Mirelle estava nos atormentando… eu precisava proteger minha família e meu cargo.
A frase, dita em um momento de pressão no interrogatório, desmascarou o que muitos em Mogi das Cruzes se recusavam a acreditar. O homem que subiu ao púlpito para orar pela alma de Mirelle Peixoto Souza, de apenas 22 anos, não era apenas o seu ex-sogro e um respeitado doutor em teologia. O Pastor Adir Neto Teodoro era, na verdade, o arquiteto de uma emboscada sangrenta. Enquanto as lágrimas dos fiéis caíam durante a cerimônia fúnebre em 16 de janeiro de 2019, o assassino estava ali, pregando sobre o reino dos céus, enquanto escondia o segredo de uma execução com três tiros na nuca.

O caso que paralisou a Assembleia de Deus não é apenas um crime de homicídio; é uma narrativa de chantagens, supostas relações extraconjugais e o desespero de um homem que usou a religião como escudo para esconder uma vida dupla. Como um líder religioso com 30 anos de ministério se tornou cúmplice de um matador de aluguel?
A Fachada da Família Cristã e o Início da Ruptura
Adir Neto Teodoro não era um pastor qualquer. Com doutorado em filosofia e mestrado em teologia, ele era visto como um exemplo de conduta. No entanto, a chegada de Mirelle à sua casa, após se casar com o filho do pastor, João, deu início a uma dinâmica familiar complexa. O que deveria ser um convívio sagrado logo se tornou um campo de batalha de suspeitas.
Fontes próximas indicam que a proximidade entre Adir e Mirelle ultrapassava os limites do comum entre sogro e nora. Discussões entre a esposa do pastor e a jovem tornaram-se frequentes, culminando na separação informal de Mirelle e João em 2018. Com um bebê de apenas dois meses nos braços, Mirelle voltou para a casa da mãe, Celidalva, mas levou consigo segredos que Adir preferia que estivessem enterrados.
A Reunião Fatal: Cinco Dias para o Desmascaramento
Mirelle não estava disposta a sair de cena silenciosamente. Ela alegava possuir provas de relações extraconjugais do pastor com outras mulheres da congregação. Mais do que isso, ela havia marcado uma reunião com a cúpula da igreja para o dia 20 de janeiro de 2019. O objetivo era claro: entregar as evidências e derrubar o “homem de Deus” do seu cargo de influência.
Para Adir, a perda do cargo não significava apenas desonra espiritual, mas a falência financeira. O ministério era o único sustento de sua família. O tempo estava correndo. Cinco dias antes da reunião fatídica, o pastor decidiu que a voz de Mirelle precisava ser calada.
A Emboscada: O Plano Perfeito que Falhou nos Detalhes
No dia 15 de janeiro, Adir atraiu Mirelle com uma promessa: ele a ajudaria a montar uma academia e daria um emprego para que ela pudesse sustentar a neta dele. Mirelle, acreditando na trégua, mentiu para a mãe sobre uma suposta “entrevista de emprego no Tatuapé”.
O que ela não sabia era que Adir havia alugado um carro — apesar de ter dois próprios — e contratado Abraão Rodrigues Silva, um assassino com passagens por tráfico e roubo, que também frequentava a igreja. Após um encontro aparentemente normal em um restaurante, onde Mirelle, desconfiada, enviou a foto de uma comanda para a mãe, o pastor a levou para uma zona deserta em Mogi das Cruzes.
Lá, Abraão já aguardava “de tocaia”. Quando Mirelle saiu do carro, foi atingida por um tiro à queima-roupa na nuca. Já no chão, recebeu mais dois disparos para garantir que não houvesse sobrevivência. O corpo foi arrastado para a mata e abandonado como se fosse um animal ferido.
O Teatro no Velório e a Queda do Máscara
O nível de frieza de Adir atingiu o ápice no dia seguinte. Ele não só compareceu ao velório como presidiu a cerimônia. Nas filmagens de TV, é possível ver Celidalva, a mãe de Mirelle, observando-o com um olhar de gelo. Ela já sabia. A polícia havia mostrado as imagens do restaurante e do posto de gasolina: Adir era o último homem a ser visto com sua filha.
Ao ser preso, 39 dias após o crime, a preocupação de Adir não foi o arrependimento, mas o privilégio. Ele questionou se, por ser pastor, teria direito a uma cela especial. Mesmo na prisão de Tremembé, condenado a 17 anos, ele continua a ministrar cultos, agindo como se o sangue em suas mãos não tivesse anulado sua autoridade espiritual. Abraão, o executor, desapareceu do mapa, deixando Adir como o único rosto de um crime que provou que, por trás de grandes títulos religiosos, podem se esconder os instintos mais obscuros da humanidade.