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O Triunfo do Absurdo em ‘Quem Ama Cuida’: A Cartada Cruel de Pilar e a Prisão Injusta de Otoniel e Elisa

A teledramaturgia brasileira tem o dom peculiar de transformar o cotidiano em um campo de batalha onde as misérias humanas são expostas em praça pública. Na atual fase da novela “Quem ama cuida”, o público adulto, já calejado pelas idas e vindas dos folhetins, depara-se com um espetáculo de vilania rasteira que transcende o mero entretenimento para flertar com a crítica social. O núcleo central desta semana gira em torno de uma das armas mais antigas da aristocracia decadente: a criminalização da pobreza. O ápice desse arco dramático ocorre quando Pilar, em um ato de puro revanchismo e covardia, orquestra a prisão do idoso Otoniel e de Elisa, jogando-os em uma cela sob a falsa acusação de invasão de domicílio.

Para compreender a magnitude dessa ignomínia, é preciso retroceder no tabuleiro de xadrez arquitetado pelos roteiristas. A mansão em disputa, outrora um patrimônio familiar compartilhado, pertence agora exclusivamente a Artur Brandão, que comprou a parte dos irmãos e, num ato de rara lucidez e generosidade, cedeu o imóvel para abrigar a família de Adriana, sua fisioterapeuta, após estes perderem tudo em uma enchente. No entanto, a lógica da empatia é um idioma que Pilar desconhece. Movida por uma ganância visceral e alarmada pelas fofocas de sua filha Ingrid, a vilã decide fazer uma visita ao antigo reduto da família. O que se desenrola a seguir é um barraco de proporções épicas, um verdadeiro choque de classes orquestrado com a sutileza de um rolo compressor.

Ao chegar à residência, Pilar depara-se com a família de Adriana instalada. A reação da vilã é um compêndio de preconceito e histeria. Ela exige saber o que “aquelas pessoas” fazem ali, destilando seu veneno elitista. Ulisses, o capanga moral de Pilar, tenta endossar o coro depreciativo chamando Adriana de “aproveitadora” e Artur de “velhote”. Contudo, Otoniel, o avô de língua afiada e espinha ereta, não se intimida com a carteirada social. Ele devolve a hostilidade na mesma moeda, exigindo saber quem é a senhora de nariz em pé que invade a casa alheia. Adriana, demonstrando uma dignidade que falta aos seus algozes, tenta explicar que estão ali com o consentimento do proprietário legal. A resposta de Pilar é taxá-los de indigentes e usurpadores, afirmando que Artur perdeu o juízo. É nesse instante que a protagonista, esgotando seu estoque de paciência, abre a porta e expulsa Pilar do imóvel. A audácia de uma trabalhadora expulsando uma herdeira mimada de sua antiga propriedade é o estopim para a vingança desproporcional que se segue.

Incapaz de aceitar a derrota moral, Pilar ruma para a mansão de Artur, acompanhada de seu exército particular, Ulisses e Silvana, para cobrar satisfações. A recepção de Artur é catártica: ele arremessa um vaso na cabeça de Ulisses, provando fisicamente que o “velhote” ainda possui vigor suficiente para defender aqueles que ama. Humilhada e sem argumentos legais ou morais, Pilar apela para o esgoto da covardia. No sábado, ela aciona a polícia e formaliza uma denúncia falsa de invasão de propriedade.

A cena da prisão é, sem dúvida, um dos momentos mais revoltantes e bem construídos da trama. Otoniel e Elisa, cidadãos de bem que apenas aceitaram o teto oferecido por um amigo após uma tragédia climática, são tratados como criminosos de alta periculosidade e levados algemados para a delegacia. A imagem de um idoso e uma mãe de família sendo colocados no camburão, presenciada pelo caçula Mau, escancara a facilidade com que o sistema penal pode ser instrumentalizado por quem tem sobrenome e influência.

O desespero toma conta de Adriana, que aciona imediatamente Pedro, o advogado e paladino da justiça que, convenientemente, nutre uma paixão inabalável por ela. A pressa de Pedro em socorrer a amada desperta a desconfiança de Bruna, a atual namorada que sustenta a farsa de um “golpe da barriga”. Mas a urgência ignora os dramas conjugais. Na delegacia, Pedro depara-se com a truculência burocrática do Estado. Ele tenta argumentar com o delegado que a ação policial foi arbitrária e ilegal, uma vez que não houve flagrante delito de invasão e os acusados afirmam ser hóspedes. O delegado, numa postura inflexível que reflete o corporativismo estatal, declara que só liberará os inocentes mediante a presença física do proprietário do imóvel para desfazer o “mal-entendido”. A ironia dramática atinge seu pico aqui: Pedro ainda desconhece que o benfeitor misterioso e dono da casa é Artur, seu próprio padrinho.

