Senhoras e senhores, preparem a pipoca, ajustem o sofá e coloquem o senso crítico em modo de alerta, pois a teledramaturgia brasileira acaba de ganhar um novo capítulo de peso. Nesta segunda-feira (18), o horário nobre foi invadido pela estreia de ‘Quem Ama Cuida’, a mais nova e aguardada aposta de Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Se há algo que Carrasco domina com maestria é a alquimia dos folhetins: misture tragédia, ascensão social, vingança, uma pitada de absurdo e uma galeria de vilões caricatos e hipnotizantes, e você tem a receita do sucesso. E desta vez, a responsabilidade de carregar essa trama titânica recai sobre os ombros de Leticia Colin, que, finalmente, assume o merecido posto de protagonista absoluta na faixa das nove. Se o título soa como um conselho afetuoso, não se enganem. O que veremos é um autêntico banho de sangue emocional, onde o amor é apenas a desculpa mais bonita para justificar a guerra por poder, herança e redenção. Mas afinal, quem é quem nesse tabuleiro de xadrez humano? Venham comigo, pois eu vou detalhar cada peça desse jogo implacável.
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O Calvário de Adriana: A Heroína Forjada no Barro e na Injustiça O epicentro do nosso furacão narrativo chama-se Adriana. Leticia Colin encarna uma fisioterapeuta de origem periférica, cujo sobrenome poderia muito bem ser “resiliência”. Criada em um cenário de privações na Grande São Paulo, Adriana é o pilar de uma família composta por sua mãe, a zelosa e leoa Elisa (Isabela Garcia); seu avô, o incorruptível vendedor de flores Otoniel (Tony Ramos); e seu irmão mais novo, o sonhador Mau Mau (João Victor Gonçalves). O primeiro baque na vida da protagonista é digno das tragédias gregas. No exato dia em que perde o emprego na clínica onde trabalhava, uma enchente avassaladora varre do mapa a casa de sua família e leva consigo a vida de seu marido, Carlos (Jesuíta Barbosa), bem no dia em que o casal celebrava o primeiro aniversário de união. O luto e a destruição empurram a família de Adriana para a dura realidade de um abrigo público. É no caos que o destino, sempre irônico, desenha sua salvação. No abrigo, Adriana conhece Pedro (Chay Suede), um advogado idealista e voluntário cujo encontro se revela arrebatador, uma verdadeira conexão de almas. O amor entre eles desabrocha no desespero, mas é temporariamente sufocado pela roda implacável do roteiro.
O Acordo Dourado e o Pacto com o Diabo A ascensão de Adriana começa quando ela consegue uma vaga como fisioterapeuta particular na suntuosa mansão de Arthur Brandão (Antonio Fagundes), um milionário do ramo joalheiro. Arthur é um homem que construiu seu império do nada, mas que perdeu a própria humanidade no processo. Amargurado pela viuvez e pelo desaparecimento inexplicável de seu filho esquista, Heitor (Renato Góes), o patriarca vive cercado por uma matilha de parentes que aguardam seu último suspiro para abocanhar a fortuna. O encontro entre a empatia de Adriana e a misantropia de Arthur gera uma amizade improvável. E é aqui que a trama dá seu grande salto: cansado do assédio dos abutres familiares, Arthur propõe a Adriana um casamento de conveniência, um “contrato de amizade” que blindaria a sua fortuna, garantindo a ela um futuro, mas privando seus parentes sanguessugas da herança. O que parecia a redenção financeira da heroína transforma-se em seu pesadelo definitivo. No dia da cerimônia, Arthur é brutalmente assassinado. Os abutres não perdoam: a intrusa é apontada como a mentora do crime. Condenada injustamente, Adriana passa seis tenebrosos anos encarcerada. O corte de tempo nos devolve uma protagonista endurecida, focada em duas missões: reconquistar Pedro, o homem que ela foi forçada a abandonar, e esmagar, um a um, os verdadeiros algozes que arquitetaram a sua ruína.
