O Palácio Guanabara virou sinônimo de instabilidade
O Rio de Janeiro, que já foi vitrine política, cultural e econômica do Brasil, passou a carregar outro título menos turístico e bem mais constrangedor: o de estado onde governar parece ser apenas o primeiro ato antes da queda. Nos últimos 30 anos, todos os governadores eleitos do Rio acabaram presos, cassados, afastados por impeachment ou declarados inelegíveis. O Palácio Guanabara, sede do Executivo fluminense, virou uma espécie de sala de espera para escândalos, operações policiais, julgamentos eleitorais e manchetes de colapso institucional.
O caso mais recente é o de Cláudio Castro, do PL. Ele renunciou ao cargo em 23 de março de 2026 para disputar uma vaga ao Senado. No dia seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral declarou sua inelegibilidade por oito anos, em processo relacionado ao uso da Fundação Ceperj e da Uerj em contratações e programas sociais durante o período eleitoral. Segundo a acusação, houve abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e uso da máquina pública para favorecer candidaturas.

De Cabral a Witzel, a lista é longa demais para parecer acaso
Antes de Castro, o Rio já havia assistido a uma sequência que nenhum estado deveria normalizar. Wilson Witzel, eleito em 2018, tornou-se o primeiro governador fluminense desde a redemocratização a sofrer impeachment. Foi afastado e perdeu o mandato após acusações de irregularidades na gestão de recursos da saúde durante a pandemia. A promessa de “nova política” durou pouco. No Rio, até a novidade envelhece rápido quando encosta no poder.
Luiz Fernando Pezão, do MDB, foi preso enquanto ainda governava o estado. Seu antecessor, Sérgio Cabral, também do MDB, virou um dos símbolos nacionais da Lava Jato, acumulando prisões e condenações que escancararam a relação entre empreiteiras, contratos públicos e corrupção sistêmica. Antes deles, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho também foram presos em operações da Polícia Federal. Moreira Franco, outro ex-governador, igualmente chegou a ser preso em investigação ligada à Lava Jato.
O resultado é devastador: a alternância de partidos não impediu a repetição do roteiro. MDB, PSC, PL, PDT, PSB — a sigla muda, o drama continua. O problema, ao que parece, não mora apenas em um partido, mas em uma engrenagem política fluminense que aprendeu a sobreviver entre alianças frágeis, máquinas eleitorais inchadas e uma relação perigosa entre poder, dinheiro e influência.

A sucessão virou novela institucional
A saída de Cláudio Castro abriu outro capítulo de confusão. Como o vice-governador Thiago Pampolha havia renunciado em 2025 para assumir vaga no Tribunal de Contas do Estado, a linha sucessória passou para o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Só que Bacellar também foi cassado e declarado inelegível pelo TSE, no mesmo processo que atingiu Castro. O STF manteve os efeitos da decisão em abril.
Bacellar ainda enfrentava outro problema: estava preso e afastado da presidência da Alerj por suspeita de vazamento de informações sigilosas relacionadas a investigação envolvendo o ex-deputado TH Joias, acusado de intermediar compra e venda de armas para o Comando Vermelho. Com isso, quem assumiu interinamente o governo foi Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
A Associated Press descreveu a situação como um prolongamento do caos político no estado, destacando que o Rio ficou sem governador eleito em exercício após a renúncia de Castro e a indisponibilidade dos sucessores naturais. Segundo a agência, decisões sobre segurança pública, mobilidade urbana e até preços de combustíveis passaram a se acumular enquanto um chefe do Judiciário administra o Executivo de forma interina.
A Alerj também afunda no mesmo pântano
A crise não para no Executivo. A Assembleia Legislativa do Rio também tem seu próprio histórico de constrangimentos. Em pouco mais de duas décadas, quatro deputados que presidiram a Alerj foram presos. Dois estavam no cargo quando caíram: Jorge Picciani, acusado de receber propina para favorecer empresas de transporte, e Rodrigo Bacellar, investigado no caso de vazamento de informações. Também foram presos os ex-presidentes Paulo Melo e Sérgio Cabral.
É quase uma pedagogia do desastre. O estado elege governador, governador cai. Elege presidente da Assembleia, presidente cai. Troca o grupo, troca a fotografia oficial, troca o slogan de campanha. A estrutura, porém, continua a mesma: um poder público frequentemente capturado por interesses privados, grupos econômicos, máquinas eleitorais e, em alguns casos, suspeitas de proximidade com organizações criminosas.
Ricardo Couto tenta limpar a casa
No cargo interino há pouco mais de dois meses, Ricardo Couto iniciou uma reforma administrativa. Substituiu políticos por técnicos, demitiu presidentes de autarquias, exonerou mais de mil cargos comissionados e determinou revisão de contratos e secretarias. A medida tenta sinalizar ruptura com o passado recente, mas também levanta dúvidas sobre continuidade de políticas públicas e governabilidade.
Afinal, o Rio não precisa apenas de faxina. Precisa de reconstrução. Cortar cargos pode ser necessário, mas não substitui planejamento, segurança, arrecadação, controle de contratos, transparência e comando político legítimo. Um governo interino pode apagar incêndios, mas dificilmente consegue redesenhar um estado inteiro se não souber quanto tempo ficará sentado na cadeira.
O eleitor diante do espelho
O drama fluminense escancara uma verdade incômoda: a crise não é apenas dos políticos. É também do sistema que os produz, dos partidos que os abrigam, dos financiadores que os impulsionam e dos eleitores que, muitas vezes, votam sem acompanhar o histórico de quem colocam no poder.
O professor Gustavo Sampaio, da UFF, resumiu o ponto central: é fundamental que o eleitor tenha consciência ao escolher tanto o Executivo quanto o Legislativo. A frase parece óbvia, mas no Rio virou urgência democrática. Se o estado está “à beira do abismo ou já dentro dele”, como ele afirmou, sair dessa crise exige mais do que trocar nomes na urna. Exige romper com uma cultura política que transformou mandato em risco calculado e escândalo em rotina.
O Rio de Janeiro ainda tem força econômica, relevância nacional, capital humano e peso cultural para se reerguer. Mas nenhum estado se sustenta quando seus governadores caem em série e suas instituições vivem em modo emergência. O Palácio Guanabara precisa deixar de ser cenário de queda. Caso contrário, a próxima eleição será apenas a abertura de mais uma temporada da mesma tragédia.