A resolução deste imbróglio jurídico ocorre quando o próprio Artur, debilitado mas resiliente, comparece à delegacia e atesta a veracidade da história de Adriana, garantindo a liberdade de Otoniel e Elisa. No entanto, o alívio é efêmero, pois o roteiro não permite que os personagens respirem. A teia de intrigas se adensa com a revelação de que o advogado corrupto Ademir, uma peça paralela mas crucial nesse tabuleiro, recebe ameaças telefônicas de uma figura misteriosa. Essa mesma mão invisível será a responsável por causar um grave acidente de trânsito envolvendo Pedro no capítulo de segunda-feira, adicionando um elemento de suspense policial à narrativa.

E por falar em segunda-feira, as maquinações de Pilar atingem o ápice da criminalidade. Determinada a colocar as mãos na fortuna do irmão a qualquer custo, ela arquiteta um plano para interditar Artur judicialmente. Pouco antes da audiência que definiria a sanidade do patriarca, a venenosa sabota o suco do irmão com uma substância incapacitante. O objetivo é claro: fazer com que Artur pareça senil e confuso diante do juiz. A frieza com que Pilar executa o envenenamento demonstra que a personagem cruzou a linha da simples arrogância para adentrar o terreno da psicopatia. Contudo, a farsa é descoberta por Adriana. Em um contragolpe majestoso, Artur, tomado pela revolta, decide atingir Pilar onde mais dói: no bolso e no ego. Ele demite Ingrid, a filha da vilã, da joalheria da família, instaurando uma guerra civil irrevogável no clã Brandão.

Em meio a esse turbilhão de traições, acidentes e prisões arbitrárias, o roteiro ainda encontra espaço para uma guinada romântica e um toque de realismo fantástico que serve como um bizarro alívio cômico. O acidente de Pedro acaba servindo como o catalisador para a descoberta da falsa gravidez de Bruna. Livre das amarras de um relacionamento construído sobre mentiras, Pedro acredita que finalmente tem o caminho livre para conquistar o coração de Adriana. O que o jovem advogado não prevê é o cronograma de seu padrinho: na mesma segunda-feira, movido pela gratidão e pelo amor genuíno, Artur pede Adriana em casamento, formando um triângulo amoroso que promete inflamar os próximos capítulos.

Para coroar a semana de absurdos, o folhetim presenteia o público com uma subtrama surreal envolvendo o recém-liberto Otoniel. Tentando retomar a dignidade através do trabalho, o idoso começa a vender rosas em uma banca localizada, estrategicamente, em frente a um cemitério. É lá que ele é abordado por uma misteriosa mulher vestida de preto. A atmosfera gótica se instaura quando Otoniel percebe que a cliente é assustadoramente pálida e silenciosa. O choque de realidade (ou a falta dele) acontece na hora do pagamento: a figura sombria entrega um envelope contendo apenas notas antigas do tempo do Cruzeiro, moeda extinta há décadas no Brasil.

Enéas, que estava por perto, jura não ter visto mulher alguma, levando Otoniel a questionar a própria sanidade. Com a acidez que lhe é peculiar, o avô de Adriana decreta que, seja alma penada ou não, a mulher é uma caloteira de marca maior. Enéas, em tom de deboche, sugere que a morte veio buscar Otoniel, mas ele estava ocupado demais conferindo o troco. Essa pitada de humor folclórico, típica das narrativas brasileiras, quebra a tensão do núcleo principal e nos lembra por que amamos odiar as novelas.

Em suma, a semana de “Quem ama cuida” entrega um coquetel explosivo de luta de classes, corrupção, triângulos amorosos e até manifestações paranormais. Pilar consolida-se como uma das vilãs mais detestáveis e eficientes da atualidade, utilizando a força policial como seu braço armado pessoal. A prisão de Otoniel e Elisa não é apenas um recurso narrativo para gerar pena; é uma denúncia incisiva de como o sistema funciona para quem está na base da pirâmide. Resta agora aguardar as repercussões do pedido de casamento de Artur, a recuperação de Pedro e os próximos passos de uma vilã que, claramente, não aceita a derrota. A fofoca, como bem sabemos, está apenas começando.