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O ÁLIBI PERFEITO DESMORONA EM ALTA DEFINIÇÃO: A MULHER QUE ENCOMENDOU A MORTE DO MARIDO E ESQUECEU DAS CÂMERAS DE SEGURANÇA

Em tempos onde a tecnologia vigia cada esquina, o crime perfeito tornou-se uma raridade reservada à ficção. Na vida real, a tentativa de encobrir um assassinato muitas vezes esbarra na própria ingenuidade dos criminosos. Foi exatamente o que aconteceu em Luís Eduardo Magalhães, no pacato oeste baiano, onde um roteiro digno de novela policial foi desvendado não pela astúcia de um investigador, mas por um detalhe trivial: as câmeras de segurança. A protagonista dessa trama é Angélica da Silva Goldin, de 30 anos, acusada de arquitetar a execução do próprio marido, José Vicente de Cerqueira Sena, de 40 anos, enquanto ele tomava banho. A história, que inicialmente se desenhou como um trágico assalto com reféns, rapidamente se revelou um enredo macabro de traição, ganância e vaidade extrema, tudo devidamente registrado em alta definição.

A FRIEZA DO PLANO E O “PEQUENO” ERRO DE CÁLCULO

A narrativa de Angélica era, à primeira vista, a de uma viúva inconsolável. Após o crime, ela ligou para a polícia aos prantos, relatando uma invasão domiciliar, um assalto violento que culminou na morte de seu parceiro de nove anos, pai de seus dois filhos pequenos. A encenação foi tão convincente que a família da vítima, ao chegar para o velório vinda de Feira de Santana, prontificou-se a contratar um advogado para libertá-la, acreditando que ela havia sido presa injustamente como testemunha. A reviravolta, no entanto, foi tão rápida quanto o planejamento do crime foi falho. Angélica havia, de fato, tentado apagar seus rastros. Ela cortou os fios do sistema de segurança, acreditando que isso seria suficiente para destruir as evidências visuais. E, para completar o espetáculo da imprudência, entregou o próprio celular à polícia, crente de que as imagens gravadas no aparelho haviam sido definitivamente apagadas. O que ela não previu, ou talvez desconhecesse, era a existência de baterias internas nas câmeras. A tecnologia, implacável, continuou operando, registrando a frieza absoluta com que ela abriu o portão de casa para a entrada do algoz. Nas imagens, vê-se claramente Angélica indicando o banheiro onde o marido, vulnerável e desarmado, tomava banho. Não há sinais de pânico, de coação ou de qualquer arma apontada para suas costas, como ela viria a alegar posteriormente. A cena é de uma naturalidade estarrecedora: a esposa guia o matador ao alvo e, em seguida, retira-se para o quarto onde dormiam seus filhos de 3 e 4 anos.

O RASTRO DO DINHEIRO E A CONTRATAÇÃO DOS PISTOLEIROS

Se o circuito interno de TV forneceu a prova irrefutável da autoria intelectual, a trilha financeira escancarou a premeditação. A investigação apontou que a trama foi tecida com a ajuda de uma velha conhecida: Micaele, uma amiga que Angélica fizera anos antes, na fila de visita íntima de um presídio. Micaele não agiu por solidariedade; cobrou R$ 1.000 para intermediar o contato com dois matadores de aluguel vindos do Piauí. O valor combinado para a vida de José Vicente foi estabelecido em R$ 18.000, pagos de forma parcelada. Dois dias antes da execução, em 4 de setembro, a prova cabal da contratação foi gerada pela própria mandante: um Pix no valor de R$ 3.000, transferido nominalmente para Wesley Santos da Paixão Pereira, um dos executores do crime. A modernidade, que facilita transações financeiras, também deixa rastros indeléveis, algo que Angélica parece ter subestimado por completo. O “pagamento da morte” em ambiente virtual, com recibo e nome do destinatário, reforça a tese de um planejamento torpe e desleixado, distante da mente de uma vítima acossada e encurralada, como ela tentaria pintar mais tarde.

Video:

AS DUAS FACES DE UM CASAMENTO: AGRESSÃO OU GANÂNCIA?

Confrontada com as provas em vídeo e com o comprovante do Pix, Angélica alterou drasticamente sua estratégia de defesa. A esposa que encomendou a morte do marido e chorava o assalto transmudou-se para a vítima de um relacionamento abusivo. Em seu interrogatório, ela pintou José Vicente não como o comerciante trabalhador e dedicado que a família descrevia, mas como um agressor contumaz. Relatou ameaças de morte diárias, violências físicas e verbais, e uma ocasião estarrecedora em que ele teria ameaçado jogá-la em uma churrasqueira em chamas. Angélica alegou que as agressões ocorriam até mesmo na intimidade, sob a mira de uma arma de fogo que ele possuía em casa — fato, aliás, admitido por ela, que confirmou o passado criminal do marido por assalto à mão armada e sua atuação como agiota. A defesa da acusada sustenta que ela agiu em desespero, por temor à própria vida, e que, na noite anterior ao crime, teria até mesmo tentado cancelar o “serviço”. A versão apresentada é a de que os matadores, já em Luís Eduardo Magalhães, teriam se recusado a perder a viagem, ameaçando matar toda a família caso ela não cooperasse. Contudo, essa narrativa esbarra na ausência de registros policiais anteriores de violência doméstica, além das já mencionadas imagens das câmeras, que não captam qualquer tipo de coação no momento da entrada do pistoleiro.

Em contraposição à versão de Angélica, surge a motivação financeira atrelada à vaidade. O estopim das brigas, segundo a família da vítima, teria sido uma caminhonete Hilux herdada pelo falecido pai da acusada. José Vicente havia negociado a venda do veículo e recebido um adiantamento de R$ 30.000. O problema foi o destino dado a esse montante: festas, viagens, roupas e a manutenção de uma vida “instagramável”, com a estética de uma mulher de sucesso. A obsessão por projetar um padrão de vida elevado colidiu com a realidade quando se descobriu que o veículo estava bloqueado judicialmente por questões de partilha, e a venda não poderia ser concretizada. A pressão financeira se instalou, o dinheiro já havia sido gasto em frivolidades, e as discussões tornaram-se intensas. A tese da acusação é de que a morte de José Vicente seria a solução final não apenas para o passivo financeiro, mas também para garantir o recebimento de pensão e a posse de eventuais bens remanescentes, sustentando o estilo de vida que Angélica almejava.

O TRIBUNAL DO JÚRI: ENTRE A VÍTIMA E A ALGOZ

Atualmente, Angélica da Silva Goldin aguarda julgamento em prisão preventiva. Os executores confessaram o crime, e Micaele, a intermediária, nega participação consciente, alegando não saber a finalidade do dinheiro repassado. O caso, agora nas mãos da Justiça, apresenta um desafio complexo para o Tribunal do Júri. A pena pode chegar a 40 anos de reclusão. Os jurados terão que decidir qual história é a verdadeira: a da investigação policial, corroborada por imagens e transferências bancárias, que desenha uma mulher movida por ganância e vaidade, capaz de encomendar a morte do companheiro para sustentar um estilo de vida insustentável; ou a versão da defesa, que a apresenta como uma mulher violentada, levada ao extremo do desespero por um agiota abusivo, e que agiu sob coação na hora derradeira. O que se tem de concreto, contudo, é a crueza dos fatos gravados em vídeo. A tecnologia desmascarou o álibi, revelando que a maior testemunha ocular do crime foi a mesma que a mandante esqueceu de desligar. A ironia reside na tragédia de uma mulher que tentou apagar o próprio rastro e, no afã de encobrir o horror, assinou a sua própria sentença.

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