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Os Abutres de Plantão: A Família Brandão e a Disputa Sangrenta Toda grande novela exige vilões com V maiúsculo, e a família Brandão promete entregar o suprassumo da ganância. Liderando a oposição a Adriana está Pilar (Isabel Teixeira), a irmã de Arthur. Isabel Teixeira, com sua capacidade de transitar entre o cômico e o assustador, promete uma antagonista de época. Pilar é invejosa, ressentida e vive encostada na mesada do irmão, acreditando que foi preterida nos negócios pelo simples fato de ser mulher. Mãe de três filhos com personalidades diametralmente opostas, Pilar não tem escrúpulos. A sua principal comparsa, no entanto, é a cunhada Silvana (Belize Pombal). Viúva de Belmiro, o irmão falecido de Arthur, Silvana é uma intelectual arrogante que se une a Pilar em um complô venenoso para destruir Adriana e resguardar a herança para seu filho, Tiago (Gui Ferraz), um vendedor frustrado que trabalha sob os desmandos do tio milionário. Do outro lado da balança familiar, temos Ulisses (Alexandre Borges), o típico bon vivant fracassado. Ele sustenta a fachada de empresário bem-sucedido para agradar sua fútil e alpinista esposa, Fábia (Flávia Alessandra). Na verdade, Ulisses sangra os cofres do irmão para manter o luxo de Fábia. E o núcleo ainda abriga as filhas de Pilar: a impulsiva e obsessiva Brigitte (Tata Werneck), que promete trazer o alívio cômico através de relacionamentos disfuncionais, a designer Ingrid (Agatha Moreira) e o médico certinho Rafael (João Vitor Silva).
Dramas Ocultos e Paixões Proibidas na Alta Roda O conflito não reside apenas na disputa testamentária. O triângulo central ganha complexidade no núcleo de Pedro. O advogado idealista vive em guerra aberta com o pai, Ademir (Dan Stulbach), um criminalista poderoso de ética elástica e escrúpulos duvidosos. Ademir joga sujo nos tribunais e menospreza a carreira autônoma do filho. A esposa de Ademir, Eudora/Dora (Mariana Ximenes), é a madrasta de Pedro e a eterna apaziguadora do lar. Contudo, Eudora esconde sob a máscara de boa esposa um desejo latente. O retorno do sobrinho de Ademir, André (Henrique Barreira), ao Brasil, desencadeará uma paixão avassaladora e incestuosa entre tia e sobrinho, prometendo as cenas mais tórridas da novela. E como se não bastasse, Fábia, a esposa perua de Ulisses, também não ficará restrita aos mimos do marido falido; ela viverá um romance explosivo com o professor de dança Patrick (Igor Rickli).
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A Redenção Atrás das Grades e o Exército das Sombras A jornada de Adriana na prisão não será solitária. Carrasco introduz o núcleo das aliadas improváveis. Nancy (Jeniffer Nascimento) é a clássica vítima das circunstâncias, condenada injustamente pela morte do ex-marido abusivo e odiada pelo próprio filho, Camilo (Antonio Caramelo). Apoiada pelo irmão Laurentino (Alan Rocha) e por Joel (Ricardo Teodoro), o talentoso chef do restaurante da família, Nancy será a bússola moral de Adriana no cárcere. Outra peça chave é Lyris (Pri Helena), que se envolverá no submundo dos cassinos clandestinos com Ulisses. Juntas, essas três mulheres, recém-egressas do sistema penal, formarão uma aliança velada e letal. Unidas pelo estigma da cadeia e pela sede de justiça, elas prometem transformar a vingança de Adriana contra a família Brandão em um espetáculo de táticas e retaliações.
Conclusão: O Que Esperar do Folhetim? ‘Quem Ama Cuida’ tem todos os ingredientes de um clássico instantâneo. Walcyr Carrasco não reinventa a roda, mas acelera o motor da emoção. A promessa é de ganchos frenéticos, vilanias exacerbadas e atuações memoráveis. Leticia Colin tem a faca e o queijo na mão para se consolidar como uma das atrizes mais importantes de sua geração, enquanto a trupe de antagonistas, liderada por Fagundes e Isabel Teixeira, tem material de sobra para provocar ódio e adoração no público. A trama de vingança que se desdobra do núcleo pobre até a elite milionária de São Paulo garante que a audiência será fisgada já nas primeiras semanas. A nós, espectadores e críticos, resta acompanhar, julgar e, claro, vibrar a cada golpe dado por Adriana. Afinal, no horário nobre, a justiça pode ser cega, mas a vingança, essa tem que ser espetacular. E que vença a melhor estratégia!