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Playboy da Pedreira: da classe média ao terror armado das favelas do Rio

O jovem de Laranjeiras que escolheu o caminho mais caro

Celso Pinheiro Pimenta, conhecido como Playboy da Pedreira, entrou para a crônica policial do Rio de Janeiro como uma dessas figuras que desmontam explicações fáceis. Não nasceu na miséria absoluta, não cresceu sem qualquer estrutura e não veio de uma infância marcada apenas pela falta. Segundo o relato apresentado no vídeo, ele nasceu em 1982, foi criado em Laranjeiras, bairro tradicional da zona sul carioca, estudou em escola particular e vinha de uma família de classe média, com um pai que mantinha banca de jornal em uma época em que esse tipo de negócio ainda sustentava casa e rotina.

A trajetória, porém, não seguiu o roteiro esperado. Ainda adolescente, Celso passou a praticar furtos e roubos, primeiro na zona sul, depois em operações mais ousadas. O apelido “Playboy” nasceu justamente desse contraste incômodo: um jovem com aparência, fala e origem social distantes do estereótipo clássico do crime organizado, mas que escolheu mergulhar nele com método, ambição e uma disposição crescente para a violência.

A ironia é brutal. Enquanto muitos jovens pobres são empurrados para a criminalidade por um ambiente de abandono, Playboy parecia ter mais portas abertas do que a média. Fechou uma por uma. E fez isso sem cerimônia.

DOSSIÊ PLAYBOY DA PEDREIRA: DA CLASSE MÉDIA AO MORRO

A ligação com Pedro Dom e a entrada no crime de alto padrão

Um ponto decisivo da trajetória de Playboy foi sua aproximação com Pedro Machado Lomba Neto, o Pedro Dom, outro personagem famoso do submundo carioca, também vindo da classe média. A quadrilha de Pedro Dom ficou conhecida por assaltar condomínios de luxo e residências de alto padrão, aproveitando justamente a aparência dos integrantes: jovens brancos, bem vestidos, que não despertavam a mesma suspeita que a segurança privada costumava direcionar aos pobres.

Foi nesse ambiente que Playboy subiu de patamar. Saiu dos crimes menores e entrou em um circuito mais lucrativo, mais arriscado e mais próximo de facções armadas. Segundo o material narrativo, a quadrilha se refugiava na Rocinha após ações, o que teria facilitado o contato de Celso com lideranças do tráfico.

Depois da morte de Pedro Dom, em 2005, Playboy seguiu outro caminho. Não virou exemplo de recuperação. Virou peça mais perigosa no tabuleiro.

Da Aeronáutica ao arsenal ilegal

Um dos capítulos mais graves da história envolve a passagem de Celso pela Aeronáutica. Segundo relatos reproduzidos no vídeo, ele conseguiu entrar na carreira militar, teve contato formal com armamento e treinamento, mas acabou acusado de subtrair fuzis do estoque militar.

A versão mais repetida sobre sua trajetória aponta que ele roubou armas e as levou para grupos criminosos. O número exato varia conforme as narrativas, mas o ponto central permanece: o crime organizado ganhou alguém que não apenas carregava arma, mas entendia de armamento, hierarquia, deslocamento e confronto.

No Rio de Janeiro, onde facção não é apenas quadrilha, mas estrutura territorial, esse tipo de conhecimento vale mais do que bravata. Playboy deixou de ser apenas assaltante e passou a ser visto como operador de guerra.

A ascensão na ADA e o domínio na Pedreira

Depois de circular por diferentes territórios, Playboy se consolidou no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, ligado à facção Amigos dos Amigos. A partir dali, seu nome passou a ser associado a disputas territoriais, invasões, roubos de carga, provocações contra rivais e confrontos em áreas da zona norte.

A fama cresceu em duas frentes. De um lado, a polícia o apontava como liderança violenta, responsável por organizar ações armadas e manter poder sobre comunidades. De outro, parte dos moradores e admiradores o descrevia como “carismático”, “generoso” ou “respeitado”. Essa duplicidade é velha conhecida do Rio: o mesmo homem que para o Estado era alvo prioritário podia, dentro de certos territórios, cultivar imagem de protetor. Não é santidade. É controle social com verniz de simpatia.

O vídeo lembra que Playboy virou personagem de áudios, músicas e relatos populares, muitos deles ainda circulando nas redes. A máquina do mito funcionava: provocação, ostentação, suposta coragem e um discurso calculado para parecer “código de conduta”. Conveniente, claro. Criminoso adora falar em código quando o código favorece o próprio poder.

