaram a mostrar: Lula não saiu esmagado de Washington. Saiu com margem de negociação. Para um presidente enfrentando oposição interna, tensão externa e guerra de narrativas, isso não é pouco. É exatamente por isso que doeu tanto em quem apostava no fracasso.