Rivalidades, provocações e guerra por território

A rivalidade com Luiz Cláudio Machado, o Marreta, do Comando Vermelho, marcou uma das fases mais tensas de sua trajetória. O conflito envolvia disputas por morros, provocações públicas, áudios ameaçadores e episódios de ostentação armada em áreas dominadas por grupos rivais.

Um dos episódios mais simbólicos foi a invasão de uma vila olímpica em Honório Gurgel, onde homens armados posaram em uma piscina. Reportagem exibida pelo Jornal Nacional à época apontou que a polícia atribuía o grupo a Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy. A cena parecia roteiro ruim de filme de ação, mas era Rio de Janeiro em carne viva: equipamento público, fuzis, facção e deboche.

Também ficou famoso o caso do roubo de quase 200 motos de um depósito do Detro, em Bonsucesso, na virada de 2014 para 2015. A polícia suspeitava que Playboy tivesse comandado a ação, embora ele tenha negado envolvimento em entrevista posterior. Reportagem do Jornal Nacional informou que cerca de 30 homens armados participaram do roubo, e Agência Brasil registrou que a polícia atribuiu a ação ao traficante.

O criminoso mais procurado do Rio

Em 2015, Playboy já era tratado como um dos criminosos mais procurados do estado. O Disque-Denúncia oferecia R$ 50 mil por informações que levassem à sua captura, valor que havia sido aumentado de R$ 20 mil, segundo registros da época.

A recompensa não era apenas dinheiro. Era símbolo. O Estado dizia, em linguagem direta, que precisava tirá-lo de circulação. A pressão cresceu depois de sucessivas notícias envolvendo confrontos, roubos e a exibição pública de poder armado em comunidades. O cerco policial passou a envolver Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal e inteligência.

Pouco antes de morrer, Playboy chegou a conceder entrevista ao AfroReggae, na qual dizia pensar em se entregar à Justiça. Afirmava sentir falta de coisas simples, como praia e cinema, e negava algumas acusações atribuídas a ele. O discurso era quase melodramático: o homem cercado pedindo que a Justiça não colocasse em sua conta crimes que dizia não ter cometido. A questão é que a conta já era longa demais para caber em lamento tardio.

A morte na Pedreira e as versões em disputa

No dia 8 de agosto de 2015, Celso Pinheiro Pimenta foi morto durante operação policial no Morro da Pedreira. A Agência Brasil registrou que ele era o traficante mais procurado do Rio de Janeiro e morreu após ação de policiais na comunidade. Ele chegou a ser levado ao Hospital Geral de Bonsucesso, mas não resistiu.

Roberta - Monitorado há um ano pela Polícia Federal, o traficante Celso  Pinheiro Pimenta, o Playboy, 33 anos, morreu após ser baleado durante  confronto com agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core)

A versão oficial sustentou que houve confronto e que Playboy reagiu armado. Reportagens da época também informaram que armas foram apreendidas no local. Já nas comunidades, circularam versões diferentes, segundo as quais ele teria sido localizado por denúncia e morto após se render. Como costuma acontecer nesses casos, a verdade virou disputa de narrativa entre boletim oficial, rádio de polícia, fala de morador e memória de facção.

O enterro reuniu centenas de pessoas e teve tumulto com jornalistas, segundo o relato do vídeo. A cena final mostrou o paradoxo que marcou sua trajetória: para uns, bandido perigoso; para outros, figura quase lendária. No meio disso tudo, uma cidade cansada de confundir medo com respeito.

Conclusão

Playboy da Pedreira não foi produto simples da pobreza, nem vítima inocente de um sistema cruel, embora o sistema também tenha suas culpas. Ele foi, sobretudo, alguém que teve caminhos possíveis e escolheu o mais destrutivo. Passou pela escola particular, pela Aeronáutica, pelas quadrilhas de assalto, pelo tráfico, pela disputa de morros e terminou morto em uma operação policial aos 33 anos.

Sua história não merece romantização. Merece leitura fria. O “playboy” que virou terror das favelas mostra que o crime organizado não se alimenta apenas de abandono social. Alimenta-se também de vaidade, ambição, poder, espetáculo e da velha ilusão de que o medo pode substituir autoridade.

No fim, não houve glamour. Houve cemitério, sirene, viatura, mãe enlutada, filhos sem pai e comunidades mais uma vez transformadas em palco de guerra. A lenda ficou para os áudios. A realidade, como sempre, sobrou para quem vive no território.